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Chora o Palhaço

 

Chora escondido o palhaço
Chora de dor, de cansaço
Espantalho da tristeza
Rebotalho da alegria
Guardião da velha graça
Patética alegoria

Cor viva no chão da praça
Dá-se ao riso de quem passa
Farol de fogo de palha
Nariz de chorão paspalho
Roupa larga de retalho
Cabelo palha de aço
Trabalho que é passatempo
Tempo perdido no espaço
Dramaturgo do ato falho

Maestro do destempero
Vai de encontro ao contratempo
Apanha e corre pro abraço

Faz dublê de contra-regra
Lanterninha e bilheteiro

Improvisa, quebra o galho
Se um colega quebra a perna

Quebra a cara, rouba a cena
Pra distrair a audiência
Coringa do picadeiro

Pena que esta clown-ciência
Não tem, na cena moderna
Espaço em altos salões
No meio da gente séria

Pois rir da própria miséria
É a riqueza dos bufões

{Mas diz-se à boca pequena
Que chora o pobre palhaço}

chrisflor.jpg“Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti
Ah
Devias vir… ”
(Cartola)
.
Foto por Ana Beatriz Occhioni
Jardim Botânico/ Julho 2006

rosa.jpgEm apenas uma noite eu te faria mil e uma
Xerazade tiraria cada véu
Como se fora o último e o primeiro
Como se ouvira o cântico dos cânticos
Nunca chegando à queda do momento derradeiro mas súbito ao salto
Pro alto e ainda não ter paradeiro essa dança do ventre acima embaixo entre
Que nos promete desde muito antes mares infinitos mundos além aqui e tanto tanto
.
Que mesmo que sem procurar já encontrando
Líquidos sempre novos primitivos lúbricos movimentos músicos bailarinos abstratosféricos pulsares cósmicos rítmicos caleidoscópios senso-imaginários nossa surpreendente mágica arabesca estória sem roteiro estrito nem trama amarrada fio solto da meada nenhum fim aparente ou começo exato
.
Então a cada anoitecer retomaríamos o nosso ato
Uma outra vez e cada vez mais sim
Porque era assim, ó meu sultão amado amante amigo
Que estava escrito e muito bem descrito o fato
Num tapete voador que eu teci num sonho antigo
E ainda me lembro só porque era tão bonito
.

normal_47849_photo.jpg
Ah, gueixa eu ser sua
…deixa
Arigatô gozeimaixtá
.
.

hibisco.jpg
~ ¿? ~
.
.
.
.
.

soneca72.jpgAs lindas fotos de flores que ilustram os posts acima foram tiradas pela minha talentosa amiga Ana Beatriz Occhioni, que conheci na adolescência (ela estudava com minha prima), depois reencontrei na faculdade e veio a ser, mais tarde, minha sócia na saudosa A Pedra Filosofal, uma simpática loja de cristais e pedras que tivemos no Leblon.
O curioso é que, com vinte e tantos anos e já sócias, quase caímos pra trás um dia ao deparar com esta foto aí ao lado, de 1972, que nos revelou que nossa história começara muito antes do que supúnhamos: estudamos juntas aos três anos, no Jardim-Escola Soneca, e mais: éramos melhores-amigas!
Eu lembro perfeitamente da Aninha, uma menina muito boazinha que tinha 3 pulseiras plásticas (uma vermelha, uma laranja e uma amarela) que batiam uma na outra e faziam “tac-tac-tac”. A Aninha era tão gente-fina que me deixava usar seus coloridos braceletes a maior parte do tempo, e você sabe como esse tipo de generosidade pode ser difícil para as crianças. Mas a Bia (como ficou conhecida mais tarde) já era um espírito superior, e eu ficava sacudindo as pulseirinhas o dia todo, “tac-tac-tac”. Como poderia esquecer de alguém tão especial?
Nesta foto julina, a Aninha é a única sem chapéu. Ela estava um pouco chateada pela falta do adereço, segundo me revelou. Estamos afastadas na foto porque nos organizaram por altura, embora haja controvérsia ali pelo meio e uns meninos tenham se imiscuído no quadro, o que não estava nos planos iniciais. Eu pareço resignada em minha posição: sou a última e menor à direita, com o dedo no nariz. Também estava um pouquinho amuada porque, embora minha mãe me tivesse providenciado um chapéu (além da sainha mais curta da escola), o meu não tinha aquelas tranças acopladas que alimentavam meus sonhos de Rapunzel, já que meus cabelos curtos só podiam ter tranças nas festas caipiras. A Bia, que tinha os cachos tosados como os meus, também queria chapéu com tranças, claro! Que mães insensíveis as nossas, será que nunca tiveram 3 anos?
Tirando o fato de que ela era metros mais alta do que eu (e é assim até hoje), no mais somos parecidas em muitas coisas: capazes de nos emocionar com um show bem rasgado da Maria Bethânia, ou com a simples visão de uma flor no Jardim Botânico. Ah, e ambas deixamos nossos cachos crescerem.
Às vezes ficamos meses sem nos falar, às vezes falamos 5 vezes por dia, por anos. Na verdade não importa, o que nos liga é que conseguimos compartilhar muitas visões e sentidos, às vezes sem nem precisar falar.
Assim, de certo modo, eu sinto as fotos da Bia como as que eu faria, se tivesse o seu talento para a coisa.
Vão lá na página dela e deslumbrem-se com as imagens!
Digam a ela que a maricotinha mandou um beijo. tac-tac-tac.

gatobia.jpg(…cadê a palavra que estava aqui?)
Quem me dera fosse um gato
que comeu a minha língua!
Fui eu própria que a comi
e a fome ainda é a mesma.
Eu mudo, e como!
Eu muda.
Buda.
Om.

Sacril?o

intothelight.jpg
onde sou mais obscena
é ser pura quase santa
nesta turva obscura cena
.

Ampulheta

sand_clock.jpg.
.
.
em grãos se esvai a vida
.
e eu tão distraída

donut.jpgO primeiro-consorte do Estado do Rio resolveu fazer uma dieta pré-eleitoral e angariar umas manchetes mas a coisa, digamos assim, perdeu o gás. Garotinho está mesmo des”morales”zado.
.
(Ilustração: A Governadora Rosquinha, solidária ma non troppo, numa pausa para o cafezinho.)

pitia.jpg

¿Poeta ou poetisa?
¿Pítia ou pitonisa?
Tanto faz pois realiza
A mesma magia vã
Avisar quem não se avisa
Enxergar onde não tem
Respirar vapores tóxicos
Pra oxigenar os monóxidos
Vítima do vil afã
De transformar mal em bem

Nóvoas a Bombordo

Tem posts meu e da mâmi no Bombordo.

Libertas… quae?

Tiradentes Esquartejado (Pedro Américo,1893)

 

Mártir dos inconfidentes,

Faze aqui uma confidência:

Se tivesses consciência

dos Judas, Joaquins falsos,

Da forca e da ruína,

Teu corpo exposto aos pedaços,

Uma perna em cada poste,

Aceitavas tua sina?

Cumprias, herói, teu fado

Só pra virar feriado

Todo vinte um de abril?

Dize lá, ó Tiradentes

Quantos dentes arrancaste

À pátria que te traiu?

.

De paixão e peixes

fishmong.jpgOntem foi a lua cheia de áries, o “pessach”, quando os judeus comemoram a libertação do cativeiro. Hoje, para os cristãos, é o dia da paixão, do sacrifício carnal de Cristo.
Vou à feira de manhã, que a vida não pára e o almoço urge. A fila na barraca de peixe deve estar uma loucura. Pra não deixar de aparecer por aqui, vou reprisar um poema feito nesta mesma época, ano passado.
Feliz Páscoa a todos!
.
.
.
Madalena renascida
Noli mi tangere.jpgA cada santo dia
Eu renasço da dor
Da paixão e da morte
Aleluia Senhor
Eu sobrevivo ao calvário
Da Tua ausência
.

Carta fora do baralho

king-clubs.jpg
Cai o Rei de Espadas
.
Cai o Rei de Ouros
.
Cai o Rei de Paus
.
Cai, não fica nada…
.
(Cartomante – Ivan Lins / Victor Martins)

…mas nem precisava ser vidente pra cantar esta jogada.
[Legenda da ilustração: um instantâneo de Palocci quando ainda era Rei]
* * *
P.s. – Hoje tem post meu no Bombordo. Vai lá!
P.s.II – Também tem post da Mâmi, para alegria do povo que andava saudoso de suas letras.

Blue moon

blue-moon.jpgpra quem não sabe
sou de lua
ora brilho e encho o quarto
pleniluz
ora sumo envolta em sombras
treva nova
eclipso vermelha
e volto intacta
vira-láctea
ilumino branca prata até azul
venho e vou
mutante em ondas
como as marés
mas quem me acompanha os passos
órbita e fases
zênites liliths
príapos e dragões
não teme a face obscura
pois que sou
aquela mesma
lua velha
que nunca falha
nem surpreende
nem se desvia
e estou sempre
exatamente
onde devia
aqui no alto
solta no espaço
clara e nua
.

bosch-ship-fools.jpgMensagem numa garrafa
Avisa de embarcação
Singrando o mar à deriva
Mas sempre na contramão
Remando contra a corrente:
“Se há desmando, somos contra!”
Sem postura coerente:
“Se é unânime, eu discordo!”
Os motineiros se encontram
E causam grande alvoroço
Nas águas da blogosfera
Cuidado com essa galera
Uns chamam de Nau dos Loucos
Nós chamamos de Bombordo
.
O soneto é para avisar que, a partir de hoje, está no ar o BOMBORDO, blog coletivo do qual eu e mâmi fazemos parte, junto com um time de feras. A idéia é que o grupo se reveze em posts diários, de caráter basicamente político, pra sacudir a blogoseira neste ano eleitoral.
Não é tirar onda não, mas algo me diz que a gente vai fazer marola!
Portanto a partir de hoje, sempre que for navegar, você já sabe: é só virar a Bombordo pra saber a boa do dia.

Bang-bang, soc, pow!

E o Kadu, hein? O cara pode até ser mole, mas de terno não tem nada…
kadumoliterno.jpgingridkadu1.jpg
Update: O Flavio, lá da Itália (uma terra plácida onde nada se escuta quando o povo desce o morro por aqui, ou quando o exército sobe, e olha que a chapa tá quente!), pede para saber na íntegra este babado. Pois já está até na Wikipedia.

ciclo1.jpgA Clarice me intimou a entrar numa corrente entre blogs ou, para usar um termo mais muderno, um meme.
Eis o regulamento:
Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogs aviso do ‘recrutamento’. Ademais, cada participante deve reproduzir este ‘regulamento’ no seu blog.
Bem, eu poderia encher muitas laudas com esquisitices da minha natureza, mas vejamos apenas cinco, pra não assustar demais o povo:
1) Fazer um pedido cada vez que vejo, numa placa ou num relógio digital, um número capicua (que pode ser lido de trás pra frente ou de frente pra trás), como 12:21, ou 23:32, ou 7667. Sempre o mesmo desejo: “Muita saúde, vida longa e feliz para o Leonardo”.
2) Consultar os astros e o I Ching para tomar decisões. A julgar pelos resultados de algumas de minhas escolhas, fico em sérias dúvidas se os oráculos são bons conselheiros…
3) Levantar com o pé direito, mesmo que saia pelo lado esquerdo da cama. Afinal, não custa nada dar uma mãozinha – ou pézinho – para a sorte.
4) Reler trechos dos meus livros preferidos muitas e muitas vezes, até decorar. Assim posso buscá-los na memória à hora que quiser, sem precisar recorrer aos volumes. O problema é que algumas memórias se embaralham ou ficam latentes e, freqüentemente, ao escrever uma frase, fico na dúvida se não estaria plagiando alguém.
5) Usar sempre as escadas, exceto no caso de andares muito altos (leia-se: do 6º para cima). Não preciso dizer que vivo chegando esbaforida aos lugares. Em compensação, meu pernil está uma beleza :))
Agora eu gostaria de conhecer algumas idiossincrasias dos seguintes cyberamigos:
Leila
Cynthia
Biajoni
Ricardo
Dalva

sweep.jpgQuaresma é tempo de trabalho.
Varridas as cinzas, parece que o ano vai, enfim, começar…
.
.
.
.
.
mas o que é mesmo que a gente vai fazer na semana santa?

