só santo
ou louco
ama tanto
quem ama pouco
.
Oct 10th, 2011 by Christiana Nóvoa
só santo
ou louco
ama tanto
quem ama pouco
.
Sep 27th, 2011 by Christiana Nóvoa
a borboleta
é a obra que devora
a crisálida
~
vista fora do artista,
toda crise é válida
.
Sep 14th, 2011 by Christiana Nóvoa
asas no jardim
;
quem semeia bem-me-quer
colhe querubim
…
{nem a chuva de chumbo
me desarcanja o mundo}
Aug 31st, 2011 by Christiana Nóvoa
Aug 20th, 2011 by Christiana Nóvoa
por todo o sempre
amor te espero
avidamente
. .
a vida mente
espero a morte
porto do sempre
Aug 5th, 2011 by Christiana Nóvoa
não dou trégua
pra tua bonança:
estrago-a
com um barco cheio
da minha saudade
violenta
tormenta
no mar alheio
é mansa
tempestade
em copo d’outro
é água
Jul 16th, 2011 by Christiana Nóvoa
um vento solar
condensa a láctea via
que me alimenta
,
ordenha imensas
montanhas pra amamentar
as minhas ventas
Jul 7th, 2011 by Christiana Nóvoa
Jul 4th, 2011 by Christiana Nóvoa
< calix meus inebrians quam praeclarus est >
paz nossa, que estais no céu,
venha a nós o vosso rei nu,
o pão nosso de cada dia,
o azeite, o vinho,
o mel,
…
assim
na terra
como no self.
Jul 3rd, 2011 by Christiana Nóvoa
éter evaporo
um perfume do vazio
por cada poro
Jun 29th, 2011 by Christiana Nóvoa
.
o seu desleixo
rolou pelo meu queixo
como um seixo
.
Jun 26th, 2011 by Christiana Nóvoa
/
todo torpor
é por enquanto
,
e quando por desencanto
os sonhos e o corpo
discordam
,
laços desmancham
os nós
das cordas que acordam
o dia
;
e mundos vêm ao chão
que a morte não
adia e um dia não
há dia
mais não
;
e se nem é tarde
,
o que arde depois
?
sob as cinzas: os pós
de mim a sós
,
de sóis a dois
,,
uma cisma tardia
,
uma sensação
de após
…
apoesia
,
ora pois
.
Jun 25th, 2011 by Christiana Nóvoa
,
a mata ecoa
murmurinhos que a rua
acua e mata
,
refúgio da crua e rústica
colcha acústica
.
.
Jun 22nd, 2011 by Christiana Nóvoa
meu corpo aflito
só tem fé
nos elementos
tenho pressa
meu reino não é
deste distrito
nada menos
que o sangue infinito
me atravessa
.
.
.
Jun 22nd, 2011 by Christiana Nóvoa
*
o breu transborda
;
noite longa dá corda
no relógio de sol
.
Jun 19th, 2011 by Christiana Nóvoa
Jun 18th, 2011 by Christiana Nóvoa
,
sangro e sorrio
e se choro um rio
rio mais forte
,
se ardo em frangalhos
mais eu gargalho
por cada poro
,
mas se a dor não passa
o riso perde a graça
e eu coro
,
,
,
inspiro mais fundo
e rio de morte
humoribundo
.
Jun 16th, 2011 by Christiana Nóvoa
–
tudo o que é grave pesa
sobre o ar
;
já o que é agudo
lesa
sob a tez
,
desfere brasa
,
fere a asa
da ave
,
leve
,
apesar
das leis
.
.
.
Jun 12th, 2011 by Christiana Nóvoa
.
dói-me o pescoço
de pensar sob o peso
de ser leve
e o prolongado esforço
de ser breve
.
Jun 9th, 2011 by Christiana Nóvoa
poesia não é um vício
,
é o pleno e são exercício
dos ócios do ofício
.
Jun 7th, 2011 by Christiana Nóvoa
se o diretor sou eu,
posso ser feliz pra sempre
nos braços de morfeu
?
Jun 2nd, 2011 by Christiana Nóvoa
pinga-me um lírio
nos cílios ; poesia é
o melhor colírio
.
