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Tchau, árvore

A primeira pessoa pra quem meu filho deu tchau na vida foi uma árvore: uma mangueira centenária do Jardim Botânico. Claro que ele estava imitando a louca da mãe dele, que todo dia cumprimentava a provecta senhora.
Eu a chamo de Grande Mãe; ela tem um tronco barrigudo e é muito macia de abraçar porque é toda coberta de um musguinho verde aveludado. Parece ser a mais antiga das mangueiras do parque. Assim como o Grande Pai, que fica ao lado dela, cujo tronco é mais retilíneo mas também parece muito velho, cheio de grandes verrugas.
Tem árvores do Jardim que são ilustres, como a Sumaúma do Tom Jobim, a Jaqueira do Frei Leandro, a Palma Mater (em cujo lugar já está uma Palma Filia, quiçá neta)… Mas eu tenho meus afetos mais anônimos: um pau-mulato, o maior de todos (calma gente, é uma árvore!). Aliás, encontrei uma foto do Tom Jobim abraçando-o bem aqui. Fica fora da alameda dos paus-mulatos, meio escondido num mato alto atrás do roseiral. Ok, admito que este lenhoso senhor é altamente sugestivo…
Bom, também temos atrações para crianças, como a mangueira-balanço, que tem um galho que encosta levemente no chão, como se pode ver na foto, e balança (o que só se pode perceber ao vivo), tendo sido usada e abusada por várias gerações desde que eu me entendo por gente, e sempre demonstrando uma paciência ímpar, de que só uma árvore velha é capaz, conjugada a uma flexibilidade de dar inveja a muita moçoila. Tem também a “Cidade dos duendes”, uma árvore na beira do Lago, cujas raízes, que emergem da terra como estalagmites, criam uma pequena “aldeia” onde essas criaturinhas se escondem durante o dia, saindo à noite para cantar e dançar à beira d’água (como já expliquei a meu filho, que é muito curioso e quase flagrou uma fadinha distraída). E também tem uma árvore ôca onde mora uma família de gnomos. São muitas as árvores dignas de nota, prometo que um dia faço um inventário completo.
Entre as minhas prediletas, desde pequena, estão os Jambeiros. Primeiro, por razões óbvias: a fartura de seus deliciosos jambos, no verão. Era proibido sair do parque levando as frutas, não que nunca tenhamos levado algumas enfiadas nos bolsos mas, no geral, tínhamos que comê-las ali mesmo. As mais doces eram sempre as bicadas de passarinho, então mordíamos do outro lado.
Mas na floração os jambeiros também ficam lindos e, ao final, deixam no chão um tapete de pétalas de um cor-de-rosa intenso. Além de tudo, no canteiro bem em frente a eles fica a estátua de Xoxipilli, divindade asteca da fertilidade, o Deus das Flores. Alguém sempre enfeita suas mãos com flores, eu mesma já fiz isso várias vezes (mas sempre com flores que encontro pelo chão, em geral dos próprios jambeiros; jamais arrancaria uma flor viva para isso, penso que Xoxipilli ficaria bravo).
Pois bem, há alguns dias, ao passar pela alameda dos jambeiros, tive um choque: os quatro jambeiros que havia ali, mais um que estava um pouco adiante, morreram subitamente. Meu irmão, passando dias depois, viu um deles ser derrubado pelos funcionários, quando soube inclusive, por uma botânica que supervisionava os trabalhos, a idade do indivíduo: 182 anos. No entanto a doença que os vitimou permanece um mistério até para os técnicos. Passando por lá no dia seguinte, vi o velho amigo estendido, inerte, na beira do caminho, já fatiado para remoção. Foi muito triste.
Este ano as crianças não comerão jambos do Jardim Botânico, no verão. Xoxipilli não terá mais flores de um rosa intenso nas mãos. Não posso deixar de pensar que a morte súbita e coletiva dos jambeiros é um sinal preocupante da natureza. As árvores escutam melhor que nós, devíamos prestar-lhes mais atenção: alguma coisa parece fora da ordem.
Tchau, árvores. Que Deus as tenha.
(agradecimentos a meu irmão Claudio que, além de testemunha ocular do óbito, é cúmplice na minha dor e ajudou a achar alguns links para este post)

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ACONTE-CIMENTO
CONCRETA
A POESIA
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foto: Celso Carneiro
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Este aí estirado é o Pápi, exausto após percorrer os intermináveis estandes da FLIP, assistir a todas as palestras, tomar todas as pingas e esperar uma eternidade num restaurante por um prato que não veio nunca. Por isso que ele tá assim magrelinho, perdeu até sua sancho-pança. Mas o Pápi é guerreiro, disse que ano que vem tem mais!

O Grito

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A FLIP é apenas mais uma marca em minha extensa lista de eventos imperdíveis perdidos. Sou muito boa nisso, até porque eu comecei cedo; desde criancinha já praticava o esporte: por exemplo, sendo carioca, nunca fui ao Maracanã em dia de decisão. Aliás, nunca fui lá em dia nenhum, nem na chegada do Papai Noel de helicóptero, nem em Show do Roberto Carlos, nem na missa do Papa. Ao Maracanãzinho fui algumas vezes porque, na adolescência, minha índole vacilou e afrouxei meus propósitos isolacionistas. Eu nem devia contar isso pra vocês, devia fingir que esqueci e mudar de assunto, mas eu fui ao Maracanãzinho ver o Peter Frampton. Adolescência. Foi também aí nessa fase dourada, na aurora da minha vida, que eu abri a maior exceção de todos os tempos: meninos, EU FUI ao Rock in Rio!
O primeiro e original, aquele da musiquinha “se a vida começasse agora…”. Afinal eu era uma garota que amava os Beatles e os Rolling Stones e sofria, como boa parte da minha geração, da “Síndrome da Inveja de Woodstock“. Por tudo isso eu acampei no lamaçal da Barra da Tijuca e testemunhei este momento histórico. Lembro até hoje, ah, se lembro.

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O Terror

Eu queria dizer alguma coisa sobre os atentados em Londres mas ainda não pensei nada útil. O terror me deixa sem palavras.
Lembrei da música de Mautner e Caetano e do quadro do Munch.
scream_lg.jpgHomem Bomba
(Jorge Mautner / Caetano veloso)
Lá vem o homem bomba
Que não tem medo algum
Porque daqui a pouco
Vai virar egun
Mas até lá, mata um, mata dois
Mata mais de um milhão
Não vai deixar sobrar nenhum
Mas eu sou contra essa ideologia da agonia
Sou a favor do investimento
Pra acabar com a pobreza
Sou pelo estudo e o trabalho em harmonia
O amor e o cristo redentor
Poesia na democracia

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A propósito, alguém reparou na semelhança entre o quadro acima e uma foto que saiu nos jornais de hoje? Uma pessoa com o rosto coberto por uma espécie de máscara, com aberturas para os olhos e boca. A posição das mãos, o rosto distorcido com os olhos redondos, tudo. Não consegui o link desta foto, se alguém tiver eu ponho aqui.
Atualização: Consegui a imagem.

Pinga ni mim

Paraty? Ah, pensa bem, choveu… Previsão de chuva até domingo. Baiano é que sabe das coisas, não falei?
Maricotinha, diga ao povo que fico muitíssimo bem onde estou. Sair de casa, só se for pra ver a chuva ali no Jardim.
Pond-lg.jpgMaricotinha
(Dorival Caymmi)
Se fizer bom tempo amanhã
Eu vou
Mas se por exemplo chover
Não vou
Diga a Maricotinha que eu
Mandei dizer que eu
Não tô
Não tô… não vou
Se fizer bom tempo amanhã
Eu vou
Mas se por exemplo chover
Não vou
Uma chuvinha, redinha, cotinha
Aí… piorou
Nem tô… nem vou
Se fizer bom tempo…

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Impacto profundo

DINASA.jpgEsta madrugada uma bola de cobre do tamanho de uma poltrona colidiu com um cometa com a delicada intenção de abrir-lhe uma cratera do tamanho de um estádio. Parece que conseguiu.
A todas essas, os EUA aproveitaram o aniversário de sua Independência para fazer um mega-show pirotécnico com cobertura em tempo real.
Belas fotos e tudo mas confesso que achei a estratégia de aproximação um tanto truculenta. Um jeito assim meio Bush de ser, já chega detonando, não deixa pedra sobre pedra. Espero que não tenha sobrado um estilhaço fora de órbita pro nosso lado. jeannienelson.jpgO pessoal da NASA diz que “é pouco provável”. O que, no meu entender, significa que é TOTALMENTE POSSÍVEL. Mas tenhamos fé na mira da galera. Afinal, pra que serve tanta sinuca nos intervalos do trabalho? Vamos confiar no taco do Major Nelson!
Quanto ao pedregulho, parecia simpático, que Deus o tenha. Tomara que não more ninguém lá… Aqui na Terra, teve gente que tomou as dores da pobre rocha agredida. Que fique bem claro que, embora eu seja astróloga nas horas vagas, não tive nada a ver com esse processo. Agora, pensando bem, acho que vou reivindicar meu quinhão nessa bufunfa astronômica. Sinto que meu ser cósmico foi profundamente atingido por este bólido. Houve um desalinhamento do meu corpo energético, o que requer soluções urgentes, porque estou indo pra Angra essa semana e quero estar ok no biquíni. Além disso, tem um enorme rombo na minha pessoa física, enquanto jurídica, e eu preciso de uma reparação dessa ordem (das centenas de milhões de dólares!!) para restaurar o equilíbrio vital dos meu chakras, principalmente daquele localizado no meu bolso. Ohm!

Paraty 2.jpgSe fizer bom tempo amanhã
Eu vou
Mas se por exemplo chover
Não vou

(Maricotinha – Dorival Caymmi)
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A partir de quarta-feira, dia 6, Paraty vai ferver com a terceira edição de sua Festa Literária. Talvez eu esteja lá, talvez não. Não quero me comprometer aqui com nada porque sempre posso desistir, por preguiça ou outra razão qualquer. Há três anos que eu digo que vou e, na hora H, acabo amarelando. É que eu não gosto muito de eventos populosos, deve ser por causa daquela vez na minha infância em que quase fui pisoteada numa Feira da Providência, quando o bujão de gás de uma barraquinha estourou bem do meu lado e a boiada humana, em fuga, me derrubou. Foram momentos de terror até que minha mãe conseguisse me catar do chão.
Mas meu desânimo tem ainda um motivo extra: estou culpadérrima, me sentindo responsável por pelo menos três das maiores baixas do evento, personas gratíssimas e insubstituíveis em qualquer programação. Tudo porque meu pai mora a cerca de 1 hora do balaco-baco e eu pretendia albergar a galera em sua casa; acontece que ele frustrou meus planos, esgotando a lotação do solar com seus próprios convivas. Admito que a falha foi minha porque eu, pra variar, não organizei nada com antecedência, pelo que peço MIL PERDÕES aos amigos.
Este fato lamentável esvaziou minha empolgação biblio-festeira, mas não quero jogar a toalha. Por enquanto digo que vou, até prova em contrário.
Só pra ver se eu me animo mais um pouco, será que alguém aí vai à FLIP, à off-FLIP, à off-off-FLIP ou outras siglas menos votadas por aquelas bandas? Ou vou ter que tomar a pinga toda sozinha?
Se eu de fato embarcar nessa, e sobreviver, conto depois como foi. Ou não.

Eu passarinho!

Hoje uma amiga amadíssima, leitora do blog, me ligou de manhã, preocupada porque os meus últimos textos andavam tão tristes. Tive que explicar a ela que posso não corresponder exatamente ao que digo nesta folha. Embora eu tenha lá minhas melancolias, dores antigas e recentes, no geral estou bem, como sempre. Sobrevivo às agruras do dia-a-dia sem maiores seqüelas e pareço mais feliz que meus escritos (pelo menos assim quero crer!). Continuo falando bobagem, rindo muito e ainda consigo encontrar novos motivos para agradecer a louca existência. No que escrevo sou mais derramada, exagero muito, acreditem. Quando as idéias novas não parecem grande coisa, publico poemas antigos, repaginando sentimentos que nem existem mais. Foi precisamente o que fiz ontem, e acabei assustando a amiga. Às vezes crio personagens, minto deslavadamente ou invento coisas, pessoas, memórias, entre uma ou outra verdade. Se sou confessional, por alguma necessidade psíquica, posso me rasgar inteira aqui, depois fechar o computador e sair cantando e dançando, a alma leve. Eu sou um tanto dramática mas sou inconstante demais pra ser depressiva. Quanto às vicissitudes, não que as desconheça, mas procuro vivê-las com desapêgo; não me agarro ao sofrimento. Se algum mal me encontra ou se me magoam (o que nem é raro), faço minhas as palavras de Mario Quintana:
5353.jpgPOEMINHA DO CONTRA
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

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Corpo Santo

davidmichelangelo_.jpgTua lembrança pulsa
Luz densa
Como se houvera
Imensa como se fôra
Nostalgia da espera
Obra-prima da coisa extensa:
Cogita onde não existe
Surpresa tão mais persiste
Incógnita
Verbo em silêncio agudo
Abismo por princípio
Oni-ausência
Ilusão que me pensa
Fogo que não se sabe pra quê
Não cabe
Arde aí
No que me escapa
(paira em suspensão íntima
latente e súbito como se)
A solidez da tua falta
É laje que me eclipsa
Vão que me sepulta
Ôco que me cria
Solidão última
O não posso de cada dia
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Dia de S?Pedro

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Há treze anos a vida perdeu boa parte da graça, da beleza, do glamour. Perdeu até a fé, que recuperou aos poucos porque o tempo muda a face da dor. A fisgada aguda, passar não passa, torna-se crônica. O que era figura torna-se fundo e o drama encena novos atos. Mas o nunca mais… ah, isso não tem cura.
Há treze anos a vida perdeu uma grande piada, o senso do belo, uma voz de barítono. Uma festa, um festival completo, um riso iluminado como balão de São João.
Hoje é dia de soltar balões porque num dia de São Pedro, há exatos treze anos, a vida perdeu o Belben e nunca mais encontrou.

TEORIAS DA CONSPIRA?O

bataves.jpg
Circula pela Internet um documento que fala em ”golpe de estado”, recheado de lances rocambolescos e tendo como personagens algumas das figuras mais conhecidas da República.
O que, antes da Internet, se falava à boca pequena e jamais seria publicado por qualquer veículo sério, hoje cai na Rede. Nem tudo que cai na rede é peixe: há mentiras e verdades, pérolas e lixo, versões prováveis e absolutamente improváveis dos acontecimentos. É o que me encanta, todas as manhãs, quando fecho o jornal e abro o computador – no jornal eu tenho o que é provável (passível de prova), na Internet o anonimato dispensa a cautela e podemos ter a hipótese não provável mas possível. E há mais possibilidades entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.
As “teorias da conspiração” têm inegável vantagem sobre os fatos provados – são mais inteligentes.
Ao longo dos muitos anos que vivi, acompanhei versões que viraram História: os eventos de 64 foram motivados por um discurso infeliz do Presidente Goulart no Clube dos Sargentos e a marcha Pela Família Com Deus das donas-de-casa paulistas; em 15 dias, os militares se mobilizaram e tomaram o poder por 25 anos. Na época, muitos falavam da CIA e de um plano maior do governo americano para a América Latina mas teorias conspiratórias – todos sabemos – são improváveis.

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Nelson_Rodrigues.jpg
Poucas experiências se comparam ao prazer do bom teatro. Em compensação, nenhuma tortura cultural se iguala ao constrangimento de assistir a uma peça ruim.
Eu pensava que já tinha visto o pior em termos cênicos mas o mau gosto consegue encontrar novas roupagens sem, contudo, inovar.
Eu não vou fazer uma crítica do espetáculo a que fui assistir na sexta-feira, até porque não sei a ficha técnica e nem nada. Sei apenas que se tratava de uma montagem de um aluno-diretor da Faculdade de Artes Cênicas da UNI-Rio. Pra vocês verem que eu sou uma pessoa moderna, aberta ao novo e que acredita nos potenciais emergentes.

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A Normal e a Patal?a

“O ser tem inumeráveis estados, cada vez mais perigosos.” (Antonin Artaud)
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O pior de ter estudado Psicologia foi descobrir um sem-número de distúrbios dos quais sou portadora. Aí vai minha insana lista, certamente incompleta (os grifos são meus):
Síndrome de Idiot-Savant (idiota-sábio) – forma rara de autismo, também conhecida como “Síndrome de Asperger”, onde uma ou mais habilidades, geralmente artísticas ou matemáticas, podem ser extremamente desenvolvidas, enquanto outras beiram a idiotia. Seriam como “ilhas de genialidade” em meio a um mar de incapacidades.
Segundo a CID-10: “Esta síndrome se diferencia do autismo essencialmente pelo fato de que não se acompanha de um retardo ou de uma deficiência de linguagem ou do desenvolvimento cognitivo. Os sujeitos que apresentam este transtorno são em geral muito desajeitados
Meu jeito Mr. Bean de ser tem denominação científica!…
Delírio– Juízo patologicamente falso da realidade. Este juízo falso deve apresentar três características:
1 – deve apresentar-se como uma convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável;
2 – deve ser impenetrável e incompreensível para o indivíduo normal, bem como impossível de sujeitar-se às influências de correções quaisquer, seja através da experiência ou da argumentação lógica e;
3 – impossibilidade de conteúdo plausível.
Segundo Kraepelin, “Delírios são idéias morbidamente falseadas que não são acessíveis à correção por meio do argumento”. Bleuler, por sua vez, dizia que “Idéias Delirantes são representações inexatas que se formaram não por uma causal insuficiência da lógica, mas por uma necessidade interior. Não há necessidades senão afetivas
Meu juízo, via de regra, satisfaz a estes critérios, ou seja: não tem critério algum.

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Na madrugada de ontem (21 de junho, 3:47 AM), o sol passou pelo ponto zero de Câncer, que marca o solstício de inverno para o hemisfério Sul. Portanto, esta foi a noite mais longa do ano. Em homenagem ao fato, re-publico no post abaixo meu mais longo poema, em nova decoração temática com bandeirinhas de Volpi. Viva São João!
Desde já me desculpo pela comprideza da ladainha, e faço minhas as palavras de Puck, o Robin Bom-Camarada. Se vocês forem benevolentes e me perdoarem por essa, prometo que um dia eu me emendo:
puck.jpgPUCK
If we shadows have offended,
Think but this, and all is mended,
That you have but slumber’d here
While these visions did appear.
And this weak and idle theme,
No more yielding but a dream,
Gentles, do not reprehend:
if you pardon, we will mend:
And, as I am an honest Puck,
If we have unearned luck
Now to ‘scape the serpent’s tongue,
We will make amends ere long;
Else the Puck a liar call;
So, good night unto you all.
Give me your hands, if we be friends,
And Robin shall restore amends.
(Shakespeare – Midsummer night’s dream / Sonho de uma noite de verão – ato V, cena I, final).

J

(Publicado pela primeira vez no epinion em 06/09/2004)
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João-bobo
João-ninguém
João-teimoso
João-sem-braço
Não é Augusto
Não é Ricardo
João-sem-nome
O pai, um traço
Um osso em cada tijolo
Mão-de-obra barata
Antes de tudo um forte
É pedra-pra-toda-obra
Viga-mestra, coluna
Um pilar, um poste

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brasil.jpgAs “forças terríveis” atacam novamente (Jânio nunca disse que eram ocultas, embora também sejam) e vamos rever o velho filme. Quem disse que a reprise não nos emociona mais? Continuamos a chorar no final.
Nas esferas oficiais, todos sabiam de Gregório Fortunato; como de PC Farias; como dos acertos para a prorrogação de mandato do Sarney (“é dando que se recebe”, lembram?); como da compra de parlamentares para a reeleição de Fernando Henrique; como do mensalão. Nossas práticas republicanas sempre foram escandalosas mas só viram escândalo quando se tornam públicas. E, quando chegam aos jornais, são muito mais uma denúncia contra aqueles que as praticam do que contra elas mesmas.
Quando as práticas escusas são divulgadas para o povo (e o povo é como marido enganado, o principal interessado e o último a saber), temos o escândalo; embora as práticas sejam sempre bem anteriores ao escândalo. E toleradas por todos aqueles que teriam a obrigação rasteira de não só repeli-las como denunciá-las.

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Água Viva

acalanto por um coração derramado……………… (para j.)
agua_viva.jpg
Quem tem o coração mole
Quando ama, se esparrama
Quando sofre, se desmancha
Quando cai, fica na lama
Quando explode, se esbagaça
Quando chora, se dissolve
Quando escorre, se devolve
Volta correndo pro mar
Mergulha, coração mole
Se espraia, arrebentação
Quem perde o chão ganha a graça
A grandeza é o seu lugar
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Salam-Aleikum

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Você me escreve
Arabesco
Eu pergaminho
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Pensata de outono

Sabe o que é lindo na vida? Um dia nunca é igual ao outro. Os dias passam, eu permaneço.
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abduction_of_psyche.jpg– No dia 12, não dê bichinhos de pelúcia à amada nem a invoque no diminutivo; o amor é grave e não atende por eufemismos ou onomatopéias. Seu significado mais aproximado é morte mas não aconselho chamá-lo pelo nome verdadeiro (assusta) nem empregar o apelido meloso (avilta).
– No dia 12, não se meta a definir o amor à amada para assegurar que o experimenta. Muitos tentaram, pouquíssimos conseguiram, e em nenhum dos casos a amada estava ao lado para ouvir. Arrisque a mudez. Não diga “não tenho palavras” porque não é deficiência sua. Não as há. E jamais assine embaixo de cartões impressos, são epitáfios para o amor.
– Não procure ser excepcionalmente agradável neste dia e satisfazer todos os desejos dela – o amor deseja além do desejo dos que dele participam e nunca ninguém se fez amar sendo gentil.
– Não planeje o hotel, o vinho, a banheira, não compre uma camisa nova, não adianta nada; o amor não acompanha o ser mais bonito que nos apareceu, nem o mais inteligente, nem a trepada inesquecível, nem o cenário perfeito. O amor é absurdo.
– Não dê rosas no dia 12, ou marias-sem-vergonha. Nem diamantes ou bijuterias. Não serão lembrados se não for amor; não serão necessários, se for.
– Não comam bombons a dois, imaginando que o amor é doce como chocolate. Nem é apimentado como acarajé. Deve ter gosto de ambrosia mas os deuses do Olimpo nunca disponibilizaram a receita, então, esqueçam as comidinhas – talvez o dia do amor peça o jejum.
– Nem adianta convocar qualquer outro dos sentidos para tornar o amor presente no seu dia. Amor não tem forma, cheiro, som ou gosto e permanece na presença como na ausência. Não é abstrato mas concreto, certamente, não é.
– O amor sobrevive ao tempo. Dizem até que é eterno mas isso não podemos afirmar, só saberemos se o encontrarmos na eternidade. Crônico, é. Como vírus resistente, que não nos mata mas também não vai embora; morre conosco. Se morrer antes, não era amor.
– O amor é um, vocês sabem, e o um não pode ser definido. Pode ser, em raros momentos, experimentado. Mas não nos dá nada, não recebe nada, não facilita, não cria, não é sujeito nem objeto de qualquer ação que se costuma vincular a ele. Apenas existe. E um dia, se tivermos sorte, nos aparece face a face.
– No dia 12, agora, domingo, vá à presença da amada e cumpra toda a liturgia do amor; os cerimoniais são belos. Mas não confunda a amada com o amor e ela no futuro lhe agradecerá a lucidez. O amor não é um encontro, é uma perseverante espera por si mesmo.
(Publicado pela primeira vez no Epinion, em 07/06/2004)

Boas Novas

Vocês lembram do meu amigo cujo gato subiu no telhado e depois, milagrosamente, ressuscitou na Páscoa?
Pois ele, além de amigo-gato e cineasta-gentileza, também é poeta inspiradíssimo e criou um blog na maior moita. Fez a confissão hoje, durante nosso almoço (quando também revelou que há tempos frequenta este sítio aqui no mais absoluto mutismo. Pode?). Como quase ninguém conhece seu endereço secreto, o único comentário que recebeu até agora foi do ilustre poeta Chacal, raposa-velha que é fã do moço, e com toda razão. Vamos lá bagunçar a maloca do Dado!
Outro que inaugurou cafofo na surdina foi o impagável Biajoni. Mas o povo já descobriu o caminho da roça e lotou a caixa de comentários antes mesmo que ele abrisse a boca pra dizer ao que veio. Isso é que é carisma. Parabéns, Bia!
Só mesmo na blogoseira pra dar homem bom em penca… Um espetáculo!!!
Aproveitem, gentem, enquanto é de graça!…

O dia dos sem-namorado cai dos sonhos com um suspiro comprido. Sem beijo de bom-dia nem nada de bom pra fazer na cama depois de acordar.
Começa com jornal e coisas importantes acontecendo no mundo, um café preto e uma esperança quase afogada no fundinho da xícara: será que é hoje? Mas isso ninguém vê, nem a lágrima escapulida que a mão rápida dispersa. A cena seguinte, exaustivamente ensaiada, já vem automática: olhar pra cima e respirar fundo, vestir o sorriso e ir à luta, que com cara de palhaço é que não se arruma ninguém mesmo.
O dia dos sem-namorado se demora em papéis e desktops e liga a tv na hora do almoço, pra distrair da falta de companhia. Evita as vitrines e os out-doors, repletos de corações e sorrisos felizes de quem nasceu um-para-o-outro. Passa direto pelo cinema com sua fila de pombinhos e dispensa, constrangido, a promoção bem-me-quer da operadora de celular.
O dia dos sem-namorado sai cedo e volta tarde, liga pros amigos, faz ginástica. Come fora, dá-se um livro – de pena, no fundo. É triste não ter a quem dar flores.
O dia dos sem-namorado, se o quiser florido, compre as próprias; se o quer doce, encha a boca de bombons. Se romântico, abra um vinho e pegue um filminho piegas na locadora, daqueles que um namorado se recusaria a assistir. A maior vantagem de estar só é não ter que chegar a um consenso.
O dia dos sem-namorado é um dia como outro qualquer, só que mais longo. Pela simples razão de que ele deveria ser especial. Como, aliás, todos os dias. Pela falta que faz alguém pra surpreender minhas cores. A noite cresce e eu vou ficando esmaecida…
O dia dos sem-namorado termina como começou, num sonho – terra sem-fim da ilusão solitária. Que não posso reter, como água entre os dedos, mas que é tão minha.
E vai cair num suspiro comprido lá do outro lado, no próximo dia. Um dia normal, ufa, onde eu não seja um estranho ser que anda partido e sobrevive por teimosia, feito rabo de lagartixa.
(Publicado pela primeira vez no Epinion, em 10/06/2004)

broken heart.jpgTeste cardio-psico-patológico:
Quem é você quando seu coração vai mal?

