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a formiga só trabalha

porque não sabe contar

 

a cigarra canta à toa

pra ser despedida

 

arrebenta o peito  e na saída ainda

tira sarro

:-0~

fumega um cigarro

 

 

 

fogo se alastra

no lençol, ventilador

vira girassol

 

#

 

 

 

na praia agora tem wi-fi

o garoto nerd vai

pra praia pegar tatuíter

 

 

 

fotoantítese

 

~

 

a folhas tantas

a noite oxigena o ar

que inspira as plantas

 

~~

 

 

..

enfim sóis

em finde a dois

enfronhados em lençóis

em fina chuva bem embalados

enfuna folha aflora o verde sorte nossa

inflama entorna empoça o futon sem pressa

a fim de tudo agora e sempre aqui afinal

enfiados em nós sem fim das pontas

ao final de tarde inícios muitos

infinitivos feriados juntos

e finalmente ao vivo

em finados

..

 

 

 

 

 

água na boca

garoa pinga

gotas da sua sede

na minha língua

horas deverão

 

ando confuso horário

:

meu relógio de sol

vira a noite

ao contrário

 

*

 

 *coinciddenticum

 

 

jóia

 

 

de hoje em diante

cada dia há de valer

um dia amante

 

<>

 

 

twema #8

 

 

hai-cai balão

:

e afinal o balloonboy

tinha os pés no chão

. . 

 

 

imagenta

 

pinta um solzinho

tiro o cavalete da chuva

colorizo meu p/b

 

minha paleta muda

da água-tinta pro vinho

rosé

 

 

traje de chuva:

 roupa de cama me cai

como uma luva

quiromance

 

a

 

l

i

n

h

a

 

d

a

 

 v

i

d

a

 

a

l

i

n

h

a

v

minha contramão

à palma da sua

:

c

a

m

i

n

h

o

 

d

o

 

c

o

r

a

ç

ã

o

 

q

u

e

 

a

l

i

n

h

a

meu monte de vênus

ao seu dedo

da lua

.

 

 

ondina

 

o vento há de trazer quem me procura

e nem preciso soar a sereia

pois bem sei que o amor tem seus sonares

 

meus olhos d’água vão ondular os mares

até encontrar a pérola obscura

pra iluminar meu castelo de areia

 

 

 

era uma vez

preciso

dormir

cem anos

pra esquecer

um sonho

pra aquecer

as perdas

pra rasgar

os panos

pra embalar

o sono da

princesa-ninfa

lagarta morta

de tristeza

e dor

no

escuro

oco casulo

crisálida crise

até que aos poucos

linhas tênues serpentinas

desenhem sementes de

fios meus cílios

despertem

de assalto

meus olhos

em asas

de seda

um toque

um vôo

a roçar

levemente

meus planos

mais altos 

.

.         .

.                 .

 

 

 

 

 

  
 ;
 

 

meu papel de seda molha
 
cada vez que você passa e não
 
me olha
 
;
 
lágrima deixa mancha
 
escura na minha folha fina
 
branca
 
;
 
desdobradura do acaso, nem eu sei me repetir
 
quando a dobra dos meus olhos
 
se desmancha
 
.
 

 

  
  
(Publicado no dia 11/09/07 , revisado hoje)
 
 
 

eloqüência

a sua ausência

fala por si

lêncio

.

aquarela

Abstract-Watercolor.jpg

 

 

o céu desbota

;

o azul veio choverde

 na minha horta

.

 

 

 

Ilustração Carolin Fennern

aproximavera

hexagram19-lin.jpg 

soleira brota

:

a prima-hera bate

à minha porta

 

.

 

“Quando há coisas a realizar, pode-se crescer. (…) Aproximação significa tornar-se grande.” 

(I Ching – O Livro das Mutações)

 

 

 

Noves dentro, o Sarau foi tudo! Noite especialíssima, falas inspiradas e clima delicioso. 

.

3 mosqueteiros do Boato esgrimiram por lá seus talentos: o olhar multi-facetado do meu irmão-amigo Dado, o Tao-te-incrusto do iluminado Justo e a verve-em-pêlo do impenteável Cabelo.
 
Belas-doces-fortes vozes femininas: palavras-casamata de Priscila Andrade e pipas-ao-vento de Paula Cajaty. Pra lembrar que a poesia é fêmea, Afrodite se quiser!
 

.

Falei pela primeira vez meu poemão João, em versão reduzida, porque fiz de memória. Ou quase, tive a ajudinha providencial de minha boa mãe, que ficou de “ponto” na primeira fila… ;o)

.

Surpresa da noite: meu amigo de longa data, Marcos Chrispim, acupunturista seriíssimo, saiu da gaveta, soltou o verbo e arrasou! Antes ele já tinha participado de um sarau virtual, aqui mesmo neste sítio.

A bonita Killiana, dos mil talentos diversos, se lembrou que era poeta e também floriu uns versos.

Quem vem mais?

.

Ao fim, tive o prazer de conhecer o Rui Galanternick, que nos brindou com borboletas e outros altos voos.

Agradeço a todos que foram. Opinião geral: o que é bom merece bis, tris ou mais. Aguardem notícias.

 

 

 Na Quarta, Nove do Nove

do ano Nove, às Nove

tem falatório poético

no cult-café Lunático!

 

Venha e traga uma poesia

de sua própria autoria

ou de quem você quiser

pra dizer a quem vier…

 

ou fique só escutando

as loucuras desse bando

de poetas-menestréis

enquanto come uns pastéis.

 

E veja que maravilha:

É grátis! Traga a família.

Esperamos por vocês:

Viscon’de Carandaí, 6.

 

.

 

Apresentação: Christiana Nóvoa

Poetas Convidados: Cabelo, Dado Amaral, Juca Filho, Justo Dávila, Paula Cajaty, Priscila Andrade  e quem mais aparecer.

 

Dia 09/09/09,  das 9 às 11 da noite.

ENTRADA FRANCA

Local: Lunático Café e CulturaRua Visconde de Carandaí, nº 6 – Jardim Botânico/RJ

 

[clique aqui pra mais informações]

 

 

 

helênica

 

:

entre tenentes ateus

e dementes a deus

eu sou

maiZeus

.

 

 

 

 

 

  • “Conhece-te a twit mesmo”, diria @Sócrates a seus seguidores.
  • #novoa_filosofia

        

     

  • “Ninguém se banha duas vezes no mesmo twitter”, diria @Heráclito.

  • #novoa_filosofia

        

     

  • “Fo-llow porque quí-llow”, diria @Jânio_Quadros.
  • #novoa_politica

        

     

  • “Saio da vida para entrar nos #trending_topics“, diria @Getúlio_Vargas.

  • #novoa_politica 

        

     

  •  

  •  
  •  
  •  

     

    Meu Twitter: @chrisnovoa 

     

    madrugal

     

    *

    a estrela-dama

     ve’nua

    sem nuvem sem véu

    sem luva

    convidando o sol

    pra sua

    cama de deusa

    carrossel

    *

    dossel da boca

    palato

    teto estrelado

    da vulva

    *

    luz da beleza

    ascende

    faça sol ou raie

    a chuva

    ,

    sobe a estrela dalva

    e anuncia

    que só o amor salva

    o dia

     

    *

     

    botticelli-venus.jpg* Astrologia ensina: “Quando Vênus se eleva, o Sol não tarda.” Alvorada!