May 30th, 2011 by Christiana Nóvoa
cesse o cricrilo:
sou réu confesso
matei o inseto
!
sim fiz aquilo
não porque quí-lo
mas porque grilo
.
.
[em homenagem ao poeta, biólogo e esperançólogo Assis de Mello, a quem confessei recentemente um inseticídio atroz, aqui >> https://novoaemfolha.com/2006/08/a_esperan_a_que_morre.html ]
May 29th, 2011 by Christiana Nóvoa
lábil sentido:
a língua do silêncio
em meu ouvido
.
May 28th, 2011 by Christiana Nóvoa
!
deus eu existo
.
fiz o sol aparecer
aos pés do cristo
May 27th, 2011 by Christiana Nóvoa
pintou um clima:
o tempo abriu um guarda-chuva
com a gente em cima
!
May 26th, 2011 by Christiana Nóvoa
lava ardendo
eu molhada e você
nem
~
eu morrendo
afogada e você
nada
~~
você nada
você nada
~~~
você nada muito bem
May 26th, 2011 by Christiana Nóvoa
já dia eu vejo
uma estrela que insiste em
piscar num canto
*
brilha e no entanto
seu desejo é o mais triste:
possa o sol vê-la
.
May 23rd, 2011 by Christiana Nóvoa
May 21st, 2011 by Christiana Nóvoa
sol frio me olha
de soslaio me acerta a
íris em cheio
/
saio intacta flor
de maio ferida aberta
em meio ao cacto
*
May 18th, 2011 by Christiana Nóvoa
.
a cidade urbe
urde uma cilada
caravana ladra
alcateia ruge
a plateia é rude
a janela é fosca
o passante é tosco
o possante é fusca
a conversa é rusga
o céu é vermelho
a luz é tardia
dia já vai tarde
nem a noite surge
nem a madrugada
a vista é cansada
a espera é vazia
o poste me ofusca
a pista me aturde
o joelho enruga
ansiedade arde
a idade urge
.
May 2nd, 2011 by Christiana Nóvoa
.
pro vaticano,
joão de deus é beato
e alá, profano
.
mas não me engano:
quem os ama não mata,
não executa
.
se há guerra santa,
a paz é prostituta
e o amor, boato
.
Apr 27th, 2011 by Christiana Nóvoa
a lua deságua
na aura branda um ardor misto
de fumo e alcaçuz
,
lava o suvaco do cristo
numa luz azul lavanda
.
Apr 19th, 2011 by Christiana Nóvoa
apuro o ouvido
pro agudo sentido
de uma cigarra
,
puro pedido de ajuda
perdido na algazarra
.
Apr 13th, 2011 by Christiana Nóvoa
,
uma esperança
me aranha na mosca
e mariposa
;
tatu, constato
meu talento inato pra
bicho-do-mato
.
Apr 7th, 2011 by Christiana Nóvoa
/
se tudo for à falésia
o que nos restinga
é amar ambaia
.
Apr 1st, 2011 by Christiana Nóvoa
Mar 28th, 2011 by Christiana Nóvoa
quaresma empilha
folhas mortas, qual resma
de velhas poesias
,
,
,
engavetadas em vão
no vão sob a mobília
.
Mar 22nd, 2011 by Christiana Nóvoa
Mar 22nd, 2011 by Christiana Nóvoa
[ mais uma da série NIPOCALIPSE ]
.
não tem pára-raio
para o raio de ação
da radiação
!
Mar 15th, 2011 by Christiana Nóvoa
Mar 13th, 2011 by Christiana Nóvoa
acordei morta
de dor nas costas
do japão
.
Mar 1st, 2011 by Christiana Nóvoa
lua ando cheia
chuto o balde me entorno
areia
~
escorro pro mar
retorno ao que sempre
sereia
~
marola me esbaldo:
onda velha é que dá
bom caldo!