1- Quando se apaixona pela pessoa errada, você:
a) Nega, afasta, esconjura com todas as forças do peito e pronto: desapaixona na mesma hora;
b) Aceita com um suspiro profundo sua sina de melancolia;
c) Escreve um poema;
d) Liga o “foda-se” e corre atrás, doa a quem doer (desde que o prejudicado não seja você);
e) Se mata
2- Quando aquela pessoa por quem você andava apaixonado(a) o(a) trata com certo desprezo ou mesmo o(a) ignora solenemente, você:
a) Responde com uma agressão ostensiva, na lata, e esquece logo depois;
b) Recolhe-se num silêncio magoado e corta relações;
c) Faz que nem percebeu, superior;
d) Arquiteta uma grande vingança para momento posterior e inesperado;
e) Se mata
3- Quando descobre que levou um baita chifre, você:
a) Não sabe a sua reação porque isso nunca lhe aconteceu ;
b) Faz o maior drama, termina tudo e depois chafurda na depressão profunda;
c) Não fala nada, enfia a viola no saco e sai de fininho antes que alguém perceba;
d) Chama na chincha, desce o barraco, roda a baiana, depois passa o rodo em todos(as) amigos(as) dele(a) para provar QUEM É O(A) MELHOR;
e) Se mata
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Resultados:
Maioria de letras A: Você é um forte, um vencedor, orgulho de sua raça, mas é um(a) ogro(a) insensível, incapaz de viver um grande amor.
Maioria de letras B: Você é um(a) idiota e sofre demais. Agora vai chorar 3 dias e 3 noites porque eu disse isso.
Maioria de letras C: Você se acha muito chic mas no fundo é um poço de soberba.
Maioria de letras D: Você não é fácil, hein? Vá de retro!
Maioria de letras E: Você já era há muito tempo… ui, sai daí, alma penada!
Uma letra de cada: Você é incoerente e totalmente esquizofrênico (meu caso, é claro!).
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Conclusão:
Ninguém fica bem na foto quando o coração vai mal.

pao bolorento.jpgPra mim, o Diogo Mainardi não passa de um rostinho bonito.
Aquelas sobrancelhas bem desenhadas e o sorriso de galã já me levaram repetidamente a perder preciosos momentos do meu tempo com este moço, tentando encontrar algum valor em suas ridículas declarações (afinal qualquer mulher sabe que, pra ganhar um homem, temos que achar graça em suas piadas. Ou, no mínimo, fingir bem). E por essa mesma razão ainda gasto aqui meu não menos precioso espaço, porque não me conformo que tão bela compleição não preste pra nada. Minha condescendência para com a boniteza masculina é quase infinita mas ele realmente não facilita as coisas. Fala cada asneira que faria corar a loura-burra mais empedernida, e o faz com uma empáfia de que só um homem é capaz. É o tipo do burro com opinião, o que vem a ser a exata definição do chato. Além de tudo é de uma grosseria totalmente desnecessária, o que extrapola os largos limites de minha tolerância.
Eu veria amarradona um “ensaio Paparazzo” em que ele aparecesse em poses sensuais, na mais perfeita nudez-mudez. Mas troco de canal correndo se ele estiver manifestando as (des)graças de seu tosco espírito, coisas como “odeio música”, “futebol é uma coisa totalmente irrelevante” e outras pérolas desse quilate. Também tenho que me policiar para, daqui por diante, não recair em fazer sequer uma leitura automática de suas tolices escritas, principalmente se estiver comendo ao folhear a revista, porque suas opiniões sempre me dão engulhos. Drogas pesadas fazem mal à saúde e eu tô fora, meu fígado é muito sensível.
Não precisam argumentar que ele é irônico, que polemiza por esporte e que, no final, consegue exatamente o que quer, ou seja, um pouco de atenção e notoriedade na base do “falem mal mas falem de mim”. Já ouvi tudo isso mas a verdade é que aqui no Nóvoa em Folha ele só tem vez mesmo porque é gostoso.
Portanto aos “mainardetes”, embora eu duvide que os haja entre meus inteligentes leitores, dou toda razão e quase os invejo por conseguirem amá-lo. Que fiquem com ele, se lhes apraz, e sejam felizes.
Mas aos insistentes que quiserem me convencer a engolir este pão bolorento, por gentileza, vão ver se eu tô lá em Cuiabá.

(poesia de guardanapo)

Ignoram os olhares
Dos gentios deste bar
Que daqui de uma alta torre
Isolada em meu castelo
Avisto já teu cavalo
Galopando decidido
No resgate do meu corpo
Que julgavas já perdido
Por tua longa demora

Muito te enganas se pensas
Que perdi o meu encanto
Fiz do tédio um aliado
Da ilusão meu romance
Dos anos guardei os fios
Com eles teci um manto
Pra te enredar em meus sonhos
E te alçar ao meu alcance

Qual Penélope sem trono
Bordei pra enganar a vida
E fiz das noites sem sono
Longa trama sobre o nada
Mil e uma vezes tecida
Desfeita de madrugada
Esgarçada pela espera
Cerzida pela esperança

(Inútil perseverança
Desfia o que eu mais quisera
Remenda o que eu não sou mais)

Mas se já te vejo agora
Iluminando o caminho
Lanço a enorme trança ao tempo
Que em seu vão nos leva embora

Faz de mim a tua escada
Escala até minha cela
Ousa profanar meu templo
Que eu te abro a janela
E no calor do meu ninho
Tem repouso a tua espada

Eu te compenso o esforço
Tu me devolves o espaço
No imenso do teu abraço
No infinito do teu dorso

 

 

Chose de Locke!

De passar mal, os comentários da galera no post abaixo! Quem arrisca mais um trocadêmico?
Seleção de comentários: Diálogo na Academia

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Diálogo na Academia

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– – E aí, tudo Deleuze?
– – Nada, meu orientador me Foucault.
– – Marx safado!
– – Nietzsche conto……
– – O meu também só me Freud.
– – Minha tese é um deSartre.
– – Mas deve Habermas. E a vida?
– – Ah, a Wittgenstein…
– – Como?? Pra ser Frankfurt, não entendi.
– – Nem eu. É só Adorno.
– …(silêncio lacaniano)
(Pano rápido)

Hoje é o último dia da Bienal Internacional do Livro, que lota o Riocentro há duas semanas. O terno branco de Tom Wolfe disputou espaço com os cigarros de Lolita Pille nos jornais; mas os grandes sucessos de público – assediados por multidão de fãs – foram MV Bill e o Big Brother Jean Wyllys.
Um romance recém-lançado, do espanhol José Luis Saorín, fala de uma “grande editora que não só mata o romance como também todos os gêneros literários, criando uma fábrica de livros escritos por ‘ghost-writers’, na qual os autores são engrenagens na cadeia de produção e onde não se fala mais em literatura e leitores mas somente em produtos e clientes”. Alguns escritores, às vezes, são profetas.
Moro no Rio e aqui não podemos reclamar de pobreza cultural. Há algum tempo, a Prefeitura gastou 2 milhões de dólares só num “estudo de viabilidades” para trazer o Guggenheim para cá. Os shows nas praias custam somas fabulosas e acontecem com freqüência, não só no réveillon. Trazem Rodin, trazem Monet, trazem Dali e esta agenda cultural é montada com dinheiro assumidamente público ou isenção fiscal, o que dá no mesmo. Nossa condição de platéia custa caro aos cofres brasileiros mas a produção de uma cultura nacional é mais do que precária – é quase inexistente. O músico, o ator, o bailarino, o artista plástico, o cineasta, ainda podem ter a esperança de que a Lei Rouanet, um dia, invista em seu talento. O escritor, coitadinho, tem que rezar para ganhar na Mega-Sena.
Em tempos de Bienal do Livro, o BNDES anuncia novas medidas (junto com o Ministério da Cultura) para editoras e livrarias: empréstimos a partir de 1 milhão de reais e não mais de 10 milhões – só uma editora no Brasil tinha potencial para empréstimos desta monta. E a produção de livros no país, com a desoneração fiscal de fins de 2004, tornou-se totalmente isenta de impostos. Bom, para os empresários do livro. Mas… o que se pensa para os autores de livros?
biotonico_fontoura.jpgNo Almanaque do Biotônico Fontoura de 1943 (não posso ver um Biotônico ou um Abacateirol antigos que não compre, são cultura mais compactada do que na Internet), há uma impressionante relação, sob o título de “Escritores Pobres”: Desde Milton, que vendeu seu Paraíso Perdido por 10 libras, ao que vendeu o corpo para cirurgiões, ao que casou com a lavadeira para pagar dívidas. Além de Camões e Cervantes, que morreram na miséria.
Há um vínculo perverso entre literatura e indigência. Ariosto habitava, no fim de sua vida, uma das casas mais ordinárias da cidade e era o primeiro a gracejar com a magnificência dos palácios que descrevera no Orlando, dizendo que era mais fácil juntar palavras do que pedras. Ou moedas.
As moedas públicas saem para outras áreas culturais e possibilitam a revelação de talentos. Só a literatura é a enjeitadinha das artes. Há o prêmio Camões, vocês dirão, 100 mil euros. Sim, para autor consagrado. Mas, qual o caminho para o escritor talentoso e ainda não editado? Um editor declarou uma vez (não posso jurar que tenha sido o dono da Companhia das Letras mas me parece que era) que só editou duas obras cujos originais lhe chegaram pelos Correios. O escritor precisa ser indicado como escritor para vir a ser um escritor. Absurdo, não?
Qual a chance do escritor talentoso que nasceu no Acre ou no Piauí, não se mudou para o Rio ou São Paulo e não conhece intelectuais que o indiquem? Se a bailarina dança, o ator representa, o peixe nada e o passarinho canta, por que o escritor deve ser funcionário público para se sustentar? Por que lhe cobram que seja ou best seller ou mendigo? Por que não existe escritor classe média, sustentando-se dignamente com aquilo que escreve? Há dinheiro público para financiar a cultura, e o fundamento de quase todas as artes é a literatura, sem dúvida.
Vamos pensar no que custa um filme. E no que custa um livro. Em um ano, um escritor pode escrever seu livro, desde que possa se dedicar a ele todos os dias. Se houvesse verba pública para, todos os anos, premiar dez autores em concurso, se este prêmio fosse algo não menor do que 50 mil, teríamos uma despesa anual de 500 mil (bem menor do que o custo de um filme) com o incentivo à literatura e, com este dinheiro, o autor poderia pensar em passar um ano escrevendo seu próximo livro. Profissionalmente. E não amadoristicamente – no tempo que lhe sobra de outras atividades – ou se sujeitando a viver o mito do artista miserável que morre de fome enquanto engendra a sua obra.
Os festivais de MPB, na década de 60, renovaram a música popular. Os que ainda hoje estão aí, Chico, Caetano, Gil, Edu, etc; etc; foram revelados em festivais e conseguiram furar o bloqueio das gravadoras. O Brasil inteiro mandou fitas para os festivais e as melhores foram selecionadas e apresentadas ao público; ou seja, foi dada visibilidade àqueles compositores e eles iniciaram uma carreira profissional. Lucraram todos, eles e a música.
Por que não há um concurso decente para o escritor iniciante?
Não sei como é a “política literária” em outros países. Aqui no Brasil, é quase impossível ao jovem escritor editar seu livro. Fala-se muito que o brasileiro precisa ler mais; mas não se dá a mínima chance ao escritor inédito brasileiro. E, enquanto “consumimos” música brasileira e dramaturgia brasileira – com as novelas de TV -, e isto é muito bom, lemos Dan Brown: a lista dos 10 mais vendidos, em tempos de estímulo literário provocado pela Bienal, traz 7 estrangeiros e apenas 3 brasileiros: Paulo Coelho (fenômeno mundial), Jô Soares (que chegou à literatura oriundo de outras áreas) e Lya Luft (mulher de dois escritores com trânsito em editoras e que, certamente, nunca mandou um original pelos Correios).
Onde estão os escritores brasileiros, que poderiam ter sido descobertos pelo Ministério da Cultura?

Sina de poeta

Queria trazer aqui, para ilustrar o texto de minha mãe, um trecho da peça Antônio José ou O Poeta e a Inquisição (1838), de Gonçalves de Magalhães (1811 – 1882), considerada a primeira tragédia brasileira, e encenada por João Caetano.
Qual não foi minha surpresa ao perceber que, ainda que esteja em domínio público, e apesar da importância da obra, não é possível, ao que parece, encontrar uma versão eletrônica da mesma. Tive então que desencavar meu velho texto, uma cópia xerox em estado bastante precário, e dar-me-ei à pachorra de digitar aqui um trecho, para vosso deleite. Peço perdão pelo reduzido do excerto, uma vez que eu cato um milho danado e não sou capaz de me concentrar por muito tempo em tarefas enfadonhas de cópia. Se alguém souber onde encontrar este texto completo na web, agradeço muitíssimo a indicação.
Pois bem, vamos à peça. Nesta cena, Mariana, atriz, lamenta-se de seu destino de artista à criada Lúcia. A aia, em seu bom-senso, condói-se da triste sina da patroa, bem como de todos os escritores e poetas, como o protagonista Antônio José, um dramaturgo, ou Camões, obrigados pela vocação a dedicar-se apaixonadamente a seus ingratos ofícios, por amor à glória.
Antonio José ou O Poeta e a Inquisição
Gonçalves de Magalhães
(cena III – Primeiro Ato)
(…)
Mariana (Levantando-se) – Vê como é difícil
O trabalho da mente, e o quanto custa
Ter um nome no mundo! Enquanto dormes
No teu leito tranqüila, eu velo, eu luto.
A noite para ti traz o repouso,
E se o dia ao trabalho te convida
Com a paz no coração deixas o leito.
Teu diurno trabalho não te cansa;
Com a paz no coração ao leito voltas.
Mas eu, quando repouso? Ante um espelho
Estudando paixões, compondo o corpo,
Mil expressões numa hora procurando,
Meus dias passo; – e tu doida me julgas
Quando me vês lutar, gritar, ferir-me,
E às vezes investir-te delirante!
Durante a noite minha fronte escaldo
Junto desta candeia, que me aclara,
Sua negra fumaça respirando,
Ou medindo o salão de um lado a outro
Sempre com o meu papel diante dos olhos
Como um espectro do sepulcro erguido,
Em desalinho, pálida: e cem vezes
Primeiro a luz se apaga, que eu me deite.
Se busco o leito então, oh, que tormento!
Da cabeça inflamada o sono foge;
Nova cena a meus olhos se apresenta.
No teatro me cuido; escuto a orquestra,
Vejo a platéia, e os camarotes cheios,
Ouço os aplausos, bravos que me animam,
E com esta ilusão a vida cobro.
Mas eis que durmo, sonho, e de repente
Ao som da pateada aflita acordo.
É manhã; – e outra vez começa a lida.
Oh vida! Oh ilusão! Oh meu martírio!
Lúcia – Oh! Certamente que me causa pena.
Tanto eu não poderia: antes quisera
Uma esmola pedir de porta em porta,
Do que seguir tal gênero de vida.
E então por que ralar sua existência?!
Para agradar ao povo! E apresentar-se
A rir, ou a chorar, como uma doida!
Mariana – Que dizes tu? Coitada! O teu discurso
Bem mostra que da glória o amor não sentes.

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Jupiter and the Moon.jpgEssa noite temos um motivo a mais para olhar para o céu.
A partir das 18:16 (hora de Brasília) ocorre um fenômeno raro, chamado Ocultação de Júpiter, o que significa que o planeta Júpiter será eclipsado pela Lua.
Isso ocorre porque os dois corpos celestes, embora bem distantes um do outro, estarão alinhados com relação à Terra. A Lua vai ficar na frente de Júpiter por exatamente 1 hora. Às 19:16 o planeta volta a aparecer do outro lado.

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Panfleto

foragarotinhos.gif
O Gejfin criou este mimoso panfleto pra ilustrar nossa “passeata virtual”.
Clicando sobre a imagem, você tem acesso ao arquivo, pra poder copiar e reproduzir à vontade. Cole em seu blog, imprima, envie por e-mail.
Aproveite pra dar um rolé pelos blogs amigos que estão engajados nesta causa:
Cora , Guto , Idelber , Leila , Paulo , Sergio , Tiagón, Inagaki, entre outros. A lista não pára de crescer. É a blogosfera unida em defesa da justiça e da democracia. Expresse sua indignação, proteste você também.
O povo unido jamais será vencido!

Gente, tem post no Idelber e na Leila sobre o caso dos Garotinhos. Vão lá, dêem pitaco, desçam o pau, mandem e-mail pros amigos, pros políticos, pros juízes, façam todo o barulho possível. Vamos livrar o Rio dessa turminha da pesada!

Claustrofobia

escher.jpgEu preciso sair já
Deste corpo sem espaço
Zarpar pra terras distantes
Ver as praias com outros olhos
Outros braços, almirante
Do barco de outros cansaços
Outras fome e paladar
Inéditas, frescas memórias
Novas histórias antigas
Parentes velhos em folha
Tias-avós rebordadas
Jovens familiaridades
Lembrar daquela cantiga
Que uma mãe desconhecida
Calou pra não me acordar
Não a mesma arca cheia
A resma de escritos velhos
Testamentos, evangelhos
Mesmos livros preferidos
Sebo das meias-verdades
Saldos de tardes relidas
Amores, pranto, feridas
Tudo tão passado quanto
Mais pesado nesse aqui
Que não me deixa sair
Que me apega ao que está morto
E me conserva latente
Na vã e impaciente espera
Pelo redentor aborto
De minha última quimera
.
P.S. – Sai, Augusto dos Anjos, deste corpo que não lhe pertence! :o)

Microcontos

a casa das mil portas.gif
Tem microcontos meus na nova fornada do interessante projeto A Casa das Mil Portas, do Nemo Nox.
Dentre os autores tem muita gente boa que eu já conhecia, como Idelber Avelar (nos brindando com um raro momento assumidamente literário) e Alexandre Inagaki, um dos primeiros a aderir à brincadeira. Também descobri novas preciosidades, como o blog da Crib Tanaka (vocês têm que ir lá ver como ela escreve MUI lindamente!), entre inúmeros outros que vale a pena visitar.
A idéia aqui é contar uma história em cerca de 50 caracteres, ou menos, a exemplo da célebre “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”, do guatemalteco Augusto Monterroso.
Como a ordem em que os contos se apresentam é aleatória, e são até agora 111 autores, vocês podem ficar um tempão explorando a “casa” e nem chegar a ver alguma de minhas cinco pequenas infâmias. Ei-las portanto aqui agrupadas, para vosso conforto:
.
Tinha medo de morrer dormindo. Morreu em pé, de medo.
.
Entrou escondido, pé ante pé, para que não se encontrasse.
.
Tinha muita gente dentro daqueles olhos. Foi fumar lá fora.
.
Atravessando a rua, pensava: a vida é. No que pensou, já era.
.
Sempre foi um otimista. Ao suicidar-se, morreu de rir.
.


Eu costumo manter certa distância dos movimentos feministas (embora reconheça suas importantíssimas conquistas), porque eles ainda estão longe de defender o que eu entendo por FEMININO. Como não estou a fim de ir à reunião pra ficar polemizando com as colegas (que afinal de contas são bem-intencionadas) divido aqui com vocês minhas reflexões sobre as chamadas questões de gênero.
Pra começar, devo explicar que, quando digo feminino, não quero dizer, necessariamente, mulher no sentido biológico, embora a biologia tenha sua parte na história. Estou me referindo às FUNÇÕES FEMININAS num plano simbólico e que, a rigor, poderiam ser exercidas por seres de ambos os sexos.
Pra exemplificar, vou recorrer à filosofia chinesa e aos conceitos de YIN (feminino) e YANG (masculino).
Dentro dessa perspectiva, reconhecemos dois grandes princípios fundamentais que, combinados de diferentes maneiras e em variadas proporções, estão na base de todos os fenômenos no mundo ou, para usar a expressão chinesa, são o pai e a mãe das dez mil coisas.
O primeiro é o princípio CRIATIVO, yang, masculino. Representa o céu, a atividade, a luz, o tempo,…
O segundo é o princípio RECEPTIVO, yin, feminino. Representa a terra, a receptividade, a matéria, o espaço,…
Sejamos homens ou mulheres, somos sempre uma combinação particular dos 2 princípios. O TAO, ou caminho, está no equilíbrio entre estes opostos.
No I Ching, o mais antigo livro de que se tem notícia, as diferentes interações entre yin-yang são representadas por 64 mutações.
A mais bela e auspiciosa das mutações chama-se PAZ, e representa o céu abaixo, em posição de reverência, e a terra acima, exaltada. Como é próprio à natureza doce do receptivo (terra) mover-se amorosamente em direção ao que está abaixo, e à natureza luminosa do criativo (céu) mover-se entusiasticamente para o alto, eles dirigem-se um ao outro e encontram-se, num “casamento” harmonioso e fértil.
Quando, ao contrário, o céu encontra-se exaltado e a terra rebaixada, seus movimentos afastam-se mutuamente e temos a triste época da ESTAGNAÇÃO, do desencontro, da esterilidade e da morte. Que por sorte também não é eterna já que, ensina o I Ching, todo movimento, ao chegar à culminância, transforma-se em seu inverso.
Desse modo, a estagnação carrega o germe do florescimento de uma nova paz.
O que me faz pensar que, se por um lado, estamos em um túnel escuro, por outro, a luz deve estar próxima.
Já a paz, por ser dinâmica (e isso é uma característica especial dela, com relação a outras mutações menos felizes), pode manter-se por longos períodos, se souber administrar seus dons e renovar seus recursos.
E o que isso tem a ver com feminismo?
Bem, eu tenho visto que muitas mulheres são valorizadas hoje em dia por suas qualidades Yang (tem mulher que é macho paca, no bom sentido: deixa os homens no chinelo), mas o que é da ordem do FEMININO, na maioria das vezes, tem conotação inferior, dominada, vergonhosa, desprezível ou, na melhor das hipóteses, assustadora e demoníaca.
Dentre os modos de trabalho, temos em primeiro lugar as atividades Yang, externas, tradicionalmente relacionadas à caça (lucro), à construção, à guerra, e todas as outras que exigem força ou um dispêndio concentrado de energia, e produzem grandes efeitos visíveis -portanto, são primordialmente masculinas.
Estes trabalhos são infinitamente mais valorizados – e, por conseguinte, melhor remunerados – que as tarefas Yin de manutenção doméstica, limpeza, agricultura, cuidado e educação. Estes afazeres “femininos”, de efeitos muitas vezes suaves e cumulativos, quase invisíveis no dia-a-dia (mas não menos fundamentais), são relegados preferencialmente às mulheres e/ou às classes exploradas, e tão mais acentuada é essa tendência quão mais inglório for o trabalho.
Assim, existe uma hierarquia também dentro do âmbito do feminino, e teremos mais homens como professores de nível superior ou enfermeiros qualificados que como donos-de-casa.
Se tem alguma coisa em que o feminino é um pouco mais reconhecido socialmente, é no que se refere a seu valor como objeto, como corpo (o feminino é a terra, o palpável, enquanto o masculino-céu é abstrato, o que não se pode possuir). Então o feminino adquire poder através da sedução: a beleza e a arte são domínios do feminino, porque estão submetidos à forma, bem como as relações humanas, pois têm por base o afeto. São do feminino as variadas formas de influência subliminar, e seus meios de manipulação preferenciais, no sentido negativo, são a mentira e a perfídia. Mas, num eventual confronto, esses recursos nada valem diante das riquezas e das armas, domínios do masculino. O poder yang sempre encerra a questão pela violência. O feminino, em seu aspecto mais destrutivo, mata pelo silêncio e pelo abandono.
É nesse ponto que céu e terra se afastam, se isolam em seus extremos.
Quando o feminino está excluído ou rebaixado pelo masculino, temos a época da estagnação, “desfavorável para o ser superior” e penosa para todos nós.
Um claro exemplo de exclusão do feminino: Maternidade não é profissão regulamentada por lei. Não sustenta, não tem férias, licença-prêmio nem aposentadoria. Uma enorme injustiça. Aliás, uma pena. Vivemos num mundo de mães constrangidas, babás exploradas (qual é a palavra masculina para babá? Não existe, por que será?) e creches lotadas de crianças tristinhas, permanentemente doentes. Mal necessário, pensamos. Será mesmo?
Será que ficamos mais fortes, como sociedade, quando excluímos ou rebaixamos o feminino? Ficamos mais ricos com isso? Será que a mulher se fortalece ao se afastar precocemente dos filhos para “ir à caça”? Devemos ter vergonha de ficar em casa, com as crianças? Devemos deixar de amamentar nossos filhos aos 3 meses, pra não perder o lugar no mercado? Porque não podemos levar os filhos para o trabalho? Será que temos que ESCOLHER entre ser realizadas OU ser mães? Devíamos cortar um peito fora e ir à guerra, como amazonas pós-modernas? Será que ser macho paca é o que todas queremos? Quem vai cuidar de nossos pais, quando estiverem doentes? Quem vai cuidar de nossos filhos? Quem vai cozinhar pra nós? Gente explorada e triste? Máquinas, talvez?
Eu não quero lutar APENAS por salários iguais para as mulheres, quero discutir uma valorização digna para as funções e os saberes femininos. Queria ver o feminino honrado e exaltado, para que pudéssemos viver saudáveis, bem amados e alimentados. Belos também, é claro, e artistas, por que não? Independente de sermos homens ou mulheres.
Eu devo ser uma ser-humana totalmente ultrapassada, com essa filosofia do tempo do onça…
Por isso que eu não participo de reuniões feministas.
PAZ a todos.

Tenho pena do camelô mudo, aquele que fica sentado na frente do seu caixotinho, em silêncio, desviando o olhar de quem passa e quase pedindo desculpas por ser o que é. Ao mesmo tempo em que sou fascinada pelo camelô falante, embora nunca tenha encontrado pessoalmente o Sílvio Santos. O último camelô que me hipnotizou, meses atrás, estava em Copacabana vendendo por 5 reais notas de 10. A multidão se acotovelava em volta, disputando aos empurrões a utilíssima mercadoria; alguns perguntavam se aceitava cheques e ele negava, só dinheiro vivo; falava biblicamente sobre milagres, multiplicação dos pães, exploração do homem e FMI, enquanto o bolo de notas de 5 ia crescendo em suas mãos e o bolo de notas falsas diminuía na gamela de barro que lhe servia de guichê. Um craque da comunicação, aquele camelô; e só não comprei notinhas de 10 por pura vergonha de virar estelionatária a esta altura da vida, alguns anos atrás, não sei não. Fiquei lá, em êxtase, no meio da turba, enquanto ele rapidamente liquidava seu estoque e sumia, abraçado ao alguidar, por uma tranversal em direção à praia.