     

     

    *

     

    Imagem: O nascimento de VênusSandro Botticelli 

     

    *

     

     

    *

     

    Eu tenho essa musiquinha na cabeça há um bom tempo: panãpanã~panãpanã~panãpanãpanãpanãpanã.

    (Pra quem não está ligando o nome à pessoa: panãpanã – ou panápaná, há controvérsia – é o coletivo de borboleta.)

    É uma musiquinha muito simples, como todas as musiquinhas que ficam voejando na cabeça. Mas devo admitir que não sei escrever as notas, então preciso que você componha a melodia. 

    Compasso binário; andamento allegro molto. Andiamo: 

     

    borbos.jpg

     

    uma borboleta só

    não faz manhã

    borboletas juntas são

    panãpanã

    ~~

    panãpanã panãpanã

    panãpanãpanãpanãpanã

    ~~ ~ ~~

    panãpanã panãpanã

    panãpanãpanãpanãpanã

     

    panapana.jpg

     

    fotos guga alayon

     

     

     

    amanhessência

     

     

    a manha é ser luz

    sol que move a si mesmo

    se a manhã chove

    ,

     

     

     

    vagalume

     

     

    a noite tece

    teia de orvalho em vaga

    l’umidescência

     

     

    ò

    graça

    que não se esgota

    ,

    mistério

    que não se explica

    :

    quanto mais sério

    fica

    ,

    mais a gente

    goza

    !

     

     

     

     

     

    contemplêiade


    olho.jpg
     meu olho cego lê camões

    com as mãos 

    ;

    o olho que molha o mar

    fi-lo sophia

     ;

    meu olhar de florbela

    espanca

    ;

    por me olhar por outra

    pessoa

    ;

    o poema que me olha nos olhos

    lê minski 

    .

     

    (As partes sublinhadas são links para alguns poemas que vivem conversando aqui, em meu íntimo solar. Clique e veja/ouça aí no seu.)

     

     foto: eu por mim mesma

     

     

    twema #6

     

    .

    a mulher do ferreiro pensa

    que o espeto de pau compensa

    a falta do vil metal

    .

     

     

     

    um olho do meu pai é verde da cor exata do mar, que muda de chumbo a esmeralda conforme chova ou faça sol. o outro é da cor do céu azul com nuvens brancas.

    foi meu pai que me ensinou a nadar no mar, depois da arrebentação, e eu não sei se aprendi. aprendi a segurar no pescoço dele quando vinha a onda porque, estando em seus braços, nada de mau podia me acontecer.

    meu pai sempre vai me lembrar vento, vela, barco, caminhos do tigre, viagens ao léu. frutos do mar, dias de sol, chuva no convés e meu pai ao leme, o olhar longe no horizonte. ou tropeçando na âncora, se enrolando nos cabos, dando topada e praguejando. tenho muito a quem sair.

    meu pai também me lembra uma enciclopédia, um almanaque do abacateirol, um compêndio de história, um caderno de estórias que agora estão molhados, se desfazendo e não vou mais poder folhear. causos de família à mesa, citações em latim, resposta pra tudo, pra quase tudo. no quase é que mora o perigo.

    nesse momento em que escrevo ele está quase morto, foi o que disse o médico, o corpo não está mais respondendo. eu não sei o que é isso, parece quase tão definitivo quanto a morte, mas tem uma coisa que ainda persiste, a vida, o que quer que isto seja. mas ele não tem mais respostas.

    meu pai sempre foi difícil, fácil de amar por ser tão único. o mais bonito, o mais inteligente, o mais meu pai de todos os homens do mundo. não por acaso, foi muito amado, para o bem e para o mal.

    o amor, no fim das contas, é sempre para o bem, e sei que meu pai será perdoado por todos os seus predicados e desvirtudes, amém.

    .

    update: meu pai morreu às 5:30h de hoje, 19 de dezembro de 2008.

    .

     

    O texto acima foi o último que escrevi pro meu pai. Este é o primeiro dia do pais que passo sem ele. Na época não tinha fotos dele, agora encontrei estas.

    Na ocasião também não lembrei de dizer que a expressão do título, “bonito como nome de barco”, foi tirada de uma peça de Nelson Rodrigues que adoro, A Dorotéia.

    Feliz Dia dos Pais a todos!

     

    .

    ouvido_final.jpg

    meu tímpano grita

    nesse urbano labirinto

    trompa

    !

    de eustáquio

    eu estou aqui ó

    :

    ouvindo um dizzy no rádio

    ;

    vivendo o dia-a-dióxido

    da cidade

    tóxica

     

    [essa tribo daqui

    brita paca

    bate estaca

    ataca

    martelo.bigorna.estribo]

     

    {eu cá toda cóclea

    concha búzia caramuja

    roca semifusa

    des-fio re-cordo longos estribilhos

    com meus caracóis}

     

    }dóem-me os ruídos

    mas ao caos

    sou toda ouvidos{

     

    a noite sampa

    e eu rio

    o que não cala

     ( )

    trago um silêncio

    escondido dentro 

    da mala

     

    .

     


     

     

    Filme Guga Alayon

     

     

    estribrilho

     

    querem meus olhos vermelhos

    catar nos cacos vitrilhos

    apolpar na palha o ópio

     

    .

     

    .

     

    .

     

     

    mandala vitral reluz

    no fim do túnel de espelhos

    do macrocaleidoscópio

     

     

     

     

     

     

     

    a manga verde

    cheira rosa promessa

    tiê tem pressa 

    já-queira goza

    deita sua seiva aflora

    cai quem se arvora

     

     

    sublimatio

     

    palavra sob a

    pálpebra

    arde

    ,

    verve ácida

    pinga

    ,

    lágrima

    ferve

    ,

    lava

    ,

    péla onde molha

    fere mesmo se trans

    lúcida

     

    (

    eu

    bruta

    estupida

    mente

    límpida

    ,

    filosofal

    pedra

    líquida

    )

    .

     

    Vista Chinesa


    vistachinesa 006.jpg

     

    pela lente

    do turista

    a china

    me avista

     

     vistachinesa-ch.jpg

    a vista

    uma fresta

    no véu

    da floresta
     

     vistachinesa 004.jpg 

     

    súbito

    me asfalta

    dúvida

    concreta

     

    rodaJPG.jpg

     

    subir

    or not to bi

    cicleta

    ?

     

     

    .