Feb 28th, 2011 by Christiana Nóvoa
viraláctea lambo
a lua ; a língua sua
a maresia
,
Feb 16th, 2011 by Christiana Nóvoa
.
o verso é o avesso
de uma folha escrita
por um deus distraído
e virada
.
o verso é o outro lado
da cousa é a face fosca
da lousa é o fundo prata
do espelho é a lua à mingua
é a sombra é a fase mais preta
da língua
.
o verso é perverso
é o veludo liso
do fundo falso do piso
do cadafalso
é o inverso agudo
.
é o forro roto
do luxo é o estofo roxo
do luto é o riso frouxo
do mudo
.
o verso é o reverso
da revolta é o refluxo
sem volta é a reviravolta
da flecha lançada
pelo arco reflexo
do nada
.
o verso é o universo
refletido ao contrário
no vidro convexo
do aquário
.
.
Feb 11th, 2011 by Christiana Nóvoa
.
olho `[a distância
.
me vejo ] já [ nela
.
– você se [im]porta?
.
.
Feb 9th, 2011 by Christiana Nóvoa
Feb 5th, 2011 by Christiana Nóvoa
.
meu ser_pente
si_lente de si
de repente
se sente passado
p[r]ensado
pre_mente
pó_ente embalado
pra presente
[ . ]
rec[h]eio
de gente
num embrulho
cheio de aqui
e barulho
.
Feb 4th, 2011 by Christiana Nóvoa
“escreve, escrava!
és escriba, não nababa”
a musa me usa
e morrer livros
não me livra
nunca acaba a minha estiva
de morder viva
a palavra
.
Feb 2nd, 2011 by Christiana Nóvoa
–
fico torta
como quem aborta
meia viva
–
meio esquiva
meio obtusa
como uma porta
–
meio aberta
meio abstrata
como quem se mata
–
meio alta
meia ponta
como quem apronta
–
meio santa
como quem esfinge
meia grega
–
meia fera
como quem espera
meio cega
–
absurda
e muda
como um buda
.
Oct 2nd, 2010 by Christiana Nóvoa
confio no fio
do instinto: por cá, minho
por lá, birinto
Sep 27th, 2010 by Christiana Nóvoa
a mata não dorme
desperta_dor num acorde
colcheia de grilos
à_casa,_lamento
dormir só na_morada
sem você dentro
a_manhã me espera
o que não mata deflora
de prima e à vera
…
Sep 6th, 2010 by Christiana Nóvoa
Aug 24th, 2010 by Christiana Nóvoa
a larva lavra
a terra sem pá
faz furo enorme
no escuro
dá duro
como quem dorme
(b)erra como quem verme
de dor profundo
da toca
dor minhoca
~
Aug 10th, 2010 by Christiana Nóvoa
fraca como aço
minha força é um fracasso
inoxidável
.
Aug 1st, 2010 by Christiana Nóvoa
.
mês morto, mês posto:
a césar o que é de julho,
agosto pra tudo.
.
Jul 28th, 2010 by Christiana Nóvoa
a arte é o tear
do templo é o canhão
no escuro é a flor
no muro
do forte
.
a arte é o chão
atento
ao tropeço
do palhaço é o vazio
duro
do ocaso
.
é o preço de ocasião
da sorte é o traço
de ouro
puro no ar
raro efeito
do acaso
o tempo
é o recomeço
.
é o eco de um
assovio que assopra
o fole que enche
o oco
(
o espaço sensível
ao toque
contíguo à glote
exígua
;
essa área estranha
e pouca
entre o calabouço sob o assoalho
macio
da língua
e o arco do teto
alto do palato
mole
do céu
da boca
)
é o vão
entre a morte e o soco
na entranha
.
Jun 17th, 2010 by Christiana Nóvoa
na manhã mais fria
o orvalho amorna
um aroma que chora
um cheiro que molha
os lençóis toalhas
torrentes de amor
me afloram dos olhos
lágrimas de éter
gotas de memórias
néctar que entorna
na cama vazia
vapor que conforta
o ardor da navalha
que desfia
corta
.
fende em duas postas
a crueza em flor
de minha natureza
morta
Jun 9th, 2010 by Christiana Nóvoa
a graça que deus dá seja
de graça
.
desgraça que adeus deu seja
desdita
.
em graça e desgraça
passa batida a bendita
vida dita
eu viva
.
