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só santo
ou louco
ama tanto
quem ama pouco

.

 

 

meta:morfose

 

a  borboleta

é a obra que devora 

a crisálida

 

 ~

 

vista fora do artista,

toda crise é válida

.

 

 

de leve

 

asas no jardim

;

quem semeia bem-me-quer

colhe querubim

{nem a chuva de chumbo 

me desarcanja o mundo}

 

quem polpa tem

 

micos nas telhas

;

essa manhã promete

frutas vermelhas

.

 

Foto: Analu Prestes
 
 
.

bipolar

 

por todo o sempre

amor te espero

avidamente

.  .

a vida mente

espero a morte

porto do sempre

 

 

 

não dou trégua
pra tua bonança:
estrago-a

 

com um barco cheio
da minha saudade
violenta

 

tormenta
no mar alheio
é mansa

 

tempestade
em copo d’outro
é água

deleite

 

um vento solar

condensa a láctea via

que me alimenta

,

ordenha imensas

montanhas pra amamentar

as minhas ventas

gozosa

Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Foto: Analu Prestes

 

o ousado goza 

;

o orvalho lambe o espinho

e molha a rosa

,

calix

 < calix meus inebrians quam praeclarus est >

 

 

paz nossa, que estais no céu,

venha a nós o vosso rei nu,

o pão nosso de cada dia,

o azeite, o vinho,

o mel,

assim

na terra

como no self.

 



 

éter evaporo

um perfume do vazio 

por cada poro

sísifo

.

o seu desleixo

rolou pelo meu queixo

como um seixo

.

pois ia

/

todo torpor

é por enquanto

,

e quando por desencanto

os sonhos e o corpo

discordam

,

laços desmancham

os nós

das cordas que acordam

o dia

;

e mundos vêm ao chão

que a morte não

adia e um dia não

há dia

mais não

;

e se nem é tarde

,

o que arde depois

?

sob as cinzas: os pós

de mim a sós

de sóis a dois

,,

uma cisma tardia

,

uma sensação

de após

apoesia

,

ora pois

.

som livre

,

a mata ecoa

murmurinhos que a rua

acua e mata

,

refúgio da crua e rústica

colcha acústica

.

.

corpuschristi

 

meu corpo aflito

só tem fé

nos elementos

 

tenho pressa

meu reino não é

deste distrito

 

nada menos

que o sangue infinito

me atravessa

 

.

.

.

*

o breu transborda

;

noite longa dá corda

no relógio de sol

.

\

a dor é dura

lâmina

que me retalha

a ânima

em fatias muito

finas

,

Rembrandt – Lição de Anatomia

árdua finura

que a minha mortalha

fria examina

sem qualquer intuito

de cura

.

.

deus é humor

,

sangro e sorrio

e se choro um rio

rio mais forte

,

se ardo em frangalhos

mais eu gargalho

por cada poro

,

mas se a dor não passa

o riso perde a graça

e eu coro 

,

,

,

inspiro mais fundo

e rio de morte

humoribundo

.

tudo o que é grave pesa

sobre o ar

;

já o que é agudo

lesa

sob a tez

,

desfere brasa

,

fere a asa

da ave

,

leve

,

apesar

das leis

.

.

.

cervical

.

dói-me o pescoço

de pensar sob o peso

de ser leve

e o prolongado esforço

de ser breve

.

verde verdade

 

,

em última análise

eu sempre prefiro

uma fotossíntese

.

 

poesia não é um vício

,

é o pleno e são exercício

dos ócios do ofício

.

filme noir

 

se o diretor sou eu,

posso ser feliz pra sempre

nos braços de morfeu

?

 

pinga-me um lírio

nos cílios ; poesia é

o melhor colírio

.

kafkiana

 

cesse o cricrilo:

sou réu confesso

matei o inseto

!

sim fiz aquilo

não porque quí-lo

mas porque grilo

.

.