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Ano passado eu escrevi este texto declarando o mais babento amor filial por minha especialíssima mãe. Como minha progenitora e meu amor continuam os mesmos, resolvi brindá-los com um repeteco safado. Até porque hoje temos, acima, texto inédito da própria, só pra lembrar que ela anda ocupada e meio ausente por aqui mas continua a mesma maravilhosa de sempre.
FELIZ DIA DAS MÃES A TODOS!

fósforo

Foto: Chema Madoz

 

músicos atêm-se ao tema,
ateus, ao sistema,
tementes, a deus.

.

só eu me aferro a mim no vão do acaso.
no fundo a ordem é só isso: o caos
desinventando onde duvidar.

.

ontem, no escuro, me perdi da fé.
sobrou-me um fósforo que não encontro
nessa bagunça de livros, papéis.

.

pra quê meu deus arrisco este poema?
a quem eu penso que meu tiro queima?
de quanto peso eu teimo que me livro?

.

Novas p?las

PEROLA.jpgSó pra avisar que continua
pingando poesia
no nosso sarau
.

“Gostar deve ser a melhor maneira de ter. Ter deve ser a pior maneira de gostar.”
(O Conto da Ilha Desconhecida – José Saramago)
butterfly.jpg
Esta semana deve ser homologado meu divórcio, tornando-me uma mulher oficialmente livre (e uma católica excomungada).
O novo estado civil levou-me a uma reflexão sobre o pacto insalubre da fidelidade: da exclusividade sobre o desejo do outro e do suposto controle voluntário sobre nosso próprio desejo em favor de outrem.
Antes que alguém pense que estou advogando em causa própria, devo esclarecer que sempre fui estritamente fiel. Por princípio, por higiene, por falta de iniciativa, sei lá, fato é que sou assim, naturalmente inclinada à fidelidade.
No entanto, não acredito mais no COMPROMISSO monogâmico. Embora tenha jurado em voz alta diante de uma igreja (uma capelinha, vá lá) lotada que seria fiel até a morte. Isso confesso que não fui, já que, separada, ainda estou viva. Mas avisei ao principal implicado (no caso, meu marido) com bastante tempo de antecedência, de modo que ele pudesse ser perjuro bem antes de mim, como convém à dignidade masculina. E assim quebramos, de comum acordo, o insano contrato que firmamos no calor da empolgação casamenteira.
Acho que se tivéssemos jurado ser AMIGOS para sempre, nosso trato teria sido mais útil em vários momentos delicados em que chegamos a perder de vista este aspecto. Ser amigo significa prezar o bem-estar do outro incondicionalmente, acima de quaisquer motivações egoístas.
Separar os corpos mantendo a amizade, eis aí uma arte que deveria ser cultivada pela sociedade, muito mais que o apego possessivo ao ser do outro como um bem agregado. Os termos que se usa para falar de relacionamentos não distinguem pessoas de coisas: ganhou fulano, perdeu sicrano, pegou, comeu, largou.
A jura de fidelidade é a garantia do amor capitalista, a apólice de seguro. Emitimos e recebemos promissórias como se fosse possível dar lastro substancial ao que é essência. Quando nos sentimos ameaçados ou traídos, saímos logo cobrando, protestando nossos títulos. Puro dispêndio de energia, já que ninguém pode restituir por direito o que nos foi dado por graça.
É, portanto, por fé no amor que não quero mais ter, nas empresas amorosas, o departamento de cobrança. Anistia para o amor: ampla, geral e irrestrita.
P.S. – Hoje é aniversário do meu ex-marido, o MELHOR pai do mundo, motivo mais do que suficiente para fazê-lo amado por todo o sempre. Não fossem tantos outros bons motivos, como se, aliás, precisássemos de razões para amar.

Caixa de j?

psyche.jpgAs coisas mais lindas da vida não são coisas, são momentos que guardamos num relicário íntimo.
Trocar poesia e arte com amigos é, pra mim, o máximo requinte da natureza humana – pelo menos, dentre as coisas que se podem fazer em público.
Este Sarau que “brotou” na nossa caixa de comentários foi uma manifestação espontânea e luxuosa do que a vida tem de melhor. Vocês que comentam aqui (ou mesmo os que apenas lêem, porque também participam desta abundância) me fazem sentir milionária.
Expostas abaixo, as jóias deixadas nas caixas:

P?las do Sarau

Não é por nada não mas este sítio é freqüentado por pessoas MUITO especiais.
Pra quem tem preguiça de olhar as caixas de comentários, aqui vai uma seleta do que rolou no nosso Sarau:
pearl_shell.jpg
Por Alexandre Inagaki:
Não sei falar de mim mas falo
Palavras se escrevem e eu me calo
O tempo é soco e o soco não sara
Rara é a vida e o amor é a máscara
Língua é bala se míngua é a fala
Mas não tenho certeza de nada
Não sei falar de mim mas falo
O tempo se escreve e eu me calo
.
Por Flavio Prada:
Eu não me traio em enganos
Lendo aqui os teus versos
Que os poemas como os panos
Recobrem as verdades, perversos
Invente sim e fale e diga
Porem nao tente esconder
Pois se é mesmo minha amiga
No fundo me fará tudo saber
.
Por Nelson Moraes:
Ela me pede um verso alexandrino
E nos dedos as sílabas fico a contar
Me esquecendo que na hora de poetar
O vate adulto não passa de menino
Culpa minha, ah, essa sina tétrica
Que desde sempre me faz perseguição
Ao invés de nos versos pôr coração
Fico é enredado ao seguir a métrica
Ó, Christiana, que a modéstia me ataque
Mas sonetos mui melhores que o meu
Já estão aí: o do Flavio e o do Inagaki!
.
Por Christiana Nóvoa:
Poeta Nelson, é mesmo quase um soneto
O alexandrino que você me prometeu
E em má emenda eu lhe dedico este terceto
.
Por Maria Helena Nóvoa:
Aqui no nosso solar
(que não é só lar, é festa,
basta puxar a cadeira
que a conversa ou a seresta
vão rolar a noite inteira)
não cabem só acadêmicas
trovas digitais perfeitas
contadas com zelo e fé.
Que ao poema christiano
se junte o de pé quebrado
e à rima flaviana
se una rima sem pé.
Que o alexandrino Inagaki,
desde o berço destinado
a engendrar dodecaversos,
tente repentes que lembrem
Patativa do Assaré.
Que venham versos em sete
com aquela cara de Lorca,
concretos – como os De Campos –
ou hai-kais, que eu duvido
um Bashô mais divertido
que Nelson, nosso Almirante.
Que venham Carpinejares
e também Camões e Dante.
Só não vale sonegar,
por vergonha ou timidez,
o dom, o talento, a veia
e engavetá-los de vez.
Um poeta de coragem,
convidado de um sarau,
levanta-se, pigarreia,
mata cobra e mostra o pau.
.
Por Flavio Prada:
Vejam voces que diferente
Um comment assim se fazer
Estimulado por toda essa gente
Que poetando se põe a dizer.
Tudo começa no inicio, que heresia
Quando a nossa doce Christiana,
Postando uma bela e meiga poesia
Mente e finge sim, mas não engana.
Agora não paro com os versos
Ja está se formando um vìcio
Até na fila do banco, perversos
Me veem à mente sem sacrificio
A moça do bar parece que gosta
Já o cara do posto me olha de lado
A minha vizinha me chama de bosta
Mas eu nao lhe respondo, controlado.
Espero que a coisa prossiga
Para poder voltar e comentar
Porem me permitam que diga
Que blog bom para poetar!
.
Por Renata Maneschy:
O poeta é um fingidor
Assim como a mulher
Ao escrever a sua dor
E disfarçar o que quiser
E se o que quer é amor
E ela o faz por merecer
Em suas palavras há clamor
E um desejo de vencer
Um jardim sem flor
Um luar ao amanhecer
Banho sem frescor
Lágrimas ao entardecer
Metáforas de um escritor
Com medo de enlouquecer
Ver um arco-íris sem cor
E a inocência se perder
Quando cala, sorri
Mas por dentro sente
A realidade destruir
Algum desejo inconsciente
Catarse no divã
Freud, Jung ou Lacan
Tradutores de um mundo invisível
Tecla sap do incompreensível
Deita, fala e analisa
Quem escuta não explica
Só quem vive, sabe
Que ser livre é ser metade
É bobo ou infantil
É maduro ou senil
Mas que diferença há
Entre ver e enxergar?
Nesse palco sou atriz
Nessas linhas sou poeta
Nesse jogo sem juiz
Divagar é o que me resta
Quem cala, consente
Quem fala convence
Quem olha, sente
Se gostar, comente
.
Por Fernando Paiva:
No meio dos Bambas
Um Conga sujinho
Não tenho nada na gaveta
E num momento solene
Eu comendo pipoca na platéia vibrante
As vossas pérolas amadurecidas
Faiscam no sol dos arrecifes
E minhas bolinhas de gude
Desceram ao fundo do mar
Nesse globo todo mapeado
Do falecido Eldorado
Meus olhos ficaram parados
Nessa minha visita ao vosso sobrado
Um pedacinho de horizonte!
Que beleza!
Lá além dele
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Só estou fingindo ser poeta
Pra não levar nariz torcido
Melhor ser palhaço do circo
Só sei andar de bicicleta
Só queria dizer -Oi querida.
E acabei tendo que…
Como se diz mesmo?
.
Por Luiz Biajoni:
o poeta é um miserável desgraçado sem ter onde cair
morto
mesmo nesse estado continua sendo o que sempre foi
.
Por Cynthia Feitosa:
Chego assim, depois da hora
Com a sala já escura,
E a festa há muito acabada
Justifico minha demora
Com a vergonha da feiúra
E da roupa larga e emprestada
Com todos adormecidos,
Deixo num canto, escondido
O meu presente, coitado
Tão pobrinho e mal embrulhado
Um poeminha indigente
Versos sem nenhuma métrica
Profundidade adolescente
Uma ou outra rima tétrica
Não sabe contar nos dedos
Nunca foi alexandrino
Nem sabe o que é um soneto
É um pobre cynthiano
Que só se mostra com medo
Mente ser pós-moderno e urbano
Mas só faz papel de cretino
Ouço um barulho na escada
Será que tem gente acordada ?
Fujo a toda velocidade
Antes que alguém leia – e trema
Com a ruindade do poema
Que era prova de amizade.
.
Por Celso Carneiro:
POETA
Ser poeta!
Será um estado…
uma sensação…
uma emoção…
uma impressão…
elaboração?
Uma profissão,
decerto que não!
Um ofício?
Não, que alívio!
Uma divagação, talvez…
Uma desocupação, certamente.
Mais,
uma pretensão descomunal
de reduzir a versos o anverso da razão;
de transfundir as cores das visões
e desenhar o redemoinho das paixões,
num pedaço raso de papel.
É mais:
o desvario de supor
que tu aí,
que vives no tempo
e cuidas da moeda,
entediado no desencanto das esperanças fugidias,
possas ouvir o canto mudo
de uma poesia pequenina.
.
E aí, quem vai dizer o próximo?

Sarau no solar

A caixa de comentários do post abaixo está um sarau de bambas. Eu recomendo.

vale o escrito?


não se engane

com meus versos

não estou aí

pra ser lida

 

ninguém se escreve

não sou quem digo

não digo ao que venho

onde vou

 

invento tudo

minto à vera

penso que merda e grito

quimera

pra ver se acredito

 

não penso tão bonito

quanto falo

(em falos penso, confesso)

 

escrita é jogo

distração

eu não

 

eu de verdade

estou aqui

em mim

agora

 

metáfora até que é bom

mas meu buraco

é mais por dentro

 

e se você

ainda tá aí

levando a sério

a minha estória

 

meu amor

leva a mal não

‘cê tá por fora!

 

 

Par?la dos talentos

family_m.jpgMeu irmão mandou-me este e-mail, a respeito do comentário da Clarice no post abaixo, elogiando sua escrita. Eu, irmã-coruja que sou (e com razão, como vocês hão de notar), não poderia deixar de publicar a missiva. Com vocês o literato, musical, advocatício e aeróbico Dr. Claudio:
(Por Claudio Nóvoa – cgnsc@hotmail.com )
Querida Irmã :
Acabo de ler o comentário da leitora, ela foi muito legal, acredito que você já a conheça. Pode ser que eu tenha passado uma falsa impressão de modéstia, como quem escamoteia seus talentos na intenção de conquistar elogios, mas isso não é verdade. Eu não me acho realmente um escritor, embora seja às vezes assaltado por essa vontade. O que aconteceu comigo foi apenas treino, e estar inserido num ambiente que estimulou essa capacidade. É como alguém que nasce numa família de músicos, ou pintores, ou trapezistas, ou bailarinos. Certamente esse alguém, ainda que não siga o caminho dos outros artistas da família, irá revelar uma intimidade, uma familiaridade com aquela forma de expressão. Mas você, no seu íntimo, sabe que você não é tão bom naquilo quanto os outros, embora possa ter ocasionalmente seus momentos de brilho. Ter nascido numa família de leitores vorazes e compulsivos, capazes de devorar avidamente todo tipo de tema facilitou muito as coisas, afinal os livros estavam ali mesmo, era só estender a mão. E quando, eventualmente, você resolve se expressar, todo aquele conteúdo acumulado se evidencia, fazendo parecer às pessoas que você é talentoso, sem que, de fato, o seja. Por outro lado, quando um determinado talento emerge num ambiente que não lhe seja propício e, ainda assim, teima em se manifestar, é sinal de que estamos diante de uma inclinação verdadeira, e aí, para explicar, bem…, você acredita em vidas passadas ? Mas também aí, nesse caso, o talento que emergiu vai estar submetido ao ambiente que o circunda. Você pode nascer com um puta talento musical, mas se você não encontra ninguém para cantar com você, tocar com você, ouvir o que você compôs, enfim, se ninguém reconhece esse talento e nem te valoriza por causa dele, você também encontrará dificuldades em expressá-lo. E pode até acontecer que, ao longo da vida, aquele talento permaneça em você em estado de latência, sem ter a ocasião de se desenvolver e se manifestar. Por isso, o ideal é que os dois componentes da fórmula talento+oportunidade estejam mais ou menos equilibrados a fim de permitir a livre expressão do artista. Eu acho que essa página abriu para você esse canal, que vai mostrar ao mundo a artista que você sempre foi, e permitir que você se desenvolva ainda mais. Quanto a mim, ficarei feliz em contribuir com meus comentários e, ao contrário do que possa ter parecido, não desejo me fazer de modesto para ganhar elogios, mas apenas me divertir um pouco e instigar algumas polêmicas divertidas, mas sempre me deliciando com seus textos e suas idéias malucas.
P.S. Sabe se tem alguém por aí interessado em formar uma banda ?

simbol-calice-m.jpgPai, afasta de mim este cálice, ainda que Bento. Desta vinha, até prova em contrário, não beberei. Se a fé está em dizer não: Não, Senhor, agradeço mas estou servida.
.

Tá, vamos falar de amor. Eu nunca quis falar de outra coisa, mesmo. A vida é que mudou de assunto, fez parágrafo.
sunflowers_l.jpgTudo bem, pode ser que eu tenha tido a intenção de mudar de linha, evitar a onipresente temática mas, como eu ia dizendo, não tem jeito: a roda gira e eu volto sempre ao mesmo ponto. O eterno retorno sobre mim mesma, e é sempre o tal do amor que eu busco: *** O *** encontro, aquele alguém que me faça acreditar que o outro existe. Que vive, respira, pensa e sente tanto quanto eu e, portanto, eu não estou aprisionada irremediavelmente em mim.
Mas vou confessar aqui uma coisinha, entre essas 4 paredes do monitor: eu tenho um pouco de medo dessa perdição também, desse ópio de ser feliz no amor. Já pensou? Feliz, felicíssima, o encaixe perfeito e absoluto!
E aí??? Vai ser o idílio para sempre? Ainda que fosse possível, o que seria realmente lindo, eu temo que ficasse muda, que não quisesse mais escrever uma linha, logo agora que eu estreei meu sitiozinho…
Falar o que, amando? Hum…hã…ahhh… e outros murmúrios menos publicáveis? A doce e tacanha linguagem dos amantes tem pouquíssimo valor literário. Chega no máximo a umas imagens românticas de gosto duvidoso, uns diminutivozinhos, uns rasgos de pornografia e outras bobagens iletradas. A felicidade emburrece, e com toda razão. Pra que pensar quando se está feliz? Melhor viver, aproveitar.
Só que eu gosto de escrever também, então fico dividida. Acho que é por isso que eu arrumo uns amores difíceis, quando não totalmente impossíveis. Talvez por isso, até hoje eu não fui capaz de ser totalmente feliz com os amores possíveis.
Acho que, pra aceitar ficar tão burrinha, eu cobro um valor muito alto do amor. Não em demonstrações formais de afeto, neuras de fidelidade e outras pequenezas que empobrecem qualquer romance mas em …”acontecência”: tem que estar acontecendo algo grande, de uma intensidade transformadora. Senão a barganha não me interessa, prefiro ficar comigo mesma, distraída… admirando como pode ser rica a minha solidão.
Não sou infeliz assim, eu juro, nem mesmo amarga ou desiludida. Sou feliz, ou quase, quase o tempo todo, o que não é pouco, ao menos para mim.
Lembrei de um poema da Florbela Espanca que termina assim: “Um homem?…quando eu sonho o amor de um Deus!”
Exigente, a moça, né? Por certo, devia preferir fazer poemas a encarar um amorzinho medíocre com qualquer zé-mané. Longe de mim querer comparar meus poemitchos aos da portuguesa mas devo ser tão presunçosa quanto ela.
Só tem um problema nessa auto-suficiência narcísica. É que a vida costuma ser surpreendente e ninguém está totalmente garantido contra as flechadas de Cupido.
E se uma hora dessas, sem aviso prévio, o amor pagar pra ver e se apresentar, divino e maravilhoso, à minha frente?
Bom, gente boa, aí eu fico burra na hora, fecho este sítio e vou ser feliz da minha vida.
Pelo menos até o despertador tocar e eu cair da cama.
.

Mme. Nóvoa está com preguiça de postar, de modo que estou tendo que cumprir “dupla jornada” pra isso aqui não cair no marasmo. Mas não sou boa em comentar os fatos do momento e nem encontro ânimo pra dissecar criticamente o noticiário da semana . Tampouco sei discutir religião, política ou futebol. Na falta de coisa melhor pra dizer sobre tais temas, contribuo humildemente com 3 anagramas rápidos e, quiçá, oportunos.
católico – il caótco
Romero Jucá – core, marujo
argentino – ignorante*
* (reconheço que é horrível, além de totalmente paradoxal, incorrer no preconceito que queremos denunciar. Não pude perder a piada mas devo esclarecer que acho os argentinos até muito cultos. Pero, a veces, hablan mierda!)

oroboros.JPGInfâmia inspirada por minha irmã Patrícia, a mais tímida das Nóvoas (mas não menos “helênica”, como diria o Pinto).
Chegada a hermetismos cabalísticos, ela acaba de terminar sua monografia: Anagramas – A “Ars Magna”, tese interessantíssima que, somada à minha natural tendência ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo, lançou-me sem novelo num labirinto vocabular de intermináveis jogos. Após entregar-me por semanas a anagramas de toda espécie, dediquei-me furiosamente, por muitos dias, aos doublets de Lewis Carroll, passei pelos acrósticos e caí por fim nos palíndromos, que me consumiram toda uma noite.
O bizarro resultado desta última experiência segue abaixo para vossa distração, se for o caso. Está capenga e esquisitinho mas foi o melhor que consegui fazer.
Consta que o Chico Buarque também andou flertando com passatempos lingüísticos em noites insones e o palíndromo dele , aliás, também ficou meio esquisito. Além disso, ele fez uma versão anagramática da belíssima letra de Vitrines. Distrações de quem faz samba e amor até mais tarde – ultimamente, mais samba que amor, tanto eu quanto o Chico, ao que parece – e sente muuuuuuito sono de manhã…
OROBORO (*)
Arara rara
Ave
Amarga na grama
Roda dor
rea
Sobre bossas soberbos
Ai é dor amor aroma rodeia
oroboro.JPGAve leva
Assim à missa
A reza zera
A vida dádiva
Mostra luz azul art som
Eu!
O solo só
Eco você
.

pes.jpgAssistimos, nos últimos dias, a um curioso fenômeno de massas – milhões de pessoas acorrendo ao Vaticano para ver o corpo do Papa. Nem todas são católicas fervorosas, poucas se importavam com a saúde do Papa há um mês e pouquíssimas saberiam dizer por que admiram o Papa. Mas estão lá, de sacos de dormir e mochila, enfrentando filas quilométricas e espremidas em multidão que dá medo. O desconforto é grande e o risco é real: ninguém controlaria um estouro desta boiada.
O que leva estas pessoas a saírem de suas casas para participar de um velório de quem não conheciam e que também não as conhecia é uma necessidade pouco estudada e pouco compreendida em tempos de globalização: a necessidade de “pertencer”.
O “pertencimento” é dos poucos estados emocionais que rompe a barreira do individualismo: quem pertence – a uma causa, um time, um partido, uma família ou a uma grande multidão – sai da solidão do próprio “eu” e experimenta o compartilhamento do “nós”, do coletivo. Experimenta uma forma de amor.
As pessoas que foram ao funeral do Papa (e choraram, sinceramente), como quem foi ao funeral do Getúlio, da Carmen Miranda, do Tancredo e de tantos outros que mobilizaram grandes massas, corriam atrás de um estado emocional que raramente pode ser descrito. É o que dizem os entrevistados, depois de desfilar por sua Escola, na Sapucaí: – É emoção demais; indescritível.
Os gregos chamavam de “ágape” a este grau indescritível da “participação mística”. Poucas causas e poucos eventos nos proporcionam o encontro com “ágape”; quando os farejamos, corremos para eles, enlouquecidos. O ágape nos pede sacrifícios materiais, aferíveis, e só nos remunera com um vago e raro sentimento: por alguns momentos, rompemos a barreira do “eu” individual e participamos de “algo” maior do que nós. É a experiência mística – a experiência de Deus -, a iluminação possível aos humanos, imersos nas trevas.
Quando voltar para suas casas e suas vidas, aquela multidão já não pensará muito nas orientações de João Paulo II e, certamente, não as seguirá ao pé da letra: a adesão ao velho Papa não é tão grande. Mas, os momentos de êxtase vividos em Roma serão inesquecíveis.
É um fenômeno dos nossos tempos, em que os costumes (ou a mídia) desqualificaram esta forma de amor, limitando-o a um bom encontro sexual, mas ela permanece lá, adormecida, esperando o próximo evento que reúna grandes massas, ou um grande jogo, ou um grande “show”, ou outro grande funeral para proporcionar a experiência transcendente do encontro da parte com o todo. Um estado de felicidade inalienável – não sujeita às vicissitudes da existência – que sempre foi a meta da jornada mística em busca de Deus.
* * *
shoes of pope paul V.jpgAs Sandálias do Pescador é um romance, escrito por Morris West na década de 1960. Conta as ardilosas maquinações que se sucedem à morte de um Papa e a improvável eleição de um Cardeal não italiano e oriundo de país comunista para o Trono de Pedro. No livro, o novo Papa não se chama Karol mas Kiril – Morris West chegou perto, com 15 anos de antecedência. Parece que escritores e poetas acabam vaticinando, mesmo sem querer.
E lembrei deste romance quando vi o corpo de João Paulo em mocassins calçado.
Não sou da época do bom e velho velório em casa, meus mortos já morreram em hospitais, a Santa Casa se encarrega de todos os procedimentos e a família mal cuida do corpo defunto.
Mas não esqueço a minha mãe lembrando que não se enterra ninguém de sapatos e parece que a Santa Casa segue o costume: veste, coloca no caixão, cobre de flores mas não calça.
Não sei de onde vem esta tradição, é possível que seja muito arcaica. Quando Moisés se apresenta diante de Deus ouve uma voz que diz: “Tira as sandálias, o solo em que pisas é sagrado”. Talvez não se deva chegar com os pés cobertos à presença do Senhor.
O mocassim do Papa me causou certa estranheza.
.
.

A variz

Eu não tenho varizes, benza Deus. Tenho variz, uma só. Na batata da perna esquerda. Não é das gordas não, aquelas estufadas, é só escurinha, a pobre. Desde que me entendo por gente estava lá e, na minha fantasiosa infância, era a prova inconteste de que meu sangue era azul. Hoje, comprova que eu continuo nobilíssima.
Minha mãe diz que eu tenho mania de falar mal da minha aparência nos textos, que ela me fez tão bonitinha e eu fico detonando sua obra publicamente. Então vou dar uma salvada e dizer que também me acho bonitinha e não tenho do que me queixar quanto às pernas que ostento. Tirando a variz, evidentemente. Mas ainda encaro a minissaia sem crise estética. Meias kendall, só usei na gravidez. Não gosto de meia-calça, que o cós sempre marca a cintura da roupa. E esquenta demais, né? Em lugares frios ou no auge do inverno carioca (cerca de uma hora por ano) ainda vá lá mas, convenhamos, a glória de ser mulher no Rio de Janeiro é poder usar uma sainha no verão. Liberdade para o pernil. Desse prazer, a variz ainda não me privou .
Mérito de minha mãe, que me passou seu gene de perna de bailarina, ela que nunca se curvou aos exercícios de espécie alguma, sequer a um demi-pliê. Nasceu feita. Com uma variz na perna esquerda, que perfeito ninguém é nesse mundo (aliás, isso me lembra um conto que publiquei pela primeira vez no Epinion).
veia.jpgTalvez eu tenha algum mérito também, que suei o collant em anos de aulinhas exaustivas de ballet, na infância. Até hoje, como boa cabrita, ainda gosto de desafiar a gravidade e exijo um bocado do esqueleto: só me desloco aos pulos, prefiro escadas a elevadores e ando a pé pra cima e pra baixo pelas ladeiras do Horto. Não tenho mais minhas sapatilhas nem meu “tutu” mas a panturrilha continua firme e forte. Assim como a variz.
De tudo o que muda na vida, algo sempre permanece. Um patrimônio intrínseco, inalienável, somatório de conquistas pessoais e relíquias de família. Um tanto de boa forma, de saúde adquirida a duras penas mas, no fundo, dom ancestral. Também alguma inescapável mazela hereditária.
Por fim, o que resta mesmo é a força que faz subir. E uma veia azul exposta, variz solitária na batata da perna esquerda.
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Milagre Pascal

black-cat.jpgVocês lembram do gato que subiu no telhado?
Pois é. Mais de 4 meses após o triste incidente, o bichano foi encontrado, vivíssimo, numa rua das imediações. Para felicidade do meu amigo querido, que jamais perdeu as esperanças. E para meu eterno alívio.
Obs 1 : O nome do gato é Osíris, Deus egípcio associado à morte e ao renascimento. Mais apropriado, impossível.
Obs 2 : O meu amigo não é um gato?