esta exata
descarta
em dúvida
.
ah dádiva vívida
!
a vida é ávida
por dar adeus
aos seus
…
eu revido
desvio o rumo
vadia adio durmo
sozinha
e ardo ainda
.
acordo cada corda acesa incensa insana
inserena ao vento ao sereno ao relento
sereia selenita lulusanta
em serenata
.
eu neonata
diva rediviva
taça desmedida
ave cheia
de graça
…
Jun 3rd, 2010 by Christiana Nóvoa
mau tempo é isto:
corcovado sem corcova
céu sem cristo
a luz adere
à pele: se é cinza fora
a brasa mora
meu tempo dança:
um passo de intempérie
dois de abundância
.
.
O trigrama Li significa “aderir a algo”, “ser condicionado”, “depender de algo” e “claridade”. Uma linha obscura liga-se a uma linha luminosa acima e a outra abaixo. Assim surge a imagem de um espaço vazio entre duas linhas fortes, o que as torna luminosas. Li é a filha do meio. O Criativo incorporou a linha central do Receptivo e desse modo se forma Li. Como imagem é o fogo. O fogo não tem uma forma definida, porém liga-se aos corpos que queimam, tornando-se luminoso. Assim como a água desce do céu, o fogo arde elevando-se da terra. Enquanto K’an significa a alma aprisionada no corpo, Li significa a natureza em seu esplendor.
Obscurecimento da Luz (hexagrama 36):
A luz mergulhou sob a terra: o OBSCURECIMENTO DA LUZ. Belo e claro no interior, gentil e dedicado no exterior, estando, por isso, exposto a grandes adversidades: assim era o Rei Wên. “Durante a adversidade é favorável manter-se perseverante”: isso significa encobrir sua luz. Cercado por dificuldades entre aqueles que lhe são mais próximos e, entretanto, mantendo sua vontade fixa no que é correto: assim era o príncipe Chi.
May 18th, 2010 by Christiana Nóvoa
a moça posa pro moço
qual nem lhe fizesse mossa
o assombro
do observador atento
sentado ali do outro lado
rabiscando em alvoroço
intenso
seu repasto um guardanapo
o lápis rasgando o lenço
mil traços por cada canto
da mesa
como quem desse de ombros
a moça finge que almoça
lenta acaricia a louça
inglesa
disfarça faz vista grossa
assopra a colher de sopa
no prato intacta a poça
espessa
brinca com a coxa de frango
de sobremesa morango
o tempo suspenso em pausa
pro almoço
penso que essa noite enquanto
o olhar do moço repousa
(pálpebras em movimento)
na penumbra do seu quarto
uma mariposa pousa
no esboço
ao ver-se ali num espanto
de asas o olhar se apossa
esvoaça e roça o pescoço
da moça
imagem: Auguste Renoir, HEAD OF A WOMAN or WOMAN WITH A ROSE
[ arquivo em audio >>a poça ]
* Este poema me veio a partir de uma brincadeira com o Guga sobre as diferentes pronúncias da palavra poça, no Rio em São Paulo. Aqui, as duas formas são possíveis, à escolha do freguês. Como você prefere, pôça ou póça?
May 13th, 2010 by Christiana Nóvoa
o disco lunar
toca um silêncio arranhado
de cigarras
.
May 10th, 2010 by Christiana Nóvoa
(sempre)
sem remédio
entre a surpresa
(sopro)
que me supre
e o supremo
(tédio)
que me pensa
.
.
.
“The Philosopher’s Egg,” 2004- 2005
Carved pencils, graphite on paper
mixed media construction
May 9th, 2010 by Christiana Nóvoa
May 4th, 2010 by Christiana Nóvoa
,
quase que um haicai
me cai ao acaso aqui:
caqui kamikaze
.
May 1st, 2010 by Christiana Nóvoa
Alice at the Mad Hatter’s tea party — Illustration to the fifth chapter of Alice in Wonderland by John Tenniel.
Estive assistindo ao simpósio Travessias Poéticas: Brasil e Portugal e, em dado momento, tive a graça de ver-me sentada num café com duas das grandes poetas da nossa língua, uma brasileira e outra portuguesa: Alice Ruiz e Ana Luisa Amaral.