A Colombina

Carnaval, o aval da carne
Entrudo, o nome diz tudo
Momo é do balaco, Baco
Tem álcool pra todo mundo

 

Abram alas, foliões
Que o meu fígado é mais fraco
Sou meio ruim da cabeça
Meio doente do pé

 

Vejam só, quebrei o salto
E nem sei sambar direito
Não tenho piercing no umbigo
Nem silicone no peito

 

De tudo o que eu mais amava
Nos carnavais da infância
Dos bailes e das marchinhas
De máscara e fantasia

 

Não ficou mais que a lembrança
Qual confete e serpentina
Obstruindo os bueiros
Na quarta-feira de cinzas

 

As multidões se aglomeram
Como surtos se propagam
E os lixeiros é que pagam
A conta dessa folia

?abre alas

tongue.jpgPra começar, a quem interessar possa, um breve relato da passagem do furacão Stones pela cidade, no último fim-de-semana:
Não, crianças, eu não fui!
Vou mandar fazer uma camiseta pra deixar de herança a meus bisnetos. Se até lá um Mick Jagger ducentenário ainda for ídolo pop, pode ser que eles me execrem por isso. Ou pode ser – e é bem mais provável – que não dêem a mínima. “Não foi aonde, bisa? Rolling quem?”
Assisti pela TV, do conforto do meu sofá. Peguei o show no meio, porque antes estava vendo um filme maneiro em outro canal, que não consegui saber o nome porque já estava começado. Tudo bem, quem liga para inícios? Os fins justificam os meios. Comecei pelo momento em que eles tocaram Wild Horses, uma música que eu adoro. Mas no meio daquela muvuca de Copa é que eu não queria estar, nem a cavalo.
A melhor coisa do finde foram @s amig@s de São Paulo – e do Rio também – que encontrei, e os novos amigos que conheci. Por falar nisso, onde estão os do Paraná que não vieram, ou será que vieram e eu não vi?
A Patrícia, minha amicíssima virtual que finalmente encontrei ao vivo, não aguentou as condições de temperatura e pressão do show e veio se refugiar aqui em casa; pegou o finalzinho pela TV. Donizetti, Viva e companhia chegaram mais tarde, Inagaki e respectiva trupe sucumbiram à exaustão pelo caminho.
Por aqui foi tudo ótimo, a noite estava linda e o papo, agradabilíssimo. Juntou-se a nós meu vizinho Bigode, cineasta, que trazia notícias da área vip. Viva (verdadeira locomotiva social da blogosfera) estava muda, mas trouxe sua linda e personalíssima filha Luna, que se expressava por ambas. Patrícia, que pegou no pesado na direção fazendo SP/Rio/SP em um único fim-de-semana, chapou no sofá da outra sala. Depois ficou com vergonha, imagina! Eu compreendo totalmente, sou ativista ferrenha em favor do sono livre. Acho que todos deviam dormir muito para ter mais saúde, melhor humor e consumir menos. Dormir é uma atividade pacífica e ecológica, diria mesmo revolucionária! A tirania da produtividade maníaca tenta patrulhar este nosso direito fundamental, impondo que a gente faça tudo, se informe de tudo, leia tudo, vá a todos os eventos e conheça todo mundo.
Conhece-te a ti mesmo, já dizia Sócrates. O sono é uma atividade solitária, pessoal e intransferível, portanto um excelente momento para se conhecer. Mas isso já é outro assunto.

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A misantropa

crowd_control.jpg
Eu acho que sempre tive a tendência – vide relato do Rock in Rio – mas estou piorando com a idade. Deve ser culpa do meu signo de Capricórnio que, ao que parece, condena seus portadores a idiossincrasias incompatíveis com a vida em sociedade ou, em outras palavras, a uma chatice crônica. Sou fresca, vá lá, comodista, desanimada, alienada, careta.
Mas o fato é que pessoas só me são administráveis em quantidades moderadas e, mesmo assim, por tempo limitado. Maratonas de aglomeração, tô fora. O povo é o demo, já sabiam os gregos.
Anteontem morreu gente em São Paulo em tumulto por causa de uns famosíssimos RDB que eu, em minha bendita ignorância, nem sabia que existiam.
Sinceridade; eu não simpatizo com o demo. Roquem-se e rolem-se à vontade mas não me chamem.
Stones em Copa?? Nem que fosse no tal do curralzinho vip, última novidade em pecuária de celebridades.
Chic é estar na santa paz do lar a uma hora dessas. Vou assistir pela TV, tomando cervejinha gelada e comendo pipoca de microondas. Do mesmo jeito que eu assisto à inauguração da árvore de natal da Lagoa, à queima de fogos no réveillon e outros espetáculos demo-cráticos.

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waterbuffalo.jpgjogaram um bebê no rio
lixo tóxico no mar
derrete o gelo polar
na europa, morrem de frio
na amazônia o rio seca
no rio, cai um toró
ontem fui no itororó
beber água, não achei
míngua o rio são francisco
uns querem transpor, uns não
se é bom ou ruim, não sei
não sei se vou ou se fico
navegar é impreciso
eu preciso de algum norte
um mote pro improviso
uma jogada ensaiada
rumo pra minha jornada
leme pra minha carcaça
remos pra minha canoa
velas pra minha jangada
a correnteza é mais forte
me arrasta, me leva embora
ninguém escapa da morte
não sei se rio ou se choro
Stern-in-Shadow-w.jpg
.
(meio instante estanca o rio
um barco atraca na margem
pra admirar, de passagem
meus olhos a ver navios)

Arpad-Sofia.jpg
Por Sophia de Mello Breyner Andresen, 1950.
Depois da cinza morta destes dias,
quando o vazio branco destas noites
se gastar, quando a névoa deste instante
sem forma, sem imagem, sem caminhos,
se dissolver, cumprindo o seu tormento,
a terra emergirá pura do mar
de lágrimas sem fim onde me invento.

blooddrop(stef.arcidiacono).jpgNão fosse agora uma hora tão tarde
Eu lhe daria todo o meu amor
Se ainda tivesse amor pra oferecer
Se eu não restasse menos da metade
Sentindo dor na carne mutilada
Saudosa e sem saber nem bem do quê
Eu lhe teria um amor de verdade
Se ainda tivesse a minha melhor parte
Que, se eu me lembro, amor, era você

Sapon?o

111.jpgMinha amiga bióloga informou outro dia que os sapos estão em extinção – como de resto virtualmente toda a fauna e flora deste planeta, segundo este outro biólogo – por causa do aquecimento global.
Concordo que o calor está de matar mas a verdade é que aqui pro meu lado não faltam sapos. Eu mesma andei beijando alguns – e engolindo vários.
Então, contas feitas, talvez seja eu a responsável pela extinção dos sapos, pois que os engulo até bem mais que beijo… Socorro, é uma orquestra a coaxar em mim, e o mundo um deserto silencioso?!
Pois que solto os bichos imediatamente: Xô, vai nessa, sai de mim! Ó Seu Sapo, vai pra Rua do Sabão! E devolvo cada um ao brejo longínquo de onde veio.
Aqui, o doce silêncio barulhento da mata e os sapos lá fora, como sempre. A noite está linda, o tempo é todo meu e o mundo nem parece um lugar tão quente.

graal

 

cristalina taça eu

bebo recebo o

teu vinho

.

.

.

te ofereço o meu vazio

 

foto: chema madoz

 

 

Desa-bafo quente

ipanemantiga.jpgNão é descontente
minha natureza
mas eu bem queria
um ambiente inteiro
Que o meio-ambiente
me causa tristeza
e a minha agonia
não tem paradeiro
Calor é uma droga
não há quem agüente
este sol tão quente
sem entrar no mar
Pois agora o Rio
que era de Janeiro
passa a se chamar
Rio de Gigoga
Não sei se o culpado
é o César Maia
ou se a culpa é dela
madame Rosinha
Sei que nossa praia
virou uma favela
mar de São Conrado
esgoto da Rocinha
Queiram perdoar-me
por baixar o nível
ao trazer à tona
todo este vexame
Temo que este alarme
soe um tanto infame
poema cafona
de um verão sofrível
.

Veraneio

pinupbik.jpgEstou de volta de uma temporada em Angra dos Reis, o trepidante balneário dos ricos e famosos. Não sendo rica nem famosa, e pouco afeita à trepidação, confesso que não tenho muito o que contar.
Pretendia dedicar-me aos esportes náuticos, à alimentação equilibrada e ao bronzeamento, de modo que estaria de volta como a mais morena e glamourosa das pin-ups. Mas ocorre que choveu quase todo o tempo e eu acabei por me dedicar ao sono, à gula e à lassidão. Assim, terei sorte se tiver ao menos mantido o peso e a cor que ostentava antes.
Diante das condições meteorologicamente adversas ao culto ao corpo, ter-me-ia consagrado a elevadas atividades do espírito, como a leitura dos clássicos da Literatura e a escrita de textos densos e profundos. No entanto a coleção de revistas pseudo-científicas de meu pai atraiu-me mais que sua excelente biblioteca, e o dolce far niente na varanda frente ao mar suplantou o chamamento da escrita engajada.
O saldo cultural da temporada foi: 357 revistas, uma dúzia de DVDs (incluam-se aí “A Noviça Rebelde” pela enésima vez, uma temporada inteira de “Sex and the City” e outros títulos edificantes) e meio livro (vou dizer a meu favor que era um livro grossinho…). Escrevi um poema que, de tão ruim, jamais será publicado, e um texto medíocre que, após alguns retoques, talvez publique num dia de pouca inspiração.
Resumindo: continuo tão branca, gorda e burra quanto antes, só que um ano mais velha, já que nesse meio tempo aproveitei para fazer aniversário.
Por essas e outras é que eu AMO o verão!
Beijos saudosos a todos.

christastree.jpg~*~.~*~.~*~.~*~.~*~
surpresas na ?ore de coment?os
abra esta
caixa e brin . qu . e
?ontade
*
*
*
deixe pegadas
pelo ch?da sala
doces nas meias dependuradas
bonecos de neve dentro dos sapatos
prendas na lareira
sons na chamin?luzes na fachada
renas no telhado
c?de brigadeiro
ch?de rabanada
mas se voc?hega de m? abanando
tamb?n?tem nada
se apresenta a? :)
*
*
*
~*~.~*~.~*~.~*~.~*~

Tocata em fuga

bm-v264.jpg
diáfana dafne eu ninfa árvore viraria helênica especiaria semideusa sobre louros deitaria para todo o sempre sua então seria se não estivesse me sentindo assim pra ser sincera tão como diria vítima um tanto indefesa desses olhos zeus de olivais olímpicos vultos divinais encantamentos fogos fatais inda ocultos e portanto fico meio arredia quieta no meu canto tímida e confusa
.
indecisa se diante disso tudo eu deveria ou não
.
tirar a blusa

Coelum

heaven-part 2.jpg
D e u S o u
Só eu e nem
Doeu

Infernum

lost-angles.jpg
sucumbo ao caos
aos maus, aos ônibus
oceanos sulfuriosos
não solvem súcubus
soçobram sombras
sob os escombros
sobram seus ossos
sangram meus ombros
socorram íncubus
incubem línguas
ímpias satântricas
kundalinis instantâneas

Olho de Deus.jpgLembra do Belben*, aquele meu irmão das histórias incríveis? Certa vez, quando eu era criança (e ele já era um adolescente, o que o tornava, a meus olhos, um ser superior) ele me contou que, em suas fantasias da infância, imaginara que o mundo era a caixa de sapatos de um gigante. A coisa seria mais ou menos assim:
Durante o dia a caixa ficava aberta e dava pra ver a lâmpada no teto do gigante, lá no alto.
De noite ele fechava a caixa mas fez uns furinhos na tampa – as estrelas – pra gente poder respirar. Depois ele achou pouco e fez um furo maior com o dedão – a lua.
A teoria não parava por aí. Ele me explicou, por exemplo, que o gigante ficava mudando a caixa de lugar, e que a posição da caixa com relação à lâmpada daria origem às fases da lua. Quando era lua cheia, é porque a lâmpada estava toda visível pela abertura. Quando a caixa se afastava deste ponto, a lua minguava, e assim por diante. Às vezes, só por distração, ele tampava com algum objeto a abertura e então tínhamos um eclipse. Volta e meia ele abria a tampa de manhã mas colocava um véu por cima e não podíamos ver a lâmpada: estava nublado. Às vezes também ele resolvia regar a caixa, pra chover. Gostava de fazer isso através do véu, pra distribuir melhor os pingos, mas às vezes tirava o tecido e nos regava livremente, fazendo os dias de chuva-e-sol que quase sempre formavam arco-íris em volta da lâmpada. E muito mais poderíamos pensar sobre nossa vida na caixa de sapatos do Gigante.
Eu achei essa idéia incrível, e que bem podia ser verdade. Pelo menos teria alguém cuidando de nós.
Lembrei do Belben quando fiz o poema da clarabóia, outro dia.
_________________________
(*) – sim, o link leva àquele post velho e surrado sobre o Belben, que você já está careca de conhecer. O texto continua o mesmo mas, pelo menos, foi repaginado: agora vem com fotos! Só pra provar (se é que você duvidava da minha insuspeitíssima opinião) que ele era, de fato, lindo. Quanto às outras qualidades mencionadas, já que eu não possuo as tais pílulas para trazê-lo à vida, você vai ter que acreditar na minha palavra mesmo.
A propósito, deu pra perceber que eu andei escaneando fotos antigas esta semana?
Comentário sobre a foto que ilustra este post: parece que o Gigante tem olho azul.

.

Chuva

chuva.JPG
A vida hai
A chuva cai
E eu aqui
.
.
.
Fotografia Felipe Goifman, 1987.

Momento Florbela

chris_felipegoif.jpgVersos de orgulho
Florbela Espanca, 1930.
O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.
Porque o meu Reino fica para além …
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !
O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito …
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços …
São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

.
Foto: Eu aos 20, num clima anos 30, pensando que tinha 40 :) Por Felipe Goifman.

Clara

2sun.jpeg
A lua clara bóia
como uma abertura
no teto do mundo
.

Da cor do pecado

Dicavalc.jpgE pouco a pouco entra em cena a versão morena do meu ser. Sai o banho-de-lua, chegam os banhos-de-sol. Já recuperei a marca do biquíni, símbolo-mor da identidade carioca. Quem me viu na coleção outono-inverno, momento branca-de-neve, pode não acreditar: Yes, nós temos melanina!
O bronzeado vai me colorindo também por dentro. Devagar, que ainda tem muito verão pela frente (a rigor ainda estamos na primavera). A previsão para os próximos meses é de muito calor. Que venha! Eu vou pela sombra mas sempre na luz.