[em homenagem ao poeta, biólogo e esperançólogo Assis de Mello, a quem confessei recentemente um inseticídio atroz, aqui >> https://novoaemfolha.com/2006/08/a_esperan_a_que_morre.html ]

arrepio

 

lábil sentido:

a língua do silêncio

em meu ouvido

.

iluminação

 

!

deus eu existo

.

fiz o sol aparecer

aos pés do cristo

cumulus

 

pintou um clima:

o tempo abriu um guarda-chuva

com a gente em cima

!

nadação

 

lava ardendo

eu molhada e você

nem

~

eu morrendo

afogada e você

nada

~~

você nada

você nada

~~~

você nada muito bem

estreladalva

 

já dia eu vejo

uma estrela que insiste em

piscar num canto

*

brilha e no entanto

seu desejo é o mais triste:

possa o sol vê-la

.

Foto: Analu Prestes 'Quando você chora...'

.

me enterro morto

em teu verde conforto

home sweet horto

.

se mente brotar um dia

que seiva aflorir poesia

*

friaca

 

sol frio me olha

de soslaio me acerta a

íris em cheio

/

saio intacta flor

de maio ferida aberta

em meio ao cacto

*

viva cidade

 

.

a cidade urbe

urde uma cilada

caravana ladra

alcateia ruge

a plateia é rude

a janela é fosca

o passante é tosco

o possante é fusca

a conversa é rusga

o céu é vermelho

a luz é tardia

dia já vai tarde

nem a noite surge

nem a madrugada

a vista é cansada

a espera é vazia

o poste me ofusca

a pista me aturde

o joelho enruga

ansiedade arde

a idade urge

.

 

 

.

pro vaticano,

joão de deus é beato

e alá, profano

.

mas não me engano:

quem os ama não mata,

não executa 

.

se há guerra santa,

a paz é prostituta

e o amor, boato

.

 

a lua deságua 

na aura branda um ardor misto

de fumo e alcaçuz 

,

lava o suvaco do cristo

numa luz azul lavanda

.

 

apuro o ouvido

pro agudo sentido

de uma cigarra

,

puro pedido de ajuda

perdido na algazarra

.

bu;cólica

,

uma esperança

me aranha na mosca

e mariposa

;

tatu, constato

meu talento inato pra

bicho-do-mato

.

/

se tudo for à falésia

o que nos restinga

é amar ambaia

.

dement’ira

.

hoje o último

ditador caiu! caiu

primeiro de abril

.

Foto de Evandro Teixeira. Na madrugada do dia 1º de abril, tropas golpistas tomam o Forte de Copacabana. Rio de Janeiro, 1964.

quaresmeira

 

quaresma empilha

folhas mortas, qual resma

de velhas poesias

 

,

,

,

 

engavetadas em vão

no vão sob a mobília

.

folhinha

Foto: Cristiana Miranda

 

,

,

entra ano, sai mês,

eu tardo, ou cedo ao sono…

outono outra vez.

,

,

ó raios!

[ mais uma da série NIPOCALIPSE ]

.

não tem pára-raio

para o raio de ação

da radiação

!

 

morre uma usina.

jaz vã; vai-se o seu uso,

fica a [assaz] sina.

 

imagem: cartazes de solidariedade ao japão >> http://www.blckdmnds.com/cartazes-de-solidariedade-ao-japao/

pesar

 

acordei morta

de dor nas costas

do japão

.

praiana

 

lua ando cheia

chuto o balde me entorno

areia

~

escorro pro mar

retorno ao que sempre

sereia

~

marola me esbaldo:

onda velha é que dá

bom caldo!

ah mar

viraláctea lambo

a lua ; a língua sua

a maresia

,

videverso

.

o verso é o avesso

de uma folha escrita

por um deus distraído

e virada

.

o verso é o outro lado

da cousa é a face fosca

da lousa é o fundo prata

do espelho é a lua à mingua

é a sombra é a fase mais preta

da língua

.

o verso é perverso

é o veludo liso

do fundo falso do piso

do cadafalso

é o inverso agudo

.

é o forro roto

do luxo é o estofo roxo

do luto é o riso frouxo

do mudo

.

o verso é o reverso

da revolta é o refluxo

sem volta é a reviravolta

da flecha lançada

pelo arco reflexo

do nada

.

o verso é o universo

refletido ao contrário

no vidro convexo

do aquário

.

.

[até] a vista

.

olho `[a distância

.

me vejo ] já [ nela

.

– você se [im]porta?