Luxo total para o meu eu lírico! Um desses momentos inesperados e irrepetíveis que a gente sabe que vai reter na memória para sempre. As duas poetérrimas e euzinha, as três nos conhecendo ali, naquele momento. Claro que eu escutando mais do que falando, né gente, que eu tenho um mínimo de senso, mas no final estávamos contando a vida, falando de filhos e tecendo considerações sobre o feminino. Esse tricô básico de mulheres, enriquecido pelos fios preciosos das duas que, generosas, compartilharam com esta aspirante a poeta pérolas de sua sabedoria.
Esse momento durou o tempo mágico de um café que se alongou num banco anexo, dando para o ar livre onde elas pudessem fumar, e eu, aspirar feliz seus sinais de fumaça.
Apresento aqui cada uma delas com um poema de que gosto especialmente, mas há bem mais a conhecer. Vale a pena embrenhar-se nas obras de ambas pelo tempo de muitos e muitos cafés.
sumiê de fios, de folhas, sem tinta e sem pincel, onde o espaço faz papel de papel, o fio faz o efeito da escrita, os livros, fios em branco, são lidos pelo avesso, de lado, de vulto, de soslaio, os fios das folhas em ritmo, ora gráfico, ora elétrico, escrevem rimas ricas, linhas em todas as direções devolvem, resolvem nosso emaranhado enquanto flutua a dura madeira, nua carne, árvore madura suspensa, susto que pensa, pressente, arrepio de pêlos que nascem, atravessam, passam, morrem no pálido da pele onde ainda persiste um nada que se move na força dos fios e revela sua leveza e eleva o peso do espaço com todas as palavras não ditas
De pé sobre o abismo
e não morri:
Canto gregoriano
muito limpo
não me chegou:
o fim
Catedral
sobre o risco,
sobre um azul tão grande
que afundar-me podia
Ao fundo do mais fundo
mergulhei
e não morri:
amei
.
Apr 23rd, 2010 by Christiana Nóvoa
a lua clara
bóia como abertura
no teto do mundo
.
.
P.S. – Fiz este poema há tempos, e não percebi que era um haicai. Lembrei dele qdo vi a foto acima. Re-publico agora, devidamente haicaizado. E por falar em lua, Salve Jorge!
Apr 17th, 2010 by Christiana Nóvoa
Tempos atrás confessei aqui minhas experiências secretas com “O Segredo”, no mal-acentuado texto “O que abunda atrai”.
Hoje cometi o improviso abaixo num comentário ao post de uma flor amiga, que questionava o porquê d’O tal Segredo não funcionar exatamente como a gente intenciona…
o pulo do gato
d’O Segredo
é um simples fato:
o que se pensa
em segredo
fala mais alto
…
Bons pensamentos pra todos nós. Porque a gente pensa que sabe o que pensa mas, às vezes, descompensa. Paciência: respira… e repensa.

haicai-folha da caixa nóvoa em folha
Apr 2nd, 2010 by Christiana Nóvoa
Tive a ideia ao fim de uma noite virada, escrevendo, e lindamente amanhecida, passarinhos musicando e um casal de tucanos (sem conotação política, porrrrfavorrrrr) rasgando um céu desse azul que só as manhãs de outono sabem ter.
Olhei pela janela e vi o jardim coberto de folhas secas, na verdade um pouco úmidas do orvalho da madrugada, e achei que aquilo dava um caldo. Rescaldo de folha, sopa de verdura, de repente me lembro do verde… Nóvoa em Folha [momento aha heureca lampadinha plim]: um livro-caixa de haicais escritos em folhas!
Desci e catei todas as folhas que me pareceram escrevíveis, na verdade tirando as rôtas e as esfarrapadas não sobraram muitas, mas deu pra encher a trouxa improvisada na barra da camisola.
