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a praia

 

no seu céu

meu mar

sua

 

meu sou

na sua

 

minha lua

agúa

 

no seu

lençol

 

 

o pássaro

 

no céu ontem

sol havia

 

hoje tem só

avião

 

amanhã

quem sabe o dia?

 

a vida avoa

e pra tudo avia

solução

 

 

 

a brânquia

 

em terra sou macambúzia

o mar berra em minha orelha

 

o olvido me afoga um canto

de sereia em cada guelra

 

 

 

cavalos

 

o arrepio gosta

de montar a pelo

 

,

 

na pele o cheiro

é o apelo que encosta

primeiro

 

 

 

 

o desejo é um bicho brabo:

 

abana o rabo,

dá um coice

 

e foi-se,

um beijo.

 

 

 

 

Poemas feitos para o ebook Cavalos de Mercedes Lorenzo.

Fotos: Mercedes Lorenzo

a boca

 

mais busco o silêncio

que se desprenda

como um furo estreito

da renda

como o final brusco

da música

 

a falta de ar súbita

 

o vazio perfeito

diante do imenso

 

no oceano deserto

uma única ilha

 

essa falta filha

da puta

 

 

.

 

 

 

foto: mercedes lorenzo – physalis

 

 

 

a trama

 

ardor fia

amor tece

a dor corta

 

em linhas certas

minha moira

torta

 

a nuvem

 

vivo onde o tempo

faz a curva e nem sei mais

 

onde a chuva começa

onde cessa o mar

que me atravessa

 

 

a janela

 

o desejo não usa

a porta

entra pela fresta

,

faz festa

não se comporta

pulsa e aperta

abusa e a blusa

aberta

 

 

quilate

 

contra ouro de tolo

a pedra de toque

:

desaforo? aumenta

que é rock

.

 

 

o picadeiro

 

esta vida

é o circo

das mudanças

 

não há paz

na zona

das circunstâncias

 

mas na viga

mestra que liga

a lona

 

.

 

 

o vocábulo

 

profissão: neologista

,

invento o verbo

que me exista

.

 

 

a pétala

 

a manhã fria me fere

,

o dia adere à pele

por teimosia

.

 

 

vivaldi

 

,

trem na estação tro

cada inferno, um verão

na praia errada

,

tempo frio, estar são

do abandono:

outono ou nada

,

calor não é flor

que se espera,

dá de prima e à vera

 

 

a mandrágora

 

a madrugada

é escura uma aurora

prematura

 

uma noite que dura

além da hora

é uma draga uma agrura

 

é uma maga obscura

é uma ruga que chora

uma drogada

 

é a mágoa rogada é a jura

é a água pura da mulher

amada

 

 

 

[ arquivo em audio >> a mandragora ]

o pulsar

 

no vidro o sereno

cintila

um brilho fraco

 

o dia escorre

ameno

da noite escura

 

na vida o que é luz

nunca morre

nem perdura

 

: sol, logo duvido

 

menos do buraco

negro da pupila

que procura

.

 

a pedra

 

perder o ar

as águas o ferro o fogo

o chão

 

perdoar é perder

o jogo e poder pedir

perdão

.

 

 

santíssima

 

o mistério da trindade

resolvemos assim:

dou 3 sem sair

de mim

.

 

olho pro lado:

ninguém por perto

,

disfarço e aperto

um fraseado

.

a sacerdotisa

 

meu sacro ofício:

lazer do ócio um templo

sagrado ao amplo

 

 

 

a roda

 

depois da poda

pode dar (pois!)

florada

 

e a enforcada

de tão partida

quem sabe a corda

 

a força

par ida

em dois

?

 

 

 

o fóton

 

a insubstância da luz

é o amálgama

entre a ânsia e o meu dia

fragma

 

 

.

o milefólio

 

a mata escuta

os dez mil sons

da dança muda

das mutações

 

 

 

 

diferencial

 

tento escrever

“érro e consérto”

assim aberto

e vê só que aperto:

 

se invento acento

por certo erro

 

se escrevo certo

não tem conserto

fico no erro

 

.

 

o dia estoura

 

o sol molha o sereno

ouro banha o breu

 

;

 

a terra me olha

 

numa gota de chumbo

que o azul derreteu

 

.