.

.

nonsense

.

no espelho

de alice

tem um coelho

caolho

;

na orelha

do coelho

tem um piolho

pentelho

;

na cabeça

do piolho

– que maluquice

!

tem o olho

vermelho

de alice

.

[imagem: Eye (1946) – M. C. Escher]

.

meu ser_pente

si_lente de si

de repente

se sente passado

p[r]ensado

pre_mente

pó_ente embalado

pra presente

[ . ]

rec[h]eio

de gente

num embrulho

cheio de aqui

e barulho

.

escrevidão

 

“escreve, escrava!

és escriba, não nababa”

 

a musa me usa

e morrer livros

não me livra

 

nunca acaba a minha estiva

de morder viva

a palavra

.

quando mudo:

fico torta

como quem aborta

meia viva

meio esquiva

meio obtusa

como uma porta

meio aberta

meio abstrata

como quem se mata

meio alta

meia ponta

como quem apronta

meio santa

como quem esfinge

meia grega

meia fera

como quem espera

meio cega

absurda

e muda

como um buda

.

ariadne

 

confio no fio

do instinto: por cá, minho

por lá, birinto

 

 

 

a mata não dorme

desperta_dor num acorde

colcheia de grilos

 

à_casa,_lamento

 dormir só na_morada

sem você dentro

 

a_manhã me espera

o que não mata deflora

de prima e à vera

 

 

destino inseto

 

tá na jura: até morrer!

mas do dilema entre ser

a finada ou a viúva

nem jesus cristo saúva

.  .

hai-kali

 

 

buraco-negra

nada conserta eu vulga

vulva concreta

 

.

 

 

kalidevi.jpg

humus

 

a larva lavra

a terra sem pá

 

faz furo enorme

no escuro

 

dá duro

como quem dorme

 

(b)erra como quem verme

de dor profundo

da toca

 

dor minhoca

 

~

 

o tempora!

  1. ó que pressa insana

que nos (a)funda: Continue Reading »

katana

 

fraca como aço

minha força é um fracasso

inoxidável

.

 

 

calendário

 

.

 

mês morto, mês posto:

a césar o que é de julho,

agosto pra tudo.

 

.

 

ars longa

 

a arte é o tear

do templo é o canhão

no escuro é a flor

no muro

do forte

.

a arte é o chão

atento

ao tropeço

do palhaço é o vazio

duro

do ocaso

.

é o preço de ocasião

da sorte é o traço

de ouro

puro no ar

raro efeito

do acaso

o tempo

é o recomeço

.

é o eco de um

assovio que assopra

o fole que enche

o oco

(

o espaço sensível

ao toque

contíguo à glote

exígua

;

essa área estranha

e pouca

entre o calabouço sob o assoalho

macio

da língua

e o arco do teto

alto do palato

mole

do céu

da boca

)

é o vão

entre a morte e o soco

na entranha

.

invernal

 

na manhã mais fria

o orvalho amorna

um aroma que chora

um cheiro que molha

os lençóis toalhas

torrentes de amor

me afloram dos olhos

lágrimas de éter

gotas de memórias

néctar que entorna

na cama vazia

vapor que conforta

o ardor da navalha

que desfia

corta

.

fende em duas postas

a crueza em flor

de minha natureza

morta

 

 
 

gratitude

 

 

a graça que deus dá seja

de graça

.

desgraça que adeus deu seja

desdita

.

em graça e desgraça

passa batida a bendita

vida dita

eu viva

.

esta exata

descarta

em dúvida

.

ah dádiva vívida

!

a vida é ávida

por dar adeus

aos seus

eu revido

desvio o rumo

vadia adio durmo

sozinha

e ardo ainda

.

acordo cada corda acesa incensa insana

inserena ao vento ao sereno ao relento

sereia selenita lulusanta

em serenata

.

eu neonata

diva rediviva

taça desmedida

ave cheia

de graça

 

fresta junina

mau tempo é isto:

corcovado sem corcova

céu sem cristo

 

 

a luz adere

à pele: se é cinza fora

a brasa mora

 

 

 

meu tempo dança:

um passo de intempérie

dois de abundância

 

.

.

 

li.jpgImagem: Trigrama Li (fogo)

 