     

     

    Imagens de passeio a pé à Vista Chinesa, no Parque Nacional da Tijuca, num sábado nublado. Cerca de 2 horas de subida pela antiga, linda e semi-abandonada Estrada Dona Castorina, agora preferencial para ciclistas. 

    fotos: guga alayon   

     

    e( )lipse

     

    a sombr(a mor)deu

    a borda oca da )ua

    longe o so( zinho

    ) (

     

     

     

     

    São João benza este arraialboneco_palhaco_com_balaozinho.jpg

    que festeja em meio à crise

    ‘guenta que lá vem sarau

    – venha, verseje e avise –

     

    vamos cantar pra subir

    o balãozinho do humor 

    caipiras vamos carpir

    em versos a nossa dor

     

    vamos poetar pra quebrar

    pra construir ou só_pra

    lembrar que abunda hai-cai

     

    sem sono? tenta um soneto

    um verso branco (ou preto)

    agradeço, agora vai:

    .

    .

    .

     

    imagem: escultura em papel machê

     

     

     

     rosa.jpg

    vivo cigana

    roda na estrada

    carta na manga

    rota na mão

     

    a caravana

    passa e eu, ladra

    ganho uma prenda

    teu coração

     

    um dia amarro

    minha carroça

    planto uma roça

    no teu regaço

     

    por ora solto

    volto pra praia

    com um braço do teu mar

    debaixo da saia

     

     

    gira dos tempos

    gata gatuna

    rosa-dos-ventos

    roda-da-fortuna

     

     

     

     

     

     

    [ arquivo em audio >> rosa dos ventos ]

     

    .

    foto: guga alayon 

     

    O dia dos sem-namorado cai dos sonhos com um suspiro comprido. Sem beijo de bom dia nem nada de bom pra fazer na cama depois de acordar.

    Começa com jornal e coisas importantes acontecendo no mundo, um café preto e uma esperança quase afogada no fundinho da xícara: será que é hoje? Mas isso ninguém vê, nem a lágrima escapulida que a mão rápida dispersa. A cena seguinte já vem automática: olhar pra cima e respirar fundo, vestir o sorriso e ir à luta, que com cara de palhaça é que não se arruma ninguém mesmo.

    O dia dos sem-namorado se demora em papéis e desktops e liga a tv na hora do almoço, pra distrair da falta de companhia. Evita as vitrines e os out-doors, repletos de corações e sorrisos felizes de quem nasceu um-para-o-outro. Passa direto pelo cinema com sua fila de pombinhos e dispensa, constrangido, a promoção bem-me-quer da operadora de celular.

    O dia dos sem-namorado sai cedo e volta tarde, liga pros amigos, faz ginástica. Come fora, dá-se um livro – de pena, no fundo, é triste não ter a quem dar flores. O dia dos sem-namorado, se o quiser florido, compre as próprias, se o quer doce, encha a boca de bombons. Se romântico, abra um vinho e pegue um filminho piegas na locadora, daqueles que um namorado se recusaria a assistir. A maior vantagem de estar só é não ter que chegar a um consenso.

    O dia dos sem-namorado é um dia igual a outro qualquer, só que mais longo, pela simples razão de que deveria ser especial – como, aliás, todos os dias. Pela falta que faz alguém pra surpreender minhas cores. A noite cresce e eu vou ficando esmaecida.

    O dia dos sem-namorado termina como começou, num sonho, terra sem-fim da ilusão solitária.

    E vai cair num suspiro comprido lá do outro lado, no próximo dia. Um dia normal, ufa, onde eu não seja um estranho ser que anda partido e sobrevive por teimosia, feito rabo de lagartixa.

     

    .

    * O texto acima foi publicado originalmente no Epinion em 10/06/2004, depois republicado aqui , e até hoje é um dos mais visitados deste sítio.

    Então, aos desnamorados que venham, por venturas do google ou outras tantas buscas, a cair por aqui, deixo esta mensagem de fé: a vida muda e um encontro, quando menos se espera, acontece.

    Pois, vejam só, esta moça que vos escreve, outrora suspirante e solitária, hoje pode dizer com todas as letras que é arfantemente feliz no amor :) [comentado em 2009] 

    :twema #5:

     

    me achar agulha

    nesse espalheiro

    anda difícil

    .

    caiu na rede

    é pixel

    .

    mas_acre

    pazcelestial.jpg

     

    os tanques passam

    a praça emudece_leste

    mas cadê

    orra_paz?

     

     

     

     

    minha homenagem ao rapaz anônimo que, há 20 anos ,

    encarou a tirania de frente e fez parar o mundo

    pelo tempo de uma imagem.

     

     

     

     

    se quer amor te dádiva até a morte

    sem volta

    .

    ser o último sou a primeira a querer

    sem dúvida

    .

    se quer forte eu não fraquejo mesmo

    na falta

    .

    se quer onde eu sinto a sua presença

    em volta

    .

    se quer longe não está mais aqui

    quem faltou

     

     

     

     

    esfria aqueço

    sonhos longos esqueço

    a lua acesa

    (

     

     books_heem.jpg

    Li ontem no jornal (um meio condenado à extinção, mas que ainda preenche as manhãs de sábado de seres jurássicos como eu) uma discussão sobre o “Apelo de Heidelberg”, documento em que intelectuais europeus protestam contra a disponibilização digital dos conteúdos de livros e publicações científicas através de ferramentas como o Google Books.

    Olha, eu até podia entrar nesse bonde pra reivindicar meus direitos de escritora (ainda que e-nédita) mas confesso que acho o máximo o Google Books e as possibilidades de consulta instantânea e gratuita que ele oferece. Penso que isso é o mesmo que folhear um livro numa livraria, só que no conforto do lar, o que nunca foi proibido e nunca impediu ninguém de comprar o livro, pelo contrário, só aguça o desejo e precipita a decisão de compra. Ou não, na maioria das vezes a gente folheia e depois não compra porque não gostou tanto, normal. Tem gente até que lê o livro todo de pé na livraria, ou na tela do computador. Mas só se estiver duro demais pra comprar, ou se for um leitor compulsivo, mais faminto do que permitiria seu ganha-pão. E a esses não se pode negar o direito de saber, mesmo sem ter como pagar, não é mesmo? 

    Então fico pensando, cá com os botões do meu teclado: Ok, o mundo está se transformando depressa demais, exigindo adaptações dramáticas, mas dá pra impedir? Faz sentido se colocar do lado dos que querem garantir reservas de mercado impondo vetos, pondo freios nos trilhos da informação? Será que nós, escritores ou pretensos, que nos achamos criativos o suficiente pra merecer a leitura de outrem, não devíamos ter talento também pra inventar um modo de sobreviver nessa nova ordem?

    Não lametei nem um pouco a derrocada das mega-gravadoras, máfias superpoderosas que ditavam a trilha sonora das nossas vidas. Da mesma forma, não hei de derramar uma lágrima sequer pela agonia das grandes editoras nacionais, que têm isenção de impostos pra exercer uma função social que não cumprem – de fomentar a diversidade literária, descobrir novos talentos e contribuir para o fortalecimento da nossa cultura – e, em vez disso, se locupletam, reeditam ad nauseam obras em domínio público e, salvo raras e honrosas exceções, só investem em lançamentos de retorno garantido, como best-sellers estrangeiros ou autores de grande apelo midiático. Pouquíssimo inovam em formatos e conteúdos, e pagam aos autores uma porcentagem sobre o preço de venda que, em geral, não passa de um dígito (10% é pra autor consagrado!). Com zero de adiantamento, imagina.