DONA PET?IA

petunia.jpgTenho em boa conta meu hemisfério cerebral esquerdo; construo direitinho uns silogismos quando quero argumentar; sempre me dei bem em testes de QI mas nunca assisti palestra ou conferência de filósofos: acho-as chatas, de antemão.
Penso na platéia silenciosa e reverente e me imagino espirrando, penso que o ar refrigerado pode pifar, penso – principalmente – em passar duas horas sem fumar e acho que é mais negócio comprar o livro do filósofo (o filósofo sempre documenta o que pensa, para a posteridade; só Sócrates sabia que nada sabia). Ou lê-lo, aos sábados, no jornal. Grandes jornais não nos dão só notícias, diversão e arte – também nos dão filosofia, quase sempre aos sábados.
Mas não chego a reler os livros que andei comprando nos últimos tempos e não recorto – há muitos anos – qualquer artigo que um filósofo de pulso tenha escrito. Ando descrente da Filosofia e dos filósofos, aliás, comecei a achá-los um pouco pálidos e muito repetitivos.
Não sou, pois, uma buscadora convicta da sabedoria. Volto para os gregos – aqueles livrinhos ensebados das estantes – e estou me distanciando das especulações filosóficas do meu tempo, alheia aos cursos, palestras e conferências que poderiam me atualizar; e os convites bem que chegam, tem sempre uma alma amiga que tenta botar pilha: – A Mente Magna vai falar hoje no Espaço Total sobre O Poder Transformador do Olhar Lúcido. Vamos? – Não vou. Penso nas duas horas sem fumar e fico em casa. Penso também nas caras pálidas.
Mas confesso que me amarro num vidente.
Quando ouvi falar de Dona Petúnia – “ela fala pouco, só 15 minutos, mas diz tudo!” – já fui anotando o endereço, pensando em compactar a agenda para tirar uma tarde livre e nem aventei a hipótese de possível palidez.
Assim, na última tarde útil da semana, driblei horários e compromissos e segui para Nilópolis com amiga tão pouco filosófica quanto eu.
A amiga tem mente lógica e estudiosa, é respeitada cirurgiã e corta e costura com a maior competência qualquer problema grave que lhe apareça. Mas também anda meio cansada da inteligência e não busca mais a sabedoria, corre atrás do fenômeno – ou da Dona Petúnia – que talvez possa explicar melhor os mistérios que paralisam a Ciência e que a gente, bolas, quer entender antes de morrer.
Nilópolis é longe para quem mora onde moramos, é reduto da Beija-Flor e não somos chegadas nem em Filosofia nem em Escolas de Samba. Arranjamos um mapa (que nenhuma das duas sabia decifar muito bem) e lá fomos nós. – De carro, em 40 minutos vocês chegam – asseverou a minha faxineira. Levamos mais de 2 horas. As indicações fornecidas pelos pedestres abordados, como costuma acontecer, só nos faziam andar em círculos: “Nilópolis é fácil. Vai reto até encontrar o Bar do Mateus. Aí, vira às direita (gestos enfáticos com a esquerda). Primeiro vai subir, depois descer, não desce até o fim, vira como quem vai pra Anchieta mas não entra em Anchieta, segue em frente que vocês vão dar direto em São João de Meriti”. Sim; e Nilópolis?
As idiotas levaram três vezes o tempo que levariam se tivessem um pouco mais de orientação espacial, um dos requisitos para aferir a inteligência. E, na volta, não lograram diminuir o tempo do percurso: quem disse que um caminho iniciático é mais fácil quando o percorremos pela segunda vez?
A duras penas, chegamos à Dona Petúnia. Que é coradinha, como as pessoas normais devem ser, e nunca ouviu falar em Filosofia.
Mas, gente, Dona Petúnia diz TUDO!!!

Cadernos

caderno.jpgNão gosto de escrever diários, não tenho paciência.
Quando criança, quis ter os dias um após o outro, de modo que os pudesse folhear, me recobrando, mas sempre me perdia. Vivia culpada pelos dias saltados e entediada de datas e cabeçalhos e “queridos diários”.
Nunca sabia o que confessar: se era segredo, me sentia exposta, nua, e suava frio de pensar que alguém pudesse violar meus esconderijos, profanar altares íntimos. Se era fato notório, assunto corriqueiro e de domínio público, não seria digno de nota.
Abandonei então os relatos, as datas ordenadas, e fui abstraindo de mim.
Com o tempo as linhas se quebraram, versos. Os sons, fonemas, cada vez menos. Me envergonhava tão estranha escrita. Em meus livros de areia, a cada vez que os abria eu era uma, nunca a mesma.
Passei a suar ainda mais pelos cadernos. Sorte que, agora, poucos me entendiam.

Madalena Renascida

Noli Me Tangere, 1835, Alexander Ivanov.

 

A cada santo dia

Eu renasço da dor

Da paixão e da morte

.

Aleluia Senhor

Eu sobrevivo ao calvário

Da Tua ausência
.

A PCOA DA RESSUREI?O

Terri Schiavo.jpg
Como a Semana da Paixão sempre provoca reflexões sobre a vida e a morte, temos falado bastante – à volta da nossa távola retangular – do que seria um possível direito à morte e quem poderia reivindicá-lo para terceiros.
O direito de escolher para si mesmo uma morte decente, sem sofrer o aviltamento da dor constante ou tornar-se um fardo penoso para os que estão próximos, me parece um direito quase inalienável de qualquer pessoa mas há veementes argumentos contrários, apoiados principalmente em convicções religiosas.
A legislação suíça e a holandesa permitem o “suicídio assistido” para doentes terminais lúcidos mas a defesa intransigente da vida é uma constante nas Constituições ocidentais (não sei como o Oriente trata estes assuntos).
O avanço acelerado da Ciência nas últimas décadas está nos obrigando, cada vez mais, a rever nossos conceitos sobre a vida e a morte. Até pouco tempo, vida e morte pertenciam ao território do fortuito ou da vontade de Deus. Mas hoje, criamos bebês de proveta, podemos clonar qualquer ser vivo e adiar a morte quase indefinidamente com aparelhos sofisticados ou congelamento. A “vontade de Deus” ficou bastante relativa diante do nosso progresso e mais cedo ou mais tarde seríamos convidados a definir os limites para as nossas possibilidades. Talvez poder fazer nem sempre signifique que devamos fazer.
O caso de Terri Schiavo, em coma há 15 anos, sem chances de recuperação e mantida viva com auxílio de aparelhos, está mobilizando tanto a opinião pública porque suscita uma questão dentro de cada um de nós – o quê eu faria, se fosse esta mãe, este marido ou este juiz?
Os religiosos esperam a orientação canônica da sua Igreja para saber como pensar. Alguns apressadinhos “acham” rapidamente qualquer coisa e saem com faixas e cartazes para defender o achamento. Outros, apenas ficam perplexos. Não se trata de decidir o que “eu” gostaria que fizessem comigo. Trata-se de definir o que é Vida. Ou, na sua ausência, a Morte. Há 100 anos, isto seria muito fácil; hoje, é complicadíssimo.
Parece que existem alguns milhares de pessoas nas condições de Terri, só nos Estados Unidos. É justo destinar recursos e leitos de hospital para quem não tem a menor possibilidade de recuperação? Por outro lado, quantos diagnosticados como irrecuperáveis não se recuperaram? Quanto tempo é razoável que se espere pelo milagre, 1 ano, 15 anos, 40 anos?
As leis são sempre cautelosas quando concedem direitos. Primeiro vem o ventre livre, depois os sexagenários e só então a abolição. Terri é uma vítima não só do destino quanto da morosidade legal. Foi permitido o desligamento do tubo milagroso, só isso. Não foi nem reivindicado o direito a uma injeção letal porque seria eutanásia. scream.jpgEntão, parece que Terri vai morrer de morte bastante primitiva: de fome e sede, o que, afinal, é cruel, quando existem recursos para impedir. E caímos no círculo vicioso.
Talvez, daqui a 20 anos, haja definições mais claras, não só legais mas também filosóficas, para a Vida, já que a vida humana deve ser protegida em todas as suas formas, é um consenso. Talvez não se permita que a Ciência fabrique zumbis – corpos mortos mantidos vivos artificialmente, à espera de um milagre futuro – se ainda não pode devolver-lhes a vida plena nem dar-lhes, porque ilegal, a morte de direito.
E a gente não passe a Páscoa com estas questões angustiantes a verrumar os miolos: mas, afinal, a Terri está viva? E o Timothy Leary?

*do poema Via Láctea, de Olavo Bilac, que eu sempre achei a minha cara. O poema, não o Olavo.
noite estrelada.jpg
Podem dizer que eu vivo no mundo da Lua. Vivo mesmo. Perdida no espaço, viajandona. Desde criança eu sou assim, olho mais pra cima que pra baixo.
Quem me ensinou a reconhecer as principais estrelas e constelações foi o legendário Prof. Assuramaya, astrólogo e professor de minha mãe, eu devia ter uns doze ou treze anos. E até hoje, sou a astrônoma oficial da família. Isso porque minha mãe, apesar de ter se tornado, seguramente, uma das melhores astrólogas do Brasil, e saber enxergar longe apenas observando aqueles símbolos engraçados impressos numa carta astrológica, na verdade é míope como uma porta, tadinha, uma espécie de Mr. Magoo de saias e, por conta desta deficiência, nunca conseguiu sequer distinguir, no céu real, uma estrela de um planeta. Quanto mais diferençar o falso do verdadeiro Cruzeiro do Sul.
Mas eu, desde que aprendi com o venerável mestre a encontrar o Escorpião, com seu comprido rabo de bengala (“Vê aquela estrela vermelha bem no meio do corpo?” mostrava ele, “É Antares, o coração do Escorpião”), me empolguei com o negócio. Durante a adolescência, fui freqüentadora assídua das sessões de observação do céu no Planetário, infelizmente cada vez mais prejudicadas pelas luzes da cidade. Comprei cartas celestes e tentava reproduzir no teto do quarto, com aqueles adesivinhos fosforescentes, as minhas constelações preferidas: o Órion, com as Três Marias ao centro; o Touro, um “V” perfeito, com as fofinhas Plêiades a reboque, todas juntinhas; a Alfa e a Beta do Centauro, alinhadas com o braço menor do Cruzeiro…
As estrelas fixas (assim chamadas em oposição aos planetas, “estrelas móveis”), por manterem sua configuração praticamente inalterada ao longo das eras, me despertam um fascínio particular. São o que os chineses chamariam de ‘o imutável dentre as mutações’. Giram, somem e reaparecem conforme as estações, mas estão sempre lá, formando aqueles desenhos que nossos ancentrais mais remotos já conheciam.
São tão maiores e mais luminosas que nós e, no entanto, parecem poeira cósmica. São modestas em sua grandeza. Mesmo o Sol, próximo a ponto de nos queimar a pele, não parece maior que um disco de frisbee. Mas brilha que só e dá vida a tudo que há na Terra. E, diante de tanta luz, ainda tem gente que “se acha”.
Se a humanidade olhasse mais para o céu, penso que o mundo seria melhor. Os poderosos seriam mais humildes, os belos, mais modestos, e os sofredores saberiam relativizar sua dor. Haveria mais poetas e menos generais.
Ou talvez ficassem todos meio paspalhões assim como eu, contemplativos compulsivos anônimos, incapazes de ganhar muito dinheiro e cobrir o firmamento com os tetos luxuosos dos palácios e das mansões. Incapazes de arranhar os céus com espelhados prédios de escritórios. Incapazes de se fechar em bunkers para se proteger dos inimigos. Incapazes, enfim.
Que seja. Minha vida é bela, mais que a de muito milionário, porque eu escolho a cada dia olhar a beleza, e ela é abundante e gratuita. Está aí pra quem quiser ver, ouvir, cheirar, saborear.
Aos devotos do vil metal, os sensatos que constróem e dominam nosso estranho mundo, meu sincero respeito: vocês merecem cada centavo do muito que têm.
Aos visionários renitentes, de pouco mando, pouco siso e utilidade controversa, minha fé solidária: nós merecemos cada menor estrela do infinito que somos.

A FOLHAS TANTAS,

a saudade bateu. Pespegou. Escrever na Internet é mais divertido do que escrever um livro, acreditem. Assim, livro pronto, foi admitida a vontade de voltar à Rede: escrever sem revisão, como quem fala, o que é pecado mortal num livro mas pecar é divertido.
Nós, os Nóvoa, somos uma família falante. Mãe – eu – e três filhos – eles – que nos falamos horas por dia há algumas décadas. Temos em casa uma mesa que os amigos dizem que é feita de um cristal diabólico, quem senta não levanta, como em filme de Buñuel. Acabamos de comer e lá ficamos, falando; vai chegando gente e não nos mudamos para os sofás, permanecemos em torno da mesa excomungada; os amigos às vezes vêm nos buscar para algum programa mas no que puxam a cadeira e sentam conosco estão perdidos, começam a falar também, perdem a hora e falamos todos até bater a fome outra vez e sair o macarrão da madrugada.
Se tiver a cervejinha, o vinho, o uísque e uns belisquetes caprichados, é bom. Mas já vimos muitas vezes o dia amanhecer com café e sanduíche de queijo. Por isso, não foi surpresa a primeira faculdade de todos os filhos ter sido Comunicação. Escolha insensata, desde a minha época. Quando muito jovem, a gente acha que pode ganhar dinheiro fazendo o que faria de graça. Às vezes, até pode. Porém, como ficou claro desde as primeiras aulas de Teoria da Imprensa que nunca seríamos donos de um jornal, tomamos todos novos rumos mas restou aquela inveja cavilosa do Roberto Marinho.
Quando Christiana – a falante filha do meio – veio me propor fazer um blog, jurando que eu só iria escrever e o mistério insondável dos movable types ficaria por conta dela, pensei em John Malcovich, naquele túnel maluco e no Roberto Marinho. Confesso que sempre quis ser dona de um jornal para escrever o que me desse na telha, uma evidente impossibilidade, quem escreve o que lhe dá na telha jamais será dono de jornal.
Mas o mundo virtual é o avesso do real e aderi ao “Nóvoa em Folha”. Combinamos, de saída, um folhetim: uma idéia de anquinhas, que qualquer dono de jornal rejeitaria e substituiria por uma idéia de biquini. Prometemos que não será longo como novela de Aguinaldo Silva nem sucinto como hai-kai do Leminski. Também não asseguramos regularidade jornalística porque, bolas, precisamos ganhar a vida. Ficaremos naquele padrão-blog, vocês sabem como é. É que Christiana – que faz da edição à faxina – na verdade ainda não sabe nem postar uma foto.
Eu cá é que estou achando muito bom ser sócia de uma folha e dizer tudo que me vier ao bestunto.

Capítulo I – A Carta
O verão de 1918 foi muito abafado. Especialmente agora, sob o mormaço do meio-dia que tingia a paisagem lá fora num tom ofuscante de cinza chumbo. missloveletter.jpg Metal ardente. Como ardia também em brasa o coração da jovem Frederica Eugênia, que em vão se abanava, perto da janela, deixando no ar o aroma suave de seu leque de sândalo. Derretia sob o vestido preto e fingia consternação diante do corpo inerte de Eulógio Sepúlveda, Barão da Grota Funda, seu nem tão amado avô. Ainda que pouquíssimo estimado pelos que o conheceram, Eulógio havia amealhado fortuna suficiente para comprar uma legião de falsos amigos. Estavam todos lá, inconsoláveis, carpindo. Frederica Eugênia, à falta de lágrimas, usava o lenço de cambraia para enxugar a testa, misturando ao sândalo um leve olor de alfazema. Seus olhos buscavam, dentre a multidão de hipócritas, o único semblante capaz de refrescar-lhe a alma. Ao encontrá-lo enfim, quase não conseguiu conter um sorriso desabrido demais para a ocasião. Abaixou a cabeça e esperou que ele se aproximasse. O coração aos pulos só de pensar que iria abraçá-lo, mesmo sabendo que seria apenas um abraço de pêsames.

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A estreia

il_matto.jpg Ouvi dizer que a quantidade de adrenalina liberada pelo organismo de um ator, no instante que antecede sua entrada em cena, seria suficiente para matar um ser humano “normal”. Isso deve significar que atores, se estão vivos até hoje, não são pessoas normais. Não sei se esta informação é correta mas concordo inteiramente. Fiz anos de Teatro e nunca conheci um só ator normal. É bem verdade que nunca encontrei alguém que fosse totalmente normal, mesmo entre os não-atores. Aliás, se encontrasse esta normalidade encarnada, penso que seria uma personalidade altamente patológica. Mas não quero enveredar aqui por discussões sobre normal e patológico. Vamos apelar para o senso-comum e admitir que existem pessoas mais escandalosamente anormais que outras. E o ator é, definitivamente, um anormal escandaloso.
Só quem já esteve numa coxia, à beira do abismo do palco, sabe a dor de barriga que dá quando soa o terceiro sinal. A sensação de morte iminente, a vontade de fugir, o arrependimento por ter se colocado em tal perigo, a paralisia e o “branco” total radiante, esqueci tudo, não vou conseguir, não dá tempo de ir ao banheiro, ai, caralho, e agora? Mas alguma loucura (ou um colega do elenco) empurra o infeliz para o palco e ele só tem tempo de pensar: seja o que Deus quiser!… E Deus costuma ajudar. Raramente um ator morre em cena. A Denise Stoklos quebrou a perna outro dia, Sarah Bernhardt também, mas já faz tempo. Ossos (quebrados) do ofício. Ao fim do espetáculo, porém, a recompensa: o ópio das palmas. E o ator sai do Teatro num estado de consciência totalmente alterado, entorpecido dos humores báquicos. Pupilas dilatadas, ego inflado, libido em alta e senso crítico lisergicamente nulo. De modo que as prazerosas sensações ocorrem mesmo que sua performance tenha sido lamentável. Por isso tanta gente faz mau Teatro pelos palcos da vida. Pobres dependentes químicos.
Por sorte eu consegui me livrar desse vício da adrenalina braba do Teatro. Hoje só uso drogas leves. Estréia escrita é bem mais light, dá pra avaliar a obra antes de se expor e tentar corrigir. Não é atividade 100% segura, pode-se quebrar a cara também, mas a perna geralmente é poupada, exceto pelo risco de varizes por ficar sentado tanto tempo.
No entanto, o melhor da escrita é não estar lá na hora da vaia. Mesmo um comentário ácido ou uma resenha arrasadora ferem menos, se escritos, que um impropério berrado ao vivo, um tomate lançado em fúria ou, tragédia das tragédias, o ronco de um espectador.
Por essas e outras estou aqui hoje, buscando na escritura a cachaça que embriague meu espírito, a marijuana que me incense a dor, o tédio, a revolta. Sentindo aquela ondinha boa, aquele certo nervoso, aquele medo básico do ridículo na hora de apertar o SAVE.
Primeiro sinal: !¡!¡!¡!¡. Com as bênçãos de Dioniso, vai começar a bacanal. Evoé. Merda. Quebre a perna.
Segundo:!¡!¡!¡!¡. Tá quase. Respira fundo e solta em oito. Seja o que Deus quiser.
Salvem espíritos das letras e das cenas, salvem amigos e desconhecidos, salve a musa, salve mãezinha, salve rainha, salve a amazônia, salve a mangueira, estação primeira, pátria amada, salve, salve. !¡!¡!¡… SAVE.

Minha casa, sua casa

gogh.white-house.jpgUm sítio aprazível para toda a família, versão virtual do Solar dos Nóvoa.
A mesa está posta, pode puxar uma cadeira e degustar nossos acepipes.
Sirva-se à vontade, que idéia aqui dá em árvore genealógica.
Não cobramos 10% mas seu pitaco será bem-vindo.
Agradecemos a preferência. Volte sempre.

Maria Helena N?

MH*.jpgEscrevo com seriedade sobre o que me provoca risos e às vezes sou sarcástica com o que me faz chorar.
Tento a transparência no cotidiano e só admito o ocultamento nos textos, jamais na vida.
Porque aprendi, a duras penas, que escrever não é viver. Durante anos, pensei que fossem uma e a mesma coisa.


Castelos

Sand castle.jpg Naquele verão, tinha uma menininha que gostava de fazer castelos de areia. Todo dia, quando a maré vazava, lá ia ela com seu baldinho. Passava a manhã inteira esculpindo, alisando, caprichando em cada detalhe, até achar que estava tudo perfeito. Aí ela sentava e ficava esperando a maré encher . Morria de rir ao ver as ondas destruírem, uma após outra, as formas que ela tinha criado com tanto esforço.
Um menininho, que detestava perder seus brinquedos, começou a reparar nela. Observou aquilo uma semana inteira, encafifado. Um dia ele tomou coragem e sentou ao lado da menininha. Quando uma onda derrubou a primeira torre, ele não se conteve:
– Por que você não faz seu castelo mais pra lá, longe do mar?
– Pra que? Eu gosto é de ver ele desmanchar.
– Que maluquice, não entendo. Depois de tanto trabalho, você fica sem nada.
– Engano seu! Eu tenho mais castelos do que a princesa mais rica do mundo.
– Ah é, e onde eles estão?
– Aqui na praia, ué.
– Eu não estou vendo nenhum. O único que tinha, o mar acaba de levar.
– É, olhando assim é realmente uma pena mas… sabe que eu não ligo? É só querer e pronto, eu vejo uma porção deles. Olha só, nessa areia aí tem todos os que eu já fiz até hoje. Você mesmo está sentado em cima de um dos meus preferidos. Se eu começar a pensar, lembro de cada detalhe, cada janelinha, cada ponte… Também tem muitos outros que estou planejando fazer, cada um mais lindo, precisa ver. E ainda tem mais uns que nem vai dar tempo mas que eu faria, se quisesse. Acho que se eles estivessem todos aqui, de pé, um do lado do outro, não caberiam nessa praia… e o pior é que ia faltar espaço na areia pra quem viesse brincar depois.
– Mas se você tivesse unzinho só, de verdade, seria melhor do que todos esses juntos. Você poderia entrar e morar dentro dele pro resto da vida.
A menininha pensou um pouco.
– Pode ser …mas eu gosto mesmo é de ficar aqui do lado de fora, na praia, fazendo um castelo diferente todo dia.
Uma onda mais forte chegou de surpresa e derrubou o brinquedo que o menininho tinha na mão. Ele procurou, procurou, procurou e não encontrou mais. Então ele ficou muito triste mas nem chorou, porque era um menino. Pediu à mãe pra ir embora e passou o resto do dia chateado, no seu quarto lotado de brinquedos, porque tinha perdido um carrinho novo, muito caro e importante.
A menininha fez mais 20 castelos até o fim do verão, depois foi brincar de outra coisa.

Há muitos anos atrás, um livreiro meio doido me deu de presente um livrinho curioso, cheio de teorias conspiratórias esotéricas, chamado “Os livros malditos”, de Jacques Bergier (ed. Hemus). Nem sei se ainda é possível encontrá-lo à venda mas o tenho aqui em mãos.
Traz várias histórias bizarras e supostamente verdadeiras sobre a destruição sistemática desde tempos imemoriais – empreendida por uns tais “homens de negro” (ui, que macaaaabroooooo) – de livros e obras reveladoras de altíssimos e profundos segredos. O incêndio da biblioteca de Alexandria nada mais teria sido que um dos ousados atos terroristas da tal “ordem negra”…
Sei não, acredito em tudo só até a página 5, mas ele cita vários casos e fundamenta, ou finge fundamentar. Tive preguiça de verificar as fontes mas pelo menos uma passagem do livro tornou-se um de meus exercícios de imaginação favoritos. Penso em escrever um conto sobre isso um dia mas sempre adio o projeto. Então, enquanto seu lobo não vem, publico aqui o trecho para que vocês também se divirtam e me dêem sugestões. Prometo dar os créditos quando escrever minha pequena-grande-obra. Aí vai:
“No momento em que escrevemos, um iate luxuoso percorre os oceanos do globo. Traz bandeira que não é de nenhum país conhecido ou desconhecido. Tem a bordo um certo número de guardas armados, pois muitas vezes tentou-se forçar o cofre-forte do capitão; esse cofre contém um livro muito perigoso cuja leitura torna louco o que lê e se chama Excalibur.”
…
Então, o que estaria escrito neste livro de TÃO perigoso?
O nome de Deus? Os resultados da loteria da Califórnia até 2020? A prova do amor de Cristo por Maria Madalena? A fórmula da pedra filosofal? Ou será apenas uma perguntinha auto-reflexiva, tipo “quem és tu”?
Penso que bem pode ser como o livro de areia de que fala Borges, que a cada vez que se abre é um livro diferente portanto nunca se volta à mesma página…. penso num livro que conte a história de quem o lê e descreva em detalhes sua morte… penso numa simples página em branco….
Diga aí: e pra você, o que pode haver num livro que leve à loucura? Que idéia faria em pedaços cada uma de suas certezas?
Hein? Pense… (imagine um pêndulo diante de seus olhos: tic-tac-tic-tac…)
Mas peraí: os tais guardas armados são analfabetos, não têm curiosidade alguma (nesse caso, aposto que não são mulheres) ou será que estão todos loucos? E o capitão, que a essa altura deve estar completamente ensandecido, será que ainda lembra o segredo do cofre?….
Hum…pense mais…eu, de minha parte, estou ficando um pouco zonza…
(momento dossiê: se eu morrer esta semana, os culpados são os Homens de Ne..