O trigrama Li significa “aderir a algo”, “ser condicionado”, “depender de algo” e “claridade”. Uma linha obscura liga-se a uma linha luminosa acima e a outra abaixo. Assim surge a imagem de um espaço vazio entre duas linhas fortes, o que as torna luminosas. Li é a filha do meio. O Criativo incorporou a linha central do Receptivo e desse modo se forma Li. Como imagem é o fogo. O fogo não tem uma forma definida, porém liga-se aos corpos que queimam, tornando-se luminoso. Assim como a água desce do céu, o fogo arde elevando-se da terra. Enquanto K’an significa a alma aprisionada no corpo, Li significa a natureza em seu esplendor.

(fonte: I Ching)

 

 

 

Obscurecimento da Luz (hexagrama 36):

A luz mergulhou sob a terra: o OBSCURECIMENTO DA LUZ. Belo e claro no interior, gentil e dedicado no exterior, estando, por isso, exposto a grandes adversidades: assim era o Rei Wên. “Durante a adversidade é favorável manter-se perseverante”: isso significa encobrir sua luz. Cercado por dificuldades entre aqueles que lhe são mais próximos e, entretanto, mantendo sua vontade fixa no que é correto: assim era o príncipe Chi.

 

 

a poça*

 

à sombra do lustre rosaRenoir-WomanRose.jpg

a moça posa pro moço

qual nem lhe fizesse mossa

o assombro

 

do observador atento

sentado ali do outro lado

rabiscando em alvoroço

intenso

 

seu repasto um guardanapo

o lápis rasgando o lenço

mil traços por cada canto

da mesa

 

como quem desse de ombros

a moça finge que almoça

lenta acaricia a louça

inglesa

 

disfarça faz vista grossa

assopra a colher de sopa

no prato intacta a poça

espessa

 

brinca com a coxa de frango

de sobremesa morango

o tempo suspenso em pausa

pro almoço

 

penso que essa noite enquanto

o olhar do moço repousa

(pálpebras em movimento)

 

na penumbra do seu quarto

uma mariposa pousa

no esboço

 

ao ver-se ali num espanto

de asas o olhar se apossa

esvoaça e roça o pescoço

da moça

 

imagem: Auguste Renoir, HEAD OF A WOMAN or WOMAN WITH A ROSE

 

[ arquivo em audio >>a poça ]

* Este poema me veio a partir de uma brincadeira com o Guga sobre as diferentes pronúncias da palavra poça, no Rio em São Paulo. Aqui, as duas formas são possíveis, à escolha do freguês. Como você prefere, pôça ou póça?

 

vinil

 

 

o disco lunar

toca um silêncio arranhado

de cigarras

 

.

 vivo suspensa

(sempre)

sem remédio

entre a surpresa

(sopro)

que me supre

e o supremo

(tédio)

que me pensa

.

.

  

Andràs Böröcz

“The Philosopher’s Egg,” 2004- 2005
Carved pencils, graphite on paper
mixed media construction

plasticismo

 

 

gotas na folha

. . .

cada instante uma estoura

:

plástico-bolha

.

 

 

 

haiquase

 ,

 

quase que um haicai

me cai ao acaso aqui:

caqui kamikaze

 

.

 

 

 

Alice at the Mad Hatter’s tea party — Illustration to the fifth chapter of Alice in Wonderland by John Tenniel.

 

Estive assistindo ao simpósio Travessias Poéticas: Brasil e Portugal  e, em dado momento, tive a graça de ver-me sentada num café com duas das grandes poetas da nossa língua, uma brasileira e outra portuguesa: Alice Ruiz e Ana Luisa Amaral.

Luxo total para o meu eu lírico! Um desses momentos inesperados e irrepetíveis que a gente sabe que vai reter na memória para sempre. As duas poetérrimas e euzinha, as três nos conhecendo ali, naquele momento. Claro que eu escutando mais do que falando, né gente, que eu tenho um mínimo de senso, mas no final estávamos contando a vida, falando de filhos e tecendo considerações sobre o feminino. Esse tricô básico de mulheres, enriquecido pelos fios preciosos das duas que, generosas, compartilharam com esta aspirante a poeta pérolas de sua sabedoria.

Esse momento durou o tempo mágico de um café que se alongou num banco anexo, dando para o ar livre onde elas pudessem fumar, e eu, aspirar feliz seus sinais de fumaça.

