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a goela

,

a folha em branco

é um livro cheio

de nada escrito

,

um buraco negro

engolindo a palavra

grito

a maga

a bruxa não deixa

brechas

o que sabre

fecha

o que mira

flecha

o que puxa

dobra

o que almeja

obra

o que abjura

racha

o que obscura

acha

o que abraca

dabra

o que beija

abraxas

a violeta

nesse dia da mulher

em plena guerra

não tô de prosa

vê se me erra

!

nem vem de rosa

porque eu tô flicts

;

se bem-me-quer

faz um favor

:

não mande flor

manda um pix

.

a mão

o sentido da vida
é um só:
de ida

.

a persona

todo esperto quando enrica
tem uma pessoa
jurídica

,

moça boa
despachada
muito tino, pouca ética
e um nome de fachada

,

aposta em ação
de risco
mas do fisco
ela não gosta

,

rica porém
não é pura
prefere uma dita dura
mas jura
não faz por mal

: “faço tudo por meu bem”

 

no fundo ela só procura
um paraíso fiscal
onde seu dinheiro more

,

imposto é coisa de pobre

que se foda quem se fode

fome é culpa de quem sofre

ser rico é só pra quem pode

,

se você está off,
chore

o fiasco

a avenida
sem o povo
é uma trincheira
vazia

nada novo:
contra a morte
só quem pode
é a vida

e a terceira 
não há via

a soberba

(apupo a borba gato)

esta tua figura
não tem estatura
para estar tão alta

esta tua empáfia
não tem carnadura
para ser tão fátua

está tudo torto
nesta pobre pátria
reina a tua máfia

estás tu já morto
resta então à história
queimar tua estátua

a eremita

na vastidão dos dias dessa pena
que pesa sobre a cena coletiva
eu durmo muito e penso amiúde
enquanto espero e permaneço viva

vontade de sair quase não tenho
se o tédio vem, eu mesma me distraio
escrevo um poeminha bem sucinto
me dá uma lombra, aí é que eu não saio

convivo até que bem com a minha sombra
saudade às vezes bate sim, não minto
mas vivo assim tão bem que até me assombra

meu plano de saúde: hibernação 
embaixo do edredom meu sonho é nude
não sinto solidão, só solitude


a deusa

eu crio deus à
minha imagem
e semelhança

: um deus que dança 

pra que ele possa
criar a mim

desde criança
até meu fim
. e o meio

: deus esquisito 

de um mundo bonito
num tempo feio

.

o bota-fora

minha alma tá em brasa
aglomerada na esquina
a carcaça fica em casa
à espera da vacina
/
confinada entre paredes
\
espalhado pelas redes
o recado é muito claro
:
broncossauro genocida
o brasil prefere a vida
,
cada filha cada filho
da pátria merece auxílio 
digno, ou vai ter luta
,
fora seus filhadaputa
!

o véu

nu vens
nu vais
,
a vida
em teu corpo humano 
é um pano
,
a roupa puída
da festa

que resta estendida
nos varais
.

(n)evergreen

aviso aos navegantes
:
nada 
será como antes
nessa nossa jornada 
sob o sol
sobre o solo
,
no seio
dos lares no leito 
dos mares
,
um navio

encalhado no meio 
do canal de suez 
como um istmo 
/
nada igual
neste mundo
e o abismo
|
cada vez
mais fundo

o dia após

na pós-demia a gente se vê
na pós-demia a gente viaja 
na pós-demia a gente vai
à academia

na pós-demia a gente se toca
a gente se pega
a gente se entrega
à orgia 

na pós-demia a gente se esfrega
a gente aglomera na praça e se abraça
todo dia

na pós-demia vai ter natal
vai ter páscoa e carnaval 
são joão e coroação
de maria

vai ter candomblé bar-mitzva 
yoga johrei santo daime
capoeira samba e jongo 
no asfalto e no quilombo

vai ter festinha e festança 
mesversário de criança 
bodas de ouro de prata

de giz de papel e lata
batizado de cachorro
papagaio periquito

urubu galinha pombo

vai fazer tempo bonito
pra gente juntar na praia
no posto nove lotado
e se beijar sem problema
compartilhar baseado