ManuscriptLeaf_thumb.jpg Coisas que não me interessam numa pessoa:
O tamanho de seu poder;
A marca de seus sapatos;
Seu nome de família;
Se anda a pé ou de “chauffeur” (grafia corrigida pela Cynthia, minha revisora poliglota de plantão);
Qual seu Big Brother favorito;
O relatório de suas ações;
Os retratos de sua vaidade.
Coisas que me interessam numa pessoa:
Seu bom humor;
A qualidade de seus afetos;
O relato dos seus sonhos;
O poder de atravessar vidraças;
O desenho de suas cicatrizes;
A memória de suas batalhas;
As imagens de sua história.
…………………………..
..
.
taoist-painting.jpg De uma maneira geral, pessoas me interessam mas não todas e penso que nenhuma o tempo todo, o que é um problema. Já dizia Sartre : “O inferno são os outros.”
Brilhante mas discordo. Nem eu mesma sou tão interessante e divertida que valha a pena full-time e, dentre os chatos que me cercam, sou a mais difícil de despachar. Estou treinando técnicas avançadas de meditação pra largar de meu próprio pé e me mandar passear de vez em quando. Pra ver se me curo dessa doença de ser eu mesma.
Esse negócio de fazer listas, por exemplo, só pode ser loucura. Ou preguiça de ser extensa, ainda não decidi, mas boa coisa não é, que preguiça é pecado tão capital quanto a inveja, a avareza e outras coisas feias (ou charmosas, como a luxúria que, no imaginário coletivo, tem a cara – e principalmente o corpo – da Luma de Oliveira).
Tem outros sintomas da minha esquisitice: palavras que eu repito demais como sonho, memória, vidraça – coisas muito pouco confiáveis para alguém se apoiar. Outras que evito sistematicamente como contabilidade, dívidas, cobranças. Onde é mesmo que eu planejo investimentos, recolho dividendos, consolido lucros?
Estava precisando de um eletrochoque pra entrar nos eixos e começar a me preocupar mais seriamente com o que, afinal, parece ser a única preocupação séria: quanto é que eu levo nesse bolo? Ou então um mestre zen à moda antiga pra rachar logo meu coco com uma cajadada. Diz que o método era tiro e queda: quando o discípulo não morria, ficava calminho, um verdadeiro santo.

sempre viva.jpg
Eu sei que estou viva quando:
me apaixono como adolescente; dou risada; sinto o vento arrepiar o rosto; sinto medo; sinto fome; canso o corpo; sinto prazer; sinto saudades; percebo que ainda posso chorar lendo um poema ou simplesmente achando uma coisa linda.
Eu morro um pouco quando:
perco a fé; perco tempo com quem não merece; perco a paciência com quem amo; perco o celular com o telefone de todos os amigos; perco um pôr-do-sol no Arpoador ou no Kilimanjaro; perco uma boa oportunidade de ficar quieta ou de agir, quando chega a hora.
Eu não morro nunca quando:
sobrevivo a tanta morte.
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Ei de herrar aimda

monkey.03.jpg Não tenho vergonha de dizer: sou do tipo que erra um bocado, especialmente em público. Macaco é meu signo no horóscopo chinês e, de fato, micos e outros símios me são bem familiares. Aliás pareço ter, desde sempre, uma certa compulsão pelo erro ostensivo, de modo que aproveitei ao máximo cada chance que a vida me ofereceu de expor minhas imperfeições à visitação das gentes. Em criança, fui anjinho de presépio vivo, mãe da noiva em casamento caipira, oradora do dia da Independência, cisne-do-lago em balé-de-fim-de-ano … não que tivesse grandes talentos ou que apreciasse tanto assim os nem sempre efusivos aplausos familiares mas gostava da sensação de sobreviver a mim mesma. Mais tarde fui fazer canto coral, Teatro de Rua e, pior, Teatro Infantil de Shopping, onde vivi a experiência única e inenarrável de panfletar pelos corredores, em pleno verão carioca, vestida de coelho de pelúcia. Hoje em dia, disponibilizo graciosa e voluntariamente minhas asneiras a quem interessar possa, via internet. Um exemplo de dedicação à causa primata.
Mas também sou um espírito oportunista e não deixo passar as ocasiões espontâneas para testar meu fair-play. Já caí sentada com as pernas pra cima ao fim de um almoço de negócios, derrubei cerveja num professor estrangeiro seriíssimo, e olha que eu nem bebo! Meu currículo de vexames, tombos e tropeços faria corar o Inspetor Closeau. E as bobagens de amor, quantas já cometi, e tamanhas? Ah, como sou tolinha!…
Mas não é que estou aqui inteira pra contar a história? Vergonha não mata, garanto por ampla experiência própria, o rubor até irriga a pele e rejuvenesce, faz a gente se sentir criança. Com aquele risinho de traquinagem, a sem-vergonhice íntima de quem está sempre tentando alguma coisa nova. O vizinho que me perdoe e cuide de sua vidraça, porque eu tô aqui é pra brincar e bola fora faz parte.
Deixa estar que eu ainda aprendo. No dia em que eu parar de errar será realmente confortável, um alívio, e quase anseio por este momento: hora de pendurar as chuteiras… e bater as botas.

idea lighbulb.JPG Quando eu tenho uma idéia ruim, das que me acometem aos montes, não tenho a menor dúvida de que fui eu a autora da infâmia. Já quando é uma idéia realmente boa, devo admitir, por muito que eu quisesse me arrogar valor, que não passei de um meio: a Idéia é que me teve, à revelia. Costuma vir pronta e não me larga até que a ponha no mundo, não sem algum indelével prejuízo à sua pureza original. Esses momentos de inspiração límpida são bem raros e, infelizmente, imprevisíveis. Muitas vezes os perco porque esqueço antes de registrar, ou por não saber o que fazer com a idéia ou, simplesmente, por não reconhecê-la como boa. Também já perdi muito tempo com idéias que pareciam boas mas não eram. Às vezes até eram péssimas.
Mas uma idéia realmente boa costuma ter algumas características, que já estou aprendendo a distinguir:
1. É simples, sem ser simplória;
2. É óbvia, sem ser ululante;
3. É profunda e abrangente;
4. É bela;
5. É útil;
6. Quase sempre é engraçada;
7. Também pode ser triste;
8. Não obedece regras;
9. Pode ser totalmente diversa da presente descrição;
10. Pode ser que eu desconheça totalmente o que vem a ser uma idéia realmente boa.
…………………………………………………
Porque é que eu tenho mania de elaborar listas de 10 ítens?
Não faço a menor idéia.
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cheval-ferrari.jpg Tem gente que escolhe o amor como quem escolhe um carro. Avalia ano, marca e modelo, o estado da lataria, a performance e, principalmente, o valor de mercado. Não se importa de gastar uma nota preta com isso, investe em seguro total e não economiza na manutenção. Volta e meia troca de amor por um mais novo, mais bonito, mais possante ou, melhor ainda, acumula. Detesta perder o que é seu e pensa que sempre cabe mais um na garagem: ter é poder. O mundo é dos ambiciosos e o fundamental é estar bem na fita, desfilar seu sucesso, mostrar a todos que é um vencedor. Mais cedo ou mais tarde, infelizmente, nosso campeão vai cair do cavalo. Vai ficar obsoleto ou, antes disso, vai sofrer um acidente de percurso e sua sucata vai terminar no ferro-velho, como todas as outras.
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armchair.gif
Tem gente que escolhe o amor como quem escolhe um móvel. Avalia funcionalidade, durabilidade, beleza também, é claro. Mas o que importa mesmo é o conforto, aquela sensação familiar, de pertencimento. Com o tempo esse amor vai se desgastando, desbota, ganha marcas de uso, manchas, arranhões. No entanto pode se recuperar lindamente se ganhar uma demão de verniz de quando em quando, um novo estofamento, um reforcinho básico na estrutura. Agora, um móvel também pode às vezes perder sua função, mesmo após muitos anos de utilíssimos serviços. É uma pena mas acontece nas melhores famílias. Nesse caso, antes de abandoná-lo às traças, mais vale mandar para um brechó e livrar o espaço. Sempre haverá algum canto vazio no mundo onde ele caiba à perfeição e tenha melhor serventia.
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Swirling Dream.jpg Tem gente que escolhe o amor como quem escolhe um sonho. Sabe que não escolhe, que avaliações são inúteis aqui. Reluta e se angustia pelo imponderável da situação ou simplesmente entrega e se deixa levar. Aproveita o que tem de bom, sofre o que tem que sofrer, vive a estranheza e o maravilhamento. Não tenta controlar, nem adianta. Percebe a liberdade absoluta que há no meio desse caos. Aceita o fato de que não há garantia de espécie alguma. Pra não se apavorar, é sempre bom lembrar que está sonhando. E, pra não se apegar, é bom saber que um dia acaba, por muito que dure. Antes de acordar sozinho, não custa nada agradecer essa estadia, ainda que breve, num lugar onde se voa.
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Xsantaballoon.jpgCartinha ao Papai Noel:
Querido velhinho,
Como eu tenho insistido em ser boazinha neste mundo mau o ano todo, e sobretudo porque eu continuo acreditando em seu “espírito natalino” – mesmo com essa imagem usada e abusada por marcas de refrigerante, pneus e calcinhas e reproduzida ad nauseam nas fachadas de todos os centros comerciais do mundo, de shoppings luxuosos de grandes cidades a camelódromos infectos, nos cantos mais êrmos e obscuros do planeta – penso que devo ter algum crédito como criança. Pelo menos ando merecendo, e com louvor, os títulos de ingênua de carteirinha, bobinha de plantão, palhaça honoris causa e outros apelidos carinhosos com que meu superego vem me brindando ultimamente. Nesse caso, creio que posso pedir ao senhor ao menos um presentinho. Um só, meu sonho de consumo desde a mais tenra infância, o tipo da coisa simplesinha mas que me faria feliz para todo o sempre:
O Impossível.
“Só o impossível acontece, o possível apenas se repete.”
(Chacal)
Um jingle beijo,
Christiana.
P.S. – Pendurei minha meia mais comprida na lareira, mas será que meu presente vai caber lá dentro? Se não couber, pode espalhar pelo lado de fora, pelo chão da sala, pelo mundo todo, se quiser. O mais gostoso vai ser essa parte: sair por aí afora, catando surpresas aos 4 ventos.
……………………………………………………….
Resoluções de Ano Novo para 2005:
1. Voltar a fumar
2. Engordar 3 quilos
3. Ir mais ao médico
4. Sonhar menos
5. Fazer escolhas sensatas
6. Casar novamente
7. Adequar-me à rotina
8. Adotar animais (ou cuidar dos de outrem)
9. Fazer botox, silicone e escova progressiva
10. Dizer Amém
Como nunca consegui cumprir minhas resoluções de Ano Novo, pretendo chegar a 2006 tão desobediente (e saudável, benza Deus!) como tenho sido até aqui.
……………………………………………….
Pra você que me presenteou com sua leitura, desejo de todo o coração um milagre de Natal. E que o seu Ano Novo seja parco em resoluções e pleno de acontecimentos, os mais impossíveis!

black-cat.jpg
Veja você a minha situação.
Eu sou daquelas pessoas que amam a natureza mas têm pavor de insetos estranhos. Bucólica ma non troppo, sabe como é? Pousadinha na serra é tudo, trilha na mata é 10, Floresta Amazônica é meu sonho de consumo, mas com Raid sempre à mão. Promiscuidade com a natureza tem limites.
Pois é, com animais eu também sou assim. Gosto, com algumas pequenas restrições. Acho fofos, quero que eles vivam e sejam felizes e bem tratados, mas não AMO a ponto de cuidar de um. Acho eles meio fedorentinhos, não sabem falar, e tem o cocô, né? Todo bicho faz cocô. E tem que comer na hora certa, então você tem que estar em casa naquele horário ou, pelo menos uma vez por dia, tem que parar pra pensar nisso.
Você pode argumentar: mas você tem um filho, e isso dá muuuuuito mais trabalho! Verdade, mas existem diferenças, embora não muitas. Em primeiro lugar, ele é cheirosinho, ou tão fedorento quanto qualquer um de nós. Conversa comigo, sabe beijar sem lamber (embora já esteja ensaiando umas lambidas pré-adolescentes nas amiguinhas) e aprendeu bem cedo a fazer cocô sozinho e despachar pelo cano. Por essas e outras, ganhou minha preferência e, quando eu e meu marido começamos a achar que faltava um terceiro pra complicar nossa relação, ao invés de um cão ou um amante, arrumamos um filho. Deu certo, e passamos cinco anos nos distraindo com ele e sem ter tempo de lembrar que talvez não estivéssemos mais tão felizes…
Bom, essa foi minha escolha e nunca me arrependi. Mas tenho uma fraqueza: eu AMO meus amigos. Daí que, às vezes, me deixo levar pela emoção solidária para além dos limites da razão.
Foi assim que, ao ver meu amigo amado em crise de angústia, por não ter onde deixar seu gatinho durante uma temporada de 3 meses na Europa, não resisti: “ah, meu querido, não se preocupe, eu alimento seu gatinho…”
Ei, você achou que eu ia ADOTAR o gatinho? Não, eu disse ALIMENTAR. É que esse amigo é meu vizinho, então eu me propus a ir à casa dele, uma vez por dia, alimentar o gatinho e limpar o cocô – sim, o trabalho sujo também – para que o bichano pudesse ficar em seu próprio lar. A opção em que você pensou (e talvez o meu amigo, secretamente, mas teve a delicadeza de não expressar), ou seja, eu adotar o gatinho durante esse tempo, não seria viável por no mínimo 2 razões. Primeira e mais importante: eu moro com minha mãe, ela tem PAVOR de animais e se recusa a conviver com mais um (além da tartaruga de meu filho que eu impus, garantindo que ela jamais conseguiria chegar a uma velocidade de ataque suficientemente ameaçadora). Segunda: minha casa, durante o dia, vive toda aberta, e dá fundos para a Floresta da Tijuca, portanto seria difícil evitar que o gato fugisse.
Ficamos combinados assim e o amigo partiu, muitíssimo agradecido. A minha rotina ficou pouca coisa mais pesada, apesar do amigo morar num 3º andar sem elevador – pernas, pra quê te quero?. Era todo dia escada-escada-escada, comida, agüinha, cocô, bilu-bilu gatinho, até amanhã. Tranqüilo, não?
Não, não e não. O gatinho não ficou bem. É que o amigo estava em obras. Ah, isso você ainda não sabia, mas eu já, burra. Só que não pensei que fosse dar problema. Na verdade pensei bem pouco em tudo, conforme as coisas iam acontecendo.
Desde o início, o gato parecia um pouco intoxicado, o cocô estava mole e se esparramava para fora do “pipi cat”, o que aliás tornava bem mais penoso o “trabalho sujo”, sem contar que, por conta da obra, o amigo estava sem água (!!!!!!!). Então eu passei a deixar a janela mais aberta e o cocô melhorou. Ufa, resolvido, amigo mais feliz lá do outro lado, tudo certo. Até que.
Campainha.
– Oi, eu sou a vizinha aqui do prédio. Não é você que está cuidando do gatinho?
– Sou, por quê?
– Ele caiu da janela.
…….
Devo dizer logo que o gato sobreviveu. A vizinha foi fofésima, já tinha levado pra sua casa o acidentado e estava aguardando a chegada de sua irmã que, por sorte suprema, era veterinária especializada em emergências felinas. Depois de examinado e medicado, o gato parecia fora de perigo mas inspirava cuidados especiais. Devia ficar em observação, teria que tirar radiografias para apurar uma suspeita de luxação na perna e tinha que tratar escoriações na boca e uma ferida no lombo.
Diante do quadro, me vi na obrigação de recolher o enfêrmo, ainda mais que minha irmã, bem mais empolgada com gatos do que eu, comprou a idéia e se propôs a ser a enfermeira-chefe.
Minha mãe, pobrezinha, foi vencida pelo trágico das circunstâncias e passou a andar pela casa acuada, temendo que saísse das sombras um gato preto para lhe atacar a jugular. E a paz doméstica foi pras cucuias.
No dia seguinte, diante de um novo surto gatofóbico de minha progenitora, resolvi dar um basta na situação e ficou afinal decidido que a namorada do amigo ia assumir o gatinho. Sim, porque o amigo tinha uma namorada desde o início. E você deve concordar que ela seria a herdeira natural, não? Mas é que ela não AMA muito gatos, então ficou aquela coisa de ver, até o último momento, se não havia uma outra solução. Talvez por isso, ela também demorou uns diazinhos pra vir buscar. E minha mãe surtando a cada vez que tinha que sair do bunker de seu quarto.
Até que a menina veio buscar o gato.
Mas aí, cadê o gato? Sumiu. Toca a procurar em todo canto e nada. Fugiu, desapareceu no mato e não voltou até agora. Os vizinhos não viram, nem sinal. Isso tem uns 10 dias.
Tive que contar pro amigo, que ficou arrasado lá do outro lado do mundo. E eu, que só queria fazer-lhe uma gentileza, agora temo que ele me odeie para sempre.

olympia.jpg“Olympia”
Edouard Manet
1863

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Se o homem fosse obediente, estaria até hoje sentado à sombra de uma macieira, fazendo cafuné na Eva sem segundas intenções. Não tendo pecado, não teria tido filhos. Seus pimpolhos Caim e Abel, que só faziam besteira (e devem ter comido as irmãs, talvez até a mãe, do contrário a história não poderia continuar), deram seguimento à cadeia de desacertos que caracteriza a passagem da humanidade pela Terra. Ao cometer fratricídio, incesto e outras tantas atrocidades, nosso tataravô Caim teve que inventar a primeira mentira (“E eu lá sei do meu irmão? Pô, nem vi o cara hoje…”), e todo mundo sabe que exaustivo trabalho de imaginação está por trás de uma mentira. Ainda mais mentir pra Deus, o tipo do sujeito que sabe tudo … mesmo assim Caim, em sua juventude transviada, jogou o barro na parede pra ver se colava. Fazendo isso, tornou-se criativo e pode ser considerado o primeiro publicitário da história (digo: o primeiro humano porque, quando Deus disse “Não coma DESTE fruto”, é evidente que ele sabia muito bem o que estava fazendo e COM QUEM estava lidando, pois não foi ele próprio que nos dotou desta mortal curiosidade? Então o interdito poderia equivaler a colocar na tal árvore um letreiro luminoso: COMA-ME. Já esta ordem “coma-me”, assim no imperativo, poderia soar como uma imposição o que, imediatamente, geraria fastio e Adão iria lembrar que gostava mesmo de abacaxi, deixando intocado o bendito fruto por puro descaso).
Se não transgredíssemos, não incorreríamos jamais em erro. Portanto não buscaríamos soluções e não inventaríamos nada. Se fôssemos bem-mandados, aceitaríamos nossos limites e viveríamos, uma geração após a outra, felizes dentro deles. Não cometeríamos crimes, respeitaríamos regras e leis. E não estaríamos aqui, pilotando computadores e nos comunicando à velocidade da luz. Estaríamos catando piolhos de nossos filhos, muito longe deste ou de qualquer outro questionamento. Uma existência plácida, sem dúvida, mas não muito dinâmica em termos evolutivos. A transgressão é mãe da invenção.
Desde que o mundo é mundo, o proibido é mais gostoso. O beijo roubado, o segredo guardado a sete chaves, a sedução lisérgica das substâncias ilícitas, o erotismo das partes escondidas do corpo (coisa que algumas revistas masculinas parecem desconhecer. Outro dia um amigo me confessou que não agüenta mais ver mulheres em posições ginecológicas. Que esse excesso de exposição acaba com o tesão de qualquer um, não sobra nada pra imaginar. E não se pode negar que a imaginação, quase sempre, supera a realidade) Muito mais excitante que a nudez arreganhada que se oferece é aquela que mostra-esconde, a do decote, a que se adivinha sob o pano ou se espia pelo buraco da fechadura. Muito melhor que a comida que empanturra é aquela provinha roubada da iguaria que ainda não foi servida, que fica reverberando no paladar, prometendo sabores e saciedades futuras. O que não pode torna-se tabu, envolve-se em mistério e temos uma tendência inata a achar que é aí que vamos encontrar o tal prazer de que tanto precisamos, um prazer absoluto imaginário, inatingível em sua plenitude mas do qual chegamos perto em raros momentos. E, de fato, em situações-limite nosso organismo libera uma verdadeira bomba química, altíssimamente estimulante. O perigo nos faz sentir vivos, cheios de energia, capazes de coisas que, em outros momentos, nos pareceriam impossíveis.
Isso, pra mim, é uma programação genética seriamente comprometida com o princípio da transformação. O homem é um poderosíssimo agente transformador da natureza. Esse parece ser nosso papel na história evolucionária do planeta, é o que mais nos distingue enquanto espécie. Nós não somos confiáveis quanto à manutenção da ordem, sobre isso ainda temos muito o que aprender com as abelhas. A humanidade age introduzindo o caos. A partir daí, a busca de harmonia gera uma nova realidade.
O princípio da manutenção, tão característico dos insetos, é fundamental para a estrutura organizacional e para a eficiência produtiva. Se fôssemos tão trabalhadores e ordeiros como nossas amiguinhas melíferas, nosso mundo seria limpo, funcional, previsível e….bzzzzzzz
Quem quer ser uma abelha? Eu morreria de tédio. A gente é bagunceiro mas se diverte. Usa roupa colorida, faz arte, pinta, borda e sapateia. E as abelhas só dançam aquela dancinha em forma de 8 que os cientistas adoram mas, cá entre nós, sou mais o Baryshnikov. E, se elas podem voar, nós não temos asas mas também demos um jeito. Hoje em dia o homem até que voa muito bem, melhor que as galinhas, que são naturalmente aladas. Um Ícaro ou outro quebrou a cara pra nos abrir o caminho, mas é assim mesmo que temos vindo até aqui. Errando e nos virando pra consertar. Fazendo bobagem, pulando a cerca, levando tombo e levantando outra vez. Quebrando um vaso de vez em quando, estilhaçando uma vidraça, partindo um coração – o nosso, quase sempre – e depois recombinando os caquinhos num mosaico novo e surpreendente.
O problema de desafiar os limites impostos é que, quando apanhados em flagrante-delito, em geral sofremos conseqüências bem dolorosas. Como Prometeu, acorrentado e devorado permanentemente no fígado só porque ensinou aos homens o truquezinho do fogo, privilégio dos deuses, artifício através do qual nos mantinham ignorantes e tementes a Zeus. Prometeu sofreu horrores, coitado, porque era forte o suficiente pra não morrer e seu fígado se regenerava a tempo de ser devorado novamente. Eu não queria estar em sua pele, e muito menos em suas vísceras. Sentir dor é, definitivamente, o que eu mais odeio na vida, não sou titã nem nada…
Então o proibido é um jogo arriscado, que não pode ser jogado o tempo todo, não por qualquer um. Existem os mais intrépidos, de alto cacife emocional. E os apegados, que só arriscam uns poucos níqueis nas maquininhas. Cada um tem sua medida de coragem e sua zona de conforto, este é um equilíbrio pessoal e muito sutil.
Ei, cabe aqui um esclarecimento importante: Não estou fazendo apologia do crime ou da barbárie. Me parece que a compaixão e o respeito ao próximo devem ser os princípios éticos inabaláveis por trás de cada ato humano.
O que diferencia o amoral do imoral é que o primeiro busca a liberdade como um valor universal às custas da conveniência dos costumes. O segundo busca o lucro pessoal às custas da própria consciência.
Definitivamente a história da humanidade não foi escrita pelos ordeiros, não se fez nos caça-níqueis. Foi feita em apostas arrojadas, no olho-no-olho, na ousadia do blefe, no alto risco, nas transações suspeitas por debaixo das mesas. Nas viradas de mesa, nas quebras de padrões, na cara e na coragem.
Inconformados com limites, somos tão mais humanos quanto menos abelhas.
Cada vez que, temendo o colapso de nossa espécie, voltamos para a colméia pelo mesmo caminho de sempre, sem parar nem para olhar a vista, estamos fazendo nossa parte na produção do mel e prestando fiéis serviços à Rainha.
Cada vez que, distraídos por uma flor no caminho, passamos além dos limites conhecidos, estamos fatalmente quebrando um protocolo ou infringindo alguma lei e, portanto, nos arriscando a uma punição. Ao mesmo tempo, estamos contribuindo para libertar a humanidade inteira de seu medo infantil de Deus.
Ainda bem que você é desobediente e leu este texto.

Botox

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Meus 3 leitores sabem que eu não assisto mais novela. Só que, diferentemente do Xexéo, eu não assisto mesmo.
Simplesmente não dá, gente. Eu sou formada em Teatro, levei anos aperfeiçoando a máscara facial para que fosse a mais expressiva, a mais reveladora do sentimento humano. Aí eu ligo o aparelho e começo a ver uma sucessão de caras-botox que não alteram um músculo, quer a cena seja de alegria, dor, ciúme ou violência.
Todo o elenco ostenta um semblante plácido, como que recém-saído de um SPA cinco estrelas numa estação termal na Nova Zelândia. Pra disfarçar a pouca expressividade facial, agora deram pra exibir cada vez mais os corpos, de preferência em “ensaios paparazzo” sensuais com as jovens estrelas da dramaturgia (ou as velhas, repaginadas), ou em cenas de porrada entre mulheres, onde as caras duras ficam meio disfarçadas sob o mega-hair sacudido aos puxões.
Não vou perder meu precioso tempo assistindo cenas grotescas. Prefiro cuidar da vida, fazer minhas coisas.
Ir ao dermatologista, por exemplo. Tava precisando porque, depois de velha, voltei a ter espinhas como uma adolescente. O doutor até que foi ótimo, porque curou minhas espinhas em 1 mês. Achei que ele fosse se orgulhar desse resultado, mas agora, pensando bem, suponho que ele teria preferido que eu demorasse mais tempo, mais peelings e mais cremes pra ficar boa. Mas eu sou saudavelzinha, fazer o quê?
Daí que, quando eu estava naquela posição vulnerável, deitada na cadeira igual à de dentista, sob a lente de aumento e com aquela luz horrorosa revelando todas as minhas imperfeições, refletidas no espelhão gigante em frente, o doutor mandou essa:
– A gente podia tirar essas ruguinhas aqui em volta dos olhos…
(eu não me dei por achada)
– Ah, doutor, até que, pra uma balzaquiana, eu não tenho tantas rugas assim. As pessoas acham que eu tenho quase 10 anos menos. Eu não quero parecer que tenho 13 anos! Acabei de me livrar das espinhas…
(mas o momento “segura de sua beleza” dura pouco)
– Doutor, o senhor acha mesmo que eu estou enrugada?????
– Deixa eu ver. Enruga a testa…..com força!
(obedeço pensando em Lady Macbeth em seus delírios de horror)
(ele tenta, sem sucesso, franzir a própria testa ao me dar o diagnóstico)
– Ihhhhh….
(qual auto-estima resiste a isso??)
_ Um botox aí ia bem…
(mas aí ele falou a palavra errada para a pessoa errada. Eu mesma me surpreendo às vezes com as minhas reações)
– Doutor… (empurrando a lente para o lado e levantando da cadeira) se o senhor disser mais uma vez que eu pareço velha, eu saio por aquela porta e vou procurar um médico que diga que eu sou bonita. Eu vim aqui tratar espinhas, não velhice. Não me sinto nem um pouco velha. E injeção na testa, nem de graça!
O doutor esbugalhou os olhos e foi lá pra outra salinha, onde ficou uns bons minutos digitando na minha ficha, tlec-tlec-tlec. Espero que ele tenha posto um lembrete em letras vermelhas garrafais pra nunca mais tentar me detonar pra vender tratamentos. Terminamos muito amigavelmente a consulta e só na saída eu percebi que estava chamando o sujeito pelo nome errado o tempo todo. Ele não só não reclamou como, quando me desculpei, disse que eu podia chamá-lo como quisesse, que não tinha a MENOR importância, se despediu todo fofo e sorridente e ainda me deu amostrinhas grátis de uma máscara ótima de argila. Pianinho, me amando (ou fingindo que me ama, o que, na prática, é o que interessa).
As pessoas são mesmo muito estranhas.
A todas essas, preservei minha integridade motora e continuo 100% orgânica, não-transgênica e sem aditivos químicos. Sem neuro-toxinas botulínicas, próteses plásticas, cabelo alheio e outros adendos bizarros da cosmética contemporânea.
A quem se utiliza deles, meu respeito e admiração pela coragem e pela dedicação à causa narcísica.
Às que os dispensam, unamo-nos! Eu nos acho lindas do jeitinho que nós somos e com a idade que nós temos. Ainda deve ter gente que concorda comigo.