Apresento aqui cada uma delas com um poema de que gosto especialmente, mas há bem mais a conhecer. Vale a pena embrenhar-se nas obras de ambas pelo tempo de muitos e muitos cafés.

  
 

sumiê de fios, de folhas, sem tinta e sem pincel, onde o espaço faz papel de papel, o fio faz o efeito da escrita, os livros, fios em branco, são lidos pelo avesso, de lado, de vulto, de soslaio, os fios das folhas em ritmo, ora gráfico, ora elétrico, escrevem rimas ricas, linhas em todas as direções devolvem, resolvem nosso emaranhado enquanto flutua  a dura madeira,  nua carne, árvore madura suspensa, susto que pensa, pressente, arrepio de pêlos que nascem, atravessam, passam, morrem no pálido da pele onde ainda persiste um nada que se move na força dos fios e revela sua leveza e eleva o peso  do espaço com todas as palavras não ditas

 
.
 

.
 
 
 

 

.
 
 
 

 

 

Orfeu do Avesso

(Ana Luísa Amaral)

De pé sobre o abismo

e não morri:

   

  

Canto gregoriano

   

muito limpo

   

não me chegou:

 

  

o fim

  

Catedral

  

sobre o risco,

  

sobre um azul tão grande

  

que afundar-me podia

  

  

Ao fundo do mais fundo

 

mergulhei

 

e não morri:

 

amei

 

.

 

 
 
 

  

 
 
 

 

 

 

 

 

clarabóia

 

a lua clara

bóia como abertura

no teto do mundo

.

foto: analu prestes

  

.

P.S. – Fiz este poema há tempos, e não percebi que era um haicai. Lembrei dele qdo vi a foto acima. Re-publico agora, devidamente haicaizado. E por falar em lua, Salve Jorge!

[subtexto]

 

Tempos atrás confessei aqui minhas experiências secretas com “O Segredo”, no mal-acentuado texto “O que abunda atrai”.

Hoje cometi o improviso abaixo num comentário ao post de uma flor amiga, que questionava o porquê d’O tal Segredo não funcionar exatamente como a gente intenciona…

o pulo do gato
d’O Segredo
é um simples fato:

o que se pensa
em segredo
fala mais alto

Bons pensamentos pra todos nós. Porque a gente pensa que sabe o que pensa mas, às vezes, descompensa. Paciência: respira… e repensa.

 


haicai-folha da caixa nóvoa em folha 

 

 
 
nóvoa em folha (making of) 067.jpgTive a ideia ao fim de uma noite virada, escrevendo, e lindamente amanhecida, passarinhos musicando e um casal de tucanos (sem conotação política, porrrrfavorrrrr) rasgando um céu desse azul que só as manhãs de outono sabem ter.

Olhei pela janela e vi o jardim coberto de folhas secas, na verdade um pouco úmidas do orvalho da madrugada, e achei que aquilo dava um caldo. Rescaldo de folha, sopa de verdura, de repente me lembro do verde… Nóvoa em Folha [momento aha heureca lampadinha plim]: um livro-caixa de haicais escritos em folhas!

Desci e catei todas as folhas que me pareceram escrevíveis, na verdade tirando as rôtas e as esfarrapadas não sobraram muitas, mas deu pra encher a trouxa improvisada na barra da camisola.

E agora? Nunca escrevi em folha antes, não tinha idéia de como fazer, nem se ia dar certo, mas de algum modo as etapas me vieram ao caos da mente de modo claro e até organizado: primeiro, eu tinha que prensar e desidratar as folhas. Peguei na biblioteca todos os catágolos que encontrei, dentro dos quais pus as folhas, e mais uma torre quase da minha altura de livrões bem pesados, pra pôr em cima.

Enquanto a gravidade fazia seu trabalho, fui à papelaria e comprei duas caixas com tampa, verniz fosco, tinta spray dourada e mais umas coisinhas, e fui procurar uma caneta que escrevesse em folhas. Precisa ver a cara da vendedora, quando eu tiro da bolsa uma folhona amarelada de amendoeira, que catei na rua ali perto, e começo a experimentar todas as canetas da loja. Finalmente achei a caneta perfeita, branca (de gel, caso você queira escrever em folhas algum dia), e fui feliz da vida pra casa, fazer arteirice.