O gato que ri


cheshire-tenniel.jpg
Alguém busca no Google: “O gato que ri do meu ego esquizofrênico”
Caiu aqui. Não posso deixar de achar graça.
A lua sorri no escuro. O Gato de Cheshire me olha atravessado.
Começo a desconfiar de mim.

A Colecionadora

fish_mon.jpg
Nascera rica, é verdade. Mas nem toda rica tem bom-gosto, ela gostava de frisar. E, dentre as de bom-gosto, pouquíssimas são as que de fato entendem de arte. Gesticulam nos leilões como loucas, querem encher as paredes de suas mansões, agradar ao decorador ou às amigas.
Ela se orgulhava de nunca ter pago um centavo mais do que uma obra valia, conhecia bem as manobras dos especuladores, os blefes do mercado. Mas também sabia reconhecer uma verdadeira preciosidade, e já empenhara somas altíssimas sem o menor remorso.
Possuía sólidos conhecimentos até mesmo sobre arte moderna, de que não gostava muito. Tinha predileção pela escola holandesa do século XVII e dizia que antes de morrer ainda teria um Vermeer. Certa vez fôra às últimas consequências por um Frans Snyders, uma esplêndida peixaria que seu marido, na época, não gostou: achou nojento e disse que não gostaria de ter que olhar para “aquilo” todo dia de manhã. Ela resolveu neste momento que não podia olhar para “aquele” homem todo dia de manhã. Arrematou o quadro e desfez-se do marido.
Depois dele colecionou amantes, de idades e naturalidades diversas, mas todos muito, muito belos, de modo que não se arrependia por um instante do negócio.
Noutra ocasião mandou soltar os cães ferozes em cima de um espertalhão que tentou vender-lhe uma cópia habilidosa como um autêntico Bega. O sujeito correu e escalou um muro altíssimo com uma agilidade ninja, caiu sabe Deus como do outro lado e nunca mais voltou, nem pra buscar a tela falsa. Ela mandou colocar o quadro no hall, com uma belíssima moldura e uma placa embaixo, numa sutil referência a Magritte: “isto não é um Bega” e sempre contava o caso, às gargalhadas, às visitas. Ainda que pouquíssimas ou nenhuma soubesse quem fôra Bega ou mesmo Magritte, todas riam muito.
Ela colecionava amigos falsos também, na saleta e nos salões. Rindo de suas piadas obscuras apenas para comer de seu caviar e beber de seu champanhe.
Por isso toda manhã, sob a luz branca do jardim de inverno de seu palacete, ela tomava seu desjejum de croissants e mel desejando secretamente estar na imundície daquele mercado de peixes, com aquele nojento do seu ex-marido.

Here comes the sun

Olive-Trees.jpg
Dois dias de sol no Rio. Após tanta chuva, a luz é especialmente bonita.
Os passarinhos também acham.
.

A profecia

Minha mãe engravidava e perdia o bebê. Antes do meu irmão, foram dois. Depois dele, três. Ela foi no médium, Zé Arigó, de Minas, que recebia o doutor Fritz. Aos prantos, disse que queria muito uma menininha. Ele mandou ela se acalmar e tomar insulina, que antes do final do ano ela teria sua menina. Ela não entendeu nada, não tomou nada e continuou tentando.
Até que ela engravidou pela enésima vez e finalmente descobriu que ficava diabética na gravidez. Começou a se tratar e tudo evoluiu bem, ou quase.
Eu era esperada pra fevereiro mas o sangue da minha mãe era doce demais, eu engordei mais do que devia e, por isso, tive que nascer antes da hora, de 7 meses. 28 de dezembro, 3 dias antes do fim do ano, portanto. Dr. Fritz sabe tudo!
O obstetra era contra cesariana nestes casos, achava que a passagem pelo canal era importante para desidratar a criança e evitar a ocorrência de “membrana hialina”. Não me pergunte o que é isso que eu não sei, estou repetindo o que minha mãe me contou, mas achei alguma coisa aqui. Só sei que nasci de parto normal induzido, as contrações provocadas por uma droga, à minha revelia. Contrações sem dilatação, e essa minha bendita cabeça enorme. Quem mandou vir com recheio extra?
Doeu!, diz minha mãe. Eu não lembro mas deve ter doído pra mim também, porque quase morri. Nasci roxinha. Depois fiquei amarela, icterícia. Depois, não sei que cor me deu afinal, e resolvi que ia vingar, ainda que doce demais pra este mundo amargo. Por sorte, não sou diabética, e aproveito pra mandar um grande beijo pro meu pâncreas, que tá aí me assistindo. Sempre na maior insulina, acompanhando nosso programa!
Isso tudo foi pra dizer que a diabetes é uma doença grave, porém controlável. Vale a pena estar informado. Na dúvida, consulte um médico e faça os exames. Vai que você não encontra o Dr. Fritz pra te avisar…
Hoje é o dia mundial da diabetes. A Lucia Malla dá várias informações e links úteis, vai lá!
Saúde pra todos.

First-Kiss.jpgJoão, conheci menina
Antes mesmo que me lembre
Depois, ninguém me contou
Onde é que foi parar
Lembro dele sempre ali
E então eu nem percebia
Sem que eu desse pela falta
A vida andou, distraída
E João? Ninguém me contou
Onde é que foi parar
Lembro de sermos amigos
Que me emprestava a borracha
E sorria, tolerante
Que a devolvesse mordida
Lembro que nunca falou
Nem eu pude confessar
O que ainda descabia
Em imaturos sentidos
Não nos complicava a culpa
Nem paixão, ciúme, apêgo
Nem desejo não havia
Só tínhamos um ao outro
Cúmplices na mordida
Solidários no apêrto
Apertados pra ir ao banheiro
Sem saber pra quê ao certo
Sem lembrar que o outro existia
Quando a escola estava longe
Sentindo o que a gente sentia
Quando se sentava perto

Ciência Inexata

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Poesia não é má temática:
é matéria até que boa,
apesar de pouco prática…
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P.S. – Rolou um “sarau espontâneo” nos comentários. Confira!

A MORTE INICIICA

Me interesso mais por um afluente do que pelo rio principal. Prefiro a Gnose ao Cristianismo, a Cabala ao Judaísmo, a Parapsicologia à Psicologia. Estudo há muitos anos estados alterados de consciência; e o que é percebido nestes estados me parece mais próximo da verdade do que a avaliação da realidade feita pela mente lógica que utilizamos no dia-a-dia.
Assim, não é de admirar que tenha dado com os costados em algumas Escolas Iniciáticas; que eram chamadas, por quem nunca as freqüentou, de Colégios de Magos. O que virou uma piada, depois de Harry Potter.
espelhodalua.jpg
A morte é uma das iniciações. E, por iniciação, entenda-se dar um outro sentido, que não o profano, a algumas palavras. Compreendê-las de outra maneira.
A propósito do Dia de Finados, um trecho do meu livro O Espelho da Lua:

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livro_fal.jpg
A maravilhosa Fal, destacada integrante de nosso grupo e-néditos, cansou de esperar que uma editora de visão invista em seu talento. Arregaçou as mangas, raspou o cofrinho e vai lançar, por conta própria, seu segundo livro, O Nome da Cousa.
Está aberta a temporada de pré-venda do livro, ao preço promocional de 25 Reais. Manda um e-mail pra reservar seus exemplares: livronovodafal@gmail.com . Compre vários. Excelente opção de presente de natal, amigo oculto e o que mais sua imaginação sugerir. Eu recomeindo e assino embaixo.
Quer uma amostrinha da prosa da moça? Olha aqui, ó.

Já devo ter sido queimada umas 157 vezes ao longo das encarnações, então não vai fazer muita diferença se eu for pra churrasqueira novamente. Ainda mais que, hoje em dia, posso pleitear uma execução mais rápida num forno de microondas, coisa de um minuto e meio na potência máxima.

Por essas e outras , vou confessar a vocês: sim, eu sou uma bruxa!

É de família, fazer o quê? Mas olha, eu não sou nariguda nem tenho verrugas, e nem gosto muito de roupas pretas. Faço uma linha mais light, nariz arrebitado e trajes civis, tipo “a feiticeira” (a original, é claro. Nicole Kidman que me perdoe, mas eu recuso imitações).

Mas também não sou loura, nem tenho aquela vidinha careta da Samantha. A Mâmi é tão espirituosa e sarcástica quanto a Endora, só não tem aqueles olhos repuxados nem usa sombra verde. Somos bruxas tropicais pós-modernas, divorciadas e emancipadas. Sabemos nos misturar quase perfeitamente às pessoas normais e abdicamos do uso de nossos poderes em público, ainda assim não é difícil reconhecer uma de nós, se vocês prestarem bem atenção a alguns sinais característicos:

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O tao do rio

shenchou4.jpg
Tudo que tem um nome
Não pode ser o rio
Sem nome passa
Eu rio

Picasso-The_Guitar_Player.jpgHoje é aniversário do meu irmão Claudio. Aquele que canta divinamente, sabe sambar e ainda escreve bem.
Fazendo quarentinha na maior linha. Sem o menor sinal de barriga, calvície, caretice e outras mazelas que costumam acomenter os que atingem esta provecta idade. Modestamente devo admitir que a genética dos Nóvoa favorece a longevidade e a conservação dos corpos e dos espíritos. Mas talvez ele tenha algum mérito nisso também, não dizem que quem canta seus males espanta?
Hoje devemos explorá-lo um pouco, exigindo que ele toque e cante nossas canções favoritas. Minha mãe vai pedir “the boxer” e eu, “my sweet lord” e alguma do Chico que ele vai dizer que não lembra, aí eu vou insistir e ele vai acabar tocando, ou não, mas tudo bem, eu ouço o que vier de bom grado. Mas me derreto mesmo quando ele canta “sister” (Miss Celie’s Blues): sister, you’ve been on my mind / sister, we’re two of a kind…
Querido irmão, hoje eu vou esquecer nossas brigas, sopapos e xingamentos ao longo dessas 4 décadas, nossas disputas pelo canal de TV, pela última colherada de doce-de-leite, pelo banco da frente do carro, minha inveja por você desenhar melhor e ser mais musical que eu, meus ciúmes por você ter sido, por alguns anos, o filhinho único da mamãe, vou deixar de lado todas as nossas divergências de opinião e credo, suas implicâncias com os meus namorados, suas chatices e as minhas, pra dizer que a nossa cumplicidade supera isso tudo. Você é quase eu.
Vou repetir quarenta vezes pra você nunca esquecer:
Te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo,te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo.
Tudo de bom nessa vida, Claudio, você merece!
(ah, hoje também é aniversário desta figura. Parabéns, Bia!!)

genedavis.jpg
Se você pretende sustentar opinião
E discutir por discutir
Só pra ganhar a discussão
Eu lhe asseguro pode crer
Que quando fala o coração
Às vezes é melhor perder
Do que ganhar
Você vai ver
Já percebi a confusão
Você quer ver prevalecer
A opinião sobre a razão
Não pode ser não pode ser
Pra que trocar o sim por não
Se o resultado é solidão
Em vez de amor uma saudade
Vai dizer quem tem razão
(Discussão – Tom Jobim)

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Às vezes a minha natureza opinativa me cansa, ainda que não possa evitá-la totalmente. Ontem mesmo, em simpaticíssima reuniãozinha aqui em casa, estive na situação de polemizar com rapaz gentil e excelente que tinha acabado de conhecer, amigo de meu elfo preferido (a quem tive finalmente o prazer de presenciar em carne e osso). Tudo ia muito bem e todos falávamos abobrinhas divertidas, em volta da mesinha no jardim, após várias cervejas.
Eis que, a troco sabe Deus do quê, passamos a falar de um assunto seriíssimo: Artes Plásticas. Ou melhor (pra você ver quão séria era a coisa): Arte Contemporânea. E eu tinha que ter um raio de opinião sobre isso? O cara faz mestrado, lê e discute sobre esse tema o dia todo, e vou eu me meter a dar palpite? Ai ai.

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rosasdali.jpgsossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora
calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa
(Paulo Leminski)
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Não posso deixar de lembrar aqui o 48º aniversário do meu pra sempre amado irmão Belben (Celso Henrique). Muita luz, meu querido, onde você estiver.

La Concha Cerrada

(sinópsis de telenobela en portuñol abanzado, tipo excsportación, para todo el mercosur)
Por Chrissita Nuêboa
muchachagirasolesrivera.jpg
En un bedjíssimo balneário rrunto a la mar, Conchita Ibañez y Montalba era una puebre mutchatcha sueñaduera que solamiente desseava encontrar el amuer. Todos los días, cuando su maldossa madriasta, Doña Perpetua Dolores Montalba, molestabale con pessados servicios domesticos y tratamiento dessumaño, Conchita superaba sus probliemas cantándo, suspirándo y sueñándo con Ramón Augustín Hernandez y Zaragoza, su vecino rico, intelirrente y hermosso que ella osserbava de lejos.
Ramón era nóbio de Rossário Nuñes Javier, una chica de la alta sociedad, pero en verdad una golpista ecspertallona que solamiente quería su deñero, y haría cualquier cossa para conseguirlo.
Ramon nunca tenía siquiera mirado Conchita, pues que la madriasta no permitía que la enteada salisse del palaciete, para que no excspussesse su gracia y bedjeza.
Conchita, que amava la mar, saía de cassa escondida para bañar-se en la playa a la notche, cuando tenía luna llena. Ella esperaba su madrasta adormecier y bañavasse por algunos momientos, su mússica-tema al fondo, imárrenes en câmera lienta…
Conchita llorava en segriedo por Ramón, su amor impossible.

