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Category Archive for 'Uncategorized'

a meditação

  a garça aprecia a luz desse dia que passa sem pressa ou lamento   seu pensamento atravessa de vento a espessa fumaça da refinaria      

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o sangue

no mundo e nas minhas pregas , acima e embaixo : regras      

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o espectro

  meço com o canto do olho a cor do vazio no espelho , recolho um reflexo frio : desvio para o vermelho      

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a missiva

‘ convite aberto e intransferível ao homem certo solto no mundo longe tão perto que me confundo tão invisível que quase toco ouço tão nítido que até vejo fora de foco golpe de vento cheiro tão vívido de novos tempos que ainda me lembro daquele beijo que nunca demos   ‘        

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o corpo

  entre a festa e a miséria de um dia medonho a carne partida é a fresta , a vida é um rio que vaza e infesta a casa de um sonho vazio  

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a lava

  se choro tanto é porque fervo até doer   o nervo que sente prazer sente mágoa   o pranto e o gozo são água do mesmo poço      

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o albedo

  abracadabra abro a cabeça com pé de cabra   ;   a cabra tropeça   a fé se dobra ao sórdido agouro do diabo   ;   ouro de tolo cangalha em couro de touro brabo   ;   oroboro a cobra me abraça o rabo e se enraba   ;   a obra que em […]

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o inferno

  o mar é um espelho duro que nos corta como um muro   o futuro é uma criança morta que a esperança aborta à nossa porta    

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a gota

  lágrima santa lava como água-benta o pé da planta , a chuva lenta se adia até chorar de alegria    

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o íncubo

  deuses sem dedos jogam dados viciados ; o medo é um buraco cercado de vácuo pelos seis lados      

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a sombra

  você pode fumar o seu ópio você pode beber o seu gim você pode enganar a si próprio mas não a mim        

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a hera

  você mora no muro entre   o fora e o furo do ventre   entre o escuro e a escora   entre o agouro e o agora   e sempre    

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claro como o mar   onde meu olho nada   :   nada a declarar     .

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o estilingue

  há um tempo de espera entre o impacto e a queda   sopra um vento áspero entre o pássaro e a pedra      

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o garimpo

  ferve brava sob a verve como neve sobre a lava , dorme louca pouco escreve muito escava , escrava da forma breve da palavra    

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a interface

  isto não é um cachimbo também não é um poema são só códigos no limbo entre o meu e o seu sistema     Imagem: A Traição das Imagens, René Magritte (1929)

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o morto

  um silêncio absurdo me despertou hoje : deus está surdo e não me houve            

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  flores mortas são primaveras que se vão frutas que verão        

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circe

  pescador chega à minha praia numa noite de lua cheia chega manso vem de tocaia deita do meu lado na areia   ele diz que adora o meu canto ele diz que eu sou sua sereia ele diz que me ama enquanto me esfaqueia    

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a moringa

  a luz amanhece pouca branca e longínqua   um fio de sol lambe o mofo estanca em cheio no meio da nódoa do estofo feito estaca   a dor finca a faca a dormência míngua a mágoa   a ausência é uma casca oca que um dia trinca   a chuva apazígua a língua da falta dágua    

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a muda

  fiquei sem voz procuro sábios que saibam ler meus grandes lábios      

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o juízo

  eu morderia qual fruta a luz na tua treva e neste dia preciso adão e eva fariam jus ao paraíso    

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o castelo

  venta aqui fora faz frio , o sol em brasa se esconde e de longe me fita triste e vazio , como uma casa bonita onde o amor mora e ninguém visita      

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o descartável

  até mesmo o universo imenso perde a graça o céu perde a cor e chora se você amassa o meu verso de amor e joga fora como um lenço de papel a esmo      

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o cometa (para lula braga)

  a fé é o farol de um foguete de sorvete a caminho do sol              

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a sentença

em vão me espanto o tempo corre mais que o medo todo mundo morre uns cedo uns nem tanto é a lei e eu aqui no meu canto só sei que não morri por enquanto      

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a inútil

então observe: se for poesia não serve , a verve não tem serventia à mulher honesta nem ao patrão , se for poeta não presta servidão .          