vai ter teatro e cinema
balé ópera concerto
exposição show de rock
mpb jazz pagode

tudo que não pode agora
vai poder na pós-demia 

todo gozo e todo riso
toda graça e alegria
por tanto tempo contidas

: espera só mais um dia



é pena que a pós-demia 
seja um dia que demora
sempre mais do que se pensa

: a espera já faz um ano

talvez seja uma quimera
e ao fim desse longo túnel
a pós-demia não possa
prometer que há luz lá fora

nem nos livrar do infortúnio 
dessa vã demora imensa

: um tempo que distancia

nem trazer de volta as vidas
que essa doença 
devora

.

a nova

um amigo pede
um poema novo
e eu digo

agora não

sei se consigo

só vejo esse povo tenso
em luto

desvivendo um tempo 
em suspenso

pênsil

.

tem hora que pede

um minuto

de silêncio

o despertador

lá onde o tempo começa 

nenhuma lembrança 
do mal

nem promessa 
de um bem

é bom

;

só o som
do sol
me atravessa 

como um trem

.

a cã

envelheço

:

com a idade

tudo muda de

figura

,

a linha

da vida

da mão que

me inscreve

,

que me costura

em mim

;

em minha

lembrança

recém-nascida

sou criança

,

me esqueço

que a juventude

é breve

a velhice dura

até o fim

.

amar morta

bom dia meu mundo

hoje é o trocentésimo

enésimo segundo

dia da marmota

,

permaneço ilesa

sem passar da porta

,

mais um dia presa

,

cada vez mais morta

.

o brother

o capital estrangeiro

ama o povo

brasileiro

,

nosso solo nosso clima

samba suor

e cerveja

,

e pra mostrar sua estima

nos corteja

como um lorde

:

não ford

nem sai de cima

.

eis que é dia

de reis

e o que quereis

?

receio que por aqui

quiçá não mais

reinareis

,

rei

que erra

reitera

rei que perde

a majestade

rei que ruge

rei covarde

rei de roma

rei que arma

rei de espadas

de facadas

rei que uiva

rei que ladra

cedo ou tarde

cai no sono

perde um lance

perde o encanto

perde a guerra

perde o trono

dorme santo

acorda

ex

.

.

a revolução

ai quem me dera

encarnar na quimera

de aquário

,

monstro auto-imaginário

besta-fera do ar

tifício

,

mulher de areia

respira água e toma fogo

na veia

,

mata o rei e vira o jogo

,

nasce feia

como é feio todo início

e morre linda

,

como a tarde

quando finda

,

como o pôr de marte

no solstício

.

a petúnia

dias duros de plutônio

minério bruto

estrela fria

,

pandemia do demônio

pandemônio

do juízo

paraíso da pluto

cracia

,

purgatório da história

crematório da ciência

pandemência coletiva

,

terra plana da falácia

à margem flácida

do asfalto

,

faca cega da calúnia

abrindo o ato

do palhaço

no palácio

do planalto

.

e o amor

pequeno e magro

,

o veneno furta-cor comeu meu agro

mas a petúnia


										

a bacanal

os indecentes

do leblon

que quadro lindo

belos rostos

sorridentes

cuspindo

seus perdigotos

sobre o garçom

.

caras barbudas

desnudas

na pista

caras-pálidas

peludas

peladas

pelas calçadas

beldades

des-mascaradas

faces nuas

em sua maldade

egoísta

.

gente esquisita

povo do mal

moderno

que fervilha

pelas ruas

mais bonitas

da cidade

maravilha

sucursal

do inferno

.

.