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¡Ya basta!

frida_kahlo_self_port.1937.jpg
Bamos hablar de otra cossa? Jueves (quienta-fiera, para nossotros) es el Día Mundial del Portuñol y, como todos pueden mirar, djo hablo mutchíssimo bien! Errtoy prieparando un puest speciall, un mielodrama merricano, con lo cual pretiendo tornarme una nobelista ríca y famuêssa en todo el Mercosur! Aguárdenme!!!
Para quien quier practicar el idióma para el grand día, djo recomiendo errtes cursios de gran utilidad: Portuñol – níbel bássico, mêdio y abanzado. Em pocas lessiones usted estará listo para biarrens por tueda latinoamérica. Para más lecturas edificántes, ecsplore errte sítio acuí. ¡Mira la qalidad!

SIM, por gentileza!

PicassoBlueDove.jpg
Os que ajudam o soberano pelo curso
esses não violam com armas o mundo
Tal ação provoca reação
Lao Tsé – Tao Te King (Escritos do curso e sua virtude)

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nosnaredeverde.jpg(blogagem coletiva nós na rede sobre o desarmamento. veja aqui outras opiniões.)

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A NULO OU A NÃO

Sobre a nossa “jornada cívica” do dia 23, primeiro é preciso distinguir entre plebiscito e referendo. No plebiscito, nos consultam se queremos ou não instituir uma nova regra. No referendo, vamos apenas referendar (ou não) norma polêmica já existente. É bom lembrar que o chamado Estatuto do Desarmamento já está em vigor; portanto, é importante dar uma lida na lei antes de enfrentar as filas do dia 23, porque ela regula muito mais do que nos faz crer a pergunta simples que devemos responder nas urnas com um ingênuo “voto 1” ou “voto 2”.
nosnaredeverde.jpg

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O Pulo da Gata

catwoman.jpg(Por Dra. Lovesick – Personal-self-esteemer)
Da série “só para mulheres (e homens que as adoram)”:
TIP – Teoria da Intermitência Permanente

Cara amiga internauta,
Pra começar, aviso que esta teoria é politicamente incorreta. Quem liga? É 100% eficaz, e você sai bem na fita.
Eu tive meu brilhante insight a partir das teorias de Skinner sobre aquisição e manutenção de comportamentos em animais. De tão simples e funcional, eu devia vender esta fórmula em livros de auto-ajuda e ficar muito rica mas, como sou uma missionária da iluminação feminina, dividirei minhas conclusões graciosamente com as freqüentadoras deste sítio.
Os homens, eu preferia que não lessem para que não buscassem alterar conscientemente os resultados mas, como tudo leva a crer que não possam agir contra seus instintos, fico tranqüila. Talvez, em sua curiosidade, aprendam algo sobre si mesmos, e ficarão espantados de perceber como são tão facilmente manipuláveis por estratagemas primários.
Bem, vamos à teoria.

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Dicksee.Romeo.jpg
Eis que encontro um amigo antigo, aquele mais legal, mais fiel, mais sincero, mais tudo-pelos-outros, mais não-tem-outro-igual. Que além de tudo tornou-se o mais bonito, o mais inteligente, o mais engraçado. O mais tem-tudo-pra-ser-feliz.
Se a vida fosse justa, lógica e razoável, aliás, se ela tivesse o mais ínfimo bom-senso, ele seria, disparado, o homem mais realizado sobre a terra. Só que a vida não tem nada de razoável, não se submete ao bom-senso e o meu amigo está – pasmem! – sofrendo de amor.
Não adianta dizer que, se ele declarasse aberta a vaga , em cinco minutos haveria uma fila de mulheres maravilhosas disputando a tapas um lugar em seu coração. Ele não quer uma fila de mulheres maravilhosas se estapeando; quer uma só, aquela que ele escolheu. Com quem fez sonhos, planos, filho, família. A quem fez promessas (e, possivelmente, cobranças…), a quem ele atribuiu o poder de fazê-lo feliz ou infeliz.
Pois que ela, já tendo tirado a sorte grande, ainda cismou de apaixonar-se. Por outro.
Por muito que fiquemos tentados a crucificá-la por sua sandice e dizer que ela não o merece – e isso me teria sido até fácil, já que mal a conheço e admito que, naquele momento, faria quase qualquer coisa para devolver a auto-estima ao meu amigo – sei que a dor de amor, embora tola, insensata, não se deixa enganar por argumentos tão ingênuos.
Afinal, o que tem o merecimento a ver com o amor?
O não merecê-lo não a faz menos amada. Também não faz que ela o ame mais. Só faz, talvez, que ele se ame menos, por chamar de amor a dor que sente. Por querer, por um instante, para ser amado, não ser quem é.
A dor de amor é aquela que nos faz querer vender a própria alma em troca de uma outra alma que nos faz sofrer. Portanto é um péssimo negócio. E, ainda assim, queremos realizar a transação, apesar dos evidentes prejuízos.
Essa é a beleza do amor, e também sua miséria: ele nos faz tramar contra nós mesmos, desejar a dor e até a morte. Faz esquecer nosso próprio nome, se for preciso. E dizer, como Romeu (Romeu e Julieta, ato II, cena II): “Dá-me o nome apenas de Amor, e ficarei rebatizado”.
Tomara que um dia desses meu amigo se depare, qual Narciso, com sua própria imagem num espelho-d’água e, reconhecendo sua beleza, caia de amores por si mesmo. Então sua hoje amada não será mais que um eco distante a repetir para todo o sempre o seu nome em vão ão ão ão ão ão…

Primeiro de outubro de mil novecentos e noventa e cinco.
Há dez anos atrás, num sábado de sol como hoje, eu conheci o amor verdadeiro.
Muito antes disso já sonhava com ele e sabia que, depois que o conhecesse, eu não seria mais a mesma.
Em janeiro ele resolveu que vinha, em fevereiro me avisou. Em agosto já era bem evidente que eu tinha o rei na barriga.
Enorme que estava, me sentia pequena e acho que foi por isso que escrevi este poema aí embaixo (de pouco valor literário, que meus neurônios estavam de licença-maternidade, inclusive mistura tu com você, o que minha mãe considera imperdoável, mas vale o registro sem revisões).
Passados tantos anos, surpreende que ainda me sinta exatamente assim:
davinciadorati.jpgQueria ser melhor pra você
Cantar mais, andar mais, amar mais
não ter medo demais
não chorar demais
Queria ser a melhor
pra merecer você
pra merecer essa magia de
sendo eu comigo
ser você
que deve ser tão melhor
mas me escolheu
pra te nascer
do meu umbigo
.
Dez anos de Leonardo, luz em forma de gente. Parece que foi ontem; parece que desde sempre.
Todo amor, Mãe.
.
Hoje, coincidência ou não, minha avozinha faria 100 anos. Aquela que declamava poesias enquanto arrumava a casa, que adorava contar histórias, que um dia quis fugir com o circo. A bênção, Vó Duca! Estamos por aqui contando histórias e lembrando de você.

~cabelos no espelho~

vikMuniz_Alice.jpgcabelos molhados enrolam~se
um~no~outro
colam~se arabescos pelo espelho escorrem
escorregam superfície linhas
curvas dançam líquidos instantes
formam desenhos~como~nuvens~teias~miríades~de~fios~enlaçados~meias~de~rendas~tênues~chás~de~róseas~cálidas~lendárias~saias~fúcsia~véus~de~maia~de~buda~brahma~vishnu~shiva~lakshmi~chinesas~sedas~puras~cor~de~opala~compridas~tramas~de~hordas~de~crisálidas~anteprojetos~borboletas~mis~imaginárias~vôos~leves~dias~breves~plenos~alegrias~piruetas~várias~entre~as~flores~roxas~amarelas~frutas~tenras~acridoces~de~altas~centenárias~árvores~raras~raízes~aéreas~brisas~marítimas~correntes~ascendentes~vôos~transparentes~asas~azuis~zz~
duplicados refletidos arte um instante antes
de secar ao vento descolar saltar voar sumir no espaço avesso do universo cada um de um lado
da imagem
ou talvez pintados pincel muito fino pelo de camelo nanquim tatuagem
miragem que o calor derrete ou quem sabe o acaso
rachado ao tempo no azulejo antigo em trilha ladrilhado rua de brilhantes pro amor passar dentro do bosque um anjo
Iluminura de conto de fadas com final feliz ou de outro lado um livro
de areia história estranha até quem sabe feia
mosaico vivo ao sol vitrificado pra enfeitar pra sempre um caminho errado
~

(blogagem coletiva. uma ação nós na rede: a blogosfera agindo em rede)
Um poema de Brecht, para que as opiniões aqui expressas sejam um libelo contra as circunstâncias quase sempre desesperadoras que levam ao aborto, mas jamais um argumento de acusação contra quem o pratica.
Pela erradicação da miséria, da ignorância e do abandono.
Pelo direito de não ser Maria Farrar.

 

Maria Farrar, nascida em abril, sem sinais particulares,
menor de idade, órfã, raquítica, ao que parece,
matou um menino, da maneira que se segue.
Afirma que, grávida de dois meses,
no porão da casa de uma dona,
tentou abortar com duas injeções
dolorosas, diz ela,  mas sem resultado.
E bebeu pimenta em pó com álcool,
mas o efeito foi apenas de purgante.
Mas vós, por favor, não deveis vos indignar.
Toda criatura precisa da ajuda dos outros.

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Hoje, dia 28 de Setembro, é o dia pela descriminalização do aborto na América Latina. Logo…
POR QUE SOU CONTRA O ABORTO
(veja outras opiniões aqui. blogagem coletiva nós na rede)
.

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E chove

muito.
van_gogh_rain_auv.jpg
As águas andam grandes por todo lado, no mundo todo. A gente vai na correnteza, que navegar é preciso e viver não.
Examino estrelas e ventos, não pra resistir, quem sou eu, mas apenas pra dar um norte à minha deriva. Tentar adivinhar a ilha desconhecida. Rezar que as correntes me poupem de abismos, ou não também, não sei ainda o meu lugar nessa maré, quem sabe?
As águas são muito maiores do que eu. Quando chove não dá pra ver as estrelas. Eu leio cartas de navegação como se as compreendesse.
Para onde estarão indo as águas?
~

Estado de graça

fruitflo.jpgA vida vale a pena quando você faz um pequeno mimo a um amigo e recebe um arranjo inesperado de flores com pedaços de frutas da estação.
Um trecho:
(…)
Chamo essas sensações de “estar em casa”. Sentir-me em casa. Não é geográfico ou arquitetônico, é neural. É sináptico. É o meu clube. A minha casta. É onde me sinto bem. Onde quero viver. Meu hábitat. É raro, mas faz o resto valer a pena. É o que torna difícil o dia-a-dia cerebralmente estoporante. É o que faz tremer meu ceticismo cósmico-cármico. É o que me faz amar o Acaso e grafá-lo em maiúsculas.
Coisas que se sabe de sentir, antes de pensar.
É o fascínio da arte. Numa infusão junto com o fascínio pelas pessoas.
É mais que isso. Muito mais. Eu tenho uma vida inteira pra descobrir.”

~.~
Tiago Casagrande, graça em forma de palavras.
.