 

 

 

percebo perplexo

que o amor é efêmero

:

faz gênero e muda

de sexo

.

 

 

aleluia

foto: josé eduardo agualusa

 

se a vida anda só, convide-a

 

para ver o sol nascer

 

numa orquídea

 

 

..

 

 

 

 

o balanço

 

a maré leva

o barco um arco

o mastro a seta

tesa

 

à noite os astros

mantêm a brisa da vela

acesa

 

 

 

lei de warhol

 

 

a vaidade é uma praga

a fama, um jogo de risco

:

quem vai dormir lady gaga

acorda lady francisco

.

 

 

 

o verso

 

nem toda beleza dura

e eu que sou cega admito

seda impura não me pega

:

só reconheço o bonito

pelo avesso da costura

.

 

 

 

a cinza

 

catar os restos

de um verso triste

 

exumar o adeus

 

,

 

deus

se existe

é nos pequenos gestos

 

.

a mandíbula

 

32 vácuos me mordem

 

e os dentes do caos

na mais perfeita ordem

 

.

o beija-flor

 

colibri furta-cor

rabisca

com o bico um arabesco verde

cor de céu

na boca de mel

na coxa

 

uma sede em cada flor roxa

do hibisco

 

 

alvorada

 

o sapo coaxando

a cigarra chia

uma prece

a araponga buzina

 

o dia, uma fresta

na cortina

 

a vida se aquece na floresta

como orquestra

cochichando na coxia

 

 

 

 

o vagão

 

consumo é um trem

que vem com tudo

contudo sem

conteúdo

.

peripatética

 

quem anda tira

de letra a trilha na ponta

da sapatilha

..

entra de sola

não solta a tira a sandália

da andarilha

 

 

 

a flauta

 

sopro imaginário

é o som de um suspiro

um assovio

um fio

suspenso por dentro

,

do lado de fora

do aquário vazio

em que vivo e penso

que respiro

,

 

 

mercadolivre

 

procuro urgente

um futuro bem-passado

embrulhado pra presente

 

 

 

 

a gota

 

a última lágrima

é sempre a mais leve

difusa

 

furtiva lástima convulsa

 

;

 

lava o que me leva

vela

quanto pesa

 

,

 

livre o que me vive

vale

quanto pulsa

 

.

 

 

revoada

 

saem as moças pro trottoir:

 

à luz da rua um paná-paná

de mariposas de lupanar

 

~ ~~

 

caí aqui de passagem

não tenho carro ou bagagem

vago com a cara e a coragem

de errar e seguir viagem

 

meu caminhar é ligeiro

num passo ando o mundo inteiro

não me troco por dinheiro

fabrico ouro verdadeiro

 

confesso que não venci

mas um dia fico rica

rica-de-marré-de-si

 

o universo está por vir

um verso meu é o que fica

e eu não estou nem aí

 

.

.

.

penélope

 

à noite teço

desde o começo

um véu de túneis no fim

do céu espesso

 

 

a corda

 

tenaz mente transbordo

sonhos fundos que esqueço

e acordo

 

num mundo insistente

de que me recordo

mas não reconheço

 

 

 

 

 

noite e dia

há um vão

entre

 

a luz e a anti

matéria

 

entre a sorte e a miséria

então sorria:

 

você está sendo

formado

neste exato instante

 

esfera tecendo

o tempo ao quadrado

 

a espera é uma sucessão

de aquis

 

ser feliz está sempre

por um xis

flowerpower

sou forte, confesso.

você vem com ferro

eu con verso

 

.

.

.

 

 

Minha singela homenagem a Pedro Rios Leão (10 dias de greve de fome pela desocupação violenta de Pinheirinhos) e Vitor Suarez Cunha (que teve o bonito rosto esmigalhado ao defender um morador de rua da agressão brutal de seres inumanos).

 

exorcismo

 

lavro versos

curtos

como orações

 

palavras são legiões

de demônios

expulsos

 

corto advérbios

pronomes

 

poupo os pulsos

 

.

