a larva lavra
a terra sem pá
faz furo enorme
no escuro
dá duro
como quem dorme
(b)erra como quem verme
de dor profundo
da toca
dor minhoca
~
a larva lavra
a terra sem pá
faz furo enorme
no escuro
dá duro
como quem dorme
(b)erra como quem verme
de dor profundo
da toca
dor minhoca
~
ó pressa insana
que nos funda:
a semana já começa
na segunda
.
fraca como aço
minha força é um fracasso
inoxidável
.
.
mês morto, mês posto:
a césar o que é de julho,
agosto pra tudo.
.
a arte é o tear do templo
é o canhão no escuro
é a flor no muro
do forte
a arte é o chão atento
ao tropeço do palhaço
é o vazio duro
do ocaso
é o preço de ocasião da sorte
é o traço de ouro puro
no ar raro efeito
do acaso o tempo
é o recomeço
é o eco de um assovio
que assopra o fole
que enche o oco
(o espaço sensÃvel ao toque
contÃguo à glote exÃgua;
essa área estranha e pouca entre
o calabouço sob o assoalho macio
da lÃngua
e o arco do teto alto do palato
mole do céu
da boca)
é o vão entre a morte e o soco
na entranha
na manhã mais fria
o orvalho amorna
um aroma que chora
um cheiro que molha
os lençóis toalhas
torrentes de amor
me afloram dos olhos
lágrimas de éter
gotas de memórias
néctar que entorna
na cama vazia
vapor que conforta
o ardor da navalha
que desfia
corta
.
fende em duas postas
a crueza em flor
de minha natureza
morta
a graça que deus dá seja
de graça
.
desgraça que adeus deu seja
desdita
.
em graça e desgraça
passa batida a bendita
vida dita
eu viva
.
esta exata
descarta
em dúvida
.
ah dádiva vÃvida
!
a vida é ávida
por dar adeus
aos seus
...
eu revido
desvio o rumo
vadia adio durmo
sozinha
e ardo ainda
.
acordo cada corda acesa incensa insana
inserena ao vento ao sereno ao relento
sereia selenita lulusanta
em serenata
.
eu neonata
diva rediviva
taça desmedida
ave cheia
de graça
...
mau tempo é isto:
corcovado sem corcova
céu sem cristo
a luz adere
à pele: se é cinza fora
a brasa mora
meu tempo dança:
um passo de intempérie
dois de abundância
.
.
O trigrama Li significa "aderir a algo", "ser condicionado", "depender de algo" e "claridade". Uma linha obscura liga-se a uma linha luminosa acima e a outra abaixo. Assim surge a imagem de um espaço vazio entre duas linhas fortes, o que as torna luminosas. Li é a filha do meio. O Criativo incorporou a linha central do Receptivo e desse modo se forma Li. Como imagem é o fogo. O fogo não tem uma forma definida, porém liga-se aos corpos que queimam, tornando-se luminoso. Assim como a água desce do céu, o fogo arde elevando-se da terra. Enquanto K'an significa a alma aprisionada no corpo, Li significa a natureza em seu esplendor.
Obscurecimento da Luz (hexagrama 36):
A luz mergulhou sob a terra: o OBSCURECIMENTO DA LUZ. Belo e claro no interior, gentil e dedicado no exterior, estando, por isso, exposto a grandes adversidades: assim era o Rei Wên. "Durante a adversidade é favorável manter-se perseverante": isso significa encobrir sua luz. Cercado por dificuldades entre aqueles que lhe são mais próximos e, entretanto, mantendo sua vontade fixa no que é correto: assim era o prÃncipe Chi.
