chuvas deverão;
dias de sol deveras
também deveriam.
chuvas deverão;
dias de sol deveras
também deveriam.
Que a crise nos seja leve,
a guerra em Gaza, breve,
e a dor se converta em verve.
Que o amor seja onda intensa,
a conta bancária, imensa,
e o humor no fim sempre vença.
Que eu vá onde nunca estive,
que o trânsito esteja livre,
destino: savoir vivre!
.
um olho do meu pai é verde da cor exata do mar, que muda de chumbo a esmeralda conforme chova ou faça sol. o outro é da cor do céu azul com nuvens brancas.
foi meu pai que me ensinou a nadar no mar, depois da arrebentação, e eu não sei se aprendi. aprendi a segurar no pescoço dele quando vinha a onda porque, estando com ele, nada de mau podia me acontecer.
meu pai sempre vai me lembrar vento, vela, barco, caminhos do tigre, viagens ao léu. frutos do mar, dias de sol, chuva no convés e o meu pai no leme, o olhar longe no horizonte. ou tropeçando na âncora, se enrolando nos cabos, dando topada e praguejando. tenho muito a quem sair.
meu pai também me lembra uma enciclopédia, um almanaque do abacateirol, um compêndio de história, um caderno de estórias que agora estão molhados, se desfazendo e não vou mais poder folhear. causos de família à mesa, citações em latim, resposta pra tudo, pra quase tudo. no quase é que mora o perigo.
nesse momento em que escrevo ele está quase morto, foi o que disse o médico, o corpo não está mais respondendo. eu não sei o que é isso, parece quase tão definitivo quanto a morte, mas tem uma coisa que ainda persiste, a vida, o que quer que isto seja. mas ele não tem mais respostas.
meu pai sempre foi difícil, fácil de amar por ser tão único. o mais bonito, o mais inteligente, o mais meu pai de todos os homens do mundo. não por acaso, foi muito amado, para o bem e para o mal. o amor, no fim das contas, é sempre para o bem, e sei que meu pai será perdoado por todos os seus predicados e desvirtudes, amém.
.
update: meu pai morreu às 5:30h de hoje, 19 de dezembro de 2008.
o branco do olho pinta
na pálpebra um arco
íris
.
Outro dia uma amiga querida que escreve lindamente comentou que odeia quão, opinião compartilhada, ao que parece, pela maioria expressiva da blogosfera. Qual não foi minha vergonha, eu que adoro a moça e prezo muitíssimo sua opinião, mas devo confessar que sou de usar esse e outros tantos termos anacrônicos. Principalmente agora que, por razôes profissionais, sou obrigada a redigir com a riqueza vocabular de um surfista de 13 anos. Alimento secretamente o desejo de começar um conto assim:
Assis andava assaz assoberbado. Tão pouco tempo tinha para ir à botica, quão menos para dissipações tais como prosear com Dona Crisálida. Quiçá pudesse cortejá-la em tempo mais propício, no entretanto andava esbaforido e pouco propenso a proferir piropos e outras graciosidades com que a cumulava em dias de antanho. Preferiu outrossim manter-se alheio, em silêncio pétreo, o que muito contritou a outra cálida senhorinha Crisálida...
Isso foi só pra explicar, ao menos em parte, o estilo démodé (ou deveria dizer déblogué) que grassa neste sítio, muito bem ilustrado, aliás, pelo poema abaixo. E antes que os amigos se preocupem pelo tom dramático do mesmo, devo advertí-los de que se trata de um exercício de exagero poético, devo ter ouvido um fado furtivo por aí e quedei-me assim, profuuuunda.
Ai, meus sais.
é o mar em mim que não sei onde barco
nem bem quem sinto com essa maré tanta
onda me perco inda que leve a fundo
ao cabo tudo que a corda arrebenta
.
toda tormenta tem sua bonança
cada criança tem o seu instinto
singrar na unha o espesso oceano
por vir ao ar mesmo que um fio parco
.
enfuno em claravela o ar retinto
semeio tempestade colho in vento
desvendo o verbo que replanta o mundo
derrame de água-benta em terra santa
.
imagem: piers brown
Meu amigo Dado, que não é o Dou-na-bella mas de quem já falei aqui e ali, está lançando seu primeiro e aguardadíssimo livro de poemas.
A festa-de-autógrafos rola na terça, a partir das 19h, no Sérgio Porto, sede original do Cep 20.000, movimento poeticoperformúsico carioca que ele ajudou a fundar. Vai ter falação de poesia, música e interveção do Boato, a antológica banda-acontecimento que ele integrou nos anos 90, e que hoje em dia só se reintegra em ocasiões especiais como esta. Eu vou.
Quem quiser encomendar o livro pode mandar um email pra gentilezaarrobagmailpontocom, que ele dá um jeito de mandar, autografado, claro, só esqueci de perguntar quanto custa, quando souber atualizo aqui.
Aproveita e pede logo vários que o natal tá chegando, amigo oculto, poesia é sempre um bom presente e eu já gostei do olho, acredita que é dele? O poeta fala por si:
no dia em que eu publicar um livro
de que matéria serão suas páginas,
de carne?
para que o verso seja desenhado
pelo rastro do verme?
que arte, que artefato será usado
para confeccioná-lo,
o livro que eu um dia porventura
publicar?
letras de salitre em páginas de pedra,
fezes de gaivota nos rochedos do oceano,
pele do sexo bordada no pano,
página de esmeralda, letras em urânio
a superfície do texto traçada toda
no meu crânio, porrada por porrada,
ano por ano,
até brotar crescer florescer
gerar
gerânio.