 

 

do baralho

 

há o gozo porém antes

pôr em ordem a ardência

do fogo

 

paciência não é um jogo

para principiantes

 

 

desavenca

 

a vida não espera

prima vera virou verão

a avenca já hera

 

 

 

kundalini

 

não sou santa

tenho buda

só descanso

em kama sutra

 

via dutra

quando alinha

minha espinha

aos chakras teus

 

é um deus

nos sacuda

 

 

embocadura

 

sinto muito

não sou pouca

antes só que meia

boca

 

.

 

 

… água mole em boca dura

tanto late até que cura …

 

 

 

ardem-me às costas

em brasas

as cicatrizes expostas

das asas

arrancadas

a frio

com uma faca

sem fio

..

 

 

 

buraco negro

 

a solidão é sólida

e tão densa que a sombra

do sol cabe imensa num só

não

.

 

 

 

na porta do inferno

estava escrito:

 

é proibido

fumar macondo

 

 

.

arrit-métrica

 

60…

70…

e 90?

(e nem chove?)

 

20 dizer:

não 10-espere,

não p-re,

inspire…

 

e  i-9

.

 

conjuntiva

foto: christiana nóvoa

 

o exato

momento

do encontro

:

seu auto retrato

em preto dentro

do branco do olho

do outro

.

 

o fusco

 

pisco pisco

e não capisco

 

não entendo

quem não assume

o lusco-risco

 

eu sou meio vagalume

mas ascendo

.

.

.

 

foto: josé eduardo agualusa

 

entre as pedras
e a água:

meio-fio

entre a metade
e um inteiro:

vazio

entre as perdas
de janeiro:

rio

.

eco a narciso

 

da teimosia de que eu peco … eco

do pensamento que me aturde … urde

como que por encanto surge … urge

a sua imagem que disseco … seco

 

se essa voz débil que re-clama … lama

fosse punhal que a vida amola … mola

veria no amor que descola … escola

portal da luz que a minha chama … ama

 

e se ouso erguer um edifício … difícil

sem ter pilar que me confirme … firme

que diga então meu frontispício … hospício

 

deixo ao espelho a contraparte … aparte

que agora preciso partir-me … ir-me

e espalharei por toda parte … arte

 

 

 

 

[arquivo em audio >> eco a narciso]

John William Waterhouse – Eco e Narciso (1903)

 

 

 

na veia

 

viver é um vício,

socorro

!

um dia ainda morro

disso

.

 

 

zoo-lógica

 

urubus

nascem de novo

em um estalar de ovo

 

nascer macaco

inda que fêmea

há que ser macho

 

pra ver a luz

o buraco

é mais embaixo

 

 

 

um passo avança

dois pra trás

Pablo Picasso Photo by David Douglas Duncan

perco a graça

nessa dança

 

 

descompassa

o pas-de-deux

entre o seu deus

e a minha ânsia

 

 

 

 

rubedo

 

sem os beijos

de costume

,

minha pele

em vão se dobra

pergaminho

no descarte

do curtume

 ,

obra de arte

no despejo

do porão

 ,

sem ciúme

sem desejo

morta à míngua

 

 .

.

.

 

até

que vibre

o céu da boca

e, rediviva

,

minha

língua

partida

de cobra

,

fina

mole

pérfida

e lasciva

,

tão viva

que finda

,

tão louca

que verve

,

tão livre

que arde

 ,

esfole

,

despele

e descubra

a verdade

é rubra

.

 

 

 

a fonte

 

jorram parábolas

lágrimas pródigas

;

meu olho é pálpebra

pra toda ópera

o antúrio

foto: josé eduardo agualusa

 

natureza

viva ou morta

não importa

 

o que é do amor

aqui se corta

aqui se planta

 

a beleza

põe mesa pra janta

do jeito que flor

 

 

a concha

 

saudades de amar

na areia

de mares que ainda nem sei

~

de ondas lambendo

a orelha

da sereia que serei

 

 

 

a morte não trema

não deságüe

a alma lusa

 

quando a luz é forte

não há dia triste

que apague

 

não existe problema

que a musa não corte

um poema

 

 

olha, a linguagem

ensina a mentira

:

o que se mira

chama de imagem

e o que se imagina

miragem

.

samurai

 

haiquase que cai?

bota fé no samurai

e sai de bashô

 

 

[mais um “poema incidental”, resgatado dos comentários ao poema ‘quiromance’ /2009 >>

https://novoaemfolha.com/2009/10/quiromance.html ]

 

 

venta um ar vário

varrendo as fendas

e há folhas tantas

atrás do armário

 …

nas fundas sendas

do itinerário

vai pras calendas

meu calendário

 

.