E agora? Nunca escrevi em folha antes, não tinha idéia de como fazer, nem se ia dar certo, mas de algum modo as etapas me vieram ao caos da mente de modo claro e até organizado: primeiro, eu tinha que prensar e desidratar as folhas. Peguei na biblioteca todos os catágolos que encontrei, dentro dos quais pus as folhas, e mais uma torre quase da minha altura de livrões bem pesados, pra pôr em cima.
Enquanto a gravidade fazia seu trabalho, fui à papelaria e comprei duas caixas com tampa, verniz fosco, tinta spray dourada e mais umas coisinhas, e fui procurar uma caneta que escrevesse em folhas. Precisa ver a cara da vendedora, quando eu tiro da bolsa uma folhona amarelada de amendoeira, que catei na rua ali perto, e começo a experimentar todas as canetas da loja. Finalmente achei a caneta perfeita, branca (de gel, caso você queira escrever em folhas algum dia), e fui feliz da vida pra casa, fazer arteirice.
A essa altura, as folhas já estavam no ponto, e nem sei explicar como foi tudo perfeito. Numa olhada rápida nos arquivos aqui do blog, achei 17 haicais, um bom número, já que o haicai tem, ao todo, 17 sílabas. Além disso, foi relativamente fácil escrever nas folhas, embora seja necessário escrever devagar pra que a tinta tenha um bom fluxo, repassando a caneta 2 ou 3 vezes, pra ficar bem legível. Até minha letra saiu boa (minha caligrafia tem humores, assim como meu cabelo, e nem todos apresentáveis) e, pra minha surpresa, errei bem pouco.
Cobri as folhas com verniz, pra fixar a escrita, e depois “plastifiquei” com cola cascorez, duas camadas, pra dar resistência. Pintei as caixas, que eram estampadas, com o spray dourado, pra uniformizar. Tive que deixar a tralheira secando enquanto ia tendo mais ideias.
Fui à Casa Pedro e comprei canela em pau, aniz estrelado, folhas de louro e noz moscada, pra representar os 4 elementos (respectivamente água, ar, fogo e terra). Separei uma parte pra decorar as tampas das caixas e o restante pra pôr dentro, ornando e perfumando as folhas: um magnífico buquê de árvore.
No dia seguinte, ou no anterior, não sei bem (na verdade eu passei uma semana praticamente sem dormir, em surto maníaco-criativo), fui ao Jardim Botânico catar mais folha, delícia de tarefa, mas levei um gentilíssimo puxão de orelha de um funcionário, que me abordou meio constrangido pra dizer que, embora as folhas secas sejam varridas e vão pro lixo, é proibido catá-las. Expliquei que era um trabalho de arte, que era só daquela vez e tal, e que não ia pegar mais nenhuma (já estava com a sacolinha cheia), e ele então, mui atenciosamente, fez vista grossa e deixou passar.
Tratei as folhas e fiz uma nova leva dos 17 haicais, para a segunda caixa. Uma atividade bem terapêutica, escolher as folhas e tentar diagramar o haicai, e nem é difícil porque, curiosamente, a estrutura clássica do haicai tem uma frase menor acima, uma maior ao centro, e outra mais curta abaixo (5/7/5), o que cabe direitinho no formato da folha. Suponho até que os primeiros haicaístas, em sua bucólica contemplação, também escrevessem assim (só que na vertical, porque eram japoneses). Os haicais e as folhas parecem ter sido feitos um para o outro.
Foi lindo, mas ao fim da segunda “fornada” de folhas, com suas inúmeras etapas – que nem detalhei aqui pra não me cansar dobrado, mas até passar a ferro eu passei – decidi que se encerrava ali minha carreira de monja fólio-copista.
Depois, veio um momento complexo: forrar a caixa. Usei uma técnica de encadernação selvagem desenvolvida por mim mesma, com cartolina, fita, e acabamento interno em exclusivo e inventado na hora “rolotê de papel-de-seda” (porque não achei barbante), que consiste em papel de seda torcido e embebido em cola.
E aí fui decorar as tampas: simplesmente afogar os 4 temperos elementais em poças de cola, depois envernizar pra tirar o excesso de brilho, e salpicar tudo de canela em pó e noz-moscada ralada na hora. Fiz umas “folhas de rosto” com as informações, assinei e colei no fundo da tampa.