a moça posa pro moço
qual nem lhe fizesse mossa
o assombro
do observador atento
sentado ali do outro lado
rabiscando em alvoroço
intenso
seu repasto um guardanapo
o lápis rasgando o lenço
mil traços por cada canto
da mesa
como quem desse de ombros
a moça finge que almoça
lenta acaricia a louça
inglesa
disfarça faz vista grossa
assopra a colher de sopa
no prato intacta a poça
espessa
brinca com a coxa de frango
de sobremesa morango
o tempo suspenso em pausa
pro almoço
penso que essa noite enquanto
o olhar do moço repousa
(pálpebras em movimento)
na penumbra do seu quarto
uma mariposa pousa
no esboço
ao ver-se ali num espanto
de asas o olhar se apossa
esvoaça e roça o pescoço
da moça
imagem: Auguste Renoir, HEAD OF A WOMAN or WOMAN WITH A ROSE
* Este poema me veio a partir de uma brincadeira com o Guga sobre as diferentes pronúncias da palavra poça, no Rio em São Paulo. Aqui, as duas formas são possÃveis, à escolha do freguês. Como você prefere, pôça ou póça?
o disco lunar
toca um silêncio arranhado
de cigarras
.
vivo suspensa
(sempre)
sem remédio
entre a surpresa
(sopro)
que me supre
e o supremo
(tédio)
que me pensa
.
.
.
"The Philosopher's Egg," 2004- 2005
Carved pencils, graphite on paper
mixed media construction
,
quase que um haicai
me cai ao acaso aqui:
caqui kamikaze
.
Alice at the Mad Hatter's tea party -- Illustration to the fifth chapter of Alice in Wonderland by John Tenniel.
Estive assistindo ao simpósio Travessias Poéticas: Brasil e Portugal e, em dado momento, tive a graça de ver-me sentada num café com duas das grandes poetas da nossa lÃngua, uma brasileira e outra portuguesa: Alice Ruiz e Ana Luisa Amaral.
Luxo total para o meu eu lÃrico! Um desses momentos inesperados e irrepetÃveis que a gente sabe que vai reter na memória para sempre. As duas poetérrimas e euzinha, as três nos conhecendo ali, naquele momento. Claro que eu escutando mais do que falando, né gente, que eu tenho um mÃnimo de senso, mas no final estávamos contando a vida, falando de filhos e tecendo considerações sobre o feminino. Esse tricô básico de mulheres, enriquecido pelos fios preciosos das duas que, generosas, compartilharam com esta aspirante a poeta pérolas de sua sabedoria.
Esse momento durou o tempo mágico de um café que se alongou num banco anexo, dando para o ar livre onde elas pudessem fumar, e eu, aspirar feliz seus sinais de fumaça.
Apresento aqui cada uma delas com um poema de que gosto especialmente, mas há bem mais a conhecer. Vale a pena embrenhar-se nas obras de ambas pelo tempo de muitos e muitos cafés.
sumiê de fios, de folhas, sem tinta e sem pincel, onde o espaço faz papel de papel, o fio faz o efeito da escrita, os livros, fios em branco, são lidos pelo avesso, de lado, de vulto, de soslaio, os fios das folhas em ritmo, ora gráfico, ora elétrico, escrevem rimas ricas, linhas em todas as direções devolvem, resolvem nosso emaranhado enquanto flutua a dura madeira, nua carne, árvore madura suspensa, susto que pensa, pressente, arrepio de pêlos que nascem, atravessam, passam, morrem no pálido da pele onde ainda persiste um nada que se move na força dos fios e revela sua leveza e eleva o peso do espaço com todas as palavras não ditas
.
De pé sobre o abismo
e não morri:
Canto gregoriano
muito limpo
não me chegou:
o fim
Catedral
sobre o risco,
sobre um azul tão grande
que afundar-me podia
Ao fundo do mais fundo
mergulhei
e não morri:
amei
.
![]()
a lua clara
bóia como abertura
no teto do mundo
.
.
P.S. - Fiz este poema há tempos, e não percebi que era um haicai. Lembrei dele qdo vi a foto acima. Re-publico agora, devidamente haicaizado. E por falar em lua, Salve Jorge!