A essa altura, as folhas já estavam no ponto, e nem sei explicar como foi tudo perfeito. Numa olhada rápida nos arquivos aqui do blog, achei 17 haicais, um bom número, já que o haicai tem, ao todo, 17 sílabas. Além disso, foi relativamente fácil escrever nas folhas, embora seja necessário escrever devagar pra que a tinta tenha um bom fluxo, repassando a caneta 2 ou 3 vezes, pra ficar bem legível. Até minha letra saiu boa (minha caligrafia tem humores, assim como meu cabelo, e nem todos apresentáveis) e, pra minha surpresa, errei bem pouco.

Cobri as folhas com verniz, pra fixar a escrita, e depois “plastifiquei” com cola cascorez, duas camadas, pra dar resistência. Pintei as caixas, que eram estampadas, com o spray dourado, pra uniformizar. Tive que deixar a tralheira secando enquanto ia tendo mais ideias.

Fui à Casa Pedro e comprei canela em pau, aniz estrelado, folhas de louro e noz moscada, pra representar os 4 elementos (respectivamente água, ar, fogo e terra). Separei uma parte pra decorar as tampas das caixas e o restante pra pôr dentro, ornando e perfumando as folhas: um magnífico buquê de árvore.

No dia seguinte, ou no anterior, não sei bem (na verdade eu passei uma semana praticamente sem dormir, em surto maníaco-criativo), fui ao Jardim Botânico catar mais folha, delícia de tarefa, mas levei um gentilíssimo puxão de orelha de um funcionário, que me abordou meio constrangido pra dizer que, embora as folhas secas sejam varridas e vão pro lixo, é proibido catá-las. Expliquei que era um trabalho de arte, que era só daquela vez e tal, e que não ia pegar mais nenhuma (já estava com a sacolinha cheia), e ele então, mui atenciosamente, fez vista grossa e deixou passar.

nóvoa em folha (making of) 050.jpgTratei as folhas e fiz uma nova leva dos 17 haicais, para a segunda caixa. Uma atividade bem terapêutica, escolher as folhas e tentar diagramar o haicai, e nem é difícil porque, curiosamente, a estrutura clássica do haicai tem uma frase menor acima, uma maior ao centro, e outra mais curta abaixo (5/7/5), o que cabe direitinho no formato da folha. Suponho até que os primeiros haicaístas, em sua bucólica contemplação, também escrevessem assim (só que na vertical, porque eram japoneses). Os haicais e as folhas parecem ter sido feitos um para o outro.

Foi lindo, mas ao fim da segunda “fornada” de folhas, com suas inúmeras etapas – que nem detalhei aqui pra não me cansar dobrado, mas até passar a ferro eu passei – decidi que se encerrava ali minha carreira de monja fólio-copista.

Depois, veio um momento complexo: forrar a caixa. Usei uma técnica de encadernação selvagem desenvolvida por mim mesma, com cartolina, fita, e acabamento interno em exclusivo e inventado na hora “rolotê de papel-de-seda” (porque não achei barbante), que consiste em papel de seda torcido e embebido em cola.

E aí fui decorar as tampas: simplesmente afogar os 4 temperos elementais em poças de cola, depois envernizar pra tirar o excesso de brilho, e salpicar tudo de canela em pó e noz-moscada ralada na hora. Fiz umas “folhas de rosto” com as informações, assinei e colei no fundo da tampa.

Quando ficou pronto, tive quase o mesmo assombro imodesto de quando meu filho nasceu: nossa, essa coisa incrível saiu de mim?

Eu pensava em fazer uma série, pra vender, mas não tinha ideia do trabalho que ia dar. Gosto de fazer as coisas com prazer, e amei cada momento da confecção dessas duas caixas, mas não faria com prazer 20 ou 30. Até porque eu prometi praquele funcionário gentil e educado que não ia pegar mais nenhuma folhinha, lembra?, e o jardim aqui de casa não dá conta de uma produção industrial.

Então serão só 2 caixas mesmo, filhas gêmeas (não-idênticas) de mãe divorciada. Uma delas ficou pra mim (apeguei!) e a outra, não sei ainda se vendo ou se fico. Se for vender, sendo peça semi-única, não sei por quanto. Aceito sugestões (e oferta$) nos comentários ou por email.