Quando ficou pronto, tive quase o mesmo assombro imodesto de quando meu filho nasceu: nossa, essa coisa incrível saiu de mim?
Eu pensava em fazer uma série, pra vender, mas não tinha ideia do trabalho que ia dar. Gosto de fazer as coisas com prazer, e amei cada momento da confecção dessas duas caixas, mas não faria com prazer 20 ou 30. Até porque eu prometi praquele funcionário gentil e educado que não ia pegar mais nenhuma folhinha, lembra?, e o jardim aqui de casa não dá conta de uma produção industrial.
Então serão só 2 caixas mesmo, filhas gêmeas (não-idênticas) de mãe divorciada. Uma delas ficou pra mim (apeguei!) e a outra, não sei ainda se vendo ou se fico. Se for vender, sendo peça semi-única, não sei por quanto. Aceito sugestões (e oferta$) nos comentários ou por email.
Tem fotos aqui, ó. Não ficaram grande coisa, fiz com a câmera do meu celular vagabundo, mas dá pra ter uma noção.
Feliz Páscoa a todos! E que o outono nos traga bons frutos.
~ ~ *** ~ ~
Nóvoa em Folha: a caixa >> FOTOS AQUI
Mar 26th, 2010 by Christiana Nóvoa
psicóloga em surto procura
impaciente capaz de querer
com loucura
\
Mar 22nd, 2010 by Christiana Nóvoa
com quantos panos se rasga
um corpo nu?
de quanta meia-sola salta
um pé descalço?
o quanto uma cidade pena,
encampa um pássaro?
de quanto livro a estante sabe
o instante livre?
quanta largueza pensa que (a)cabe
por um triz?
quanta saúde, um plano
pra morrer feliz?
Mar 6th, 2010 by Christiana Nóvoa
Feb 27th, 2010 by Christiana Nóvoa
unamo-nos humanos
:
demo-nos mano a mano
amemo-nos sem mais
.
mesmo se somos menos
iguais a nós não temos
;
nossos sonhos somemos
.
em tempos pouco amenos
,
amai-nos uns
ao menos
…
amém
Imagem: Nossa Senhora de Guadalupe
Feb 21st, 2010 by Christiana Nóvoa
não grites
não faças
ruído
.
a fera
com ferro fere
cada berro
desferido
.
aos tristes
a vida prefere
quem com fé ri da
penúria
.
me entrego
ao jogo
me aferro e
fogo
!
é certo
que erro
porém não
duvido
:
confere a fúria e serás
aferido
.
*em 14/02/2010 teve início o ano tibetano de 2137 –
Ano do Tigre de Ferro.
E você, já se alistrou?
Imagem lá em cima: “Tigre-de-madeira”, obra original e foto por Guga Alayon
Imagem cá embaixo: “Tigre-de-Ferro”, ilustração da Web ‘desapropriada’ por Rafael Reinehr
Feb 12th, 2010 by Christiana Nóvoa
Pro meu amigo e compadre Fred Pinheiro
pras suas estrelas amadas Ivana e Julia
pro Vidigal, Rio, Brasil e o mundo inteiro:
Lá vai nosso iluminador com seu chapéu
Acender um morro de estrelas lá no céu!
…
0 ACENDEDOR DE LAMPIÕES (Jorge de Lima)
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
A medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: –
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita,
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões da rua!
…
… O príncipezinho não podia atinar para que pudessem servir, no céu, num
planeta sem casa e sem gente, um lampião e o acendedor de lampiões.
No entanto, disse consigo mesmo :
– Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, é menos absurdo que o
rei, que o vaidoso, que o homem de negócios, que o beberrão. Seu trabalho ao
menos tem um sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais
uma estrela, mais uma flor. Quando o apaga, porém, é estrela ou flor que
adormecem. É uma ocupação bonita. E é útil, porque é bonita.