    O Google oferece US$ 60 por obra escaneada, mais 63% do que conseguir em anúncios, e ainda apresenta atalhos para a compra da obra… não parece tão ruim. O tempo vai dizer se este será o acordo ideal, mas pelo menos não é tão leonino quanto os contratos editoriais de praxe. O investimento deles é muito menor que o de uma editora, sem dúvida, mas o alcance também pode ser muito maior. Acaba sendo uma vitrine mais democrática que as feiras de livros e livrarias, que quase sempre excluem autores independentes e pequenas editoras. Estes terão a chance inédita de atingir leitores que estariam bem além de seus meios físicos de divulgação e distribuição.     

    Claro que existem aspectos negativos: o autor perde o controle da difusão de sua obra, que pode ser reproduzida sem seu conhecimento, plagiada e até deturpada, mas a verdade é que nunca se esteve livre disso. Enfim, são muitas as implicações, e de certa forma imprevisiveis, dada nossa limitada perspectiva atual. Contudo, tendo a achar que os mercados acabam se regulamentando e que a proibição de qualquer forma de expressão é sempre o pior caminho. 

    Temos é que repensar nossas práticas a partir de agora, e aqui peço ajuda aos universitários, e principalmente aos independentes que lutam por um lugar ao sol, porque estou longe de ter uma resposta pra essa questão: como viver de literatura nos dias de hoje?

    Os músicos mais espertos estão disponibilizando suas músicas gratuitamente e capitalizando outros ganhos. Estão dando mais shows, por exemplo, pra compensar a queda na vendagem dos discos. Já os escritores ficam meio prejudicados nesse quesito espetáculo, vamos fazer o quê? Dar recital, palestra nas Flips da vida? Será que alguém vai querer pagar pra assistir?  Até pode ser, Elisa Lucinda que o diga. Duvido que ela esteja preocupada com o Google Books, que não tem um pingo da sua graça brejeira. Mas o que farão os escritores tímidos? E os fanhos, os feios, os tartamudos?

    Então talvez devêssemos investir mais no livro como objeto de desejo, não apenas um suporte de conteúdo. Em qualidade de papel e impressão, em criatividade editorial. Algumas gravadoras antenadas vêm fazendo isso pra garantir seus nichos, como a Biscoito Fino, que produz lindos encartes de seus cds, mini livrinhos (olha o apelo do livro aí, ó), perfeitos pra dar de presente ou, o que é melhor, regalar nosso próprio espírito.

    Ou sei lá, façamos blogues. Vendamos espaço pra anúncio, como alguns estão fazendo, e sendo injustamente criticados.  Eu não ponho porque acho feio. Esteticamente, não moralmente. Mas também nunca recebi uma proposta milionária (ainda!). Uma vez, pedi patrocínio a uma marca de cosméticos bonita, cheirosa e, até onde sei, politica e ambientalmente correta; achei que ia combinar com as folhinhas aqui do solar. Eles responderam gentilmente que sua política de apoio não inclui literatura, só música.

    Covardia, os músicos sempre chegam na frente! Nós com o pires na mão e eles com prato, zabumba e a orquestra toda. Mas tudo bem, qualquer hora a gente acha o tom. Até lá, deixo lavrada esta modesta opinião.

    É isso aí, minha gente, a literatura morreu, viva a literatura! Não seja um fim mas o início de uma era farta, de livros abertos num grande banquete. E boca livre pra todo mundo.

     

    Imagem:Still-Life of Books – Jan Davidsz. de HEEM (1628)
     .

    :twema #4:

    em verdade em verdade vos digo:

    eu não ligo ninguém atende

    nada do que a)brigo

    .nem meu um.

    bingo

    .

     

     

    da verdade que falo. nua

     

    crua como a carne do corte entre as minhas coxas

     

    e não me venha com meias

     

    .

    :twema #2:

     

    Não é haicai nem podia. É uma linha por dia. Uma lia tao vez.  A segunda via. A terceira tá vazia.

     

     

    :twema:

     

    [poema em uma linha pra twitter e outras pressas]

     

    pretenso poema de senso tal que saiba o que penso em peso denso qual caiba um lenço dentro do bolso do pouco tempo

     

     

    flor~de~luto


    Lotus_Eduardo_Pannain1.jpgMeus anjos tocam trombeta nos portos

    Meus mortos tocam banjo nas sarjetas

    Sinto pesar minha caneta, é fato

    Vazia feito os moinhos que enfrento

    Sou prato cheio pra crítica alheia

    Eu levo jeito é pra viver de vento

    Se hoje eu tiver que morrer, que morra

    Do lodo, de repente aflora um lótus

    .

    A fonte do meu fogo fátuo jorra

     

     

     

    Foto: Lótus – Eduardo Pannain 

     

     

    perdi minha identidade em algum ponto do caminho.

    .digital.jpg

    sei lá se na rua, no balcão da lanchonete, no banco do ônibus na volta pra casa.

    .

    quem sabe num rasgo da bolsa, num bolso furado ou, pior e até mais provável, no buraco negro do meu próprio caos.

    .

    se alguém me encontrar, não devolva. a foto era péssima. 

     

     

    das lágrimas

    .

    Eu choro muito.

    .

    Não que tenha motivo. Ou até tenho, quem não?  Mas desconfio que a hiperatividade das minhas glândulas lacrimais independa de bons, ou no caso maus, motivos. As pobrezinhas simplesmente são assim desabridas, derramadas.

    .

    Eu choro no cinema, até aí tudo bem. Mas também choro em novela, seriado enlatado, até em anúncio. Telejornal, então, é uma choradeira só.

    .

    A primeira vez que chorei, estava roxa, afogada no assombro de ter que nascer de véspera, prematura e incompleta.  Não lembro, claro, faz tempo.  Mas a crueza da vida ainda me azula.

    .

    De alegria ou frustração, saudade, raiva, vergonha… tem vexame pra todo gosto, não dá nem pra disfarçar: o nariz fica vermelho e o olho esguicha.

    .

    Meu pai dizia que eu chorava em jatos.  Ainda choro, ele que não fala mais.  Por essa falta, volta e meia me sobe aos olhos uma orfandade súbita, autopiedosa, que quase justifica o derrame, mas isso não é tudo. Sei de outros vazios fundos e mudos, inomináveis, como se as palavras, nem elas, fossem mais minhas amigas.

    .

    Como se só água dissesse o que fui, o que nem sei quem sou.

    .

    Como se meus olhos quisessem lavar a dor do mundo.

    .

    Como se eu fosse triste. Como se já tivesse nascido. 

    .

    Como se a chuva na praia pudesse regar o sol. 

    .

     

    .

     

     

    Salve Jorge!

    saojorge.jpg

    .

     

     

    meu santo é forte:

     

    a má sorte está pela

     

    hora da morte

     

     

    .

     

    mata.jpg

     

    a lua chia 

     

    mata em silêncio cheia

     

    de som e folha

     

     

     

    foto: mata atlântica – broto de samambaia gigante, por luizdemog. [fonte]

    milhazes_serpentina.jpg:

     

    sexta: a feira dá peixão

     

    ..

