Feed on
Posts
Comments

o corpo

 

entre a festa

e a miséria

de um dia

medonho

a carne partida

é a fresta

,

a vida

é um rio

que vaza

e infesta

a casa

de um sonho

vazio

 

Continue Reading »

o epitáfio

 

a mariposa

morta pousa petalosa

como uma rosa

 

a lava

 

se choro tanto

é porque fervo

até doer

 

o nervo

que sente prazer

sente mágoa

 

o pranto e o gozo

são água

do mesmo poço

 

 

 

o albedo

 

abracadabra

abro a cabeça

com pé de cabra

 

;

 

a cabra tropeça

 

a fé se dobra

ao sórdido agouro

do diabo

 

;

 

ouro de tolo

cangalha em couro

de touro brabo

 

;

 

oroboro

a cobra

me abraça o rabo

e se enraba

 

;

 

a obra

que em outro

começa

 

em branco

acaba

 

 

.

.

o inferno

 

o mar é um espelho

duro

que nos corta

como um muro

 

o futuro é uma criança

morta

que a esperança aborta

à nossa porta

 

 

a gota

 

lágrima santa

lava como água-benta

o pé da planta

,

a chuva lenta se adia

até chorar de alegria

 

 

o íncubo

 

deuses sem dedos

jogam dados

viciados

;

o medo é um buraco

cercado de vácuo

pelos seis lados

 

 

 

a sombra

 

você pode fumar

o seu ópio

você pode beber

o seu gim

você pode enganar

a si próprio

mas não a mim

 

 

 

 

a hera

 

você mora

no muro

entre

 

o fora

e o furo

do ventre

 

entre o escuro

e a escora

 

entre o agouro

e o agora

 

e sempre

 

 

claro como o mar
 
onde meu olho nada
 
:
 
nada a declarar
 
 
.

o estilingue

 

há um tempo de espera

entre o impacto

e a queda

 

sopra um vento áspero

entre o pássaro

e a pedra

 

 

 

o garimpo

 

ferve brava

sob a verve

como neve

sobre a lava

,

dorme louca

pouco escreve

muito escava

,

escrava

da forma breve

da palavra

 

 

a interface

meh.ro374

 

isto não é um cachimbo

também não é um poema

são só códigos no limbo

entre o meu e o seu sistema

 

 

Imagem: A Traição das Imagens, René Magritte (1929)

o morto

 

um silêncio absurdo

me despertou hoje

:

deus está surdo

e não me houve

 

 

 

 

 

 

o solstício

 

flores mortas são

primaveras que se vão

frutas que verão

 

 

 

 

circe

 

pescador chega à minha praia

numa noite de lua cheia

chega manso vem de tocaia

deita do meu lado na areia

 

ele diz que adora o meu canto

ele diz que eu sou sua sereia

ele diz que me ama enquanto

me esfaqueia

 

 

a moringa

 

a luz amanhece pouca

branca

e longínqua

 

um fio de sol lambe o mofo

estanca em cheio

no meio da nódoa do estofo

feito estaca

 

a dor finca a faca

a dormência míngua a mágoa

 

a ausência é uma casca oca

que um dia trinca

 

a chuva apazígua a língua

da falta dágua

 

 

a muda

 

fiquei sem voz

procuro sábios

que saibam ler

meus grandes lábios

 

 

 

o juízo

 

eu morderia

qual fruta a luz

na tua treva

e neste dia

preciso

adão e eva

fariam jus

ao paraíso

 

 

o castelo

 

venta aqui fora

faz frio

,

o sol em brasa

se esconde

e de longe

me fita

triste e vazio

,

como uma casa

bonita

onde o amor mora

e ninguém visita

 

 

 

o descartável

 

até mesmo

o universo

imenso

perde a graça

o céu

perde a cor

e chora

se você amassa

o meu verso

de amor

e joga fora

como um lenço

de papel

a esmo

 

 

 

 

a fé é o farol

de um foguete de sorvete

a caminho do sol

 

 

 

 

 

 

 

a sentença

em vão me espanto

o tempo corre

mais que o medo

todo mundo morre

uns cedo

uns nem tanto

é a lei

e eu aqui

no meu canto

só sei

que não morri

por enquanto

 

 

 

a inútil

então observe:

se for poesia

não serve

,

a verve não

tem serventia

à mulher honesta

nem ao patrão

,

se for poeta não presta

servidão

.

 

 

 

 

 

a pleura

 

invento é um ar

que sopra

pra dentro

,

pensar

é um ato

,

inspiro o pó

que sobra

da grande obra

,

espirro engasgo

me mato

expiro

,

adentro e rasgo

o peito

como um tiro

.