Belben

Hoje é o aniversário de 47 anos do meu irmão mais velho. Mas essa noite não tem parabéns aqui em casa, porque ele morreu há 12 anos. Tanto tempo que também não tem missa, e ninguém lembra mais de dar os pêsames, o que, aliás, não faz a menor falta. Quem faz falta é ele, o meu irmão. Que morreu com a idade que eu tenho hoje, até menos, um pouco. Portanto eu envelheço aos pouquinhos ao passo que ele não, ele fica jovem pra sempre.

Mas vai desaparecendo. Das nossas vidas, das conversas. Seus amigos, ficando coroas, muitos já avós, talvez nem lembrem que hoje é seu aniversário. E olha que, em seus tempos vivos, ele era muito popular. Bonito (ele era realmente lindo, mas é que pega mal eu falar), extremamente inteligente e, sobretudo, a pessoa mais engraçada que já encarnou até hoje. Sério, ele era muito hilário, de passar mal. Tinha histórias incríveis, ou as tornava incríveis com seu modo especialíssimo de contar, o que torna frustrante qualquer tentativa de reproduzí-las. Formavam-se rodas à sua volta, onde quer que estivesse. Animava qualquer ambiente, qualidade que lhe garantiu trânsito livre nas festas mais espetaculares do Rio de Janeiro, e também de Paris ou da Riviera Italiana. Melhor que ir a essas festas, só ouvir seus relatos.

Mas os mortos não são populares em nenhum lugar do mundo, simplesmente porque lembram… a morte. Ele não é mais convidado para festas, nem mesmo em espírito, e já deve ter um belo contador de piadas circulando no jet-set internacional, em seu lugar. Assim é a vida; assim é a morte.

Perdão se toco, uma vez mais, neste desagradável assunto. É que está chovendo, portanto eu não pude realizar o pequeno ritual que meu irmão me ensinou num sonho. Ele tomou uma pílula que lhe deu algum tempinho de vida e assim pôde vir numa festa aqui em casa. Eu fiquei muito feliz em vê-lo, claro, e nos abraçamos (foi tudo MUITO real) mas eu estava aflita porque sabia que aquele efeito da tal pílula era passageiro e ele iria embora novamente, então perguntei como poderíamos nos comunicar.

Ele disse que tinha 3 maneiras de falar com ele mas, sabe como são os sonhos, só deu tempo de me contar uma delas: eu poderia colocar bilhetinhos em balões de gás.

Desde então, nos dias de seus aniversários de nascimento ou de morte, sempre que posso eu solto 3 balões, onde amarro bilhetinhos falando de nossas saudades e contando as boas novas, como o nascimento de meu filho, que ele não chegou a conhecer mas que conhece muito bem o Tio Belben, porque eu contei pra ele desde pequenininho sobre esse tio lá do céu. E ele sempre adorou soltar os balões e ficar vendo eles sumirem lá no infinito.

Mesmo com chuva e sem balões coloridos, vou escrevendo a meu modo este bilhetinho aqui, pra que ele saiba que eu não esqueci e que, enquanto eu estiver no mundo, ele não vai desaparecer totalmente.

Quem sabe esta não é uma das duas outras maneiras que não deu tempo dele falar?

Qual será a terceira? Ai, eu sou tão curiosa, essa questão me intriga há anos.… O Belben sempre foi muito sacana, deve estar rolando de rir da minha cara lá do outro lado!

Vai ver é isso, é só dar uma boa gargalhada, daquelas de lavar a alma.

Taí, bingo.

O Circo

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Sempre fui louca por Circo. Fui poucas vezes, na infância. Acho que minha mãe não era muito fã do programa, ou todo mundo naquela época andava meio traumatizado por causa do incêndio do circo em Niterói, aquela tragédia que acabou por “revelar” o Profeta Gentileza (informação aleatória: muito embora reze a lenda de que ele perdeu toda a família no incêndio, tal fato não ocorreu. Ele abandonou sua própria família e uma vida confortável no interior para prestar auxílio aos familiares das vítimas, seguindo uma revelação espiritual. Sei de fonte limpa, meu amigo fez um filme sobre ele). Fato é que fui poucas vezes ao Circo na infância, não mais que 2 ou 3, portanto pude fantasiar à vontade em cima de cada imagem que consegui capturar então.
Mais do que o show espalhafatoso, que sempre achei meio cafona, ou a profusão de animais torturados, que ofendiam meu espírito ecológico (eu fui uma eco-militante mirim), me fascinavam os números de risco, em que eu percebia a iminência da morte. As facas, os números com fogo, as pirâmides humanas, o trapézio. Aquilo me provocava um verdadeiro êxtase, e um desejo irresistível de estar ali, oferecendo a minha própria morte em espetáculo. Cheguei a fazer umas aulinhas de circo na adolescência, onde experimentei, ainda que brevemente, a sensação de subir num trapézio, ou de me atirar de costas de uma plataforma de 4 metros de altura e cair num colchão, ou escalar um tecido. Mas não tive fibra para persistir diante dos apelos maternos, reforçados maldosamente por previsões astrológicas catastróficas que prometiam aleijões e seqüelas as mais terríveis. Minha faceta mais covarde aliou-se à mais preguiçosa e venceu por maioria absoluta. Abandonei os saltos mortais e resolvi investir em técnicas de “clown”: acrobaciazinhas menos arriscadas, nada além de uma parada-de-mão ou uma estrela, só pra poder ver o mundo de cabeça-pra baixo e aprender a cair os mais variados tombos sem perder o rebolado. Meu palhaço, com a idade, tornou-se tímido e o Circo perdeu meu talento. Mas ainda sou dura-na-queda. Ou antes, macia (esse é o segredo!).
No entanto havia na atmosfera circense algo que me fascinava ainda mais que o picadeiro. Um breve recorte, um vislumbre roubado entre ir ao banheiro e voltar: a vida fervilhando por trás da lona, os bastidores. Os trailers, com sua vida nômade suspensa entre a irrealidade do espetáculo e a concretude das meias no varal, os cães e as crianças que circulavam por ali. Ah, que inveja eu sentia daquelas crianças, que viviam viajando e conhecendo gente diferente, aprendendo truques, uma vida de emoções sempre novas, luzes e festa. Mesmo a notória precariedade e a impressão de pobreza do “acampamento” não me incomodavam, era uma pobreza rica, colorida, feliz. Quem precisa de muito dinheiro quando vive assim em meio à arte?
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Minha avó materna compartilhava da minha paixão. Sempre disse que queria ter fugido com o Circo. Eu achava essa idéia incrível, altamente sugestiva, fugir com o Circo.
Então uma vez ela me contou a história de uma contra-parente sua contemporânea, a Maricotinha-dos-Apitos, que foi “roubada” pelos ciganos do Circo, ainda criança (esclarecimento: na maioria das vezes, as crianças eram, na verdade, abandonadas pelas famílias e recolhidas por ciganos. Era uma forma prática de resolver gravidezes indesejadas e outros deslizes do planejamento familiar). Anos depois ela reencontrou a família de sangue, que era abastada e lhe acenava com confortos e dignidades, mas preferiu continuar com sua gente adotiva. Ela amava sua vida de artista e não a trocaria por nada. Deixou para minha avó, como lembrança, um xale preto todo trabalhado em metal dourado, que usava em seu número de andar sobre a bola. Minha avó me deixou de herança o xale e essa alma cigana, que não está no sangue. Um gosto por trupe, caravana, música e dança. Por saia rodada e lenço. Por contar e ouvir histórias. Brincar de adivinhar a sorte.
Mas eu, como minha avó, não segui o Circo, fiquei só imaginando. Minha avó cantava e recitava poesia enquanto cozinhava, arrumava a casa. Foi assim que eu aprendi “Os Lusíadas”, “O Navio Negreiro”, “I-Juca Pirama”, sonetos de Camões… Vovó era uma diva doméstica, uma artista do cotidiano, preenchia com a vivacidade de seu espírito as tarefas mais bisonhas do dia-a-dia. Tinha o Circo em si.
Eu cuido da minha alegria para que minha avó não se perca da família, para que o espetáculo possa sempre recomeçar.
Os cães ladram, mas a caravana passa. A gente recolhe a tenda aqui, pra armar a festa ali adiante.
Eu andava meio tristinha com umas bobeiras aí, mas quer saber do que mais? Palhaço que é esperto aproveita a queda e levanta na cambalhota.
Hoje tem brincadeira? Tem, sim sinhô!

Cine-Preguiça

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Eu sofro de uma estranha síndrome, ainda não descrita pela ciência: a Síndrome da Preguiça Crônica De Ir Ao Cinema. Não, não é a Síndrome da Fadiga Crônica, aquela doença cinematográfica do Sean Connery. É preguiça mesmo. Não tenho fadiga alguma, sinto-me perfeitamente bem. Agora mesmo, poderia calçar meus tênis e dar uma volta na Lagoa. Correndo. (ah, deixa eu exagerar, vai)
Mas se você me convidar para ir ao cinema, eu vou dizer “hum…” , enquanto procuro uma boa desculpa. “Agora não dá, estou escrevendo”. Como se eu ganhasse alguma coisa pra isso. Se fosse trabalho, vá lá, mas deixar de ir ao cinema pra ficar escrevendo “di grátis”… nunca consigo convencer os amigos na primeira evasiva e sempre gasto bem mais saliva do que o previsto na negociação. “Tô dura” só é bom argumento com os pobres, os remediados pra cima se oferecem pra pagar. Oh, céus.
Então vou expor aqui todas as minhas razões, de maneira organizada e, da próxima vez que me convidarem, vou enviar este texto pela internet. Parece uma boa tática.
Em primeiro lugar, devo deixar claro que aprecio muitíssimo a sétima-arte, acho das coisas mais interessantes já inventadas pelo homem, depois da asa-delta e da literatura.
Minhas razões não são de ordem ideológica e muito menos artística, mas tão-somente operacionais. Pragmaticamente falando, uma simples relação custo-benefício.
Veja bem. Eu nasci, e tenho a sorte de viver até hoje, num dos lugares mais bonitos do mundo. Não contente em viver no Rio de Janeiro, eu ainda me dou ao luxo extremo de morar no Horto. Pra quem não conhece, o Horto é um mini-bairro espremido entre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, A Lagoa Rodrigo de Freitas, a Floresta da Tijuca e a Rede Globo (nada é perfeito). Um pedacinho do paraíso, resquício de um tempo que não existe mais. Meia dúzia de ruas arborizadas e tranqüilas, onde sobrevivem arcaicos pregoneiros (olha a vassoura aê…), as crianças soltam pipa e as senhoras gordas põem cadeiras na calçada pra botar a fofoca em dia. Agora mesmo estou escutando o canto de pelo menos 3 tipos diferentes de passarinho, e posso ouvir mais ao longe os gritinhos dos micos. Da janela vejo os morros verdes e, de esguelha, distingo o recorte azulado do pão-de-açucar lá no fundo. Dos fundos da casa, vejo o suvaco do Cristo Redentor. A primavera explodiu a orquídea do jardim em uma nuvem de mini-flores amarelas, e as marias-sem-vergonha estão coalhadas de brotinhos mais gostosos de estourar que plástico-bolha.
Agora, você quer mesmo que eu me enfie numa salinha escura pra ver Kill Bill 2???
(pausa para um cafezinho na cafeteria do Jardim Botânico)
Você vai me perguntar: E quando o dia acaba e a noite chega, mandando pra casa os passarinhos, os micos e os pregoneiros?
Bom, aí eu já dei uma volta na Lagoa, fiz um tour pelo Jardim Botânico, estou confortavelmente instalada, descalça e pés pra cima diante do meu computador, me distraindo com meus próprios pensamentos. Você quer mesmo que eu me vista, ponha sapatos e me desloque no mínimo 2 bairros para chegar ao cinema mais próximo? Sim, porque no Horto não tem cinema (nem farmácia, nem supermercado, nem outros estabelecimentos de primeira necessidade. Pra quem precisa dessas coisas).
Cinema é alimento para o espírito, eu sei, eu sei. Mas sempre existem dietas alternativas. Não tenho paciência pra assistir vídeo nem TV, mas tem livro à beça aqui em casa. Além disso, eu sempre posso ir ali na sala bater um papinho com a minha mãe, que é a pessoa mais interessante de se conversar em todo o planeta Terra. E também tem meus irmãos que, quando não estão sendo insuportáveis, sabem ser muito divertidos. Sem falar do meu filho, que é um espetáculo ambulante. E sempre pode acontecer uma visita surpresa dos meus amigos que, modéstia à parte, são a fina-flor do interessantismo nacional (afinal, são ninguém menos que os meus amigos).
E tem esse negócio do horário, né? Ô coisa chata, ter que chegar na hora certa numa atividade de lazer. Nunca consigo e, em toda a minha escassa filmografia, via de regra faltam as cenas iniciais. Eu sempre juro que vou assistir de novo o filme pra ver o início, mas aí falta ver tanta coisa…
Eu ouvi dizer que o Chico Buarque também tem essa minha doença e que, toda vez que perguntam qual o último filme que ele viu, ele responde “Corra, Lola, corra”. Achei ele super atualizado, porque o meu último, não tenho bem certeza porque foi há muito tempo, mas acho que foi “Titanic”. Ah, teve uns infantis a que a maternidade me obrigou, de lá pra cá, mas foram poucos porque eu geralmente empurro este programa para o progenitor da criança. Tem também os filmes de amigos, em sessões nos Cine Odeon da vida, mas esses, por não terem sido vistos por mais ninguém, não servem de assunto nas rodinhas de chopp, e não livram minha cara quando os assuntos cinéfilos vêm à baila.
Acho que vou convidar o Chico Buarque para um chopp. Tenho certeza de que teríamos assunto para uma noite inteira (pra muitas, mil e uma) sem que nunca um precisasse perguntar para o outro “viu aquele filme?”.
Luis Severiano Ribeiro que me perdoe mas, na minha ordem das coisas, cinema pode não ser a maior diversão. Fazer o que se a minha vida é mais interessante que a da Uma Thurman?
* * *
Já que uma lista dos filmes-que-eu-preciso-ver-urgentemente não caberia nesse espaço, faço aqui uma lista dos filmes que eu vi e de que ainda me lembro. Se quiserem conversar comigo sobre cinema, tenham o bom-tom de se ater a estes títulos.
Hair – mais de 15 vezes.
Embalos de Sábado à noite
Fama
Grease (eu gosto de musicais, fazer o quê?)
Dersú Uzalá
Betty Blue
Meu Tio
Retratos da Vida
Cria Cuervos
A Lagoa Azul (eu era adolescente, pô!)
Pulp Fiction (eu estava grávida – péssima escolha)
O Barato de Grace (Nesse dia eu cheguei em casa e me separei. Não sei se o filme teve alguma culpa nisso, até que eu tinha dado boas gargalhadas, deve ter sido a última vez que gargalhamos juntos. Nada como uma bonança antes da tempestade)
Titanic (pode ser que o Barato de Grace tenha sido posterior, já que nessa ocasião eu ainda estava casada. De qualquer modo, a ordem dos naufrágios não altera o produto)
Qual será o próximo filme que eu não vou ver? Alguma sugestão?

Memórias

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Deve ser um trânsito astrológico (explica aí, Maria Helena, ou será que você foi mesmo abduzida?). Por uma série de coincidências concomitantes – isto deve ser uma redundância mas minha vida está assim, redundando sobre si mesma – tenho sido levada a exumar meu passado.
Não posso reduzir o fenômeno a um mero “efeito Orkut”, muito embora deva admitir que este clubismo internáutico teve lá sua parte na arqueologia dos reencontros (tendo sido esta, aliás, a maior, senão a única utilidade que encontrei na referida ferramenta que transforma pessoas em fichas e suas relações sociais em álbuns de figurinhas. Mas não sou mal-humorada, aderi à brincadeira, ainda que timidamente, e admito: só por esta função “túnel do tempo”, a xaropada toda já se justifica). No entanto a maré retrô parece ter um alcance mais amplo, e tenho encontrado amigos antigos na rua também, primeiros namoradinhos (já carecas, socorro!), gente do arco-da-velha.
E não só isso, a vida vem em ondas, como bem disse o santo Lulu. Recebi há algumas semanas, de meu ex-marido, uma grande remessa de fotos que eu tinha deixado por lá, nas quais eu mesma, felizmente, pouco apareço, já que na maioria das vezes sou a fotógrafa, mas que reavivaram fatos, pessoas e lugares que marcaram minha trajetória.
Também há pouco, minha turma de Teatro fez reencontro de 15 anos de formados (e eu faltei, na hora H me deu preguiça, pode? Chovia muito. Mas troquei zilhões de e-mails com essa tribo anárquica e dionisíaca, dos ditirambos de minha idade pré-clássica ).
Achei meu caderninho chinês brocado, que é mais velho do que eu imaginava, já que tem dedicatórias dos colegas do ginásio, portanto remonta aos meus treze anos. E ainda fiz, junto com meu irmão, um tour imaginário por nosso colégio dessa época, lembrando cada espaço, cada canto, os móveis, os personagens que povoaram nossa infância e pré-adolescência. Passamos mal de rir a cada detalhe insignificante que era desencavado. Ele também cultiva esse interesse bizarro pelo aleatório inútil, acho que essa doença é genética.
Então eu sofro dessa memória meio absurda, quase sólida, estou em pleno surto mnemônico e não sei bem pra quê isso serve, além de dar risada.
Eu lembro do primeiro número de telefone da minha casa. Da minha professora do maternal (e eu só tinha 2 anos!). Do refeitório da pré-escola, a toalha plástica xadrez, a bica para lavar as mãos, e cada um dos meus coleguinhas, que não encontro desde então. Vejo como num filme o pátio onde eu fazia bolinhos de areia segundo uma técnica bastante elaborada, o pé de carambola e o gosto ora azêdo ora doce de seus frutos, que me ensinaram a diferença entre verde e maduro.
Lembro de um pensamento que eu tive no banheiro de casa, lá pelos meus 9 anos, olhando para os azulejos que agora ainda posso ver diante dos olhos, e pensando em quantas coisas da minha vida eu já tinha esquecido. Então pensei que não queria nunca esquecer aquele pensamento, nem quando eu ficasse bem adulta – assim como eu quase sou hoje– pra não esquecer que eu tinha sido um dia aquela menina que pensou aquilo. Pra não esquecer de mim. E me surpreende que eu não tenha mesmo esquecido. E me dá uma certa dó de que eu, tão jovem, já fosse nostálgica.
Lembro perfeitamente de pessoas que nem me conhecem mais, recordo seus rostos, seus nomes, suas histórias, seus familiares. Não é nenhum esforço, eu simplesmente acesso as informações mais inusitadas, elas me vêm por todos os lados. Pra quê?
Às vezes fico parecendo maluca, descompassada, acenando na rua pra gente que não me acena de volta e ainda olha pra trás com cara de “é comigo?”. Ou então expresso todo meu entusiasmo ao reencontrar um amigo remoto de quem ainda me considero íntima e fico falando sozinha, feito boba. Cada vexame que só vendo.
Os outros ficam sempre parecendo muito mais ocupados com coisas importantes do que eu, que gasto meu tempo com pessoas e outras distrações. Mas já me habituei a passar por doida e perdi a vergonha de andar por aí cantando, inventando moda, olhando pra ontem e colhendo impressões a esmo. Se não são atividades das mais úteis e nem me rendem altos dividendos, também não parecem imorais ou violentas. Os loucos inofensivos costumam ser deixados em paz, e tenho me fiado nisso ao expor assim minha inadequação.
Sigo teimosamente minha trama, costurando o inconsútil, tentando me atar à vida que passa. Bordando em mim mesma um sentido em tanto retalho, um futuro em tanto passado. Nem sempre é possível escapar da solidão do nosso próprio caminho, nem sempre se pode comentar a paisagem, mostrar aquela página secreta do diário de bordo. São minhas relíquias, talvez não sejam importantes pra mais ninguém.
Lembranças não-compartilhadas são tão reais como sonhos. E acabam sendo, talvez, contaminadas por eles. Não dou garantia de minhas memórias, elas podem ser distorcidas, exageradas. Mas dou fé, as tenho. Enquanto tiver espaço em meu baú – e sempre há tanto vazio aí, um universo a preencher – vai entrando gente, idéia, afeto, imagem, música, história de verdade e de mentira. Vai ficando mais preciosa e colorida a minha coleção.
Ainda que seja invisível de fora e impalpável, há de ter alguma serventia tanta matéria insólita. Nem que seja pra escrever estas bobagens por aqui. Nem que seja pra embaralhar tudo e reeditar num sonho. Nem que seja pra esquecer quando eu despertar.

Fotofobia

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A fotografia tem o condão de resumir, num flash, todos os meus defeitos, e ocultar todas as minhas qualidades. Por isso é que eu raramente exponho minha imagem à lente dos paparazzi.
Você deve estar achando que eu sou uma monstra, mas na verdade eu não sou tão feia assim. Ainda não pareço muito velha, mantenho meu corpitcho em boas condições à base de caminhadas e até alguma musculação, e a cara que me coube ostentar, se não é nenhuma obra de arte, também não envergonha a família. Tudo bem que um dos meus dentes da frente cruza a perna sobre o outro, mas não parece tão grave, tem até gente (pouca) que acha charmoso. E eu dei um jeito de bagunçar o coreto um pouco mais, quebrando meu (até então) perfeito nariz, orgulho da mamãe. Ele ficou parecido com o que era antes, só ganhou um calinho ósseo onde outrora arrebitava e saiu ligeiramente do prumo, acentuando minha inata assimetria. Mas eu juro que não assusto criancinha. Andando, falando e me movimentando, tenho conseguido sobreviver no mundo das aparências. Não podendo competir por luxo, a gente ganha por originalidade.
Agora, quando minha figura é capturada por uma câmera, acontecem várias coisas estranhas, com as quais não consigo me acostumar. Em primeiro lugar, fico muda, o que, convenhamos, já tira boa parte do meu charme. Em segundo lugar, os ângulos retos da moldura ressaltam as discrepâncias e fazem meu retrato parecer um Picasso. O dente de perna cruzada sempre brilha mais que os outros, e ainda aparecem malignos pontos vermelhos no fundo de meus olhos. Isso quando eles estão abertos, porque eu sou campeã em fechar o olho na hora do xis. Se, por descuido da caminhada, eu tiver acumulado um mínimo pneu na cintura, ele estará lá, se exibindo na calibragem máxima – está cientificamente comprovado que câmeras engordam cinco quilos, no mínimo!
Enfim , fotografias são um balde de água-fria na minha auto-estima. Não gosto e pronto. Lembrem de mim pelo que sou, quem me vê ao vivo me conhece, quem não conhece terá que imaginar. Este ano, por exemplo, só tirei umas 4 ou 5 fotos, mas 3 foram vetadas pelo controle de qualidade. Em duas eu fechei os olhos. Na outra, eu tinha acabado de enfiar um sushi – dos grandes – na boca (este gentil e oportuno fotógrafo chama-se MEU PAI!). Sobrou uma, tirada por um amigo querido, em que exibo uma postura péssima e que de modo algum me agrada mas que salvei por via das dúvidas e, na falta de outra melhor, a tenho usado, a contragosto, cada vez que preciso comprovar minha existência material.
Tais são minhas agruras fotográficas. A baixa fotogenia foi uma das razões para eu desistir – para o bem de todo o público – de minha carreira de atriz. Foi também o que livrou meus amigos de assistirem vídeos do meu casamento. As poucas fotos que eu permiti foram preto-e-brancas e ficaram bonitas, parecem antigas e tudo, mas não olho nunca, me acho meio ridícula. Mesmo fotos da infância me incomodam um pouco – gosto de ver as dos outros, não as minhas. Enfim, não gosto de ficar me olhando em 2-d, congelada no passado, rígida e sem perspectiva, chapada num papel ou numa tela. Prefiro olhar pro futuro.
Estranho, né? Hoje em dia, todo mundo adora sair na foto, aparecer na televisão. Eu, não. Ao vivo não sou propriamente tímida, mas fico envergonhada com a minha imagem solta de mim por aí, nunca sei como ela vai se comportar. Sou que nem índio, índio também não gosta de fotografia, diz que aprisiona a alma.
Sou assim meio selvagem mesmo, arredia aos enquadramentos contemporâneos. Prefiro ser vista por olhos nus, porque eles são esferas e andam aos pares, portanto sabem ver minhas luzes na profundidade de suas dimensões.