     

    sábado: o dia lê lua

     

    ..

     

    dormindo:  de paz, quase

     

    :

     

     

    Imagem: Serpentina, Beatriz Milhazes 

     
    lulizabeth.jpgEssa do Lula em Londres

    me fez sentir Tri-Big-Ben

    dona dos UN-DOs e Fundos

    cofre de folha-de-flandres

     

    uma verdadeira fêmea

    com FMI maiúsculos

    que dá até o que não tem

    até se estirarem os músculoslulabrown.jpg

     

    que dá, Doha a quem doer

    azeita, passa Mantega

    o importante é con-vencer

    e sair bem nessa foto

     

    com a Rainha-amiga-meiga

    e o Obama-grande-irmãolularkozy.jpg

    Chefe-orgulho-da-nação

    boa-fé nosso dê-voto

     

    mas admitam que é chique

    quase assim uma Michelle

    ser qu’empresta uma ajuda

    quando o barco vai a pique

     lulobama.jpg

    não que eu com isso me iluda

    porém de uma coisa eu sei

    senti o poder na pele 

    e nesse ponto . G2OZEI

     

     

     

    .

     

     

    equinócio

    .

    equino ócio

    repasto de min_erva

    logos cavalar 

    .

    equino cio

    ru_mino tauro tua

    cavalga_dura

    .

    À falta de fantasia nova para minha misantropia –  e na ausência de alguma súbita disposição foliã que me prenda a esta cidade maravilha purgatório da beleza e do caos – deixo uns versos de tempos atrás fazendo as honras da casa durante meu retiro momesco, onde somente o amor há de me lançar perfumes. 

     

    HarlequinandColombineDegas.jpgcarnaval : o aval da carne
    entrudo : o nome diz tudo
    momo é do balaco, baco
    tem álcool pra todo mundo

    abram alas, foliões
    que o meu fígado é mais fraco
    sou meio ruim da cabeça
    meio doente do pé

    vejam só, quebrei o salto
    e nem sei sambar direito
    não tenho piercing no umbigo
    nem silicone no peito

    de tudo que eu mais amava
    nos carnavais da infância
    dos bailes e das marchinhas
    de máscara e fantasia

    não ficou mais que a lembrança
    qual confete e serpentina
    obstruindo os bueiros
    na quarta-feira de cinzas 

    .

    as multidões se aglomeram
    como surtos se propagam
    e os lixeiros é que pagam
    a conta dessa folia

     

     

    Imagem: Degas – Arlequin et Colombine

    Cora Coraline

    coraline1.jpgPoesia pura, o filme Coraline, animação de Henry Selick sobre o livro de Neil Gaiman. A caprichadíssima cena inicial, da “reciclagem” da boneca pela aranha, já remete a uma série sem fim de analogias entre a costura, a narrativa – trama, enredo, novela etc – e a própria vida. A artrópode sinistra também me trouxe à mente as figuras mitológicas das três parcas, fiandeiras de destinos: uma fia, outra tece, outra corta.

    E uma (nem tão) nova história (re)começa.

    Coraline, cujo nome contém as letras de Alice, também segue um roedor, passa por uma portinha e adentra um mundo paralelo e maravilhoso, para só depois perceber que está num lugar estranho onde uma mulher poderosa e terrível quer lhe cortar a cabeça (no caso, os olhos).

    Mas não são todas as histórias um mesmo sonho reciclado?

    Nos dois apartamentos vizinhos ao de Coraline, no casarão, temos o domador de ratos e as duas irmãs atrizes (que me lembraram um continho delicioso de Cora Coralina, poeta-tecelã, o que me levou ao trocadalho do título). Os personagens, ora decadentes, ora espetaculosos, descortinam o encantamento dos universos do circo e do teatro, justamente os ancestrais do cinema nas artes e manhas da ilusão.

    No “outro mundo”, todos parecem melhores: mais jovens, perfeitos e encantadores. Só que têm botões no lugar dos olhos.

    Todos, menos o gato (de Cheshire?), o único que, como ela, tem olhos de verdade e é capaz de transitar entre os dois mundos. Sonhos lúcidos são para poucos, afinal quem consegue manter os olhos despertos diante da sedução das imagens criadas por nossos próprios desejos?

    Coraline é um pesadelo lindamente tecido em cada detalhe. Sensível, inteligente, triste e gracioso como toda criança solitária que, para escapar ao tédio, cria mundos e abismos em si mesma. 

     

     

     

     

    singing_rain.jpg

     

    hoje dilúvio

    segue-se o óbvio

    amanhã bonança

    .

    ouvido atento

    conforme o tempo

    é que se dança

     

    ..

     

    Quem me passou o meme foi o Samurai, querendo que eu conte seis coisas que (quase) ninguém sabe sobre mim. Depois vi em um blog amigo outra versão da brincadeira, com apenas cinco ítens.

    Vejamos a quantos chego. Agora, pensando assim, não lembro de nenhum segredo, dos reveláveis. Mas vamos lá, com boa vontade e algum desprendimento eu posso conseguir.

    .

    1) Sim, eu corrijo meus textos depois de postados. Quando vejo uma besteira, um erro de português ou uma ideia (sem acento, ugh) ruim, ou quando encontro uma solução melhor pra uma frase ou um verso, eu mudo na hora. Às vezes chego a refazer o texto todo, ou até deleto o malfadado post, mesmo sabendo que, a essa altura, o RSS já me denunciou. E mexo também nas minhas respostas aos comentários, sempre que acho que fui indelicada, ou simplesmente boba, ou quando desconfio que possa ser mal interpretada.

    .

    2) Morro de vergonha que leiam meus textos “em processo”. Não suporto alguém olhando pra tela do computador ou pro meu caderno, enquanto escrevo. Nem o namorado pode, nem meu filho, nem minha mãe. Passo mal só de pensar que o administrador do blog possa ler meus rascunhos (viu, Roney?). E quando eu morrer, vou dar um jeito de assombrar qualquer curioso que se atreva a profanar meus “inéditos”. Se eu não mostrei pra ninguém, é porque não gostei, ou então não está pronto. Aos editores: façam a gentileza de me publicar em vida, ou me esqueçam pra todo o sempre.

    .

    3) Sou capaz de dormir mais de 12 horas, tranquilamente. Pode-se dizer que sou muito boa de cama. Só não durmo tanto todos os dias porque a rotina trabalhista não permite, mas sinto falta. Acho mesmo que tenho escrito pouco ultimamente, não por falta de tempo útil, mas por falta de sono. Estou certa de que as idéias se arrumam durante os sonhos e, com o déficit onírico acumulado, fica tudo bagunçado, chacoalhando cá dentro, e as palavras não conseguem se encaixar.

    .

    4) Odeio sutiã e só uso por motivo de força maior (leia-se camiseta branca, ou “marcante”, ou transparente). Outro dia, pra minha glória, li em algum lugar que, contrariamente ao que dizem por aí, estudos comprovam que usar sutiã faz cair o peito.  Eu acredito e assino embaixo (ou melhor, em cima, que pra cima é que se olha!).