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a pleura

  invento é um ar que sopra pra dentro , pensar é um ato só , inspiro o pó que sobra da grande obra , espirro engasgo me mato expiro , adentro e rasgo o peito como um tiro .        

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a casca

  o corpo me atraca como craca ao porto , recorta o espaço a faca e escapa ileso , suporta esse braço fraco como um galho seco em brasa como um cão sem casa , vão como o sol num beco como um peso morto como um amor pouco , oco como o osso da asa de […]

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o ouro

  nada que eu queira mais que a sombra dourada da amendoeira      

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xeque-mate

  a noite é uma dama não joga mas não foge à luta   quando o sol se inflama essa puta ajeita no mar a cama perfeita onde o rei se deita e se afoga    

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o grito

  paira esse silêncio frio um vazio repleto de hiatos   prefiro o cio indiscreto dos gatos no meu teto      

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o canteiro

  no jardim das ideias vagas onde vagalumes beijam petúnias descarto as pragas sempre as mesmas queixumes lamúrias e outras lesmas      

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a pele da água

  só não escolhas para o amor o gesto insípido nem deixes meus olhos sem cor como bolhas no céu líquido dos peixes      

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a baía

  a água cinzenta oleosa espelha o céu em brasa em cinquenta tons de rosa vermelha , na maré rasa um murmúrio vago como um lago de mercúrio      

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a árvore

  ave sã não tomba , balança a sombra anciã do flamboyant    

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corpus christi

  o sopro eterno desconhece o corpo morto , perdoo o outro pelo inferno que me aquece      

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o sílex

  descascou minha fruta pescou minha truta riscou minha gruta lascaux minha pedra bruta de quebra lustrou deu brilho , ladrilho filho da luta      

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o enigma

  ousar querer como um deus saber calar como um buda   o tolo finge que estuda   a esfinge muda  

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o morcego

  como um anjo cego pela claridade de outras alturas mais amenas eu me apego à gravidade a duras penas      

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a catedral

  aqui por exemplo o vento chora a noite finda o dia ainda demora a hora é linda o tempo pára e ora agora é o único templo onde deus mora      

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a estátua

  esculpo meu verso num tronco de mármore como quem ausculta a ordem oculta do universo quando árvore      

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o púbis

  falo dessa luz que risca o céu profundo a faísca maluca tonta que atravessa o fim do mundo em cada poro da tua nuca até a ponta do meu osso ilíaco como um meteoro cruza o zodíaco      

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o órion

  não se espante diante do silêncio estonteante das galáxias distantes   nada sempre será tão sério como era antes   o irrelevante mistério das estrelas errantes   o inútil cemitério de diamantes    

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os lusíadas

  a vida é frágil como um livro num naufrágio   do ser vivo nada sobra nada escapa   nem a capa nem o assunto   numa dobra do universo acaba o mundo   o verso é livre só a obra sobrevive    

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a sonata

  tento ser breve nem tudo deve ser dito no momento e muito menos escrito em voz alta nem tudo que dói é poesia deixa muda essa falta básica até soar um grito deixa solta essa música como o vento quando flauta , sendo o sopro agudo do tempo em sua sinfonia sem pauta      

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a força

  quando venta a borboleta sustenta as imensas asas azuis como um atlas que aguenta o planeta sobre as omoplatas      

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o espinho

  aqui venho achar na dor o que não tenho   o desenho do teu pelo no meu tato   eis o pacto de amor entre a pele e o cacto      

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a plateia

  além de mim só uma mosca veio   assistir ao formidável fim da tarde fosca de um dia feio    

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o oco

  retiro do mundo o corpo recolho meu olho escuro na fresta no meio da testa um furo fundo como um tiro      

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