Tempos atrás confessei aqui minhas experiências secretas com "O Segredo", no mal-acentuado texto "O que abunda atrai".
Hoje cometi o improviso abaixo num comentário ao post de uma flor amiga, que questionava o porquê d'O tal Segredo não funcionar exatamente como a gente intenciona...
o pulo do gato
d'O Segredo
é um simples fato:
o que se pensa
em segredo
fala mais alto
...
Bons pensamentos pra todos nós. Porque a gente pensa que sabe o que pensa mas, às vezes, descompensa. Paciência: respira... e repensa.
![]()
haicai-folha da caixa nóvoa em folha
Motivo de orgulho: tem poesia minha no Fórum Virtual de Literatura e Teatro da UFRJ.
O poema, inédito, se chama sui genesis. Não vou publicar aqui, porque eles pediram exclusividade. Vai lá ver, depois me conta o que achou!
Tive a ideia ao fim de uma noite virada, escrevendo, e lindamente amanhecida, passarinhos musicando e um casal de tucanos (sem conotação polÃtica, porrrrfavorrrrr) rasgando um céu desse azul que só as manhãs de outono sabem ter.
Olhei pela janela e vi o jardim coberto de folhas secas, na verdade um pouco úmidas do orvalho da madrugada, e achei que aquilo dava um caldo. Rescaldo de folha, sopa de verdura, de repente me lembro do verde... Nóvoa em Folha [momento aha heureca lampadinha plim]: um livro-caixa de haicais escritos em folhas!
Desci e catei todas as folhas que me pareceram escrevÃveis, na verdade tirando as rôtas e as esfarrapadas não sobraram muitas, mas deu pra encher a trouxa improvisada na barra da camisola.
E agora? Nunca escrevi em folha antes, não tinha idéia de como fazer, nem se ia dar certo, mas de algum modo as etapas me vieram ao caos da mente de modo claro e até organizado: primeiro, eu tinha que prensar e desidratar as folhas. Peguei na biblioteca todos os catágolos que encontrei, dentro dos quais pus as folhas, e mais uma torre quase da minha altura de livrões bem pesados, pra pôr em cima.
Enquanto a gravidade fazia seu trabalho, fui à papelaria e comprei duas caixas com tampa, verniz fosco, tinta spray dourada e mais umas coisinhas, e fui procurar uma caneta que escrevesse em folhas. Precisa ver a cara da vendedora, quando eu tiro da bolsa uma folhona amarelada de amendoeira, que catei na rua ali perto, e começo a experimentar todas as canetas da loja. Finalmente achei a caneta perfeita, branca (de gel, caso você queira escrever em folhas algum dia), e fui feliz da vida pra casa, fazer arteirice.
A essa altura, as folhas já estavam no ponto, e nem sei explicar como foi tudo perfeito. Numa olhada rápida nos arquivos aqui do blog, achei 17 haicais, um bom número, já que o haicai tem, ao todo, 17 sÃlabas. Além disso, foi relativamente fácil escrever nas folhas, embora seja necessário escrever devagar pra que a tinta tenha um bom fluxo, repassando a caneta 2 ou 3 vezes, pra ficar bem legÃvel. Até minha letra saiu boa (minha caligrafia tem humores, assim como meu cabelo, e nem todos apresentáveis) e, pra minha surpresa, errei bem pouco.
Cobri as folhas com verniz, pra fixar a escrita, e depois "plastifiquei" com cola cascorez, duas camadas, pra dar resistência. Pintei as caixas, que eram estampadas, com o spray dourado, pra uniformizar. Tive que deixar a tralheira secando enquanto ia tendo mais ideias.
Fui à Casa Pedro e comprei canela em pau, aniz estrelado, folhas de louro e noz moscada, pra representar os 4 elementos (respectivamente água, ar, fogo e terra). Separei uma parte pra decorar as tampas das caixas e o restante pra pôr dentro, ornando e perfumando as folhas: um magnÃco buquê de árvore.