Pirate Face2.jpg
Sou pirata até que a maré mude.
Eu tinha pruridos de comprar cd pirata. Mas com o mau estado atual da minha conta bancária, resolvi proceder uma pequena distribuição de renda, uma reforma agrária no campo da minha própria pessoa. Ou seja: Diante da mendicância musical em que a dureza estava me confinando, resolvi aderir à pirataria sem culpa, salvando apenas aqueles artistas que sejam mais pobres do que eu ( acho que nesse grupo só ficaram o Daminhão Experiença e uns poucos malucos meus amigos, aos quais já encomendei meus originais autografados). Eu tenho certeza que não estou tirando leitinho da boca do bebê da Maria Rita, e também aposto que o Caetano Veloso não vai ter que vender a cobertura da Vieira Souto por causa disso. Ah, e o dono da EMI, tadinho? Será que vai ficar pendurado na prestação do avião?
O pirateiro meu amigo é um carinha bacana, ralador, tá se virando como pode. Faz um trabalho limpinho, som perfeito, põe capinha colorida, transporta, vende, foge do rapa e ainda consegue cobrar míseros R$ 5,00 por um produto muito similar ao original, que não sai por menos de 30. Pô, tem alguém ganhando muito nisso, e não é a cultura.
A indústria fonográfica que se coce pra praticar preços competitivos. Se o original custasse R$ 7,00, eu pagava, mesmo sendo um pouco mais caro, pelo prazer de remunerar o artista, e pelo luxo de um encarte com as letras. Quase ninguém faz xerox de livro hoje em dia, porque sai quase o mesmo preço e fica feio. Então é sinal de que as editoras correm mais atrás de seu prejuízo. Mas convenhamos que, na música, a diferença é gritante. E olha que a indústria compra matéria-prima no atacado, prensa em série e nem paga tão bem assim os músicos e técnicos. Tem pirata grande aí nessa rede, tubarão branco comendo nosso tutu.
Então agora eu sou a Robin Hood dos trópicos, uma desobediente civil na legítima defesa da musicalidade nacional: contra os preços abusivos, pirataria já!
A minha vida e a do meu pirateiro vão cada vez melhor, quem canta seus 7 mares espanta.

Sugar blues

chorando.jpg
Estava eu em meu contemplativo sábado sem criança em casa, quando fui subitamente transportada por um vagalhão de decibéis diretamente para dentro de uma festinha infantil na vizinhança. É bem verdade que mal se ouviam os moleques, subjugados em sua natural algazarra pelos superpoderes de um amplificador turbinado. O (des)animador comandava a tropa com punhos de aço, propagando a todo o bairro os nominhos dos insubmissos em reprimendas, enquanto premiava os obedientes com balinhas. Como golfinhos de aquário quando batem palmas na hora certa. E tome música aos berros pra que não possam escutar nem seus pequenos pensamentos. Com tanto refrigerante nas veias, as crianças ficam mesmo excitadas e executam com impressionante agilidade as estranhas coreografias ao som de “vai, lacraia”(!), sem falar nas sado-olimpíadas a que são submetidas para ganhar mais doses de pirulitos e porcarias plásticas. (Sempre penso que daqui a milhões de anos, quando algum cyber-arqueólogo desencavar nossa estranha civilização, nossa sociedade será analisada através destes indegradáveis brinquedinhos que infestam os quartos infantis de todo o mundo. Como todo achado arqueológico inexplicável é sempre classificado como “um objeto ritualístico”, que espécie de impressão havemos de causar, com nosso panteão pokemônico?) Mas voltando às criancinhas glicosadas. Ainda que involutariamente, acompanho enquanto cumprem seu deprimente roteiro e, em momento estratégico – pouco antes do fim – são levadas à overdose glicêmica com o bolo e os docinhos. Nocaute. É o ciclo de todas as drogas: prazer crescente, pico do efeito mas, se exagerar, vem o tombo. Aí é o inferno, e temos a famosa depressão-pós (com trocadilho). Quem já foi, sabe como terminam as festas infantis. As crianças ficam chatas, sentem sono, se engalfinham, um que ainda não caiu duro corre demais e se machuca, bolas estouram assustando os menorzinhos, que choram muito. Hora de acabar. Os drogadictos-mirins são carregados nos ombros por pais tolerantes. Coniventes, porque também encheram a cara de brigadeiro.
Graças a Deus já acabou a festinha, mas ainda estou meio surda. Vou lá na cozinha comer um tasco de pudim, que de amarga é que eu não morro.

João

João-bobo
João-ninguém
João-teimoso
João-sem-braço

Não é Augusto
Não é Ricardo
João-sem-nome
O pai, um traço

Um osso em cada tijolo
Mão-de-obra barata
Antes de tudo um forte

É pedra-pra-toda-obra
Viga-mestra, coluna
Um pilar, um poste

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(verso da música “Adorela” – DJ Dolores)
Por que as mulheres dos anúncios de margarina parecem tão mais felizes do que eu? Elas acordam sempre com sol, de bom hálito e maquiadas, nunca tiveram crise no casamento nem oscilações hormonais. Deve ser por causa do bom colesterol.
Sou chegada a um pão com manteiga, admito. Já tomei um ou outro porre mesmo sem gostar de beber e já devo ter feito coisa pior mas não vou ficar me penitenciando em público. O que eu fiz ou deixei de fazer por mim mesma, assumo e assino embaixo, sem culpa. Foram meus arroubos e também meus cuidados; minhas covardias e minha coragem.
Mas desde que tive filho, venho colecionando alguns momentos de que me arrependo, e não posso modificá-los.
Todo mundo lembra do dia em que aprendeu a andar de bicicleta, não é? Pois é, eu queria estar bem nessa fita, na memória afetiva do meu filho, num dia ensolarado na casa de seu avô em Angra dos Reis. Estava tudo conspirando para um perfeito anúncio de Becel. Mas eu me comportei como uma generala, dava 20 instruções ao mesmo tempo, bufava, virava os olhos e cheguei a ser mesmo estúpida, até cair em mim do ridículo da cena e delegar a função ao jovem caseiro, que teve muito mais psicologia – e obteve muito melhores resultados que eu, é lógico.
De nada adiantam agora meus insistentes pedidos de desculpas, os chamegos e muito menos a cansativa explicação sobre tpm. Num único intervalo comercial de seu desenho preferido, ele pode ver pelo menos cinco mães exemplares e equilibradas que alimentam seus filhos com gelatina, nescau e biscoitos e que não deixam dúvidas sobre quão má eu sou.
No entanto ele continua a repetir (contra todas as evidências) a cada vez que me abraça: “Você é a melhor mãe do mundo!”
As mulheres-margarina podem ser muito saudáveis e eu nem ousaria comparar nossos triglicerídeos, mas numa coisa eu me garanto: o melhor filho do mundo, quem tem sou eu.
* * *
Manual de obstruções
Fiquei dois dias sem internet. Tentei relevar o quanto pude, utilizando técnicas zen de esvaziamento da mente mas, afinal, vencida pela urgência das telecomunicações, resolvi enfrentar o inglório tele-atendimento da Net/ Vírtua. Depois de algumas horas de teclagens, códigos, musiquinhas e irritantes mensagens comerciais, fui afinal atendida por um ser (quase) humano:
– Em que posso estar lhe ajundando?
– Estou sem sinal desde ontem.
– Em sua área não constam problemas de sinal, estaremos agendando uma visita em 48 horas para estarmos verificando seu modem.
– Mas olha só, outro computador da minha casa, ligado a um outro modem num ponto com entrada independente, que passa inclusive por outra linha telefônica, ficou sem sinal no mesmo momento. Isso mostra que não é um problema do meu modem, pois como dois equipamentos diferentes podem ficar com defeito ao mesmo tempo?
– No computador não consta problema de sinal em sua área. Nós temos que mandar o técnico verificar o modem, é o procedimento.
– (Inspiro fundo e expiro em oito tempos)…mas isso vai levar mais dois dias e vai mobilizar um técnico à toa. Meu rapaz, deixe o manual de lado e use seu bom senso um instante.
– Minha senhora, não posso estar usando meu bom senso porque é contra os procedimentos da empresa.
– … (confesso que fiquei sem palavras.)
Vencida pela incomunicabilidade, agendei a visita. É claro que o problema se resolveu horas depois, como por milagre, nos dois computadores, antes da chegada do técnico. Como eu previa, não havia nada de errado com o modem, era problema do sinal que ultimamente, dia sim dia não, some por algumas horas sem explicação. Difícil foi enfrentar os procedimentos (des)necessários à desmarcação da visita.
Eu gostaria muito de ter acesso ao manual de regras do tele-atendimento da Net. Posso imaginar os termos:
“Cláusula primeira: é expressamente proibido usar de bom-senso no exercício da função.
Cláusula segunda: é obrigatório estar se expressando em paulistês gerúndico.
Cláusula terceira: o computador é soberano e suas informações são incontestáveis, ainda que absurdas.
Cláusula quarta (secreta): este é um experimento de laboratório para testar os limites da paciência humana. Para o bem da experiência, toda e qualquer facilitação da vida do usuário será punida com o rigor da lei.”
Vendo por esse ângulo, eu diria que eles são de uma eficiência absoluta. ISO 9005.
* * *
Eu não vim pra explicar
Minha querida amiga Lenora pediu semana passada uma pesquisa séria sobre o Amor e, embora eu muito quisessse agradá-la, não posso eslarecer ninguém acerca deste assunto. Tampouco saberia fazer pesquisa sobre tema tão controverso, sobre o qual já discorreram, com as mais bizarras conclusões, de Platão a Roberto Carlos – não saberia nem por onde começar. Uma busca de segundos no Google levou a oito milhões, oitocentos e dez mil sites sobre o assunto. Isso se eu quiser me limitar à lingua pátria; “love” levaria a nada menos que cento e dezoito milhões. (ei, reparou na estranha coincidência dos números? 8.810.000 ; 118.000.000 – estes números foram exatos na minha pesquisa, saíram assim redondos, juro! Será que é um sinal, será que algo me está para ser revelado sobre o amor?) – tá vendo, este é o tipo de pesquisa “séria” que eu faço!
É isso, do amor eu só espero o milagre, a coincidência divina, a revelação. O resto é conversa pra filósofo dormir.
Então vamos parar de conversa e sejamos práticos:
Amem (do verbo Amar, no Imperativo Categórico Universal)
Amém (Assim seja)
É a minha opinião. E nada mais posso dizer do que desconheço, não posso garantir e no entanto creio com mais fé que em Deus. Ainda que em vão, eu amo até prova em contrário.

Angu

Eu não tenho time de futebol. Depois de adotar 4 ou 5 diferentes bandeiras em busca daquela do coração, aposentei a revirada casaca e assumi a indefinição crônica. Não sei nada sobre futebol, vou torcer pra quê? Arquivei o assunto e confesso que não me preocupo muito com esta lacuna, salvo em épocas de Copa ou outros campeonatos importantes, qundo minha ignorância fica mais flagrante e sou obrigada a estudar a máscara facial e as exclamações dos outros, como um autista que quer aprender a se comportar num mundo que não faz sentido. Mas Copas são bissextas (quando é a próxima mesmo?) e, no resto do tempo, mantenho um funcionamento público quase satisfatório, mesmo com este aleijão cultural.
Em religião é quase a mesma coisa, não tenho. Só que é mais sofrido, não consigo abandonar totalmente a questão como quem descarta um supérfluo na gôndola do supermercado. Nem Marx, nem Freud, nem outros céticos menos cotados jamais conseguiram fechar meus olhos para a estranha ordem do inexplicável, a impalpável consciência que me pensa no mundo. Se você insistir em dar um nome a isso, eu me definiria como “angunóstica”, porque eu me angustio por não saber nada sobre Deus. E também porque esta ansiedade me fez absorver indiscriminadamente, ao longo da vida, uma quantidade abusiva de informações místico-religio-esotéricas as mais díspares – um verdadeiro angu – de Saint-German a Obaluaiê, de Wicca a Sai Baba, da abdução alienígena da Virgem Maria à iminente encarnação do senhor Maytréia. Em matérias do além já conheci de tudo e um pouco mais, sem me convencer totalmente de nada. Passo mal dentro de Igreja (e não vem me exorcizar, que eu mordo!). Gosto do Tao mas ele, em sua simplicidade de sabedoria, pouco satisfaz à minha ânsia por respostas peremptórias e inequívocas: quem, como exatamente (sou curiosa por detalhes), pra quê, onde está, desde quando (digo datas, “sempre esteve” não é resposta), como chegou lá, qual seu nome e, o mais importante:
Como eu posso conseguir uma entrevista exclusiva? Um particular, como Moisés e outros profetas afirmam ter tido. Cinco minutinhos, não mais. Aí pronto; eu perguntava tudo, absorvia miraculosamente todas as respostas e, no final, pedia cinco minutos de prorrogação. Claro, porque eu tenho que ter direito a réplica, afinal estamos ou não numa…(hum, acho que esse negócio de democracia , apesar de ser o que há de melhor na terra, não deixa de ter parte com o demo. Melhor evitar gafes nesta curta entrevista)…teocracia? Então, eu poderia desfiar meu rosário de reivindicações do consumidor:
Em primeiro lugar, embora a dor leve ao crescimento, questiono a validade deste método pedagógico: está cientificamente comprovado que o reforçamento positivo produz resultados educacionais melhores e de mais longo prazo que a coerção. Ou seja: mais felicidade como prêmio, menos dor como castigo e o resultado seria uma humanidade mais ajustada, uma “família” mais feliz. Então, abaixo a palmatória!
Em segundo lugar, o tempo linear é uma coisa meio careta e muito limitada. Devíamos poder pular as partes chatas, voltar pro aconchego dos bons momentos e tirar umas feriazinhas num futuro promissor.
Terceiro, tudo muito sólido. Isso machuca. E pesado, cansa. Menos densidade, menos gravidade e tudo ficaria mais…leve. Na impossibilidade de atender a esta reivindicação, um par de asinhas quebrava o galho.
Quarto, tele-transporte já! Seria o fim dos engarrafamentos, dos ônibus, das ponte-aéreas, mas o melhor de tudo é que os bêbados poderiam voltar para casa sem causar acidentes no trajeto. Na pior das hipóteses, poderia haver um erro como naquele filme da mosca, e o cara ia se re-materializar com um gargalo no lugar do pescoço enquanto, no bar, uma garrafa long-neck com a sua cabecinha suplicaria “help me!”.
E quinto (meus cinco minutos estão quase acabando) telepatia. Falar o que a gente quer é tão difícil, entre a cabeça e a boca um mundo se perde, são tantos desvios e despenhadeiros de palavras que quando a gente vê já está lá embaixo e não tem volta, está dito, mesmo que esteja tudo errado. Esse negócio de escrever parece um pouquinho mais seguro, mais ponderado (embora não esteja livre de mal-entendidos), às vezes até é bem divertido mas sempre existem vãos que as palavras não cobrem. Além de tudo, arrumar as idéias, depois as pausas, depois as letras, uma depois da outra, dá muito trabalho. E é meio ineficaz, nunca dá pra dizer tudo o que.
Caiu a linha. Este Senhor (ou será uma Moça?) é implacável, não deu nem tempo de negociar uma vantagenzinha pessoal, uns milhões na Suíça, um alto cargo comissionado vitalício ou pelo menos um fim de semana com o Richard Gere no Tibet (porque eu sou altamente espiritualizada, lembra?). E faltou perguntar do amor verdadeiro, o único assunto que me interessava, na verdade.
Então tá, fica pra próxima – se é que tem uma próxima depois dessa.
Enquanto a Revelação não vem, a angústia permanece, a de saber que todo ser humano sofre e não saber nada pra mudar isso. Nem as quatro nobres verdades, nem os oito nobres caminhos, nem todos os 111 avatares reunidos em egrégrora, nem o sangue de Jesus, nem o Pai Nosso ou Nossa Mãe do Céu, o Nirvana, o Satori, o Ohm, o Um – não foram capazes de eliminar total e permanentemente o sofrimento de uma vida humana sequer.
Eu tenho certeza que o Dalai Lama, entre um e outro êxtase místico, e mesmo sob o inabalável sorriso, no fundo sofre. Pelo exílio, por seu povo, talvez por um amor perdido, que nessas coisas Buda nem sempre ajuda. O Papa, coitado, sofre pra burro, pressões e mazelas várias, sofre da coluna sob o peso da mitra, sofre até atentado. A Gisele Bündchen diz que tem lá suas espinhas e isso dói. Bill Gates tem cara de quem já teve dor de dente, quiçá de corno. Jesus sofreu na cruz e até reclamou “pô, pai, tá doendo de verdade!…”
Então não adianta ter sabedoria, títulos, beleza, dinheiro, nem mesmo luz. Tá aqui, tem que sofrer. Cruzes!
Não vou entender nunca, nem em sete mil vidas.
Semana que vem, começo num grupo de meditação zen-budista. Depois eu conto como foi. Vai um fubazinho aí no seu tacho?

Há alguns anos, levada por circunstâncias meramente fortuitas e nada intencionais, passei um período na Floresta Amazônica com um pajé de uma tribo extinta e fiz com ele o que chamaríamos aqui na cidade de uma “iniciação xamânica”. Lá, eles não dão este ridículo nome pomposo. Quem sabe alguma coisa ensina o que sabe, apenas porque o conhecimento deve ser preservado e transmitido para as novas gerações. Isto é feito com simplicidade. Bebíamos ayahuasca – um chá sagrado para os índios, que altera os estados normais de consciência – e acabei escrevendo um livro sobre as transformações que sofremos quando modificamos a percepção habitual que temos do mundo. Ser é possuir um ângulo peculiar de ver.
Na semana passada, recebi um e-mail da Austrália, de alguém que tinha acabado de ler o meu livro, queria discutir algumas passagens e me mandava um link de matéria que relacionava o uso da ayahuasca com a cura do câncer. Eu não conhecia esta propriedade do chá indígena.
Um livro – como um filho – exibe a autoria, ainda que tente escondê-la. Todo o livro tem a cara do autor, assim como estamos estampados nos filhos, nem poderia ser diferente. Algumas pessoas nos chegam ou se afastam de nós através dos livros que escrevemos, como através dos filhos que temos. E são curiosos os amigos e as questões que filhos e livros que criamos podem nos trazer.
O câncer ainda é uma doença misteriosa. Não é hereditária, não é contagiosa, não sabemos como evitá-la nem de que maneira ela pode nos atingir. Conhecemos doentes que morreram e outros que estão aí muito bem, vivinhos da silva. Mas um diagnóstico de câncer transforma uma vida – ou acaba com ela ou obriga a mudanças radicais.
Tempos atrás, o marido de uma conhecida caiu morto quando dava a sua corrida matinal na praia de Copacabana. Enfarte fulminante. Como morreu na rua, teve que ser autopsiado no IML. Lá, descobriram que tinha câncer e estava cheio de metástases. Na verdade, era uma metástase ambulante. Mas, como nunca soube o que tinha, levava vida normal, trabalhava, corria todos os dias e era chegado a futebol e chope com os amigos no fim-de-semana. Acabou morrendo de enfarte. A não-consciência da doença ou a suposta consciência da saúde teriam alguma coisa a ver com isso?
Não sei.
Acredito que somos o que achamos que somos e, se mudarmos o que achamos que somos, nos mudaremos. É uma possibilidade. Mas também é possível que sejamos seres inapelavelmente predestinados e sem nenhum arbítrio sobre o destino.
Fiquei pensando no e-mail do novo amigo australiano. A ayahuasca é uma bebida sagrada para os povos da floresta. Por lá, dizem que sua tradição remonta aos incas. Nunca investiguei esta crença nem me interesso por sua origem, me interesso – e muito – por estados alterados de consciência, daí meu interesse por religiões. Tive uma experiência pessoal com este chá, dito alucinógeno. Bebi ayahuasca pelo espaço de uma lua com um velho índio e minha vida mudou porque passei a ter uma percepção diferente de mim e do mundo. É o que eu acho.
Mas… pode ser que eu tenha mudado porque o chá – que se acredita introduzir novos estados de consciência – na verdade cura o câncer. E, se eu fui curada de um câncer que nunca soube que tinha, seria razoável que a minha vida mudasse para melhor e este papo de que consciência alterada altera a vida seja mesmo (e só) um papo Nova Era. A consciência não tem poder nenhum e todo o poder está com o câncer.
Há anos desenvolvo uma teoria, entre muitas, para explicar a vida, que cada vez mais me foge às explicações: a teoria da sistemática do acaso. De acordo com esta teoria, o mais improvável é o que sempre acontece. O lógico, o razoável, o desfecho que não pode ser atribuído a uma enorme coincidência é ficção: faz parte da boa literatura.
A vida, mesma, é literatura de péssima qualidade, recheada de acasos cavilosos. O que acontece na vida desmoralizaria qualquer autor.
Mas… o e-mail do amigo australiano me fez duvidar da teoria da sistemática do acaso. Talvez tudo seja lógico, sim; racional; mensurável em laboratório. A transformação que a ayahuasca nos traz é a cura do câncer: que interferia nas nossas atitudes – já que tudo é físico -, ainda que não soubéssemos que estávamos seriamente doentes.
Estou fazendo força para achar também milagroso. Está difícil. Mas o que não admito é abrir mão do milagre cotidiano. Devo elaborar uma nova teoria, pelos próximos dias.

A Reforma da Natureza

Esse era um dos meus livros preferidos do Monteiro Lobato, porque eu me identificava totalmente com a Emília. Além da estatura diminuta e dos eventuais ataques de mau-humor, minha persona infantil compartilhava com a boneca uma certa sensação de ser a única criatura a enxergar o óbvio e uma petulante indignação com a burrice humana, suína, sabugosa, e com os “erros” da natureza. E, claro, na minha época (ou nas ilustrações, mais antigas do que eu, dos livros que foram dos meus pais) a Emília tinha os cabelos curtos e escuros – isso era importantíssimo para mim.
A vida se encarregou de punir muitas vezes minha petulância, e minha indignação, hoje em dia, anda bem retraída. Lembro, com alguma nostalgia, de bater panelas pelas “diretas jᔠnos meus remotos 15 anos mas ultimamente, mais realista, poupo a caçarola que panela tá caro pra chuchu e enchê-la é a grande questão que move o povo.
Mas a revolta íntima persiste, eu não me conformo com a realidade. Se Deus existe, acho sinceramente que lhe falta algum senso…humano. Todo dia vejo coisas que não cabem. Com pouco esforço consigo imaginar alternativas bem mais justas para as leis da Economia e mesmo da Física e, se Alguém escutasse a minha opinião… mas esse Cara é teimoso que só, se acha O tal e faz tudo do jeito Dele. Ele também deve me achar petulante e é por isso que às vezes me põe de castigo. Mas eu vou morrer pensando bem alto: DISCORDO! Quem mandou me prover de opinião?
Acho que foi isso que eu pensei, a primeira vez que me vi no espelho. Não que eu fosse horrível, acho até que eu era bonitinha, como a maioria das crianças que não são lindas nem feias. Convenhamos que já é um lucro, poderia ser bem pior, eu sei que devia agradecer e tal, porque tem gente que é deformada, horrível, tinha até aquele cara do sinal que pedia ajuda mas as pessoas tinham repulsa só de olhar. Ai, gente, eu sei. Mas, se me dão licença de falar com franqueza, eu sempre que me olhava no espelho pensava que conseguiria facilmente evocar uma figura melhor. Na televisão e nas revistas tinha exemplos aos montes.
Pra começar, poderíamos colorir mais o conjunto. Por que não os lindos olhos verdes do meu pai, ou a lourice de minha mãe? Já daria um bom realce. O resto tava mais ou menos, tudo bem, mas o que não dava pra entender era aquele cabelo desgovernadamente crespo, que crescia em todas as direções, menos para baixo.
As tentativas de minha mãe para solucionar o problema, ressalvadas suas certamente elevadíssimas intenções, resultavam em desastres sucessivos (momentos “cogumelo”, momentos “poodle” e, os mais temidos, momentos “bozo”) que costumavam terminar com uma poda radical estilo “joãozinho” que, como o próprio nome diz, me deixava um perfeito menino. O que causava constrangimentos como o de sair do banheiro do restaurante e ser interpelada pelo garçom : “o de homens é do outro lado!”. Mas o que mais deixou seqüelas emocionais foi o fato de ter sido excluída, pelos meninos da turma, da lista de meninas namoráveis. Sim porque, se a única diferença entre meninas e meninos nessa idade é o cabelo, quem namorasse comigo provavelmente seria considerado bicha. Então eu me tornei a melhor amiga dos meninos, um tipo de menino – só que meio fresquinho e ruim nos esportes – com quem eles gostavam de conversar. Desde essa época, eu tenho mania de saia, mas não adiantava muito. Podia ser a roupa da Barbie-sonho-encantado mas, com aquele penteado do Falcon, o Ken nunca ia olhar para mim.
“Cabelo cresce”, minha mãe dizia quando eu me desesperava diante da imagem tosquiada no espelho do barbeiro. Mas de que adiantava crescer se, poucos meses depois, diante da inexorável expansão da minha cabeleira, ela recorreria novamente ao cogumelo, ao poodle ou ao bozo e, finalmente, à navalha radical?
Até hoje tenho mais medo de cabeleireiro que de dentista. Uma sala de torturas medieval, tesouras ferozes e absolutamente desobedientes aos meus apelos, comandadas por homens de voz mole e suas assistentes falsamente simpáticas mas que sempre resmungavam palavrões entre dentes na hora de desembaraçar meu cabelo, lá longe da minha mãe, enquanto arrancavam vários tufos. Um lugar de onde eu sempre saía pior do que tinha entrado.
Daí que desde a adolescência, quando me foi dado escolher o que fazer com a própria juba, resolvi fugir de salões tanto quanto possível e meu cabelo enfim cresceu. Em alguns anos (muitos, porque cabelo ondulado cresce em espirais e isso demooora) eu era a irmã morena da Rapunzel. E quer saber? Ficou até bonito (eu admito que às vezes O Cara escreve certo por linhas tortas mas ainda acho que teria poupado muito sofrimento se já tivesse nascido comprido, provando à minha mãe e a mim que as molas podiam se submeter à lei da gravidade, desde que tivessem mais de meio metro de comprimento). Sabendo o valor de cada milímetro crescido, só recorria a algum cabeleireiro para tirar as pontas, e sempre repetindo a senha de proteção, como um mantra: “aparar, só aparar”. Mas às vezes sua fúria assassina era tamanha e tão sub-reptícia que, mesmo com todos os meus cuidados, quando eu via, já tinha perdido metade da trança (“estava podre!”, argumentava ele, ou “totalmente sem corte, eu só acertei”. Depois eles vendem tudo pra fazer mega-hair, que já me contaram. Eu sei que o meu cabelo, crespo e castanho, tem uma cotação baixa mas é sempre um troquinho, né?). E tome meses para o “cogumelo” crescer e virar cabelo novamente. Na média, porém, o cabelão venceu e, pra ser sincera, não me dava o menor trabalho. Era lavar e deixar secar ao natural, sem pentear pra não desmanchar os cachos. Se tudo desse errado, era só amarrar um coque e dar um nó nele mesmo, que o cordame estava sob controle. Então essa foi uma parte capilarmente encontrada e estável de minha vida, que durou até cerca de um ano atrás.
Sabe como é, separação costuma ter pelo menos dois efeitos visíveis na mulher: perda de peso (cerca de 10% do peso corporal, um espetáculo!) e corte de cabelo. Quando este último apelo começou a ficar irresistível, antes de me submeter à tortura em mãos alheias, resolvi eu mesma assumir os trabalhos. Comprei uma tesoura profissional e, seguindo minha própria tradição de “inovação acima da razão” (assim,com bastante eco), criei meu revolucionário sistema para cortar cabelos crespos: secos, com os cachinhos já formatados, para que você possa saber como vai ficar depois. Não parece óbvio?? Por que ninguém inventou isso antes? Deve ser um complô das japonesas para manter as cabeleiras selvagens purgando no inferno astral, e poderem vender alisamentos cada vez mais caros e fedorentos.
De modo que fiz, eu mesma, minha versão do “cogumelo”: aquele cabelo crespo cortado chanel, ingrato para o rosto em 100% dos casos. Mas até que o meu fungo auto-cultivado ficou mais bonitinho, com contornos mais suaves que os da infância, cortados molhados, a régua.
Só que o cogumelo, quando acorda de mau-humor, vira bozo e ninguém pode viver tranqüilo diante desta ameaça. Então, como não poderia deixar de ser, cheguei ao “joãozinho” pelas minhas próprias mãos. Mas agora com alguma arte, um “joão-anjinho”: um falso curto, cortando os caracóis um a um, um pouco irregulares, pra não ficar parecendo uma topiaria. E sem perder jamais a noção de que um cacho de alguns centímetros pode ter mais de um palmo, quando esticado, portanto são anos de esforço orgânico ali e nenhuma tesourada deve ser impensada.
Meu hair-style foi um sucesso, opinião geral de que eu remocei 10 anos (esqueci de dizer que este é o terceiro efeito visível da mulher que se separa). Pronto, agora eu estou livre do fantasma de Edward-mãos-de-tesoura. Sou dona do meu próprio cabelo.
Mas quem disse que a gente só anda pra frente?
Outro dia, minha frágil “alta-estima” foi abalada pela afirmação chauvinista de um (não muito)amigo de que a mulher sexualmente plena tem cabelo comprido, ao que outro acrescentou “comprido e liso” (sei não, mas acho que a opinião dos meninos não evoluiu muito desde a escola primária). Querendo agradar às massas, e lembrando dos muitos centímetros escondidos em meus curtos cachos, tive a idéia brilhante: aproveitar o mote do aniversário de uma amiga e fazer uma escova. Aparecer de cabelos sedosos e, se não longos, ao menos médios, linda, praticamente loira, não seria a glória? Mil mulheres numa Lady só!
Lá fui eu gastar meu rico dinheirinho num salão de tortura. Tudo estava promissor, era um salão supostamente zen, cheirando a incenso e, o mais importante, aceitavam cartão de crédito. A moça que ia me atender tinha até cabelo crespo e eu pensei (como sempre penso, em vão): “desta vez serei compreendida”. O que eu queria era muito simples: “ficar com o cabelo liso.” Ora, todo mundo sabe o que é um cabelo liso: um cabelo que cresce para baixo. Precisa explicar melhor?
Eu suspeitei quando ela começou a fazer movimentos em forma de montanha no alto da minha cabeça. Perguntei se aquele volume não ia abaixar e ela (sem ocultar a impaciência) garantiu que “depois abaixa”. E tome cabelo pra cima. Ainda me queimou o couro cabeludo várias vezes, dizendo “agüenta firme, que é pra baixar a raiz”, enquanto puxava pra cima com força. Eu, obediente, engoli o choro pensando que a Angélica, que passa por isso todo santo dia e ainda sorri, tem um caráter muito mais firme que o meu.
No final, a recompensa: o cabelo lustroso, baloiçante, liso enfim e…armado como se tivesse uma daquelas peruquinhas de cocuruto ridículas que as mulheres usavam nos anos cinqüenta. Tentei reclamar mas a Crespa Maligna (como ficará para sempre conhecida) me fulminou e disse: “Se não abaixa mais, a culpa é do seu cabelo, não posso fazer nada.”. “A culpa é do seu cabelo” bateu fundo nos meus antigos complexos e calou minhas reivindicações. Fui embora humilhada, tentando reconhecer, no vidro de cada carro no caminho, meu rosto atrás daquele liso bolo-fofo. Por sorte eu tinha meu chapéu para abaixar a gaforinha. Ao chegar em casa, depois de uma caminhada sob o sol enchapelada até a alma, a escova já estava arruinada pelo suor abafado na cabeça. Ainda tentei salvar o investimento, ao longo do dia, com faixas, grampos e toucas. Mas o penteado enroscava a olhos vistos, e de um jeito liso, como espírito em corpo que não lhe pertence.
Quase na hora de sair, joguei a toalha: molhei as madeixas, que encaracolaram, felizes, no mesmo instante. Recuperada minha identidade-rococó, molinhas ao vento, lá fui eu para a festa.
Comentário geral (inclusive dos homens bonitos e interessantes, hum…): “você está linda, seu cabelo está uma graça!” Como se vê, nem todo homem é tão primário.
E sabe do que mais? Eu adoro meus cachinhos, são a minha cara!
Chego à mesma conclusão que a Emília, no final do livro: a gente pode ter umas idéias boas de vez em quando mas, se abóbora dá no chão, é por algum motivo. A natureza sabe o que faz!