.

a posse

a arca não é

de noé

,

é de cada bicho

um pouco

;

o mar é

de cada peixe

,

a nau é

de cada louco

;

o mundo não é

dos eua

,

a lua não é

da nasa

,

a nave é

de cada e.t.

que telefona pra casa

;

o brasil não

é do bozo

,

as mina não são

dos cara

;

a barca, irmão

é do povo

da baía de guanabara

.

o éter

penso que o invisível

é denso e flexível 

como uma rolha

.

que o vazio é imenso

como é vasto o verso

de uma folha

.

que o universo é vivo

como é viva a bolha

quando explode

.

li que a terra é oca

como o céu da boca

é lindo quando morde

.

penso numa audácia

que no fim do túnel

eu nasço galáxia

.

sei que o sonho é um treino

onde afogo o medo

num mar de mentira

.

sei que o ser é vário

como é vago um reino

imaginário

.

que o arbítrio é livre

como o fim de um livro

nunca escrito

.

o infinito expira

à tarde ou mais cedo

não importa o rito

.

penso numa aposta

que ao fim deste enredo

terminarei morta

.


o credo

,

desconfio de quem sabe

traz certezas

diz verdades

,

desconfio dos covardes

dos convictos

dos sofistas

,

desconfio de quem cita

nomes números

estatísticas

,

diz que leu mas não escuta

não se enxerga

não medita

,

desconfio dos honestos

dos carolas

beneméritos

,

desconfio do presente

do futuro

do pretérito

,

desconfio da memória

da história

mal contada

,

desconfio da facada

apolo 11

paul mccartney

,

só confio em minha mãe

em meu filho

e bob marley

.

o súcubo

,

sucumbo aos demônios

ao fosso sem fundo

dos neurônios

,

sucumbo ao jornal

o mundo tão mal

tão bonito

,

sucumbo ao bendito

cansaço

da idade

,

sucumbo à inutil-

idade

do poema

,

sucumbo ao sistema

nervoso

simpático

,

sucumbo ao estado

civil

antidemocrático

,

sucumbo ao buraco

negro

da galáxia

,

sucumbo à vitória

do malogro

da falácia

,

sucumbo à despesa

ao assombro

dos boletos

,

sucumbo ao peso

dos ombros

sobre o esqueleto

,

sucumbo à onda

que cobre minha casa

meu nome

,

sucumbo à sombra

à cinza que sobra

de uma hecatombe

.

o horóscopo

saturno anda brabo
com sangue nos olhos
com fogo no rabo
rubro do dragão 

com a faca no dente
plutônio na mente
espada na cinta
gilete na mão 

(bãobalalão
senhor capitão)

com marte na ideia 
com a morte na sombra
com um corte na fronte
com a sorte na mão 

nem júpiter salva
nossa-dama dalva
da hermética chama
dessa escuridão 

(bãobalalão
senhor capitão) 

o país na lama

o diabo gosta

o mercado ama

a bolsa aposta

;

bolsa de bosta

.

a matriz

,

me mima

me vê menina

me espêlha me encara

me escaravélha

;

minha mãe me ensina

a ficar velha

 

.

o lembrete

“memento mori”

lembre que morre

(a todo momento)

.

diga: eu vou. mo.rrer.

.

hoje é mais um pobre

ontem foi seu pai

amanhã você

.

antes de julgar

quem quer dar o cu

ou fazer aborto

,

se pergunte o que

você vai fazer

sem seu corpo morto

?

sem seu falo um trapo

sua língua de sapo

sua arcada dentária

.

sem seus empregados

seus bancos de dados

sem conta bancária

.

só depois me diga

:

que sabe da vida

quem nunca morreu

?

(ao fim tudo passa

e antes que o sol nasça

também morro eu)

a iguana

vai, malandra

;

na cama, leoa

na sala, mandra

.

o meteorito

(a propósito do incêndio no Museu Nacional da Quinta da Boavista)

depois do desleixo

somente a pedra

flutua

sobre os escombros

,

como se um seixo

da lua

escorasse a terra

nos ombros

.

 

 

 

 

a miríade

 

dormir é um ato político

um auto-exílio hipnótico 

manifesto antropo-lírico

contra a prisão dos relógios

 

ilusão, surto narcótico

delírio hipnagógico

meu anti-artefato bélico

rito mágico secreto

 

retro-projetor onírico 

inutensílio profético

retratando a inexistência

dos tais sujeitos e objetos

 

filmando a desimportância

do meu teatro de afetos

meus amores, medos, ódios

 

tudo o que parece vívido

talvez não seja mais sólido

que o metafísico espectro

de dez mil caleidoscópios 

 

.