É primavera!

fan.gif
…a vida já começa a mudar de cor.

e-néditos

e-scritores • e-nspirados
e-nteligentes • e-modestos
e-mortais • e-minentes
e-mpossíveis
e-ndigestos
e-ndigentes • e-ndígenas • e-dílicos
e-maginários • e-ridescentes • e-luminados
e-lusionistas • e-lustrados • e-lustres • e-lógicos
e-nstáveis • e-nsólitos • e-ncógnitos
e-ndecifráveis • e-ncrencas • e-mbroglios
e-ndecentes • e-mplicantes • e-rônicos
e-conoclastas • e-morais • e-nocentes • e-núteis
e-ncríveis • e-mperdíveis • e-mpensáveis • e-nfláveis • e-mensos
e-mersos • e-mundos • e-fundos •
e-tudo
e-néditos : edite-nos
(clique para saber quem somos e o que queremos)
.

pollock23.jpg
Misteriosa escrita da vida. Que espécie de autor transcreve em fato uma pequena parte de tudo o que seria?
A ficção faz mais sentido: onde há suspense, haverá morte; onde há encontro, há amor. Na vida, as coisas podem não vir a acontecer. Quem esqueceu de escrever a cena? Quem colocou um personagem inesperado? e agora a história pode ser completamente outra.
A vida não cumpre o script, escorre, escapole. Segue caprichosa por caminhos líquidos; sua única certeza é ir desaguar no mar.
~~~
Não agüento mais o inverno, gosto quando esquenta. Saudade de dar um mergulho.
Primavera tá pertinho que eu sei, logo ali. Dias melhores, verão.
Só que o final da espera é o instante mais comprido e eu tô apertada pra ser feliz.
.

Pensa?

qibaishiflower.gif
Eu queria ter um pensamento bem pequeno, que até uma criança pudesse alcançar.
Um pensamento tão largo onde coubesse o infinito inteiro e cada uma das coisas únicas que ele contém, desde as mais ínfimas.
Uma idéia de peso, que tirasse o mundo do eixo.
Uma forma leve e perfeita, como uma bolha de sabão, que explode e vira um cuspe sob o nada.
Que tivesse a elegância de ser breve.
Que fosse música. Um riso às lágrimas. Um amor pra sempre um instante.
Que não precisasse falar nada.
Um pensamento de tão longo alcance que soubesse um belo dia ter fim, sem contudo deixar de estar sempre aqui, agora tudo ao mesmo tempo.
~~ . ~~
(queria mesmo era ouvir o silêncio de ondas do mar quando eu terminasse de pensar tanto)

pipemagritte.jpgTem pessoas que são exemplos para mim, como Budas vivos: seres iluminados que devem nos servir de guia.
Uma dessas pessoas é minha amiga Dani-Loira, que veio ao mundo para provar que, como Foucault já dizia de uma forma muito complicada, e um anúncio de refrigente, de modo bem mais simples: “imagem é nada, sede é tudo!”.
E o que tem o cachimbo do Magritte a ver com a Dani-Loira? Bom, pra começar, ela não é loira. É até um pouco japonesa, na verdade, mas quem se importa? Lá pelos 16 anos ela achou que precisava de um realce no visual. À base de alguma água oxigenada e muita atitude, ela convenceu a si e ao mundo que é loira e pronto, a coisa pegou. Hoje em dia a loirice é alcunha e parte da personalidade, ninguém discute.
A Dani também não é assim propriamente bonita. Altona demais e não muito magra. As feições também não são muito delicadas. Se fosse comigo, acho que viveria meio encolhida, acanhada. Mas a Dani, ao contrário! Ocupa o espaço e ainda sobe no salto! Cabelão loiro (metade é aplique), carão de traveco, e lá vai ela noite adentro. Menina, não é que ela arrasa na balada?! Pega geral!! Vocês devem achar que ela é inteligentérrima, engraçadíssima… que nada! Mas sabe seduzir, sei lá. Ri das piadas dos caras, faz cara de lôra-burra… Funciona que é uma beleza.
Ela tem uma estratégia clara: jamais se deprecia. Está sempre ótima, todos os caras estão a fim dela. Questão de ponto-de-vista, não é mesmo? Outro dia ela arrumou um namorado que tinha ejaculação precoce. Achou uma maravilha, mais uma prova do que ela sempre soube: “Eu sou muito deliciosa merrrmo!”
Há uns meses ela voltou a sair com um ex-namorado e, pra que ele não soubesse que ela estava desempregada, inventou que estava trabalhando numa dessas grandes empresas de telefonia. Mas o namoro engatou mais sério e ela viu que não poderia manter a farsa. Teve que dizer que se demitiu. O motivo? Sofreu assédio sexual, é claro! “Meu chefe está tarado em mim, ai que saco!…” O namorado ficou louco, queria ir lá bater no cara… e ficou muito mais apaixonado, que o aumento da demanda sempre valoriza o produto.
Mas é na hora do biquíni que minha ídola se supera. Não enxerga os culotes, a barriga, as estrias. Só exclama pra si mesma: “Tá podendo, hein Dani?! Lindona!!” E sai rebolando pelas areias de Ipanema, linda, loura e japonesa, destruindo corações.
Ela nunca diz o seu peso mas jura que tem a proporção ideal: “É que eu sou muito alta, tenho ossos pesados, então o peso em mim não conta, o que vale é a medida!” Quer saber suas medidas? No perfil do Orkut, se definiu como “gostosa, tipo falsa magra”. Tem 237 fãs.
Conclusão: É melhor ser uma falsa magra do que uma gorda sincera.

birds1.jpg
O que você escuta quando não está ouvindo nada?
Eu escuto, no momento:
1) um grilo
2) carros ao longe
3) o batuque de algum terreiro de santo na mata
4) O som mais longe de um baile funk na vizinhança
5) Um grilo.
6) Uma cigarra prestes a explodir
7) O meu coração
8) Cães latindo perto e longe e em todo canto desse mundo, em rede.
9) Um assobio constante e elástico que não sei de onde vem.
10) Minha respiração num suspiro
11) O barulho de meus dedos nas teclas
12) Algum pássaro noturno.
Vou completar esta lista depois…
…
Cinco da manhã:
13) O baile funk ainda não acabou.
14) O batuque na mata continua.
15) O grilo também persiste.
16) Os cachorros idem.
17) Os primeiros pássaros da manhã começam, ainda tímidos.
18) Uma ambulância ao longe.
19) Uma moto, mais perto.
20) Meu pensamento, aqui dentro: Vai dormir, olha a hora! Sorte que é domingo: Um dia perdível viável.
…
Seis da manhã:
21) Os carros passam mais perto, alguns até buzinam: acordem, sonhadores, amanheceu!
22) Um galo canta.
23) Os pássaros explodem em sinfonia; uma grande e colorida orquestra que justifica, a cada acorde, minha espera insone.
Uma coisa eu tenho que agradecer à vida. Ruídos à parte, eu AMO o meu silêncio.

Bad trip

picassofemmebleu.jpgComo ébrio que vai passando
De um vício a outro, sem cura
Insisto nessa procura
Até onde eu vou? Até quando?
Meu bolso já está furado
O meu coração, partido
Meu império, devastado
Profanado meu mistério
Eu brinco demais com a sorte
Eu levo o amor muito a sério
Eu perco o chão e afundo
Eu vivo a fundo perdido
Eu findo longe da morte
Viciada nesse mundo

Independ?ia?

nosnaredeverde.jpg“Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!”
(HINO À REPÚBLICA – Letra de Medeiros de Albuquerque / Música de Leopoldo Miguez)

Reflexões sobre a Independência, em alguns dos melhores blogs brasileiros espalhados pelo mundo.
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Mito

ingres6.JPGEu Vênus
Te invento
Te Apolo
Me pitonisa
Me enquadra
Me hipotenusa
Eu musa
Você cateto
Me inferna
Me paraísa
Você Adão
Eu vã
Eu sã
Tu Pã
Me flauta
Me toca
Eu neura
Me hipnotiza
Jo casta
Você é Freud
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Pena

feathers.jpg“É uma pena
mas você não vale a pena
não vale uma fisgada dessa dor”
(trecho de “Não vale a pena“, música de J. e P. Garfunkel – intérprete: Maria Rita)

Eu não sou do tipo que diz “a fila anda”. Outros homens tem aos montes mas meu coração não é um guichê. Ele fica vazio sim. Aqui quem anda sou eu. Aliás, vôo. Eu sempre fui mais longe que você, que pena. Estou indo outra vez.
Não vou ameaçar seus brios com outros amores, eu não amo por orgulho, amo só por amor, mesmo. Posso não vencer sempre mas eu gosto de quem sou. Eu posso perder tudo e todos que vou continuar gostando, ainda que a duras penas.
Eu sou mais forte que você, que tem medo.
Sou mais rica que você, que tem tudo.
Mais bonita, sou artista. Sei cantar e dançar, tenho graça. Palhaça; sei cair e levantar. Sei falar sério também. Sei mudar, fico muda. Falo com todo mundo, no mundo todo. Sou todo mundo.
Pra falar a verdade, sou tudo de bom, de modo que entre nós sou mais eu.
Eu sou capaz de esperar muito tempo por alguém que não vem, longos anos. Certa vez esperei décadas, como uma tonta, pelo homem errado.
No entanto pra deixar de amar levo um dia só, uma noite, ou nem tanto.
Um belo dia acordei e… pena mesmo, tinha esquecido, nem sei mais quem foi.
Não quero vingança, não quero provocar ciúmes, insegurança, seria fácil demais. Vulgar demais, não sou assim, não vale a pena. Deixa você ficar em paz com seu desprezo. Deixa a vergonha comigo. Deixa você dormir pensando que me tem e não quer. Deixa, meu amor. Eu te deixo.
Quando eu acordar amanhã, não vou mais lembrar do nosso longo tempo. Terão se desvanecido todos os meus sonhos e lembranças de você, até aquelas mais remotas e queridas, como penas ao vento. Só me restará esta pena com que escrevo, esta que nunca me falta e você nem ninguém pode jamais me tirar.
Quando eu cair em mim, nunca terei sido sua, nossa, isso tudo.
Seremos eu e o Amor, apenas.
.

Dias Assim

(publicado pela primeira vez no epinion em 30/05/2004)
littlebox.jpgTem dias que eu me sinto vazia como uma bola. Aliás, vazia como um cubo, porque é um vazio com arestas. Um cubo opaco e denso obnubilando minha clareza. Um cubo pequeno onde eu não caibo, sufoco. Fico ali oprimida como assistente de mágico. Empacotada em meu vazio de chumbo que não deixa escapar um grito. Em meu cofre-forte de silêncio. Apalpando os estreitos limites da minha liberdade, as paredes grossas da minha dor.
Tem dias que eu me condeno à solitária sem direito a banho de sol. Arrasto corrente, me visto de listrado e marco os dias, semanas, com riscos de canivete na parede. Me julgo e me penitencio sem indulto.
Tem dias que a vida ganha muros altos, cores cinza. Limites, limites, limites até onde a vista alcança – e a vista alcança bem pouco. O próprio firmamento é um teto rebaixado, baixo-astral, como se diz por aí.
Tem dias que são foda. Mas eu não nasci ontem, sabe? Já percebi que o encaixotamento produz uma curiosa ilusão de óptica. No espaço exíguo, eu pareço enorme, ocupo a quase totalidade do espaço, só dá eu lá dentro. E tudo que eu penso e sinto reverbera, ecoa, parece gigante. Minhas motivações, minhas vergonhas, meu sofrimento parecem ser tudo o que há – o mundo como um elevador enguiçado, espelhado por dentro, refletindo meu desespero ad infinitum. Eu no cenário por todo canto e no meio da cena, em foco. Exageros da perpectiva, puro teatro de espelhos. Tão autêntico quanto Konga, a mulher gorila.
Estou aprendendo a fechar os olhos, respirar fundo e perceber que há oxigênio bastante para mim e, se o espaço está apertado, tempos melhores virão. No dia da bonança, quando meu campo de ação se abrir, vou lembrar de dançar bastante para celebrar . Até lá vou dançando miudinho e sempre se pode cantar, mesmo no escuro. Com os pés e mãos vou deformando meu cubo, alargando para os lados, abaulando o teto como um baú. Meu baú de maravilhas boiando no mar à deriva, uma arca que resiste aos dilúvios. Onde minha alegria se preserva mesmo durante as tempestades. Um balsa que balança, vira, dá cambalhota mas não afunda.
Tem dias que eu me sinto plena como uma caixa a ser preenchida. Aliás, como uma bola, porque quando estou assim eu rolo. Deito e rolo.
.

Rescaldo do Sarau

vanitas.jpgE não é que o bailarico
Saiu de fato a contento?
Não houve constrangimento
Por parte dos convidados
O nosso amigo Ricardo
Falou sobre CPI
Carecas e deputados
(e a bufunfa cabeluda
que levavam nas cuecas)
Mas não ficou só aí
O argumento dessa festa
Falou-se de borzeguins
Que eu nem sei bem o que seja
Mas que palavra mais linda!
Falou quem nunca verseja
E de repente nos brinda
Com uma quadra de improviso
Teve verso de encomenda
Chegou gente sem aviso
Veio povo da Itália
Da Espanha e dos Isteites
Do Paraná, de Goiânia
Catarina, das Gerais
E de todo canto mais
(notícia boa se espalha!)
E se nos falta juízo
Ou até alguma renda
Não nos faltaram enfeites
Pra abrilhantar o sarau
“Talentos a dar com pau”
Disse o Herbert Farias
Criativa criatura
Gente de alta cultura
Nos chama o Hugo Leal
A quem a musa não falta
Mas mente que escreve mal
Bem como a Dal fingidora
Escritora muito boa
Que chega a fingir que rouba
A poesia do Pessoa
Enquanto o modesto Juca
Martela sua rima rica