    .

    5) Embora não seja segredo, não cheguei a comentar por aqui que, em 28 de dezembro, eu fiz aniversário. E como nasci no fatídico ano de 68, isso significa que completei inacreditáveis… bom, não preciso dizer com todas as letras (no caso, todos os algarismos), vocês já fizeram a conta, né? Pois é, aconteceu comigo. Entrou nos enta, agora aguenta!

    .

    6) Tá bom de sinceridade por hoje? Parei.

    .

    Não sei se devo repassar o meme, tem gente que odeia. Vou deixar apenas como sugestão pro Guga, o Pinto, a Dalva, a Cynthia, a Pat, o já citado Roney e quem mais quiser. Ou não.

     

    .

     

    Não há teto e lustre que eu não prefira ver

     

    lua

     

    .

     

    Não há roupa linda que eu não quisesse estar

     

    nua

     

    .

     

    Não há outro olhar que eu não deseje ser 

     

    sua

     

    .

     

    tempo vai

    SandClock.jpg

     

    é fevereiro.

    o rio de janeiro

    já escorreu pro mar.

     

     

    thgisni

     

    adivinho pela transparência da folha um relance da próxima página no verso do papel

    palavra mágica entrelida inversa na contraluz azul fugaz de um fósf

     

     

     

    chuvas deverão

    dias de sol deveriam

    ,

    deveras

    .

     

     

     

     

     

     

    Que a crise nos seja leve,

    a guerra em Gaza, breve,

    e a dor se converta em verve.

     

    Que o amor seja onda intensa,

    a conta bancária, imensa,

    e o humor no fim sempre vença.

     

    Que eu vá onde nunca estive,

    que o trânsito esteja livre,

    destino: savoir vivre!

     

    .

     

     

     

    papai.jpgum olho do meu pai é verde da cor exata do mar, que muda de chumbo a esmeralda conforme chova ou faça sol. o outro é da cor do céu azul com nuvens brancas.

    foi meu pai que me ensinou a nadar no mar, depois da arrebentação, e eu não sei se aprendi. aprendi a segurar no pescoço dele quando vinha a onda porque, estando com ele, nada de mau podia me acontecer.

    meu pai sempre vai me lembrar vento, vela, barco, caminhos do tigre, viagens ao léu. frutos do mar, dias de sol, chuva no convés e o meu pai no leme, o olhar longe no horizonte. ou tropeçando na âncora, se enrolando nos cabos, dando topada e praguejando. tenho muito a quem sair.

    meu pai também me lembra uma enciclopédia, um almanaque do abacateirol, um compêndio de história, um caderno de estórias que agora estão molhados, se desfazendo e não vou mais poder folhear. causos de família à mesa, citações em latim, resposta pra tudo, pra quase tudo. no quase é que mora o perigo.

    nesse momento em que escrevo ele está quase morto, foi o que disse o médico, o corpo não está mais respondendo. eu não sei o que é isso, parece quase tão definitivo quanto a morte, mas tem uma coisa que ainda persiste, a vida, o que quer que isto seja. mas ele não tem mais respostas.

    meu pai sempre foi difícil, fácil de amar por ser tão único. o mais bonito, o mais inteligente, o mais meu pai de todos os homens do mundo. não por acaso, foi muito amado, para o bem e para o mal. o amor, no fim das contas, é sempre para o bem, e sei que meu pai será perdoado por todos os seus predicados e desvirtudes, amém.

    .

    update: meu pai morreu às 5:30h de hoje, 19 de dezembro de 2008.

     

    obra em branco

      

     

    o branco do olho pinta

     

    na pálpebra um arco

     

    íris

     

    .

     

     

     

     

     

     

     

    déblogué

    Outro dia uma amiga querida que escreve lindamente comentou que odeia quão, opinião compartilhada, ao que parece, pela maioria expressiva da blogosfera. Qual não foi minha vergonha, eu que adoro a moça e prezo muitíssimo sua opinião, mas devo confessar que sou de usar esse e outros tantos termos anacrônicos. Principalmente agora que, por razôes profissionais, sou obrigada a redigir com a riqueza vocabular de um surfista de 13 anos. Alimento secretamente o desejo de começar um conto assim:

    Assis andava assaz assoberbado. Tão pouco tempo tinha para ir à botica, quão menos para dissipações tais como prosear com Dona Crisálida. Quiçá pudesse cortejá-la em tempo mais propício, no entretanto andava esbaforido e pouco propenso a proferir piropos e outras graciosidades com que a cumulava em dias de antanho. Preferiu outrossim manter-se alheio, em silêncio pétreo, o que muito contritou a outra cálida senhorinha Crisálida…

     

    Isso foi só pra explicar, ao menos em parte, o estilo démodé (ou deveria dizer déblogué) que grassa neste sítio, muito bem ilustrado, aliás, pelo poema abaixo. E antes que os amigos se preocupem pelo tom dramático do mesmo, devo advertí-los de que se trata de um exercício de exagero poético, devo ter ouvido um fado furtivo por aí e quedei-me assim, profuuuunda.

    Ai, meus sais.

    água-tinta

    silg.jpg

    é o mar em mim que não sei onde barco

    nem bem quem sinto com essa maré tanta

    onda me perco inda que leve a fundo

    ao cabo tudo que a corda arrebenta

     

    .

     

    toda tormenta tem sua bonança

    cada criança tem o seu instinto

    singrar na unha o espesso oceano 

    por vir ao ar mesmo que um fio parco

     

     

    enfuno em claravela o ar retinto

    semeio tempestade colho in vento

    desvendo o verbo que replanta o mundo

    derrame de água-benta em terra santa   

     

     .

     

    imagem: piers brown

    Olho nu

    Thumbnail image for Thumbnail image for olhonu.JPGMeu amigo Dado, que não é o Dou-na-bella mas de quem já falei aqui e ali, está lançando seu primeiro e aguardadíssimo livro de poemas.

    A festa-de-autógrafos rola na terça, a partir das 19h, no Sérgio Porto, sede original do Cep 20.000, movimento poeticoperformúsico carioca que ele ajudou a fundar. Vai ter falação de poesia, música e interveção do Boato, a antológica banda-acontecimento que ele integrou nos anos 90, e que hoje em dia só se reintegra em ocasiões especiais como esta. Eu vou.

    Quem quiser encomendar o livro pode mandar um email pra gentilezaarrobagmailpontocom, que ele dá um jeito de mandar, autografado, claro, só esqueci de perguntar quanto custa, quando souber atualizo aqui. 

    Aproveita e pede logo vários que o natal tá chegando, amigo oculto, poesia é sempre um bom presente e eu já gostei do olho, acredita que é dele? O poeta fala por si: 

     
    no dia em que eu publicar um livro

    de que matéria serão suas páginas,

    de carne?

    para que o verso seja desenhado

    pelo rastro do verme?

    que arte, que artefato será usado

    para confeccioná-lo,

    o livro que eu um dia porventura

    publicar?

    letras de salitre em páginas de pedra,

    fezes de gaivota nos rochedos do oceano,

    pele do sexo bordada no pano,

    página de esmeralda, letras em urânio

    a superfície do texto traçada toda

    no meu crânio, porrada por porrada,

    ano por ano,

    até brotar crescer florescer

    gerar

    gerânio.