Tem fotos aqui, ó. Não ficaram grande coisa, fiz com a câmera do meu celular vagabundo, mas dá pra ter uma noção.

Feliz Páscoa a todos! E que o outono nos traga bons frutos.

~ ~ *** ~ ~

Nóvoa em Folha: a caixa >> FOTOS AQUI

 

psicóloga em surto procura

impaciente capaz de querer

com loucura

 

\

 

quantum

 

com quantos panos se rasga

um corpo nu?

 

de quanta meia-sola salta

um pé descalço?

 

o quanto uma cidade pena,

encampa um pássaro?

 

de quanto livro a estante sabe

o instante livre?

 

quanta largueza pensa que (a)cabe

por um triz?

 

quanta saúde, um plano

pra morrer feliz?

 

 

 

 

abro

a boca da cobra braba

no braço

 

faço

a barba da cabra cega

no escuro

 

obro

em processo

cubro

 

asso cobre sobre

ouro rubro

incubo

oro

abracadabra 

 

me acabo onde

recomeço

abraço meu próprio rabo

oroboro

 

oroboro.png  

 

ver: kundalini, oroboro, abracadabra, cabra, incubação, alquimia, rubedo

 

 

unamo-nos humanos

:

demo-nos mano a mano

amemo-nos sem mais

.

mesmo se somos menos

iguais a nós não temos

;

nossos sonhos somemos

.

em tempos pouco amenos

,

amai-nos uns

ao menos

amém

 

Imagem: Nossa Senhora de Guadalupe

 

 


TigreGUGA.jpgcom tigres

não grites

não faças

ruído

.

a fera

com ferro fere

cada berro

desferido

.

aos tristes

a vida prefere

quem com fé ri da

penúria

.

me entrego

ao jogo

me aferro e

fogo

!

é certo

que erro

porém não

duvido

:

confere a fúria e serás

aferido

.

 

 

 tigre-de-ferroRR.jpg*em 14/02/2010 teve início o ano tibetano de 2137

Ano do Tigre de Ferro.

E você, já se alistrou?

 

 

Imagem lá em cima: “Tigre-de-madeira”, obra original e foto por Guga Alayon

Imagem cá embaixo: “Tigre-de-Ferro”, ilustração da Web ‘desapropriada’ por Rafael Reinehr

 

 

 

 

Pro meu amigo e compadre Fred Pinheiro

pras suas estrelas amadas Ivana e Julia

pro Vidigal, Rio, Brasil e o mundo inteiro:

 

Lá vai nosso iluminador com seu chapéu

Acender um morro de estrelas lá no céu!

 


acendedor.gif 

0 ACENDEDOR DE LAMPIÕES (Jorge de Lima)

 

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!

Este mesmo que vem infatigavelmente,

Parodiar o sol e associar-se à lua

Quando a sombra da noite enegrece o poente!

 

Um, dois, três lampiões, acende e continua

Outros mais a acender imperturbavelmente,

A medida que a noite aos poucos se acentua

E a palidez da lua apenas se pressente.

 

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: –

Ele que doira a noite e ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita,

 

Tanta gente também nos outros insinua

Crenças, religiões, amor, felicidade

Como este acendedor de lampiões da rua!

 

 

… O príncipezinho não podia atinar para que pudessem servir, no céu, num

planeta sem casa e sem gente, um lampião e o acendedor de lampiões.

No entanto, disse consigo mesmo :

 

– Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, é menos absurdo que o

rei, que o vaidoso, que o homem de negócios, que o beberrão. Seu trabalho ao

menos tem um sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais

uma estrela, mais uma flor. Quando o apaga, porém, é estrela ou flor que

adormecem. É uma ocupação bonita. E é útil, porque é bonita.

 

[O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry]

 

 

ô abre asas

 

lá vem o bloco

o surdo a caixa a cuíca

um abraço pra quem fica

é o meu sinal

: debandar

 

não bebo não sambo

não caio no ditirambo

bacanal sarto de banda

bundalelê

não vou lá

 

ô abre alas

que eu quero seguir meu caminho

tô no bloco do eu sozinho

com quem eu amo