Dado Amaral
ateorema inequação
e-nigma insanalógico
fórmula única insolúvel
amalgarismo vírgula dígitos infinitos
esquadratura do círculo
raiz incúbica de pi
se faz de conta
me explica tudo
expressa de modo preciso
quão desmedido
o que impermanece
incógnito
Bravos
Aplausos
Retumbam
Abraços
Cruzam
Kilômetros
Outra
Bandeira
Agora
Move a
América
America, we have come so far. We have seen so much. But there is so much more to do. So tonight, let us ask ourselves -
if our children should live to see the next century...what change will they see? What progress will we have made? This is our chance to answer that call. This is our moment. This is our time -
to put our people back to work and open doors of opportunity for our kids; to restore prosperity and promote the cause of peace; to reclaim the american dream and reaffirm that fundamental truth -
that out of many, we are one; that while we breathe, we hope, and where we are met with cynicism, and doubt, and those who tell us that we can't, we will respond with that timeless creed that sums up the spirit of a people:
Yes We Can.
(Barack Obama)
Junto-me ao júbilo e às lágrimas dos amigos que estão lá, testemunhas dessa promessa luminosa em meio à espessa treva do horizonte.
Aos amigos preocupados com a saúde do meu pai, venho informar que, no dia de São Judas Tadeu, ele voltou à vida, como que por encanto. Ainda que milagre não tenha explicação, este teve: demissão da equipe médica e conseqüente redução dos remédios. Ou seja, a pessoa estava envenenada.
Devidamente desintoxicado, o mudo falou, o paralítico andou e o enfermo, enfim, ressuscitou, contrariando todos os prognósticos. A família respira aliviada e meu pai, mais ainda, livre da sonda nasogástrica, entre outras torturas.
Com a doença, a gente vai se entendendo. Dos maus médicos, só o santo nos salva.
Valei-nos, São Judas!
E agradecida pela graça alcançada.
Ontem a mulher de branco passou por mim na rua e sorriu. A mulher de branco é uma lenda viva de Ipanema. E pelo menos até ontem estava mesmo viva, que eu vi.
A mulher de branco não estava de branco, vestia uma cor indefinível, vai ver foi branca um dia. Ontem estava mais pra cor-de-burro-quando-foge.
A mulher de branco usa uma pinta verde no terceiro olho, mas enxerga bem e não rasga dinheiro. Outro dia um amigo meu, vizinho da mulher de branco, ouviu uma discussão dela com a empregada, a respeito de uma grana preta que sumiu. Sou louca mas não sou burra, gritava ela, verde de raiva.
A mulher de branco veste burro-quando-foge, mas de burra não tem nada. Tampouco parecia estar fugindo, andava calmamente e, ao passar por mim, sorriu. Não foi um riso amarelo, era um sorriso outrora branco de quem já foi linda, é o que dizem. Namorou muito tempo com alguém famoso, quem era mesmo? A mulher de branco ainda é famosa nas areias outrora brancas de Ipanema.
Eu não sou famosa e nem louca, ou assim quero crer. Só não sei por que ela sorriu pra mim um sorriso não-branco tão cúmplice.
a última voz que anima um corpo insano é a dor
paixão terminal da carne
antes do sono a esperança
é a penúltima que morre
.
Pau no sistema
[ pAusa para o poema ]
Inverno, pena.
Isso eu escrevi há 2 meses, quando soube que meu pai estava doente. Na época não quis publicar, ficou no rascunho. Agora vai, sei lá porquê. Antes que ele vá.
Que Deus o (man)tenha, uma coisa ou outra, o que for melhor.
Update (9/10): O googa coloriu a foto. Deixei a antiga aqui embaixo, pra vocês verem como um photoshp básico pode dar um up, mesmo em quem já é bonito por natureza. Agora sim o sol apareceu!
![]()
Essa é a vista da minha janela, no trabalho novo. A foto não está boa, fotografia não é meu forte, dá pra ver o Cristo?
Em todo caso, deve dar pra notar que o Rio de Janeiro continua sendo, mesmo com esse tempinho louco que faz o vento uivar pelas frestas e forma ondas na superfície da Lagoa.
Fico devendo a foto de um dia de sol.

Quadro de Lucas Penacchi
Amigos do coração,
eu venho por meio desta
convidá-los pr'uma festa:
um sarau de São João.
A festança é no arraial
O endereço é virtual
mas o ambiente é bom.
Não tem ladrão nem quadrilha,
só poetas de família.
Não tem fogueira ou balão,
só a luz da inspiração.
Não tem quentão nem cachaça
mas, para espantar o frio,
tem repente, desafio
e rimas cheias de graça.
Se você tem um minuto,
passe aqui pra ver se gosta.
Diga um verso, que eu escuto
e versejo uma resposta.
Se achar que foi divertido,
comovida, eu lhe convido
a retornar para o bis.
Um beijo e até logo, Chris.
.

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