De métrica encantadora
E galopante beleza
Verinha da Biblioteca
Esbanjando simpatia
Traz o vinho, põe a mesa
E faz um brinde: tim-tim
A mui talentosa Ligia
(azeitona em nossa empada)
Desfia seu “dom esquivo”
No meio do botequim
Nisso o gourmet Flavio Prada
Fatia um bifinho vivo
Dispara e abala a galáxia
A Daniela Caride
Jura que não é perfeita
Mas aqui, há quem duvide
E a gente se deleita
Com a mâmi Maria Helena
De quem herdei a mania
(dizem que tal mãe, tal filha)
Dos versos em redondilha
Sempre em compasso de sete
Teve também o Almirante
Com seu lírico elogio
E o Pecus fez um versinho
Pra mandar o seu recado
Elenara não é poeta
Mas trouxe verso emprestado
Pra não ficar fora dessa
Jatahy dançou na rima
Mas tem bom humor à beça
Clarice mordeu a fruta
Esquecida na gaveta
(quem tem boca vai à luta!)
João Noronha, engenheiro
Deu uma de repentista
E se arriscou no cordel
Pra se anunciar na pista
O famoso jornalista
E gente-fina Sergio Leo
Fez poema lisonjeiro
De níveas névoas tecido
O impagável Biajoni
Romancista que promete
Também é bom na poética
E fez verso divertido
Todos vencendo a vergonha
E celebrando a vitória
Do humor sobre a auto-crítica
Do save sobre o delete
Por tudo isso agradeço
A vocês que apareceram
E aos que ainda vão chegar
Quanta alegria me deram!
Certas coisas não têm preço
Pro resto, tem Mastercard
.

Convite ao Sarau

flowerchr.jpgSarau na casa das Nóvoa
É melhor que nas Novaes
Não cansa, não faz calor
E nem tem gente demais
Então faça-me o favor
De pôr seus versos à prova
Que o ingresso pra essa festa
É um mote pra seresta
Uma rima pra esta trova
A hora de nosso evento
Vossa Senhoria escolhe
Quando lhe trouxer o vento
Quando lhe soprar o fole
Só não vale o avarento
Que escuta mas nunca fala
Critica e não manda bala
Se fecha e tranca a gaveta
A este peço licença
Não leia os gracejos nossos
Que eu faço o melhor que posso
Mas também não sou perfeita
Pra falar de algum poeta
Antes ponha o seu na reta
E não me faça a desfeita
Faça sim a gentileza
De pôr de lado o embaraço
E tentar uma proeza
Ou um poema vulgar
Como este que vos fiz
Eu desde já agradeço
Vossa importante presença
Em nosso humilde solar
E pra selar meu apreço
Um beijo e um grande abraço
Atenciosamente,
Chris
(R.S.V.P.)

Tesouros da casa

goldenta.jpg(Este post ficará no ar durante todo o sarau e será atualizado à medida que forem chegando as contribuições. Deposite seu poema na caixa de comentários e sirva-se à vontade)
P.S. – Inverti a ordem dos poemas. Agora os recém-chegados estão por cima. O sarau está um espetáculo! Agradecidíssima pelas presenças e pelos poemas, repentes, micro-contos e demais inspirações. Beijos a todos.
.
Por Tânia Lima:
Querida amiga Christiana,
Perdoa-me o tardar da hora.
Dizem os com mais sabedoria:
Antes tardar do que ficar fora.
Vim participar dessa festa e,
na verdade, honrou-me o convite.
Trouxe vinho branco geladinho
e uns petiscos pra quem tiver apetite.
Eu?
Contento-me com poesia…
Letras, doçuras, ritmo…
palavras soltas e sensíveis
até de quem acha que não deveria.
Talvez uma letra de música
de poetas consagrados…
em versos e melodias…
hummm….
seriam do meu agrado.
E como é um sarau de respeito,
trouxe também alguns quadros…
telas com pinceladas de amor,
que ao gosto de todos sujeito.
No mais
vou aproveitar a presença
de gente com sensibilidade…
Vou sentar-me aqui e alí
deleitando-me com seus amigos,
que sei, são de qualidade.
Um beijo grande…
abraços apertados…
às donas da casa
e a todos os convidados.
.
Por Ligia Saboya:
PSICANÁLISE & PURPURINA.
A meus Psi Co-Analistas;
Não pretendo a caricatura,
nem o fiel da loucura
e timão;
O hematoma é condão do sonho,
requinte enfadonho,
fel padrão.
Lá quer seja a maré vigente
singro tenazmente por qualquer
milagre;
Pois coragem é cais intermitente,
já que da dor à frente
sequer
Deus sabe.
.
Por Ligia Saboya:
Vi Marte a olho nu!
Para Christiana Poeta Nóvoa
Para todo humano ato palmo a palmo cometido
urge que a ele se ate exato ou sensato sentido;
pois soa a palavra por tímpanos, às vezes, submetidos
a sotaque orquestrado por surtos de adjetivo.
Se a Deus ou ao Diabo se deve lato e stricto quesito,
a penas e adrede duela versus verbo o substantivo;
mas irrequietos provérbios de condão intelectivo
hão de açoitar as sentenças de caráter defectivo.
Sequer não existe pragmática para léxico irreflexivo,
quer seja a prosopopéia a expensas do eruditismo.
Nem cabe à metáfora indulto a verbetes desabridos,
pois não aventa a gramática tratados subversivos.
Por essas e outras me escalpo ante saraus redivivos
e rudemente enfronho meus poemetos em arquivos.
Não há antídoto nem prótese para prolapsos do siso,
profético e egrégio espião que pontualmente cativo.
Quis da rima casta e heráldica, quis de seu líquen detrito.
Quis a linguagem ambidestra para sublime delito.
Quis privar da gala fóbica como mártir concluído.
Quis ser morosa placenta desse mundo, e de outros idos…
Mas desta miragem e soberba fretei o milagre escandido,
e à unha não enfrento o touro, nem fruo o fruto maldito.
Somente me adejo frondosa no silêncio mais altivo
em meio ao remanso ímpar de meus ímpares amigos.
Sob as vésperas do tempo como se lume entretido
aguardo o inato momento em que enfim desguarnecido
rabisque meu corpo poesia de alcance intransitivo
e fragmente-se vasto contra o prisma argüido.
E então vou flanar ao relento de motes sem imperativo,
quiçá como cata-vento de sonhos não concebidos;
E por lampejos de brisa vou cochichar sem pruridos
por teus caracóis o segredo do gesto que acende o infinito…
.
Por Tita Aragón:
Neurônios desencontrados
Tenha cuidado
Onde pisa
Você pode estar andando
No lado errado da vida
Se não puder fazer
Não prometa
Não minta
Não faça
Não alimente
Falsas alegrias
O que tiver de ser
Vai acontecer
Mesmo que de um jeito
Completamente
Diferente
Porque as pessoas
E as coisas
Nunca são
O que parecem
Deixe de lado
O medo
Os bloqueios
Seja honesto
Com você mesmo
Não desdenhe
Não julgue
Não finja
Não se deixe levar
Por águas desconhecidas
O tempo sempre vai dizer
Seja inteiro
Seja leve
Seja sempre
Não dói.
.
Por Cynthia Feitosa:
Pra réponder, s‚il me plaît
É o que ordena a educação
Mas meu verso, e seu pobre pé
Quebrado gritam que não
Como sair da esparrela ?
Pensei, e só achei um meio
De pular fora da panela
Sem fazer um papel muito feio
Serei, como os deputados,
“relativamente” honesta :
Confesso não ter predicados
Pra participar da festa
Mas direi isso rimado
Pois sou ruim, mas não sou besta.
.
Por Dal:
RISO FALSO
Deixei a solidão me levar pelo mar,
Pela mão,
E encontrei tanta gente na rota,
Gente triste,
Gente nua,
Gente rota,
Que, aos poucos, o sorriso esgarçado
Que eu usava no início do jogo
(era um jogo)
Se mostrou estar longe do porto,
Se mostrou estar preso a amarras,
Se mostrou ser bem mais um estrago
Ser tão só um grande rombo na face,
Um escárnio.
.
Por Roman:
Réplica
Dizer “o todo é maior que as partes”
é apenas parte do todo, por assim dizer.
O todo oprime, reduz, produz descartes,
do modo que melhor lhe apetecer.
Onde está o gás dos elementos,
do H e do O depois de água feitos?
Sucumbiu pelo rijo adestramento,
simples rejeito no elemento liquefeito.
O todo ser maior que as partes é um meio engodo:
as partes podem ser e são também,
maior que o continente, que é o todo,
pelo século dos séculos, amém.
.
Por Dal:
O POEMA DO FANHO
(O ‘OEMA ‘O ‘ANHO)
‘inha ‘miga ‘hristiana
‘u ‘dorei ‘eu ‘arau
‘en ‘anta ‘ente ‘acana
E ‘ada ‘erso ‘egal!
‘ou ‘alar ‘rá ‘odo ‘undo
O ‘ue eu acho de ‘rasília:
É uma ‘orja de ‘afados,
De ‘achorro, uma ‘atilha!
Eu ‘enso ‘ue ‘oda ‘essoa
‘eja ‘olítico ou ‘ão
‘eve ter a ‘alma ‘oa
’em CPI, ‘assação.
Eu ‘inha ‘anta ‘oesia
‘rá ‘olocar ‘o ‘eu ‘log
Mas ‘ensalão, e ‘PI
‘ssa ‘ente só me ‘ode!!!
“ó não ‘osto do ‘ue ‘ejo
No ‘osso ‘uerido ‘rasil
‘uita ‘aca e ‘ouco ‘ueijo
‘a prá ‘uta ‘ue ‘ariu!
‘á ‘om, eu ‘ão ‘alo ‘ais
‘alavrão, ‘ê me ‘esculpa
‘omo as ‘essoas ‘ormais
‘deio esses ‘ilhos da ‘uta…
.
Por Ligia Saboya:
Patrícia, Dal, e à dona do Sarau;
feras na inspiração da rima
e na rima da inspiração!
Seus poemas têm sabor e “gosto de quero mais”;
voltem à cena, perdurem neste varal:
pois não há noite que decline
nem sol que se subestime
pra versos de convicção!
Parabéns ao trilegal trio legal!
.
Por Flavio Prada:
Hoje comi um bife
Fiquei pensando em você
Não um bife pequeno
Você estava linda
Um bifão
Com bastante fritas
E aquele olhar matreiro
Não estavam encharcadas
Desejo, puro desejo
Sequinhas
Molhada
Arroz também
Você dançava, nua
Tudo bem soltinho
Querendo me amar
Delícia
.
Por Ligia Saboya:
SE ME DEIXAS,
vou embrenhar-me por matos/ e matar cachorro a grito/
pichar muro em desacato/ aos títeres do teu partido/
e alardear inclemente/ que tens aftas/ joanete/
dois pivôs fosforescentes/ e um ronco ímpio e cacete.
E invento que foste parido/ por mal afamada senhora/
e sempre teúdo e mantido/ por bens meus sob tua penhora/
porque são teus sonhos carnudos/ teus beijos irreversíveis/
e que teu corpo desfruto/ como a mais audaz das virgens.
Pois me ata teu dom esquivo/ de me arregaçar alma e ancas/
às vezes num tique dorido/ às vezes em trejeito pilantra/
depois cheiras a manso ranço/ e a combalido capim/
e além, em meu ventre destranço/ teu longilíneo estopim.
Se me deixas, te enveneno/ e embarco pra orgias na Estônia/
ou em gamelas te dreno/ e assim te acocho as vergonhas/
e pela janela atiro/ teu tênis de marca/ e gibis/
e jogo na lata de lixo/ a coleção de vinil.
E deduro pros amigos/ a origem do nosso uísque/
demito a tenaz passadeira/ e armo um disse-não-disse/
mando um fax sem eira nem beira/ e um e-mail ao teu patrão/
e sem dúvidas que o conquisto/ pra meu amante e peão.
Porém se ficas comigo/ te poupo sono e fricção/
e te serei toda ouvidos/ quer seja o fardo credor/
e esqueço de ver novela/ e aprendo crochê e tricô/
e te preparo a vitela/ da amásia do teu trisavô.
Mas se te escafedes me excedo/ mijo fora do penico/
e ao rastro de teus voejos/ gorjeio orgasmos proscritos/
e, enfim, se me deixas, encapelo/ e ao leito vou de borzeguins/
e emplastro em ti como farelo de empada de botequim…
.
Por Daniela Caride:
Não sou perfeita
Não sou maravilhosa
Não sou carinhosa o tempo todo
Nem inteligente o tempo todo
Sou carente sim
E daí?
Sou relutante
Sou de rompantes
Sou de tempestades
Também sou de maldades
Sou de tolices
E babaquices
Sou de chatices também
E de mesmices
E eu sei que você me disse
Mas eu sou de teimosia
Às vezes de apatia
Às vezes sou sombria
Até mesmo fria
Mas também não sou muito chata
Nem muito careta
Não sou de muita birita
Nem de muita manha
Sou estranha sim
Sou estranha
Mas já disse
Não sou perfeita
Sou isso aí que se apresenta
Daniela Caride
Quase sempre sujeita
Quase nunca predicada
Quase nunca satisfeita
.
Por Sergio Leo:
Não são névoas
esgarçadas
por pessoas apressadas
Será neve,
tropical?
Só no shopping,no Natal.
Talvez nuvens
alto astral,
espumas de Carnaval?
São as Nóvoas,
níveas Nóvoas,
com essa nova.
Genial.
.
Por Elenara Iabel:
“aqui tens meu coração
e a chave para abrir;
Não tenho mais o que te dar
nem tu o que me pedir”.
Simões Lopes Netto
.
Por Christiane Jatahy:
Esse sarau faz graça
mas tá um pouco confuso
não sei quando é a hora
e muito menos o dia.
Vai ver que a idéia é essa.
Cada um faz um verso
mas só convidam o cara
que acertar a rima.
Ih, dancei!
.
Por Dal:
Dizem que o versejador
Finge tão completamente,
Que finge saber que é dor
A dor que o malandro sente.
Legal! Para ganhar a aposta
Poderei fingir também,
Então, se você não gosta,
Finge que sim, diz amém!
Agora, roubar do Pessoa
Só prá botar no sarau,
É malandragem da boa!
Por favor, não leve a mal…
Eu prometo que me curo,
E tento a regeneração,
Busco a musa no escuro
Dentro do meu coração.
Se eu não achar, paciência!
É bem melhor ficar mudo,
Porque poesia é excelência,
É dor, é paixão, é tudo!
.
Por Herbert Farias:
Eu queria estar por lá
no alcance desse sarau
talentos a dar com pau
garanto ali não faltar
mas por aqui vou ficando
– além do trampo, a distância –
relendo essa venturança
que a Chris postou por encanto
.
Por Vera Araújo:
Um Sarau é benvindo
quando se quer versejar
nesse encontro estou indo
jogando as palavras no ar.
A data pode ser agora
ou a qualquer hora
com todo o respeito
o convite já foi aceito.
Christiana é gente boa