Conjugado

Chega em casa e desliga o telefone, pra não ficar escutando ele não tocar. – Odeio barulho!
Liga a TV.
Alimenta o peixe, mas não demais. – Sabia que o peixe morre pela boca? Se deixar, come até estourar. O meu não, é claro, eu controlo. Duas tampinhas por dia, nem uma migalha a mais, não adianta fazer bico.
Toma meio litro de coca light, come uma caixa inteira de bombons. O celofane rosa ela coleciona numa gaveta. Quando casar, vai usar na decoração das mesas, como viu uma vez na revista. Fica lindo. A gaveta já tem milhares de mesas, um imenso jardim. O noivo, distraído, está uma vida atrasado e seus rosas, de tão guardados, estão começando a murchar. Mas ela vai sair? Vai se expor? Fecha a gaveta. Pra isso ela não precisa de ninguém.
A novela acaba cada dia mais cedo. O dia acaba cada dia mais tarde. O bombom acabou e ninguém agüenta tanta coca-cola.
Todo peixe morre um dia, mesmo que coma pouco. Todo mundo estoura um dia, mesmo que controle.
As baratas invadem até mesmo as casas limpas. Pelas frestas, pelo ar.
A xícara suja na pia não se lava. 3 dias. Ninguém se lava só.
Daqui, nada se leva.
É um dia depois do outro. Só.
Texto livremente inspirado no espetáculo “Conjugado” – em cartaz no Teatro Sérgio Porto (Humaitá, R/J), até 11/07. Direção de Christiane Jatahy, cenário de Marcello Lipiani, luz de Afonso Tostes, vídeo de Márcia Derraik.
Atuação solo de Malu Galli, a melhor atriz desconhecida do Brasil.
* * *
Vá ao Teatro e, se o ingresso for baratim, rolar carona e tudo, pode me chamar
A vida desta personagem não se parece muito com a minha. Eu vivo em uma casa razoavelmente grande com boa parte da família; tenho cada vez menos paciência para tv; não gosto muito de chocolate e só tomo coca heavy, mesmo assim raramente (tá bom, de vez em quando). Casei e procriei até que cedo e nunca tive um peixe.
No entanto, sou eu ali no palco. Empatia: esse condão de colocar-se no lugar do outro, sentir o que o outro sente. O mesmo sentimento que move a amizade, a solidariedade, a paz, o amor. Pois é isso que um ator provoca quando é dos bons. Toca cordas ocultas, tonalidades desconhecidas mas que estão ali, potenciais. Por isso emociona mesmo quando não há, a princípio, uma identificação. Mesmo se aquele é o outro, o diferente – porque fez as escolhas que abandonei ou de que nunca dispus – o ator te busca lá na cadeira e diz “vem comigo, vem ser eu um pouquinho”. Isso é o que há de divino no Teatro. É o que move de casa minha preguiça (o que faço sempre sob protestos de que os produtores são umas antas que ainda não descobriram que carioca gosta de jantar com calma, ver a novela enquanto se veste e sair só depois. Eu não vejo mais novela porque sinceramente. Mas sigo o biorritmo da minha cidade, detesto ter que chegar aos lugares antes das 10. Eu sei que tem gente que acorda super cedo mas para esses existe o fim-de-semana, ora. Até porque é uma minoria, carioca não acorda cedo, como provam as casas noturnas, lotadas de segunda a segunda. No dia que marcarem os espetáculos para começar às onze, vai bombar – escrevam o que eu digo. Produtores, acordem, ainda que tarde!)
Mas enfim, às vezes a gente consegue chegar a tempo e ter esta experiência que novela nenhuma consegue reproduzir.
Agora, não vá ver qualquer porcaria pra depois ficar dizendo “vá ao teatro mas não me chame”. Fico lembrando de meus grandes momentos de platéia: Fernanda “Dona Doida” Montenegro, Cacá “Meu Tio Iauaretê” Carvalho, Nanini “Irma Vap” Latorraca, Denise “Mary Stuart” Stoklos, Rubens “Artaud” Correia. Cleide Yáconis num monólogo cujo nome não lembro mas a emoção que causou ainda me arrepia. “A Tempestade”, impacto solene e feérico no jardim interno do Parque Lage, na tenra adolescência. “Alice-Jatahy-das-Maravilhas” com meu filhinho deslumbrado, itinerando pelos jardins externos do mesmo Parque, muitos anos depois. “Ópera-Broadway-do-Malandro” e a vontade de sair cantando e dançando pelo foyeur logo depois e abraçar o Mauro Mendonça e a Lucinha Lins, que ainda seguram a onda no gogó e no talento. Para citar apenas as primeiras imagens que me vieram.
Sem falar nas coisas maravilhosas que eu não vi por falta de grana ou por preguiça de sair de casa antes das 10.
Mas o que denigre o Teatro é que tem muito lixo feito em seu nome. Verdadeiros atentados estéticos, egotrips longas e vãs, constrangedores números de platéia que, se fossem comigo, eu pedia meu dinheiro de volta. Mentira, sou sobrevivente das piores experiências em nome da arte e, na saída, ainda parabenizo os amigos do elenco.
Ah, não me chame de hipócrita, eu não vou mudar o mundo sendo sincera, só vou perder o amigo.
Pior é que eu já estive no palco em alguns desses tristes momentos. Felizmente isso é passado e serviu para fortalecer meu caráter e calejar meu espírito. Sou capaz de assistir virtualmente qualquer chatice e dou apoio incondicional aos atores: aplaudo sempre.
Mas reconheço que o Teatro, quando é chato é, também, insuperável. Não é como um livro que você pode fechar sem ofender ninguém. Pega malíssimo sair no meio, o ator vai ver. E se for seu amigo e você sair à francesa antes de falar com ele, jamais será perdoado. Então é o tipo da tortura completa, sem escapatória, com fila de pêsames, digo, parabéns no final.
E, contudo, creia. Um bom momento cênico –ainda que vivido da obscuridade da platéia – compensa todos os ruins. Uma recente surpresa gratíssima foi “Ensaio Hamlet”, da Cia. dos Atores. Experimental sim, porém ótima. Narrativamente clara – lá estava Hamlet do início ao fim – ainda que ousada, coisas como Rosencrantz e Guildenstern caracterizados como Power Rangers e, acredite, era absolutamente pertinente, além de hilário de doer. Com Fernando Eiras – que eu já conhecia do cinema e da televisão e achava legalzinho mas não sabia que era excelente ator de Teatro – e um elenco todo muito bom, de atores inteligentes (isso existe!), onde aliás se destaca… Malu Galli. Brilhante como a Rainha Gertrudes e outros bichos (6 atores fazem todos os personagens!). Mas essa peça infelizmente já saiu de cartaz por aqui. Vai pra São Paulo, eu acho.
Então, se você mora no Rio, vai ver “Conjugado”, que também vai sair logo. É simples, não tem propriamente um enredo e nem uma perfeita amarração dramatúrgica. O tema da solidão não é muito original e o final fica meio solto. Mas isso quem percebeu foi o “encosto” de uma velha cri-cri que faz pronunciamentos teórico-críticos na minha orelha direita e que, por sorte, só me acometeu em momento posterior, digestivo. Lá dentro, houve Teatro e eu adorei. Apesar das quebras e do intencional distanciamento que elas produzem, eu estive ali, naquele cubo de vidro com persianas, comendo Sonho de Valsa e vendo a vida passar na TV.
Então sacode essa preguiça; vai ao Teatro! Você não vai morrer por ficar um dia sem novela. O risco é pequeno, o ingresso é popular. Se você odiar, será rápido – a peça é curtinha. Se amar, será eterno.
E você ainda vai poder dizer que viu a Malu, que também é linda mas não é a Mader, antes da fama que cedo ou tarde há de vir. Se algum dia houver justiça ou ao menos lógica no mundo do glamour – o que não tenho bem certeza mas enfim.
Talvez ela não queira o glamour, as telas, as capas de revista. Talvez queira mesmo ser uma belíssima atriz de Teatro (isso também existe!).
Então seja um privilegiado e veja o que o Brasil inteiro não viu. Uma pessoa rara, ao vivo.
Vai, desliga logo o computador e sai desse aquário. Vai ao Teatro, olhar de fora pra dentro a solidão em que cada um de nós se confinou.

Falando em Chico Buarque, cruzei com ele semana passada na rua aqui do lado de casa, no Horto. Tive que reunir toda a experiência acumulada em uma vida de vizinhança da Rede Globo – um dia-a-dia repleto de celebridades no parque ou na padaria, caras amassadas mui diferentes das exibidas sob maquiagem, luzes e lentes da TV – pra conseguir manter a linha. Galãs ao vivo e a cores, de tão vistos, já não me causam espécie e alguns deviam mesmo evitar testemunhas quando em trajes de banho, alvas adiposidades sem photoshop levando os filhos à natação. Deviam respeitar nossa fantasia, em geral mais generosa do que a natureza. Então garanto que não me deslumbro com famosos e sei fazer aquela cara-botox, inalterada, de quem não tá nem reconhecendo.
Mas convenhamos que Chico Buarque é Chico Buarque. Mesmo à luz do dia, pequeno e magro, 60 anos, ele é de tirar o fôlego. Já o tinha visto, em três ou quatro ocasiões as mais aleatórias, e guardei sempre a mesma impressão: olhos arredios, que dão voltas rápidas e curiosas mas terminam sempre cravados no chão, como se assim pudessem não ser notados. Mas que nada, ele rutila, lá de longe eu já vi que era ele, e olha que eu nem enxergo tão bem, mas é que o cara, não tem outra palavra pra descrever, é iluminado. São os olhos modestos que o fazem brilhar tanto. Uma presença tão discreta que grita, num mundo de peitos-de-pombo.
Ao contrário dos pseudo-célebres que se têm em muito alta conta e não conseguem esconder a vaidade sob os óculos espelhados em que se exibem, Chico Buarque dispensa o Ray-ban e usa o farol baixo, a luz de neblina. Se resplandece é à revelia – seus olhos escandalosamente nus clamam por anonimato e, castos, buscam as sombras. Quando interceptados mesmo aí por nossa tara indiscreta, fogem, constrangidos. Li um dia desses – não sei se é lenda – que ele gosta de andar incógnito, sob um capacete, montado numa scooter (uma espécie de lambreta). “Nunca mais vou olhar os motoboys do mesmo jeito”, acho que foi a Cora Rónai quem disse isso. Eu também não – e pronto, cai seu disfarce de emergência, seu último refúgio.
Por misteriosa associação de idéias que talvez passe pela Gota D’água, meu pensamento foi parar no Teatro Grego. Muito antes de Eurípides, ou mesmo de Ésquilo, havia as “dionísias”, celebrações poético-orgiástico-carnavalescas em honra a Zagreu – antigo deus cretense associado à fertilidade, à transformação e à inspiração artística, depois incorporado ao Olimpo como Dioniso (ou Baco), o filho renascido de Zeus. Em momento mais apolíneo, os gregos organizaram o bacanal e inventaram a forma de espetáculo que até hoje atende pelo nome de Teatro. E já começaram com grande pompa, no auge: tinham dramaturgia da melhor qualidade, com histórias fabulosas extraídas dos mitos e uma estrutura própria, diversa da narração, que produzia efeitos catárticos num imenso público vindo de toda a Hélade. Reuniam a multidão em belíssimos templos ao ar livre, integrados aos relevos naturais e com acústica perfeita, como o de Epidauro, e utilizavam cenografia grandiosa, maquinária e efeitos especiais. Tiveram, pela primeira vez na história do ocidente, um ator: um profissional capaz de dar vida – através dos estados báquicos de êxtase e entusiasmo – a heróis, titãs ou mesmo deuses. O primeiro ator historicamente reconhecido foi Téspis de Icária (séc VI a.C.), que também escrevia e dirigia seus espetáculos, e ele já usava máscaras. Peraí, o que é que isso tem a ver com o Chico? Calma, eu já chego lá.
A máscara (que os gregos chamavam “prosópon” e os romanos, “persona”) é um artefato humano básico e está presente, desde as épocas mais remotas, em todas as culturas ocidentais, orientais e aborígenes. Sempre foi utilizada em caçadas, guerras e cultos religiosos, ou seja, quando se queria evocar espíritos, pessoas ou animais com grande eficácia. Por sua expressividade, ela se tornou o símbolo do Teatro e a melhor amiga do ator na medida em que é capaz de assumir, no seu lugar, a imagem social do personagem. Como uma interface, uma mediadora entre a pessoa do artista – que tem defeitos, vísceras e gases como todo mundo – e o arquétipo que ele encarna no palco, a dimensão transpessoal que ele atinge ao ser amplificado milhares de vezes pelas projeções individuais de toda a multidão que o assiste. A máscara é como um escudo que protege o rosto do artista da usurpação pelos deuses que, não podendo ser vistos em plena divindade, precisam se apropriar de corpos inferiores para se manifestar.
Ao fim do espetáculo, o sacerdote de Baco, em prudente atendimento a seus limites humanos, descia dos coturnos e guardava sua máscara num altar, protegida por oferendas e orações, até a próxima apresentação. Édipo podia dormir sossegado; quem ia encher a cara com o resto do elenco no Baixo-Corinto depois da estréia era o Anaxoríades da Silva, e não todos os filhos-apaixonados-pela-mãe do Peloponeso. Tudo bem que tinha suas desvantagens, o cara não saía pegando geral as Mulheres de Atenas como um ex-BBB, porque só quem era do meio conhecia o rosto de carne e osso sob a máscara heróica e ainda não tinham inventado o estilo “Caras” de ser. Mas ele podia se dedicar de corpo e alma a seu ofício de estudar a vida e as pessoas sem ter que parar a cada cinco minutos pra dar autógrafo e tirar foto com turista. O artista de hoje em dia perdeu seu escudo. Tornou-se refém de sua persona, este ser virtual à sua imagem e semelhança.
Acho que o Chico merecia ter uma cara anônima com que sair, de vez em quando, sem o peso de sua obra gravado na fronte – e sem ter que estar claustrofobicamente fechado num capacete. Quando os deuses sopraram em seus ouvidos as palavras e melodias com que ele nos encanta há tantos anos, deviam ter ocultado de nossa sanha os seus olhos, pra que ele ainda pudesse olhar ao redor sem alvoroçar o ambiente. Pra que ele pudesse observar qualquer um de nós sem que estivéssemos sempre “olhando para a câmera”, nossa naturalidade irremediavelmente perdida por sua simples presença. Foi o que pensei, ao vê-lo desde longe, na rua.
Então esse foi meu presente de aniversário para o Chico e, creia, exigiu-me um esforço sobre-humano: ao cruzar bem rente seu caminho, eis que emprestei-lhe uma máscara rápida de Zé-das-Couves e – contrariando a força magnética que atraía minha curiosidade – como que pus antolhos e cravei o foco no chão. Com a visão periférica senti uma fluorescência passar por minha orelha esquerda, vermelhíssima (não sou tão boa atriz que controle o fluxo sangüíneo), pelo breve tempo que se observa um transeunte normal. Se bem que aposto que meu andar não estava normal, apenas porque consciente de estar sendo observado pelo Chico Buarque.
Queria lhe emprestar meus olhos, castanhos e comuns, que vêem coisas simples, gente andando normal, que passa e nem me vê.
A cara do Chico é o sacrifício que ele ofereceu no altar da cultura, para ser devorada com gula consumista por nosso olho-gordo. Posso estar enganada, mas sinto que ele a carrega como um fardo, um tesouro pesado e ostensivo, que mais onera que beneficia seu guardião. É claro que ele já deve ter dado muito bom uso amoroso a seu par de esmeraldas e no vídeo ficam mesmo uma beleza, mas, na maior parte do tempo, elas chamam inconveniente atenção em contraste com os tons terracota da miséria. E tome olhares se arrastando atrás dos seus muitos quilates. Isso pesa. Sabe lá o que é não poder parar no sinal de janela aberta num fim de tarde e tirar uma meleca na obscuridade? Mijar no poste, palitar o dente, trair em público, coçar e envelhecer mal são privilégios dos inconspícuos.
Acho que o Chico deveria guardar sua cara de Apolo apartada de si, num grande teatro ao ar livre que tivesse a acústica perfeita. Onde a gente pudesse deitar oferendas, cantar seus mantras, organizar festivais em sua honra, sem invadir sua privacidade. Onde a gente pudesse por um momento, após as devidas libações, vestir em nosso rosto sua máscara entalhada pelas musas e olhar o chão, timidamente, através de seus olhos divinos. Sob as bênçãos de Dioniso, e um vinhozinho pra regar a festa. Evoé!
Enquanto isso um Chico mais mundano poderia estar por aí, levando uma vidinha besta, como a minha e a sua, em que ninguém presta muita atenção. Tirando meleca no sinal e aproveitando cada palmo da imensa liberdade de ser ninguém.
* * *
Tempo e artista
Chico Buarque/1993 – Paratodos
Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela
Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso
Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta
Dança o tempo sem cessar, montando
O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito
No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito

A vida avilta a arte

Só posso dizer uma coisa: se esta história tivesse sido escrita por mim, teria um desfecho muito diferente. Certas coisas, de tão absurdas, jamais caberiam na ficção.
A Dê deve ter sido uma das dez meninas mais bonitas do Rio de Janeiro. Mas, ainda que as outras nove estivessem a seu lado, Zib não as teria visto. Porque olhar para a Dê teve o efeito de apagar as milhões de estrelas e o céu virou um fundo escuro infinito para a passagem meteórica daqueles olhos de água-marinha na pele dourada de uma sereia. Conheceram-se na fila do Planetário e, quando ela sorriu, Zib teve certeza de que, dentre todos os corpos em órbita no tempo e no espaço, aquele rastro luminoso era o que faria sua trajetória fazer a curva sobre si mesma. Ele tinha apenas 17 anos, mas sempre teve essa determinação extraordinária e resolveu ali mesmo que aquela era a mulher com quem ele iria se casar.
A Dê ainda era muito jovem pra ter tanta certeza e a bem da verdade ela tinha um namorado então nem ao menos ficaram juntos nessa época. Mas o Zib era mesmo um sol e ela não deixou de perceber que a luz caiu quando ele viajou. Ele foi morar nos Estados Unidos mas não esqueceu a Dê, escrevia toda semana, acenava com oportunidades de estudo e trabalho para ela.
A vidinha dela continuava boa, faculdade e coisa e tal mas o que ninguém sabia ainda é que, com uma ajudinha do espírito empreendedor do Zib, a Dê tinha se tornado uma das dez meninas mais corajosas do planeta. Ele mal pôde acreditar quando ela resolveu aceitar um estágio ou coisa que o valha e se mandou pra lá, de mala e cuia. Então eles acabaram ficando juntos, claro, e foi lindo. Passaram por momentos maravilhosos e inesquecíveis e também por maus bocados e mesmo isso pôde ser gostoso e divertido todo o tempo. As luzes transbordavam de seus olhos mais que o frio, a dureza, as distâncias.
A volta ao Brasil seria uma prova e tanto. O Zib era judeu, a Dê não era. A família dele não gostou do namoro, e a família dela não gostou (com razão) de alguém se dar à desfaçatez de não gostar de sua princesa – luminosa, brilhante, bem-educada, uma jóia rara em qualquer contexto.
Casaram-se lá, romanticamente e em segredo. Fizeram juras um ao outro, um casal de amigos por testemunhas e isso valeu mais para eles do que as bênçãos de sete gerações.
Na volta enfrentaram novamente com amor e graça as dificuldades. As famílias espernearam em vão, depois cansaram. Depois aceitaram e por fim esqueceram essas pequenezas, sobretudo quando veio o bebê. Um anjo ruivo de parar o trânsito no colo da mãe mais linda com olhos de água-marinha, emoldurados pelo amor solar do pai. E depois veio outro anjo, moreno como a mãe para ressaltar olhos azuis profundos de safira. A mais iridescente representação de uma família harmoniosa, saudável, feliz.
Então Dê e Zib souberam desfrutar de sua felicidade. Viajaram muito, conheceram lugares lindos e exóticos, espalharam seus sorrisos pelos 4 cantos, por entre toda a gente que teve a sorte de se contagiar dessa alegria generosa. Dava gosto de ver. Aproveitaram seus dias pacífica e amorosamente, correram atrás de seus objetivos, amaram os filhos e eram aquele exemplo a ser pinçado em momentos de desesperança, quando a vida parece um lugar inviável. Podíamos sempre pensar: vejam a Dê e o Zib, eles são do bem e se deram bem, são felizes. E deveria ser assim para sempre, até morrerem velhinhos, de preferência dormindo um nos braços do outro, durante um cruzeiro na Nova Zelândia. Esse é, sem dúvida, o final que eu escreveria para eles.
Soube ontem por um anúncio no obituário do jornal: Zib foi assassinado há pouco menos de um mês, aos 40 anos, num cruzamento da cidade, numa tentativa de assalto ou sequestro-relâmpago. Os bandidos, covardes, não levaram nem o carro, deixaram dinheiro, chaves, tudo ali, junto com o corpo inerte, já sem o sol que o animava.
Levaram a luz dos olhos da Dê, a alegria segura de um par de anjos e um bom pedaço da minha fé na vida.
O mundo ficou mais escuro e eu não tenho uma palavra de água-marinha pra mandar para o Zib lá do outro lado, nem uma palavra de sol pra aquecer a Dê por aqui.
A vida é tão brutal que não há palavras. Quando encontrar minha amiga, vou abraçá-la em silêncio, em meio a uma constrangedora fila de pêsames. Quem foi que inventou os ritos fúnebres? Deve ter sido o mesmo espírito-de-porco que tem escrito a História. Perdoe a sinceridade, seja Deus ou quem for, mas eu não estou achando a menor graça neste enredo.

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