 

 

 

finda a tarde cinza

e só eu ouvi

que é linda

o sol não faz alarde

ao cair em si

bemol

.

qui mera!

 

ah se eu soubera

que era só foda

não fôra toda

… 

amor espera

que a vida roda

e que se fôda

!

 

 

bem-te-ouvi

 

despertador

toca lá fora

,

um sopro aflora

de cada ninho

:

cantiga de acordar

passarinho

 

 

pela boca

 

o peixe pisca

;

pra isca

que o pesca

.

 

 

[repescado da caixa de comentários do poema ‘água na boca’ (2009) >> https://novoaemfolha.com/2009/10/agua_na_boca.html ] 

 

mata-borrão

 

por mais que eu minta

minha folha

fina e branca

não estanca

tanta tinta

,

por mais que eu tente

(e tento opaca!)

minha casca

quando molha

é transparente

 

 

 

maresia

 

eu sou a ferrugem

lenta e salgada

que lambe e te come

pela beirada

;

dulcíssima fome

que rói teus espelhos

na vertigem dos meus

lábios vermelhos

 

 

 

sem filtro

 

é claro que é válida

essa chuva cálida

mas a luz é pálida

;

e eu que, branquela

sei que o sol ardido

mata esfola e péla

,

não sei viver crua

e espero o bandido

que me restitua

o dia colorido

.

 

 

 

me enerva

esse inveredicto

,

ipso facto

eu desempato

no grito

:

minerva

 

 

 

 

o que quero? eu me pergunto

:

quero arte em cada assunto

quero rir e gozar junto

quero todo amor do mundo

e se não for pedir muito

quero melão com presunto

 

.

 

 

 

moira

 

escrevo

como quem fia

,

do emaranhado

puxo um punhado

até dar linha

,

e afino à unha

a ver se me atrevo

a chamar poesia

;

escrevo

como quem tece

sem gabarito

um pano curto

de trama torta

,

a ver se amortece

o impacto surdo

do meu enlevo

no céu finito

;

escrevo

como quem corta

.

 

 

locomotiva

 

estar morto ou vivo

tem motor

não tem motivo

 

.

 

o pescador

mormaço

,

mar baço

,

nuvens esparsas

esgarçam uma sereia

das ameias a garça

ave cheia de graça

espreita carcaças

pra ceia

.

preamar

 

 

a maré molha

:

vai-se o mar ido

,

olha o mar vindo

 

~

 

amar é lindo

 

 

 

solideus

 

deus fica brabo

como o diabo

com o fato triste

de que só ele de fato

existe

.

anelos

 

a lua, um compasso

traça halos tênues

no céu noturno

 

como anéis de saturno

enlaçando os braços

de vênus

 

 

corisco

 

meu canto é brusco

meu arabesco

é um tanto tosco

 

meu lar é porto

meu dente é torto

meu rei deposto

 

não tenho mastro

não deixo rastro

mostro no rosto

 

meu quartzo é bruto

meu conto é curto

meu parto abrupto

 

meu lusco é fusco

não sei que busco

mas corro o risco

 

,

analgesia

 

cada ausência

me enfia

uma faca

,

a ardência

cada dia

mais fraca

,

 

parto

 

não quero socorro

onde morro

.

só corro pro abraço

onde nasço

camarote

 

nem a morte

é tão nefanda

vista da varanda

 

~

 

cutícula

 

de fato

são como unha e carne

nossas vidas

;

tato em carne viva

sob unhas roídas

 

 

maré vazante

 

já não creio mais

no fulgor fugaz

do luar que míngua

)

na beira do cais

só me amarra o freio

da língua

 

 

 

se fecha o clima

,

tenha eu sempre comigo

o abrigo da estima

,

,

 

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