     

    Dado Amaral

     

    a-ritmétrica

    ateorema inequação

    e-nigma insanalógico

    fórmula única insolúvel

     

    amalgarismo vírgula dígitos infinitos

    esquadratura do círculo

    raiz incúbica de pi

     

    se faz de conta

    me explica tudo

    expressa de modo preciso

     

    quão desmedido

    o que impermanece

    incógnito

    lionofvenice.jpg


    meu leão ruge

    venha o varão que turge

    o verão urge

     

     

     

    Ilustração: Lion of Venice – Salvador Dalí, 1954

    Oba(ma)!

    Bravos

    Aplausos

    Retumbam

    Abraços

    Cruzam

    Kilômetros

     

    Outra

    Bandeira

    Agora

    Move a

    América


     
     




    art_obama.jpgAmerica, we have come so far. We have seen so much. But there is so much more to do. So tonight, let us ask ourselves

    if our children should live to see the next century…what change will they see? What progress will we have made? This is our chance to answer that call. This is our moment. This is our time –

    to put our people back to work and open doors of opportunity for our kids; to restore prosperity and promote the cause of peace; to reclaim the american dream and reaffirm that fundamental truth –

    that out of many, we are one; that while we breathe, we hope, and where we are met with cynicism, and doubt, and those who tell us that we can’t, we will respond with that timeless creed that sums up the spirit of a people:

    Yes We Can.

    (Barack Obama)

     

    Junto-me ao júbilo e às lágrimas dos amigos que estão lá, testemunhas dessa promessa luminosa em meio à espessa treva do horizonte.




    saojudastadeu.jpgAos amigos preocupados com a saúde do meu pai, venho informar que, no dia de São Judas Tadeu, ele voltou à vida, como que por encanto. Ainda que milagre não tenha explicação, este teve: demissão da equipe médica e conseqüente redução dos remédios. Ou seja, a pessoa estava envenenada.

    Devidamente desintoxicado, o mudo falou, o paralítico andou e o enfermo, enfim, ressuscitou, contrariando todos os prognósticos. A família respira aliviada e meu pai, mais ainda, livre da sonda nasogástrica, entre outras torturas.

    Com a doença, a gente vai se entendendo. Dos maus médicos, só o santo nos salva.

    Valei-nos, São Judas!

    E agradecida pela graça alcançada.

    Ontem a mulher de branco passou por mim na rua e sorriu. A mulher de branco é uma lenda viva de Ipanema. E pelo menos até ontem estava mesmo viva, que eu vi.

    A mulher de branco não estava de branco, vestia uma cor indefinível, vai ver foi branca um dia. Ontem estava mais pra cor-de-burro-quando-foge.

    A mulher de branco usa uma pinta verde no terceiro olho, mas enxerga bem e não rasga dinheiro. Outro dia um amigo meu, vizinho da mulher de branco, ouviu uma discussão dela com a empregada, a respeito de uma grana preta que sumiu. Sou louca mas não sou burra, gritava ela, verde de raiva.

    A mulher de branco veste burro-quando-foge, mas de burra não tem nada. Tampouco parecia estar fugindo, andava calmamente e, ao passar por mim, sorriu. Não foi um riso amarelo, era um sorriso outrora branco de quem já foi linda, é o que dizem. Namorou muito tempo com alguém famoso, quem era mesmo? A mulher de branco ainda é famosa nas areias outrora brancas de Ipanema.

    Eu não sou famosa e nem louca, ou assim quero crer. Só não sei por que ela sorriu pra mim um sorriso não-branco tão cúmplice.

     

    a última voz que anima um corpo insano é a dor

    paixão terminal da carne

     

    antes do sono a esperança

    é a penúltima que morre

    .

     

    hai-pai…

     

    Pau no sistema

    [ pAusa para o poema ]

    Inverno, pena.

     

    Isso eu escrevi há 2 meses, quando soube que meu pai estava doente. Na época não quis publicar, ficou no rascunho. Agora vai, sei lá porquê. Antes que ele vá.

    Que Deus o (man)tenha, uma coisa ou outra, o que for melhor.

    habemus solem

     
     
     
    chris_lagoa-1.jpg

    Update (9/10): O googa coloriu a foto. Deixei a antiga aqui embaixo, pra vocês verem como um photoshp básico pode dar um up, mesmo em quem já é bonito por natureza. Agora sim o sol apareceu!

    vista copy varanda 003.jpg

     

     


    vista copy varanda 002.jpgEssa é a vista da minha janela, no trabalho novo. A foto não está boa, fotografia não é meu forte, dá pra ver o Cristo?

    Em todo caso, deve dar pra notar que o Rio de Janeiro continua sendo, mesmo com esse tempinho louco que faz o vento uivar pelas frestas e forma ondas na superfície da Lagoa.

    Fico devendo a foto de um dia de sol.

    springtime

     

    farfal.JPGvolto pra casa

     

    trazendo um olho novo

     

    em cada asa

     

     

    catavento


    Cópia de leowheel.jpgo

    pens

    amente

    capta alguma id

    e o que não

    foi

    ..

    fôlego

    cata vento

    inspira sopra

    apróxima

    bússola

    girassol-dos-ventos

    seu leste

    é aqui

    metros da

    qui

    mera

    vilha

    esta rot

    açã

    o

    compensamento

    artejap11.JPG

    O amor compensa

    todo crime que se pensa;

    sã-inconsciência.

    festajun.jpg

    Quadro de Lucas Penacchi

    Amigos do coração,

    eu venho por meio desta

    convidá-los pr’uma festa:

    um sarau de São João.

     

    A festança é no arraial

    novoaemfolha.com.

    O endereço é virtual

    mas o ambiente é bom.

     

    Não tem ladrão nem quadrilha,

    só poetas de família.

    Não tem fogueira ou balão,

    só a luz da inspiração. 

     

    Não tem quentão nem cachaça

    mas, para espantar o frio,

    tem repente, desafio 

    e rimas cheias de graça.

     

    Se você tem um minuto,

    passe aqui pra ver se gosta.

    Diga um verso, que eu escuto

    e versejo uma resposta.

     

    Se achar que foi divertido,

    comovida, eu lhe convido

    a retornar para o bis.

    Um beijo e até logo, Chris.

     

    .

    2dolls.JPGQuando eu nasci, minha prima tinha 6 meses. Filha caçula da única irmã do meu pai, ela foi minha primeira amiga e também adversária nas primeiras disputas, brigas de unhadas e puxôes de cabelos nas quais eu, via de regra, levava a pior, já que, além de mais nova, nasci prematura e era mirrada, fracota e chorona. Os anos foram passando e continuamos unidas como unha e carne (leia-se a unha dela na minha carne e vice-versa, mas beleza, faz parte). 
     