No dia seguinte, ou no anterior, não sei bem (na verdade eu passei uma semana praticamente sem dormir, em surto manÃaco-criativo), fui ao Jardim Botânico catar mais folha, delÃcia de tarefa, mas levei um gentilÃssimo puxão de orelha de um funcionário, que me abordou meio constrangido pra dizer que, embora as folhas secas sejam varridas e vão pro lixo, é proibido catá-las. Expliquei que era um trabalho de arte, que era só daquela vez e tal, e que não ia pegar mais nenhuma (já estava com a sacolinha cheia), e ele então, mui atenciosamente, fez vista grossa e deixou passar.
Tratei as folhas e fiz uma nova leva dos 17 haicais, para a segunda caixa. Uma atividade bem terapêutica, escolher as folhas e tentar diagramar o haicai, e nem é difÃcil porque, curiosamente, a estrutura clássica do haicai tem uma frase menor acima, uma maior ao centro, e outra mais curta abaixo (5/7/5), o que cabe direitinho no formato da folha. Suponho até que os primeiros haicaÃstas, em sua bucólica contemplação, também escrevessem assim. Os haicais e as folhas parecem ter sido feitos um para o outro.
Foi lindo, mas ao fim da segunda "fornada" de folhas, com suas inúmeras etapas - que nem detalhei aqui pra não me cansar dobrado, mas até passar a ferro eu passei - decidi que se encerrava ali minha carreira de monja fólio-copista.
Depois, veio um momento complexo: forrar a caixa. Usei uma técnica de encadernação selvagem desenvolvida por mim mesma, com cartolina, fita, e acabamento interno em exclusivo e inventado na hora "rolotê de papel-de-seda" (porque não achei barbante), que consiste em papel de seda torcido e embebido em cola.
E aà fui decorar as tampas: simplesmente afogar os 4 temperos elementais em poças de cola, depois envernizar pra tirar o excesso de brilho, e salpicar tudo de canela em pó e noz-moscada ralada na hora. Fiz umas "folhas de rosto" com as informações, assinei e colei no fundo da tampa.
Quando ficou pronto, tive quase o mesmo assombro imodesto de quando meu filho nasceu: nossa, essa coisa incrÃvel saiu de mim?
Eu pensava em fazer uma série, pra vender, mas não tinha ideia do trabalho que ia dar. Gosto de fazer as coisas com prazer, e amei cada momento da confecção dessas duas caixas, mas não faria com prazer 20 ou 30. Até porque eu prometi praquele funcionário gentil e educado que não ia pegar mais nenhuma folhinha, lembra?, e o jardim aqui de casa não dá conta de uma produção industrial.
Então serão só 2 caixas mesmo, filhas gêmeas (não-idênticas) de mãe divorciada. Uma delas ficou pra mim (apeguei!) e a outra, não sei ainda se vendo ou se fico. Se for vender, sendo peça semi-única, não sei por quanto. Aceito sugestôes (e oferta$) nos comentários ou por email.
Tem fotos aqui, ó. Não ficaram grande coisa, fiz com a câmera do meu celular vagabundo, mas dá pra ter uma noção.
Feliz Páscoa a todos! E que o outono nos traga bons frutos.
~ ~ *** ~ ~
Nóvoa em Folha: a caixa >> FOTOS AQUI
psicóloga em surto procura
impaciente capaz de querer
com loucura
\
com quantos panos se rasga
um corpo nu?
de quanta meia-sola salta
um pé descalço?
o quanto uma cidade pena,
encampa um pássaro?
de quanto livro a estante sabe
o instante livre?
quanta largueza pensa que (a)cabe
por um triz?
quanta saúde, um plano
pra morrer feliz?
abro
a boca da cobra braba
no braço
faço
a barba da cabra cega
no escuro
obro
em processo
cubro
asso cobre sobre
ouro rubro
incubo
oro
abracadabra
me acabo onde
recomeço
abraço meu próprio rabo
oroboro
ver: kundalini, oroboro, abracadabra, cabra, incubação, alquimia, rubedo
unamo-nos humanos
:
demo-nos mano a mano
amemo-nos sem mais
.