e olhe lá 

 

não curto a farra

pra quem se amarra aquele abraço

sai da frente eu sou da lírica

abre alas que eu quero

pensar

 

~;~

 

 

 

Outro poema meu (anti)carnavalesco aqui , pra provar que a indisposição foliã não é de hoje.

 


espantam-me os sonhos pois

sou eu ali e no entanto

em nada

me espanto

os enredos bisonhos

as pessoas que mudam

os animais feras

loucas mansões labirintos

de medos emoções

vagas o mar

escuro até o céu

quase sempre encoberto

onde nada é perto e nunca

se volta ao mesmo ponto

de vista e se algo ali

se revela

( )

ao menos não dói depois

mas também não sei mais

daquela que me foi

só sei que ao abrir os olhos

como sói quase todo dia

sinto que perco mundos

por noite mas a luz

apaga

quase todo o filme

vela

in sensus

    
 Thumbnail image for InsenceSmoke4.jpg

 aqui

agora

ascendo

à pura essência

de patchouli

 

medito porém nem sempre

evito

o escândalo

 

recaio no escuro

abraso me

abano te

aceno

sinais

defumos

inspirais

acendo um

sândalo

 

 

 

 

foto: Craig Sadler

 

 

ahhhh

 

e vem a chuva benfazeja

,

cai no chão ferve

espuma desce

pela calçada

feito cerveja

gelada

 

 

 

 

 

os profetas e

os loucos atiram pé

rolas a poucos

 

*ver hexagrama 61 do I Ching (Verdade Interior)

 

 

 

amar é …

 

a maré dança

com a lua

ora mansa

ora avança

recua

ora cheia

ronda brava joga areia

no ventilador

lava a rua

afoga

ateia fogo

às teias

ao mofo

às ameias

do cafofo

a maré

aguardente

na veia

 

 

 

 

tempos de chumbo:

o vil metal nos funde

no estanho mundo

 

.

shiva natraj

 

ando em fase de muda

mud(r)a e quêda

.

bicho-da-seda criando

asa(na)

.

mudando de casa talvez ou não

a-ind(r)a

.

toda muDança é bem

(go)vinda

.

 

 

.

 

Ohm: sobre indianices também temos este outro poema < (da época em que o blog estava sem acento) 

dos sentidos

 

 

Eu penso assim, num poema

as palavras têm muitos sentidos, cinco são o mínimo do senso comum.

O cheiro, veja bem, nem sempre é o que se espera: qui_mera suja o pé na primeira pisada em falso.

E o paladar amargura, tem quem use, não faz meu gosto. Na língua prefiro o que arde.

No mais a voz da musa grafa os lótus que afloram do fundo branco dos murmúrios, antes que murchem no próximo suspiro.

Olha que onda, o que eu disse? nada pois, de olhos abertos sob o som pra ver que tudo.

Polir o verbo bem custa e revela um certo tato e conquanto evite a rudeza nem sempre aumenta o brilho, sobretudo quando encera a falta de.

quem muito lapida às vezes quebra o ladrilho

<mosaico móbile tudo que se move colorido e vário encontra contratempo em sentido anti>

horário

Tem outros muitos sentidos, claro, e obscuros. Figurado, por exemplo: um álbum pra cada boa palavra na banca mais próxima.

Duplo sentido, encontram-se a dois. O verdadeiro, a sós.

Sentido fica quem sente dor de si, depois.

> o que teria sido não sabe o que é bom ; quem não vem não faz sentido <

Sentido tem aonde ir.

Sentido se encontra distraído.

Senta aí e sente o som do meu a _ _ r

no seu

ouvido

 

.

.

(Publicado originalmente em 10/03/2007, revisado hoje. Lembrei por causa da matéria dO Globo.)

 

cartão postal

 

sol à vista!

meus olhos renovam o visto

de turista

 

 

 

 

mosktub

 

estava escrito:

se está tudo perfeito

vai ter mosquito

.

 

 

tempus fugit

 

Comentário ao post Panta rei do blog Tempus Fugit

 

Panta rei, pensou Heráclito,
os olho fitos num rio
em que não me banharei…

talvez por força do hábito
eu periclito mas rio
do mar que outrora pensei.

 

 

.

.

Update: este poema foi citado e ilustrado no belo site Imaginário Poético.

 

 

 

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