o acordo

 

tudo greve
nada grave

não tem barca
vou a remo

não tem diesel
temos bike

não tem deus
rezo pro demo

perco um amor
ganho um like

.

o ana DRAMA

a rua DORME

cozinha em ORDEM

sozinha eu MEDRO

a lua MORDE

,

ecce homo

lamento que gozes
do afã doentio
dos algozes

do gozo violento
do gentio
num linchamento

da fé malfazeja
da mão
que apedreja

da injustiça cega
da multidão
que ainda prega

um homem na cruz
que só atiça
a fome

de carniça
dos urubus
e dos patos

não use o nome
de jesus
pra ser pilatos

 

.

o íon

+ –

â nodo

cá todo

eu tudo

ele trodo

cor rente

conti nua

alter nada

ta tua

na gente

ser pente

céu rasga

or gasma

fico vesga

fico plasma

ab surdo

sinto muito

eu surto

te curto

circuito

– +

o presente

 

minha história

se demora

no relógio do longo

agora

;

mecanismo sem refúgio

onde cismo

como um gongo

o tempo inteiro

;

sem ponteiro

sem hora

sem saída

;

não há vida

lá fora

 

.

 

 

o ires

 

a ilha me molha

alhures alguém me olha

além do arco-íris

 

 

o astro

 

solstício de inverno

:

ser sol no frio é difícil

,

nascer é eterno

.

a pedra

 

tenho estado

tão só

lida

.

o deserto

 

decerto

sede

excede

nome

fome

papo

reto

objeto

homem

some

longe

esperto

come

quieto

 

.

 

.

o cão

 

lição do demo:

demo

lição

 

a gravidade

 

meu pecado

é a preguiça

de ir à missa

nesse templo

 

de acordar

dia atroz dia

nesse tempo

sem poesia

 

a história

nesse passado

obscuro

 

nesse agora

sem futuro

a que voltar

 

,

 

até quando

essa miséria

até quando

 

?

 

nós boiando

num ponto ao sul

desse bólido

 

nesse estado azul

e sólido

da matéria

 

a náusea

,

sinto em mim as dores

das poetas mortas

seus amores tristes

seus caminhos vãos

,

vejo em outras mãos

agora tão minhas

suas vidas linhas

mal-traçadas tortas

,

e as formas tão certas

da sua poesia

companhia assídua

das noites desertas

,

página vazia

artérias abertas

em árdua sangria

,

a guerra perdida

e o gozo perverso

de um verso suicida

 

 

 

o subjuntivo

 

se disséssemos tanto

pelo não dito

se fizéssemos muito

pelo não feito

se soubéssemos tudo

,

qual seria o futuro

do nosso pretérito

imperfeito

?

 

 

a foto

 

numa velha foto minha

me vi de dentro

pra fora

com os olhos que eu tinha

,

vocês de agora

me contem

:

quanto tempo

ainda demora

pra ontem

?

 

 

 

a língua

 

não sou eu que falo

a língua

é a língua

que me lambe

 

lambe as letras

do meu nome

lambe o leite

em minhas tetas

lambe o sangue

da ferida

 

lambe a vida

que é tão pouca

que não cabe em minha boca

 

lambe a carne

lambe a fome

lambe o falo

que me come

lambe o mundo

antes que acabe

 

só a língua

aqui me sabe

quando eu calo

 

.

 

o omisso

,

o omisso

nunca confessa

se prefere isso

ou essa

,

não diz não nem sim

faz graça

disfarça que tá

com pressa

,

te serve um chá

de sumiço

casa e muda

de endereço

só pra não pagar

o preço

,

o omisso sempre sai

cedo

,

o omisso já vai

tarde

,

no fundo o omisso

é covarde

se enverga

morre de medo

por isso não corre

o risco

,

se enxerga

alguma injustiça

o omisso

nem se coça

pra não se indispor

com os ricos

,

se ganha o amor

de uma moça

não assume

compromisso

não morde

nem solta o osso

,

que preguiça

desse moço

,

o omisso

é meio insosso

.