não gosta de ficar à-toa
sacode a poeira do tempo
e recolhe os amigos no vento.
Agradeço a acolhida
nesse caloroso Sarau.
Volto pra roda da vida
minha estimada amiga.
Num afeto vai um beijo
com outro vai um queijo
com uma taça de vinho
vai brinde com carinho.
.
Por Flavio Prada:
Quem ainda, anda
vai à frente,
Deixa de parar,
Despara.
Porém ao correr,
Dispara
E quando diz: paro, pára.
Por isso disparo, bala.
Então quem a bala abala
É alvejado
Pois abalar o disparo
É parar o desabalo,
É incorporar chumbo,
Ser alvo,
Branco,
Límpido e morto,
Inabalável.
.
Por Luiz Biajoni:
“tens aí algum trocado, amigo?”
perguntou o menino sapeca
de rua. “não, tou a perigo!”,
respondeu o outro com tudo na cueca!
.
Por Clarice De Marco:
Fruto proibido
Essa gente da cidade
não sabe comer maçã,
perde tempo com a casca
semente e lavação.
Bom mesmo e lá na roça
tira-se a fruta do pé
e sem frescura se come
com casca e poeira até.
.
Por Nelson Moraes:
O meu da reta eu não tiro
Ainda mais pr’esse convite
Mas conheço meu limite
Sei até onde me viro
Meus versos não vão adiante
Nem chegam a vossos pés
Pois não passa aqui do convés
O talento deste almirante
Mas vou além da Taprobana
Para sentar e admirar
O talento da Christiana!
.
Por Hugo Leal:
Christiana, minha querida,
também chamada de Cris,
garota cheia de vida,
sem medo de ser feliz,
fiquei deveras honrado
com tanta consideração
ao me saber convidado
apesar de escrever mal
para dar o meu recado
no que chama de sarau.
Como posso estar à altura
De gente com a cultura
Daquela que vi no blog?
A não ser que monologue
Versejando sem sentido
Não vejo como botar-me
Com o mesmo prumo e rumo.
Poeta fraco, eu assumo
como virtude a fraqueza,
e faço dela, em resumo,
minha força na loucura
do princípio da incerteza,
a mostrar que minha feiúra
Também tem sua beleza…
.
Por Dal:
Depois de ter lido o Juca.
E degustado a Maria Helena,
Só mesmo se for maluca
Prá querer meter a pena!
Eu vou dizer um ditado
E prestem muita atenção
Mais vale um cuecão recheado
Do que qualquer mensalão!
Agora que eu já entrei
Na CPI que desnuda
Toda cabeça de rês,
Seja careca ou peluda,
Só tem um jeito prá mim
Se eu quiser que caiam fora:
É só cortar o capim
Laça, arreia, e manda embora!
Porque, lá em Minas Gerais
(terra de gente batuta)
Ninguém já não agüenta mais
Essa corja de fia’ da fruta!
.
Por Ricardo Canan:
Maria Helena faz campanha
um tanto quanto esquisita.
Se Candido for,
Marcelo D2 não ganha.
Mas com certeza pita,
cigarrinho de forte odor.
Já o problema do cabelo,
não é bem do candidato;
é, sim, do tesoureiro.
Com cabeça nua, mas sem pêlo,
vai auxiliar no mandato,
a cuidar do dinheiro.
Na campanha de Marcelo D2,
posso imaginar Dudu Nobre,
como responsável pela panfletagem.
Se nele votar, não reclame depois,
quando sentir-se mais pobre,
de novo enganado pela malandragem.
.
Por Maria Helena Nóvoa:
O nosso amigo Ricardo,
bastante preocupado
com a crise nacional,
detectou o que liga
o jovem Marcos Valério
ao velho PC Farias,
ao menos no visual:
Sugeriu (tremo ao dizê-lo)
uma relação causal
entre a falta de vergonha
e a falta de cabelo.
Isso é maldade de macho,
carecas têm seu ibope
e mulher não pensa assim.
Mas tenho que confessar:
sou mais Jandira Feghali
que Esperidião Amin
embora não advogue
probidade capilar.
Porém, se a tese do amigo
tiver qualquer fundamento,
quero aproveitar o ensejo
e não deixar pra depois:
Nem Serra, nem Garotinho,
nem Lula em 2006.
Pra renovar o Planalto,
voto no Carlinhos Brown
ou no Marcelo D2.
.
Por Juca Filho:
Já mandei para o espaço o embaraço
vou tentar , sendo assim, grande proeza
e buscar igualar esta beleza
que me chega das Nóvoa magistrais,
e, acessando meus dotes tão banais,
por vaidades escusas inspirado,
procurar responder ao seu chamado,
evitando ceder ao monossílabos,
iludindo com toscos decassílabos
no estilo martelo agalopado.
O meu dom é chinfrim, ponha de lado,
o meu tom é ruim, deixe de banda,
compreenda que cumpro uma demanda,
pra não ser, pelas Nóvoa, esconjurado,
devo alguma resposta ao meu passado
onde, em golpe de sorte, criei fama,
pra depois ficar só quieto na cama
produzindo a continha pra viver,
porque o sono é melhor que o escrever,
quem duvida, pergunte ao Dalai-Lama.
Considero-me um simples papa-grama
de bridão, ferradura, orelha em pé,
nunca fui, por Jesus de Nazaré,
estilista de prosa, verso ou drama,
tal menino que faz xixi na cama
ou um beque chutando pra escanteio,
solto o verbo na doida e, lá no meio,
por milagre de Deus, Vige Maria,
sai um troço que dizem que é poesia
e eu, de esperto que sou, finjo que creio.
Pois então vou cessar com o “aperreio”
pondo fim de uma vez a este suplício
e obrigando a postar este estrupício
estas moças, que nunca fazem feio,
a quem peço, considerar no e-mail
já cumprido o dever e minha meta
e não venham me nomear poeta
que eu garanto fingir que nem ouvi,
e, que nem deputado em CPI,
negar tudo e tirar o meu da reta.
.
Por Flavio Prada:
O lâmbda e o ômega
Onça galática
De estranha combinação
Pirâmide cúbica
Megawática
Estática constelação
O alfa e o romeo
Gaiola prismática
De mera ostentação
Acorrentado Prometeu
Leva prostática
Errática satisfação
.
Por Pecus:
Declino o amável convite
Jogado longe da meta
Posso te dar um palpite
Aonde encontrar um poeta?
Procure o Jayme Serva
No dito assim.blogger
Que paira sobre a caterva
Com suas precisas estrofes
Esse sim vale a pena
Esse sim faz poema
.
Por João Noronha:
Se voce acha que eu não vou não
Você tá sendo pessimista
Esse aqui é o João
Que tá de volta na pista!
.
Por Ricardo Canan:
De verso e reverso em Brasília,
Não resulta coisa boa,
Vou fugir p’ruma ilha,
Ou vou’membora pra Lisboa.
.
Por Flavio Prada:
A inversão é tal que o universo que é grande à beça
Está todo dentro de minha cabeça,
ainda que não me obedeça.
.
Por Herbert:
E os tetos faziam sangrar os pés de todos, até quem nunca teve telhado de vidro.
.
Por Christiana Nóvoa:
Riquezas são diferentes
Ser artista é a vitória última
Do ouro íntimo sobre a pobreza
Do gozo crônico sobre a penúria
Do luxo terminal sobre o fim
Em meio à praça de guerra, um jardim
Terra desolada da beleza solitária
Aos ricos, sou solidária:
A paixão, a fome e a morte
Nos irmanam na miséria
.

Os 30 Val?os

Vejam que interessante a primeira foto-montagem feita no Brasil, citada pelo Ancelmo Góis no Globo de hoje. A imagem, a um só tempo convincente e inverossímil, me inspirou profundas analogias. Não bastasse seu sugestivíssimo título.
30_valerios.jpg
Fui pesquisar e encontrei o seguinte verbete, na Enciclopédia de Artes Visuais Itaú Cultural:
1890 – Valério Vieira, sediado em São Paulo, realiza a fotomontagem “Os 30 Valérios”, na qual todos os integrantes de um sarau musical tiveram suas cabeças substituídas pela imagem do próprio fotógrafo, perfeitamente ajustada às diversas posições correspondentes. Obra ímpar, é sem dúvida alguma o mais expressivo exemplo de fotografia criativa produzido no Brasil durante o século passado.
Ou seja, há 115 anos já se demonstrava que, manipulando fatos e imagens reais, é possível criar o cenário que se quer. Haja Valério!…
Simbólico, não?
(…e por falar em sarau, o nosso vem aí! Mas sem Valérios entre os presentes, de preferência. Amanhã publico o convite, que está recebendo os últimos retoques, flores e laços de fita. Aguardem.)

jcaesar_coin.jpgQuando César foi assassinado no Senado (porque em Roma não havia Câmara), seus algozes alegaram que ele se havia tornado um ambicioso e a ambição dos governantes leva quase sempre à tirania.
Há dois mil anos, esperava-se do homem público que fosse virtuoso; algumas expectativas são eternas. Mas César foi dominado pela ambição – portanto, deixara de ser virtuoso – e os cidadãos de bem do Senado Romano tramaram a sua morte. Entre as adagas que o derrubaram estava a de Brutus, seu aliado, sua cria, quase um filho: Tu quoque Brute, fili mihi? César também andava em más companhias.
No século XVI Shakespeare escreve uma peça, “Julio César”, em que fala sobre ambições, traições e, principalmente, sobre a volubilidade do povo. A época era elizabetana, poder absoluto nas mãos de um só monarca: poderia existir governo que visasse realmente o bem do povo ou a ambição – companheira inseparável do poder – esqueceria o povo na sua trajetória? Na peça de Shakespeare, a resposta estaria com os cidadãos de Roma.
Brutus, ao lado do cadáver ensangüentado, fala à multidão sobre a transformação do herói em tirano. Apesar da vitória nas guerras, dos tributos pagos pelos territórios conquistados e de uma inegável prosperidade, o povo começa a imprecar contra César, percebendo no herói uma falha, um componente humano que lhe retirava o caráter divino. Reconhecendo nele a ambição, anteviram uma possível tirania e aprovaram o gesto assassino de Brutus e seus comparsas, estes sim, homens virtuosos.
Brutus reforça com eloqüência o seu lugar de substituto natural de César: “E, se eu for vítima da ambição, que esta mesma adaga que destruiu César se volte contra mim”. A turba aplaude, enlouquecida. Rei morto, rei posto; o circo romano já estava armado para a sucessão.

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Errata

brasilinverso.jpg
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Não adianta rever o verso
O universo é que está do avesso
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hmono.jpgOutro dia eu fiz aqui uma ode à minha mãe e meu pai morreu de ciúmes porque eu dizia que ela era linda e inteligentérrima e tal. Então vou começar dizendo que o Pápi também era o mais bonito e o mais inteligente dos pais da minha escola. Não é exagero não, sempre foi, fazer o quê? Tudo bem que eu não estudava na mesma escola das filhas do Chico Buarque, o único que poderia (talvez) fazer-lhe sombra. Tirando esse, nunca teve pra ninguém. Até olhos verdes o Pápi tem, cor de esmeralda. Moreníssimo de olhos verdes, olha que espetáculo. Mas vocês acham que a Mâmi ia comprar um livro pela capa? O que o meu pai sempre teve de realmente extraordinário foi a inteligência. Que lábia tem o sujeito, até hoje! Eu sei que ele tem a mesma mania que eu de ler 2 ou 3 capítulos de cada livro e passar pro próximo, ao mesmo tempo em que relê obsessivamente os mesmos livros preferidos, então não sei se ele chegou a ler realmente TODA a biblioteca lá de casa mas que parece, parece. O cara é uma enciclopédia viva! Cita de memória uma quantidade absurda de informações sobre história, geografia, literatura, ciências… Se você for pesquisar bem, talvez encontre uma certa inexatidão, quiçá alguma fabulação (ah, Pápi, confessa que você inventa um pouquinho) mas quem se importa? Um papo com o meu pai será sempre uma experiência das mais interessantes! Dê-lhe a palavra pra ver só. Ele mesmeriza o interlocutor; é engraçado, original, um verdadeiro encanto.
Desde que esteja de bom humor, é claro…
Porque olha, eu vou confessar a vocês que meu pai não é fácil. Que gênio! No bom, e no mau sentido. Não vou falar mais nada sobre este ponto porque ele vai ler isso aqui e dizer: “Mas você também não é fácil!” Não, não sou. Não se pode escapar de algum determinismo genético. Mas eu e o Pápi já arredondamos bem nossas arestas ao longo da vida, à custa de algum atrito e muito amor. Eu acredito que o amor sempre vence e hoje por exemplo, em nosso almoço de dia dos pais, nós (quase) não brigamos. Rimos muito, como sempre e, no final das contas, a harmonia triunfou.
Fico pensando em como tenho sorte de ainda tê-lo por perto, tão brilhante, tão saudável, ainda tão bem no papel heróico que eu lhe atribuo.
Então vou deixar a Electra que vive em mim falar mais alto:
O PÁPI É TUDO! ESSE É O CARA! EU AMO O PÁPI!
(conhecendo um pouquinho de psicologia, estou cá pensando: pobres homens da minha vida, olha só com quem os comparo… sentiram o drama?… ai, ai, Freud é pouco)

Desen-conto

afterthemasquerade.jpg
(Farsa em Ato Único)
Disse: “Você é um achado!”
*
*
Não deu 3 tempos…
*
…deu-lhe um perdido.
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Absinto muito

absinthe.jpgMamãe é uma viciada!
Este é um pedido de ajuda. Minha outrora tão brilhante progenitora foi acometida de CPÍte compulsiva aguda. Não quer mais escrever para este sítio e agora passa noites, madrugadas diante da TV ouvindo intermináveis depoimentos.