     
     

    Gostávamos de dizer que éramos primas-gêmeas, embora fôssemos quase opostas fisicamente, eu de cabelos castanhos, curtos e cacheados, ela de longa cabeleira loira e lisa – alvo da minha inveja mais primária. Passamos juntas pelas delícias e agruras da infância e da adolescência, sempre gêmeas, sempre diferentes, eu magricela e despeitada, ela curvilínea e desenvolvida, dona de um belíssimo par de peitos – novo objeto da minha inveja, agora secundarista.

    Além de compartilharmos família e amigos, nossos interesses iam sempre na mesma direção: eu comecei a aprender piano, ela se empolgou e foi aprender também, prestamos juntas o vestibular pra comunicação na puc, que ambas trancamos pra fazer teatro, e depois ainda teve a história dos maridos… lá pelos 18 anos, começamos a namorar dois colegas do teatro, amigos entre si. Namoramos com eles muitos anos (e terminamos e voltamos a namorar umas tantas vezes) até que casamos, com 15 dias de diferença, uma madrinha da outra.

    Então a vida nos afastou um pouco, não sei bem por quê, acho que ela também não, parecia que nossos interesses tinham ficado diferentes. Eu parei com o teatro e abri uma loja, depois me formei em psicologia, ela resolveu ser atriz profissional e fazer novela, eu tive filho, ela não, eu me separei, ela não. Morávamos relativamente perto mas deixamos de nos ver, as ligações ficaram reduzidas a natal e aniversários. Ainda que, depois da gravidez, meus peitos tenham finalmente dado o ar de sua graça e que a brancura incipiente dos meus já longos cachos me tenha feito adotar uma tintura quase-loira, nossa gemelidade, aparentemente, se perdeu na noite dos tempos. 

    Semana passada ela fez aniversário, era o dia da ligação anual. Mas eu não tinha mais o telefone dela, então resolvi mandar um email. Daí me deu uma puta saudade e escrevi quilômetros contando a vida, a mudança pra São Paulo, o emprego novo, etc. Soube por parentes que ela tinha se separado no último ano e pedi uma atualização completa. Uma semana se passou e neca de resposta, achei que ela tivesse me riscado definitivamente de seu caderninho. Até que chegou a missiva, com as desculpas pelo atraso porque enderecei a mensagem pra uma caixa postal semi-inativa, juras de saudades correspondidas e a requerida atualização dos últimos tempos. Trocamos MSNs e, no mesmo dia, falamos horas, quase uma tarde inteira. Botamos a vida toda em dia, notícias da família de um lado e de outro, mas a melhor novidade é que ela agora está escrevendo. Eu já sabia que ela levava jeito pra a coisa desde criancinha, então dei a maior força e sugeri que ela fizesse um blog.

    Hoje recebi email dela avisando que seguiu meu conselho e apresentando seu recém-inaugurado sítio. Fui lá e morri de rir com as histórias, me emocionei… fiquei super orgulhosa, ela é muito boa nisso! Também fiquei feliz porque, escritoras e blogueiras, estamos gêmeas de novo.

    Passem lá pra conhecer a Macaia e digam se ela não é a minha cara. 

    adoratio



    sunset_dreams_01.jpg
    sunset_dreams_02.jpgpara guga

    .

    o amor que a gente faz

    surpreende que ainda soe 

    perfeito como sói

    suspeito até que mais

    tanto tempo depois

    adoro como sois

    poente como sóis

    queimando ardendo em nós

    dois 

     

     

    imagens: Benn Flemming

     

    alegriacirq.JPGEstava na padaria ontem à noite, quando um grupo de universitários passou por mim, conversando. Um deles, gorducho como um pachá, proferiu a estranhíssima sentença, enquanto devorava uma baguete: “Não tem nada que eu deteste mais nesse mundo do que o Cirque du Soleil.”. Ao que um outro, de físico igualmente empanzinado, completou, roendo uma rosquinha: “É odioso!…”

    Eu, hein? Sei não, mas acho que pão e circo andam fazendo mal ao povo.

     

    ** Grafia corrigida pelo meu querido e cultíssimo amigo Idelber Avelar, consultor deste sítio para assuntos polêmico-lingüísticos.

    Estrelismo

    Thumbnail image for marilyn_warhol.jpg

    Quisera eu fazer este soneto

    Como quem faz desenhos na areia:

    Traça uma linha a ponta do graveto,

    Sobe a maré, apaga linha e meia.

     

    Dos versos presunçosos que cometo,

    Quero escrever, bem antes que alguém leia,

    As letras em nanquim no fundo preto

    Que, assim, a coisa fica menos feia.

     

    Mas nem sempre a censura funciona,

    Tem um sopro rebelde que me escapa

    E, à minha revelia, vem à tona.

     

    Debalde meu esforço, um mau poema

    Liberta-se do escuro, à socapa,

    Mata a família e estréia no cinema. 

     

     

    novelo.jpg
     Teve essa história da Laurita que, quando criança, era obrigada a fazer tricô. Era a hora em que a sua mãe prestava serviço voluntário na igreja e, não tendo com quem deixá-la, fez este acêrto com a Dona Ditinha, tia da sua comadre Conceição, que dava aulas de tricô para um grupo de senhoras do bairro. Ela tinha que ir, fazer o quê?, mas era uma agonia pra Laurita aquilo. Um monte de velhinha lembrando do passado, falando da vida de gente que já morreu, e ela à beira da morte por tédio fulminante. Meeeeeeeetros de fio, hooooooooooooras de papo de velhinha, e a Laurita mais querendo era namorar e falar no telefone com as amigas. E tome encomenda de gorro pro seu irmão, sapatinho pra filha da vizinha, meias pra toda a família, e pra ela era a sua mocidade se perdendo em ponto meia e ponto tricô. Quando as carreiras estavam desiguais, Dona Ditinha desmanchava e mandava fazer tudo de novo. Ela não ia discutir com a tia da comadre da sua mãe, então fazia, né? Não se preocupava em terminar logo, já que tecia mesmo para esperar. Um dia a mãe da Laurita arrumou outra solução, ou vai ver largou o voluntariado, fato é que ela se livrou do martírio das agulhas.
    O tempo passou, aaaaaanos a fio. Laurita namorou muito, casou. Mas um dia deu uma coisa nela, sei lá, uma nostalgia. Passou numa loja, comprou um par de agulhas enormes, um cesto cheio de novelos bem felpudos e começou a tricotar com luxúria. Fez um xale deslumbrante, inveja de todas as amigas, até da Lulu, que vai a Paris como quem vai à esquina. Desde então não parou mais, fez cachecóis, pulôveres e até um sobretudo. Confessou-me que anseia pelo momento de chegar em casa ao fim do dia, pra sentar na poltrona e tricotar seus paninhos. Tem ido pra cama cada vez mais tarde, noite dessas já era dia quando ela adormeceu sentada, ainda segurando uma ponta do fio. Coincidência ou não, sonhou com labirinto.
    .
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    flordevitoria.jpgdo lodo à glória

     

    desfolha-se efêmera

     

    flor de vitória

     

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    des~lizard


    lagarto.jpg-reptício
     outono

     

    lagarto se estira ao sol

     

    luz que nos réstia

     

    .

     

    .

     

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