 

 

 

 

 

 

 

 

a gênese

,

no precipício era o verso

 

o universo estava vazio

de deus

ninguém se ouvia

 

morreu.

e o verbo que não poesia

 

fazia frio

mas era eu

 

.

o golpe

 

é golpe sim porque é baixo

golpe macho golpe sujo

indireto de direita

 

é golpe que desrespeita

os votos da maior parte

em favor do dito cujo

 

é golpe porque é covarde

é gás no olho que arde

é cassetete na nuca

 

é golpe porque machuca

 

 

 

a arma

 

pra matar um grande amor

é preciso ser pequeno

e estreito

como um punhal

,

feito de aço e veneno

feito de pele e de ossos

de gozo e vício

,

pra golpear sem remorso

o mesmo peito

onde existe

,

como um deus cruel que assiste

ao seu próprio ritual

de sacrifício

 

 

 

 

 

 

 

morrer é um estado

mudo

um descansaço

de tudo

,

 

o peso suspenso

num mundo imenso

e vazio

,

 

o tempo ancorado

no fundo macio

do espaço

 

.

o furo

 

o relógio

enrosca o tempo

com desvelo

 

como fosse um novelo

de algodão doce

 

estica um fio

de cada pêlo

difuso

como o fuso

de uma roca

 

,

 

não nasci pra ser fiapo

nesse pano

 

um dia escapo

deste plano

num buraco

de minhoca

 

 

o véu

 

o sonho é um filme disperso

sem continuísta

 

ao sair desta sala

não diga jamais

hasta la vista

 

quem vos fala

nunca mais

será vista

no universo

 

talvez este verso

também não exista

 

 

 

 

 

 

o delta

 

 

vazio

é meu nome

 

minha fome é um rio

que nasce em você

e corre pra trás

 

;

 

lembrar é morrer

nesse leito frio

 

uma vez mais

 

 

o amigo

 

no seu plano um certo atraso

no meu trajeto um engano

descaminhos

 

(e a sombra do sol se dobra

sobre o oceano

que arde)

 

antes tarde que sozinhos.

 

o poente estende o prazo

poesia é o tempo que sobra

,

a gente se encontra por obra

do ocaso

 

 

 

 

 

 

a meditação

 

a garça aprecia

a luz desse dia que passa

sem pressa ou lamento

 

seu pensamento atravessa

de vento a espessa fumaça

da refinaria

 

 

 

o sangue

no mundo

e nas minhas pregas

,

acima e embaixo

:

regras

 

 

 

o espectro

 

meço com o canto do olho

a cor do vazio

no espelho

,

recolho um reflexo frio

:

desvio

para o vermelho

 

 

 

a missiva

convite aberto

e intransferível

ao homem certo

solto no mundo

longe tão perto

que me confundo

tão invisível

que quase toco

ouço tão nítido

que até vejo

fora de foco

golpe de vento

cheiro tão vívido

de novos tempos

que ainda me lembro

daquele beijo

que nunca demos

 

 

 

 

 

o corpo

 

entre a festa

e a miséria

de um dia

medonho

a carne partida

é a fresta

,

a vida

é um rio

que vaza

e infesta

a casa

de um sonho

vazio

 

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o epitáfio

 

a mariposa morta

pousa petalosa

como uma rosa

 

a lava

 

se choro tanto

é porque fervo

até doer

 

o nervo

que sente prazer

sente mágoa

 

o pranto e o gozo

são água

do mesmo poço

 

 

 

o albedo

 

abracadabra

abro a cabeça

com pé de cabra

 

;

 

a cabra tropeça

 

a fé se dobra

ao sórdido agouro

do diabo

 

;

 

ouro de tolo

cangalha em couro

de touro brabo

 

;

 

oroboro

a cobra

abraça o rabo

e me enraba

 

;

 

a obra

que em outro

começa

 

em branco

acaba

 

 

.