Sabe tudo sobre a novela do mensalão: é capaz de citar de cor o número da conta bancária de todos os personagens, o tom da tintura de cabelo de todas as ex-mulheres e ex-secretárias-sex-symbol e conhece toda a coleção de gravatas do Rouberto Chefferson.
Ela jura que entende a trama e já sabe quem matou Salomão Ayala.
A dependência física e psicológica se mostra cada vez mais clara, com todos os sintomas clássicos. De manhã, corre para os jornais com voracidade patológica. Não se contenta com as manchetes, precisa de doses cada vez mais pesadas e lê as menores notas, as letras mais miúdas. Já apresenta manchas negras nas pontas dos dedos, por manuseio abusivo do papel impresso, e seus exames revelam niveis tóxicos de tinta. Quando o jornal matinal se exaure completamente, dedica-se a contragosto a seus afazeres, ansiando pelos momentos de folga, nos quais corre para a TV ou ainda para o computador, onde explora blogues políticos e sites informativos, em busca de novos lances, nuances, detalhes, numa luxúria desenfreada.
Passeando por aí, descobri que a recém-repaginada colega Cam anda sofrendo do mesmo mal.
Será que você, amiga-irmã-dona-de-casa, também sofre em silêncio?
Vamos dividir nossos dramas e criar a CPIA (cepeiômanos anônimos) para cuidar dos adictos queridos. E a CPIANON para cuidar de nós outros, parentes e amigos dos adictos, também chamados co-dependentes. Nós também estamos doentes e precisamos nos tratar com urgência!
As palavras de ordem de nossa fraternidade anônima:
CP-IA moralizar o país! Ah, fala sério, CP-IA-NON…
***
Saio da vida para entrar na história
Teve um encontro fundamental de blogueiros sexta-feira aqui no Rio e TODO MUNDO foi, menos EU, é claro! Mais um evento imperdível perdido, para abrilhantar meu currículo. Temo que meus futuros biógrafos não terão muita coisa pra contar… Paciência, nunca gostei mesmo de biografias.
Em compensação, nesse mesmo dia, dois de meus personagens preferidos tiveram filhos, gerando 3 novas estrofes de uma história que eu considerava completa. Foi emociante! Nasceu um casalzinho de artistas circenses, não é um amor?
***
Boa semana, pessoas!
E botem minha mãe pra trabalhar aqui no pedaço, por gentileza! No mínimo ela podia compartilhar suas conclusões políticas conosco, pobres co-adictos que já perdemos o bonde desse folhetim há séculos.
Exponha essa história vergonhosa, lave essa roupa suja em público! Abra seu coração, irmã Maria Helena, coragem!! É compartilhando que o dependente se cura!…
E sai dessa lama, enquanto é tempo. Fecha esse jornal, desliga essa TV, esquece esse Brasil, Manhê… Só por mais 24 horas.

A travessa ?squerda

Renoir-WomanRose.jpgA coisa toda pode começar assim, já pelo meio de um dia difícil. Porque não vale a pena lembrar os dias difíceis na íntegra, podemos começar do momento em que eles se revelam surpreendentes. E não são as pequenas decisões que mudam tudo, alteram para sempre o rumo dos acontecimentos?
Por que virar à esquerda na pequena travessa para tomar um café na livraria antes de ir para casa? Poderia escolher outro refúgio, ou podia simplesmente ir embora, como recomendaria o bom-senso num dia como aquele. Mas se ela tivesse bom-senso teria vindo até aqui? Teria feito o que já fizera de seu dia, de sua vida? A verdade é que ninguém é tão previsível.
RENOIR.JPG
E se não tivesse alguém, movido por sabe-se lá que espécie de motivação súbita, deixado ali em cima do balcão da livraria aquele livro, aberto displicentemente naquela página em que ela leu aquele poema de que agora já não se recorda mas que naquele instante a fez chorar? Talvez não fosse preciso um poema para fazê-la chorar naquele dia, mas que o tenha sido foi o que chamou a atenção dele, que estava pagando sua compra e iria imediatamente embora, não tivesse visto aquela moça discretamente bonita em segundos tornar-se rubra e expelir lágrimas em todas as direções, ao deitar os olhos sobre um poema. Não que tivesse um lenço para oferecer mas decidiu, num ímpeto, comprar-lhe o livro, o que teria sido indiscutivelmente um ótimo início de conversa, não fosse ele tão pouco firme em suas decisões, pois que achou a atitude descabida e potencialmente perigosa e logo desistiu, uma vez que ela poderia rechaçá-lo e sua auto-estima não suportaria tanto, após o péssimo dia que tivera até ali.
E se ele não tivesse resolvido, após perder sua felicidade, dar às circunstâncias mais uma chance? Só por isso pegou um livro de arte para olhar, sentou-se e pediu mais um café. Que tenha sido Renoir foi o que chamou a atenção dela, embora para ele tenha sido um mero acaso, foi o primeiro que viu.
E se ela não acreditasse no poder do acaso? E se tivesse juízo? Se não tivesse a ousadia de puxar aquele papo sobre impressionismo, que teria sido realmente um péssimo início de conversa, não fosse o celular dele tocar, deixando os dois constrangidos, no que ela se afastou embora fosse engano, passando a examinar as estantes com fingida atenção?
Que o tenha feito permitiu que ele lesse rapidamente o texto introdutório do livro que tinha em mãos, a partir do quê pôde entender, finalmente, a pergunta dela, que agora estava folheando, muito entretida, um livro de culinária, o que, sem dúvida alguma, facilitava as coisas.
Mas ele teria dito alguma coisa se ela não tivesse parado exatamente naquela foto, sob aquela luz, contra aquele fundo, o quadro todo enfim que se formou? Se não ostentasse aquele exato meio-sorriso, a expressão absôrta, o olhar na página do livro, a mordida quase atrevidamente convidativa nos lábios como que saboreando a imaginária iguaria?
– Eu sei fazer uns Crepes Suzette mais bonitos que esses aí da foto, acredita?
– Ah, não acredito mesmo.– ela riu – De jeito nenhum.
– Vamos lá em casa que eu te mostro. – ele arriscou, embora fosse mentira.
E não é que ela foi, embora fosse loucura? A vida não pode ser surpreendente?
Este foi o dia em que ela teria sido feliz, não fosse o bom-senso tê-la dissuadido de virar à esquerda naquela travessa para tomar um café na livraria, em meio a um dia como aquele.

à espera

 

a espera

pendura

posterga

embroma

engrupe

engana

engambela

 

a espera

faz hora

demora

catimba

cabula

lê caras

lê bula

 

a espera

não faz

procrastina

não sabe

imagina

não fala

pondera

 

a espera

é pra agora

é urgente

é frustrada

é ausente

é buraco

é cratera

 

a espera

me onera

me cansa

me enfara

me entoja

me arroja

me gera

 

a espera

é esperta

é perfeita

me esconde

me enfeita

me escapa

revela

 

a espera

me alcança

me firma

na rota

me gira

na dança

da esfera

 

 

Torpedo

.
missil.jpgNão quero ser agressiva mas tá difícil
Sai da frente que o meu míssil não tem freio
E eu tô bem pra lá do meio da contagem regressiva
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Sua hist?

3W2SZ-smaller-N07842-26.jpgEsta é a sua história. Por isso o espanto, logo no início: “Como assim, a minha história?”.
Mas foi aí mesmo no espanto que ela começou.
Você não devia duvidar de que eu fosse capaz de contar a sua história. Não são sempre os outros que contam nossa história? Só um estranho pode saber como sua história termina.
Você pode pensar “Como ela vai saber?” mas é assim mesmo, ninguém acredita, num primeiro momento, que sua própria história venha a ser contada de um ponto-de-vista tão bizarro. No entanto, lhe asseguro, foi você quem escolheu isso, ao começar a ler, aqui, este relato. Mas agora você não tem mais escolha, porque eu já comecei. Você pode fechar os olhos e mudar de assunto mas sempre saberá que a sua história está aqui, lhe esperando, e sempre terá uma vontade horrível de saber como ela vai terminar. Portanto, continuemos.
Você também não sabe como ela começa, embora estivesse lá, mas é como se não estivesse, não é mesmo? Então vou lhe refrescar a memória: era bom antes, muito melhor que depois, quando começou a doer. Mas você quis, você desejou expressamente o soco no peito, esse tambor infernal que nunca mais abandonou seu corpo. Não me culpe por lhe recordar este incômodo fato, agora você pulsa e é refém dessa percussão mas foi você mesmo quem começou tudo isso.
E aí você quis mais, você desejou a luz. Só não previu que junto da luz viria o corte e, com ele, o susto. E o horror de perceber que, a partir de então, era preciso se assustar constantemente, enchendo e esvaziando o fole para manter o pulso, esse tirano.
Depois do susto veio a fome. A insuportável dor da falta, e com ela a raiva. Não tente negar a raiva, eu estava lá e atesto, pela expressão desesperada do seu choro, que você odiou a vida então, apenas porque ela não era plena. Você odiou sua mãe, porque não alimentava mais seu umbigo e fez você descobrir que tinha boca, esse grande buraco. E você escancarou o seu buraco sem o menor pudor naquele dia, que eu vi.
Agora que você sabe que eu conheço suas vergonhas mais antigas, talvez já acredite em mim. Ou talvez ainda espere que eu lhe dê mais provas, e eu poderia desfiar aqui cada um dos seus dias mas, no fundo, o que você quer mesmo saber é aquele, nem tão distante, que vai dar sentido a essa história toda.
Você quer saber as circunstâncias mas isso talvez não lhe diga, nem a hora exata, porque você não pode evitar o fato. Mas chegando lá, vai ver que estarei a seu lado, anotando minuciosamente, para a posteridade, com quanto despudor você há de abrir a boca. E aí você vai acreditar, finalmente, em minhas palavras, que atravessaram o tempo e já viram tudo isso. Por isso o espanto quando chegar a hora.
Porque é mesmo no espanto que há de terminar sua história: com a boca aberta num grande buraco, eu a seu lado, vendo tudo, e um simples ponto final.
(depois do quê tudo muda completamente de figura, mas aí já é outra história)

Revisando Anexins

(minhas versões pessoais para alguns provérbios conhecidos)
safar_klaun_mickem_na_nose.jpg
Mais valem dois pássaros voando
do que um ficar na mão
.
Antes sol
do que mal e acompanhada
.
Deus acuda
quem cedo madruga!
.
Promessa é dúvida.
.
Ri por último,
que eu rio melhor.

family.jpgQuando Pero Vaz de Caminha informou a D. Manoel que “a terra é de tal modo graciosa que, em se plantando, tudo nela dá”, aproveitou o ensejo e pediu ao Venturoso um emprego para o genro.
Plantou-se e deu, dizem as más línguas, o nepotismo no lado de cá. Não é verdade, sempre floresceu em todas as latitudes.
Nosso rigor republicano, gerado pelos enciclopedistas, exige um Robespierre de cada cidadão que se dá bem. Tolice. As capitanias sempre foram hereditárias e as monarquias ainda hoje se mantêm sem nos tirar o sono. Consideramos alguns regimes monárquicos bastante democráticos e até aceitáveis as despesas que Charles e Dianas, Juans e Sophias, Graces e Carolines deram e darão aos seus países. A mídia sempre destacou a elegância de seus gestos, roupas e atitudes; raramente questionou a legitimidade dos seus gastos.
A tradição cabalística ensina que se pode ascender por duas vias: o caminho da graça ou o caminho do esforço. Mas, ironicamente, afirma que os dois caminhos se unem num caminho do meio, mais direto, que conjuga os outros dois. Ou seja, aquele que é ungido pela graça mas também se esforça, caminha mais rapidamente. Ou vice-versa.
Os que são filhos, genros, irmãos ou cônjuges dos esforçados sempre fizeram um caminho mais rápido. Ou, talvez, fizeram um caminho que nem fariam se não fosse o parentesco a lhes facilitar as escolhas. Se não houvesse esta teia indiscernível (Destino? Esforço? Como sabê-lo?) não teríamos Evitas e Isabelitas; Hillarys e Rosinhas; John, Bob e Ted. Nem Amaral Peixoto e Moreira Franco (o genro e o genro do genro), nem Sarney e Roseana, nem Tancredo e Aécio, nem César Maia e Rodrigo, nem ACM e seu neto, que não lembro o nome mas é a cara do pai que por sua vez era filho.
No meio artístico não é diferente. Michael Douglas é filho que Kirk e no-lo (gostaram?) trouxe de volta com a mesma covinha no queixo; Jamie Lee Curtis e Jennifer Jason Leigh são filhas de Tony Curtis e Janet Leigh; o clã dos Barrymore atravessou gerações até chegar ao ET; Liza é filha de Judy, Nana é filha do Caymmi, Leandra é filha da Ângela e Sylvia é filha do Chico.
Nepotismo? Sim e não.

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