mesmo se somos menos
iguais a nós não temos
;
nossos sonhos somemos
.
em tempos pouco amenos
,
amai-nos uns
ao menos
...
amém
![]()
Imagem: Nossa Senhora de Guadalupe
não grites
não faças
ruÃdo
.
a fera
com ferro fere
cada berro
desferido
.
aos tristes
a vida prefere
quem com fé ri da
penúria
.
me entrego
ao jogo
me aferro e
fogo
!
é certo
que erro
porém não
duvido
:
confere a fúria e serás
aferido
.
*em 14/02/2010 teve inÃcio o ano tibetano de 2137 -
Ano do Tigre de Ferro.
E você, já se alistrou?
Imagem lá em cima: "Tigre-de-madeira", obra original e foto por Guga Alayon
Imagem cá embaixo: "Tigre-de-Ferro", ilustração da Web 'desapropriada' por Rafael Reinehr
Pro meu amigo e compadre Fred Pinheiro
pras suas estrelas amadas Ivana e Julia
pro Vidigal, Rio, Brasil e o mundo inteiro:
Lá vai nosso iluminador com seu chapéu
Acender um morro de estrelas lá no céu!
...
0 ACENDEDOR DE LAMPIÕES (Jorge de Lima)
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
A medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: -
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita,
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões da rua!
...
... O prÃncipezinho não podia atinar para que pudessem servir, no céu, num
planeta sem casa e sem gente, um lampião e o acendedor de lampiões.
No entanto, disse consigo mesmo :
- Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, é menos absurdo que o
rei, que o vaidoso, que o homem de negócios, que o beberrão. Seu trabalho ao
menos tem um sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais
uma estrela, mais uma flor. Quando o apaga, porém, é estrela ou flor que
adormecem. É uma ocupação bonita. E é útil, porque é bonita.
[O Pequeno PrÃncipe - Antoine de Saint-Exupéry]
lá vem o bloco
o surdo a caixa a cuÃca
um abraço pra quem fica
é o meu sinal
: debandar
não bebo não sambo
não caio no ditirambo
bacanal sarto de banda
bundalelê
não vou lá
ô abre alas
que eu quero seguir meu caminho
tô no bloco do eu sozinho
com quem eu amo
e olhe lá
não curto a farra
pra quem se amarra aquele abraço
sai da frente eu sou da lÃrica
abre alas que eu quero
pensar
~;~
Outro poema meu (anti)carnavalesco aqui , pra provar que a indisposição foliã não é de hoje.
* The Tempest - W. Shakespeare
espantam-me os sonhos pois
sou eu ali e no entanto
em nada
me espanto
os enredos bisonhos
as pessoas que mudam
os animais feras
loucas mansões labirintos
de medos emoções
vagas o mar
escuro até o céu
quase sempre encoberto
onde nada é perto e nunca
se volta ao mesmo ponto
de vista e se algo ali
se revela
( )
ao menos não dói depois
mas também não sei mais
daquela que me foi
só sei que ao abrir os olhos
como sói quase todo dia
sinto que perco mundos por noite mas a luz
apaga quase todo o filme
vela
agora
ascendo
à pura essência
de patchouli
medito porém nem sempre
evito
o escândalo
recaio no escuro
abraso me
abano te
aceno
sinais
defumos
inspirais
acendo um
sândalo
e vem a chuva
benfazeja
,
cai no chão ferve
espuma
desce
pela calçada
feito cerveja
gelada
.
a maré dança
com a lua
ora mansa
ora avança
recua
ora cheia
ronda brava joga areia
no ventilador
lava a rua
afoga
ateia fogo
às teias
ao mofo
às ameias
do cafofo
a maré
aguardente
na veia