.

o inferno

 

o mar é um espelho

duro

que nos corta

como um muro

 

o futuro é uma criança

morta

que a esperança aborta

à nossa porta

 

 

a gota

 

lágrima santa

lava como água-benta

o pé da planta

,

a chuva lenta se adia

até chorar de alegria

 

 

o íncubo

 

deuses sem dedos

jogam dados

viciados

;

o medo é um buraco

cercado de vácuo

pelos seis lados

 

 

 

a sombra

 

você pode fumar

o seu ópio

você pode beber

o seu gim

você pode enganar

a si próprio

mas não a mim

 

 

 

 

a hera

 

você mora

no muro

entre

 

o fora

e o furo

do ventre

 

entre o escuro

e a escora

 

entre o agouro

e o agora

 

e sempre

 

 

claro como o mar
 
onde meu olho nada
 
:
 
nada a declarar
 
 
.

o estilingue

 

há um tempo de espera

entre o impacto

e a queda

 

sopra um vento áspero

entre o pássaro

e a pedra

 

 

 

o garimpo

 

ferve brava

sob a verve

como neve

sobre a lava

,

dorme louca

pouco escreve

muito escava

,

escrava

da forma breve

da palavra

 

 

a interface

meh.ro374

 

isto não é um cachimbo

também não é um poema

são só códigos no limbo

entre o meu e o seu sistema

 

 

Imagem: A Traição das Imagens, René Magritte (1929)

o morto

 

um silêncio absurdo

me despertou hoje

:

deus está surdo

e não me houve

 

 

 

 

 

 

o solstício

 

flores mortas são

primaveras que se vão

frutas que verão

 

 

 

 

circe

 

pescador chega à minha praia

numa noite de lua cheia

chega manso vem de tocaia

deita do meu lado na areia

 

ele diz que adora o meu canto

ele diz que eu sou sua sereia

ele diz que me ama enquanto

me esfaqueia

 

 

a moringa

 

a luz amanhece pouca

branca

e longínqua

 

um fio de sol lambe o mofo

estanca em cheio

no meio da nódoa do estofo

feito estaca

 

a dor finca a faca

a dormência míngua a mágoa

 

a ausência é uma casca oca

que um dia trinca

 

a chuva apazígua a língua

da falta dágua

 

 

a muda

 

fiquei sem voz

procuro sábios

que saibam ler

meus grandes lábios

 

 

 

o juízo

 

eu morderia

qual fruta a luz

na tua treva

e neste dia

preciso

adão e eva

fariam jus

ao paraíso

 

 

o castelo

 

venta aqui fora

faz frio

,

o sol em brasa

se esconde

e de longe

me fita

triste e vazio

,

como uma casa

bonita

onde o amor mora

e ninguém visita

 

 

 

o descartável

 

até mesmo

o universo

imenso

perde a graça

o céu

perde a cor

e chora

se você amassa

o meu verso

de amor

e joga fora

como um lenço

de papel

a esmo

 

 

 

 

a fé é o farol

de um foguete

feito de sorvete

a caminho do sol

 

 

 

 

 

 

 

a sentença

em vão me espanto

o tempo corre

mais que o medo

 

todo mundo morre

uns cedo

uns nem tanto

é a lei

 

e eu aqui

no meu canto

só sei

que não morri

por enquanto

 

 

 

a inútil

então observe:

se for poesia não serve

a nada nem a ninguém

,

a verve não

tem serventia

à mulher honesta nem

ao patrão

,

se for poeta não presta

servidão

.

 

 

 

 

 

a pleura

 

invento é um ar

que sopra

pra dentro

,

pensar

é um ato

,

inspiro o pó

que sobra

da grande obra

,

espirro engasgo

me mato

expiro

,

adentro e rasgo

o peito

como um tiro

.

 

 

 

 

a casca

 

o corpo me atraca

como craca

ao porto

,

recorta o espaço

a faca

e escapa ileso

,

suporta esse braço

fraco

como um galho seco

em brasa

como um cão sem casa

,

vão

como o sol num beco

como um peso

morto

como um amor pouco

,

oco

como o osso da asa

de um pássaro preso

 

 

o ouro

 

nada que eu queira

mais que a sombra dourada

da amendoeira

 

 

 

o grito

 

paira esse silêncio frio

um vazio repleto

de hiatos

 

prefiro o cio indiscreto

dos gatos

no meu teto

 

 

 

 

só não escolhas

para o amor

o gesto insípido

nem deixes

meus olhos sem cor

como bolhas

no céu líquido

dos peixes

 

 

 

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