[O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry]
Feb 6th, 2010 by Christiana Nóvoa
lá vem o bloco
o surdo a caixa a cuíca
um abraço pra quem fica
é o meu sinal
: debandar
não bebo não sambo
não caio no ditirambo
bacanal sarto de banda
bundalelê
não vou lá
ô abre alas
que eu quero seguir meu caminho
tô no bloco do eu sozinho
com quem eu amo
e olhe lá
não curto a farra
pra quem se amarra aquele abraço
sai da frente eu sou da lírica
abre alas que eu quero
pensar
~;~
Outro poema meu (anti)carnavalesco aqui , pra provar que a indisposição foliã não é de hoje.
Feb 3rd, 2010 by Christiana Nóvoa
espantam-me os sonhos pois
sou eu ali e no entanto
em nada
me espanto
os enredos bisonhos
as pessoas que mudam
os animais feras
loucas mansões labirintos
de medos emoções
vagas o mar
escuro até o céu
quase sempre encoberto
onde nada é perto e nunca
se volta ao mesmo ponto
de vista e se algo ali
se revela
( )
ao menos não dói depois
mas também não sei mais
daquela que me foi
…
só sei que ao abrir os olhos
como sói quase todo dia
sinto que perco mundos
por noite mas a luz
apaga
quase todo o filme
vela
Jan 31st, 2010 by Christiana Nóvoa
agora
ascendo
à pura essência
de patchouli
medito porém nem sempre
evito
o escândalo
recaio no escuro
abraso me
abano te
aceno
sinais
defumos
inspirais
acendo um
sândalo
Jan 14th, 2010 by Christiana Nóvoa
e vem a chuva benfazeja
,
cai no chão ferve
espuma desce
pela calçada
feito cerveja
gelada
…
Jan 10th, 2010 by Christiana Nóvoa
Jan 8th, 2010 by Christiana Nóvoa
a maré dança
com a lua
ora mansa
ora avança
recua
ora cheia
ronda brava joga areia
no ventilador
lava a rua
afoga
ateia fogo
às teias
ao mofo
às ameias
do cafofo
a maré
aguardente
na veia
Dec 18th, 2009 by Christiana Nóvoa
tempos de chumbo:
o vil metal nos funde
no estanho mundo
.
Dec 5th, 2009 by Christiana Nóvoa
Nov 26th, 2009 by Christiana Nóvoa
Eu penso assim, num poema
as palavras têm muitos sentidos, cinco são o mínimo do senso comum.
O cheiro, veja bem, nem sempre é o que se espera: qui_mera suja o pé na primeira pisada em falso.
E o paladar amargura, tem quem use, não faz meu gosto. Na língua prefiro o que arde.
No mais a voz da musa grafa os lótus que afloram do fundo branco dos murmúrios, antes que murchem no próximo suspiro.
Olha que onda, o que eu disse? nada pois, de olhos abertos sob o som pra ver que tudo.
Polir o verbo bem custa e revela um certo tato e conquanto evite a rudeza nem sempre aumenta o brilho, sobretudo quando encera a falta de.
quem muito lapida às vezes quebra o ladrilho
<mosaico móbile tudo que se move colorido e vário encontra contratempo em sentido anti>
horário
Tem outros muitos sentidos, claro, e obscuros. Figurado, por exemplo: um álbum pra cada boa palavra na banca mais próxima.
Duplo sentido, encontram-se a dois. O verdadeiro, a sós.
Sentido fica quem sente dor de si, depois.
> o que teria sido não sabe o que é bom ; quem não vem não faz sentido <
Sentido tem aonde ir.
Sentido se encontra distraído.
Senta aí e sente o som do meu a _ _ r
no seu
ouvido
.
.
(Publicado originalmente em 10/03/2007, revisado hoje. Lembrei por causa da matéria dO Globo.)
Nov 25th, 2009 by Christiana Nóvoa
sol à vista!
meus olhos renovam o visto
de turista
Nov 20th, 2009 by Christiana Nóvoa
Nov 16th, 2009 by Christiana Nóvoa
Comentário ao post Panta rei do blog Tempus Fugit
Panta rei, pensou Heráclito,
os olho fitos num rio
em que não me banharei…
talvez por força do hábito
eu periclito mas rio
do mar que outrora pensei.
.
.
Update: este poema foi citado e ilustrado no belo site Imaginário Poético.