 

 

 

 

a casca

 

o corpo me atraca

como craca

ao porto

,

recorta o espaço

a faca

e escapa ileso

,

suporta esse braço

fraco

como um galho seco

em brasa

como um cão sem casa

,

vão

como o sol num beco

como um peso

morto

como um amor pouco

,

oco

como o osso da asa

de um pássaro preso

 

 

o ouro

 

nada que eu queira

mais que a sombra dourada

da amendoeira

 

 

 

xeque-mate

 

a noite é uma dama

não joga

mas não foge à luta

 

quando o sol se inflama

essa puta ajeita

no mar a cama

perfeita

onde o rei se deita

e se afoga

 

 

o grito

 

paira esse silêncio frio

um vazio repleto

de hiatos

 

prefiro o cio indiscreto

dos gatos

no meu teto

 

 

 

o canteiro

 

no jardim das ideias vagas

onde vagalumes

beijam petúnias

descarto as pragas

sempre as mesmas

queixumes

lamúrias

e outras lesmas

 

 

 

 

só não escolhas

para o amor

o gesto insípido

nem deixes

meus olhos sem cor

como bolhas

no céu líquido

dos peixes

 

 

 

a baía

 

a água cinzenta

oleosa

espelha

o céu em brasa

em cinquenta

tons de rosa

vermelha

,

na maré rasa

um murmúrio

vago

como um lago

de mercúrio

 

 

 

a árvore

 

ave sã não tomba

,

balança a sombra anciã

do flamboyant

 

 

corpus christi

 

o sopro eterno

desconhece

o corpo morto

,

perdoo o outro

pelo inferno

que me aquece

 

 

 

o sílex

 

descascou

minha fruta

pescou

minha truta

riscou

minha gruta

lascaux

minha pedra

bruta

de quebra

lustrou

deu brilho

,

ladrilho

filho

da luta

 

 

 

o enigma

 

ousar querer

como um deus

saber calar

como um buda

 

o tolo finge

que estuda

 

a esfinge muda

 

o morcego

 

como um anjo cego

pela claridade

de outras alturas

mais amenas

eu me apego

à gravidade

a duras penas

 

 

 

a catedral

 

aqui por exemplo

o vento chora

a noite finda

o dia ainda

demora

a hora é linda

o tempo pára

e ora

agora

é o único templo

onde deus mora

 

 

 

a estátua

 

esculpo meu verso

num tronco de mármore

como quem ausculta

a ordem oculta

do universo quando árvore

 

 

 

o púbis

 

falo dessa

luz que risca

o céu profundo

a faísca

maluca

tonta

que atravessa

o fim do mundo

em cada poro

da tua nuca

até a ponta

do meu osso ilíaco

como um meteoro

cruza o zodíaco

 

 

 

o órion

 

não se espante diante

do silêncio estonteante

das galáxias distantes

 

nada sempre

será tão sério

como era antes

 

o irrelevante mistério

das estrelas errantes

 

o inútil cemitério

de diamantes

 

 

os lusíadas

 

a vida é frágil

como um livro

num naufrágio

 

do ser vivo

nada sobra

nada escapa

 

nem a capa

nem o assunto

 

numa dobra

do universo

acaba o mundo

 

o verso é livre

só a obra

sobrevive

 

 

a sonata

 

tento ser breve

nem tudo deve

ser dito

no momento

e muito menos escrito

em voz alta

nem tudo

que dói é poesia

deixa muda essa falta

básica

até soar um grito

deixa solta essa música

como o vento

quando flauta

,

sendo o sopro agudo

do tempo

em sua sinfonia

sem pauta

 

 

 

a força

 

quando venta a borboleta

sustenta as imensas asas

azuis como um atlas

que aguenta o planeta

sobre as omoplatas

 

 

 

o espinho

 

aqui venho

achar na dor

o que não tenho

 

o desenho

do teu pelo

no meu tato

 

eis o pacto

de amor

entre a pele

e o cacto

 

 

 

a plateia

 

além de mim

só uma mosca

veio

 

assistir ao formidável fim

da tarde fosca

de um dia feio

 

 

o oco

 

retiro

do mundo

o corpo

recolho

meu olho

escuro

na fresta

no meio

da testa

um furo

fundo

como um tiro

 

 

 

o colóquio

 

o espelho partido

em mil partes

em todas duvido

se existo

cogito ergo …

?

eu isto

nego

revido

verdades

seu nome é ego

descartes

é apelido

 

 

 

a pestana

 

folhas de outono

como pálpebras que caem

mortas de sono

 

 

 

 

o boeing

 

há muito já passa

da hora

a demora já dura

uma vida

a procura já cansa

a esperança é uma nave

perdida

a resposta é uma chave

sem porta

a saída é uma rota

de descida

em queda livre

do que se ama

só sobrevive

ao fim de tudo

um celular

que chama

num mar mudo

 

 

« Newer Posts - Older Posts »