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O dia dos sem-namorado cai dos sonhos com um suspiro comprido. Sem beijo de bom dia nem nada de bom pra fazer na cama depois de acordar.
Começa com jornal e coisas importantes acontecendo no mundo, um café preto e uma esperança quase afogada no fundinho da xícara: será que é hoje? Mas isso ninguém vê, nem a lágrima escapulida que a mão rápida dispersa. A cena seguinte, exaustivamente ensaiada, já vem automática: olhar pra cima e respirar fundo, vestir o sorriso e ir à luta que com cara de palhaço é que não searruma ninguém mesmo.
O dia dos sem-namorado se demora em papéis e desktops e liga a tv na hora do almoço, pra distrair da falta de companhia. Evita as vitrines e os out-doors, repletos de corações e sorrisos felizes de quem nasceu um-para-o-outro. Passa direto pelo cinema com sua fila de pombinhos e dispensa, constrangido, a promoção bem-me-quer da operadora de celular.
O dia dos sem-namorado sai cedo e volta tarde, liga pros amigos, faz ginástica. Come fora, dá-se um livro – de pena, no fundo. É triste não ter a quem dar flores. O dia dos sem-namorado, se o quiser florido, compre as próprias; se o quer doce, encha a boca de bombons. Se romântico, abra um vinho e pegue um filminho piegas na locadora, daqueles que um namorado se recusaria a assistir. A maior vantagem de estar só é não ter que chegar a um consenso.
O dia dos sem-namorado é um dia como outro qualquer, só que mais longo. Pela simples razão de que ele deveria ser especial como, aliás, todos os dias. Pela falta que faz alguém pra surpreender minhas cores. A noite cresce e eu vou ficando esmaecida.
O dia dos sem-namorado termina como começou, num sonho – terra sem-fim da ilusão solitária, quase totalmente apartada do que sei pelo esquecimento e ainda assim tão minha.
E vai cair num suspiro comprido lá do outro lado, no próximo dia. Um dia normal, ufa, onde eu não seja um estranho ser que anda partido e sobrevive por teimosia, feito rabo de lagartixa.

Quando Isadora Duncan apareceu em Paris, Cecille tinha acabado de chegar ao topo. O ponto mais alto de sua carreira, um caminho de suor e dor, que teve início quando a Preparadora Ivanovna – que foi a segunda mais temível de toda a história do Corpo de Baile da Ópera de Paris – reparou que a filha da humilde camareira Josephine tinha os “pés perfeitos”. Olhou bem fundo nos grandes olhos amendoados da criança – – aquela magricela que inda há pouco dormia enroscada nas cortinas adamascadas da coxia – – e proferiu seu parecer mais como ameaça que bom augúrio:

– Deus concedeu-lhe a Graça dos pés perfeitos para o ballet. É um dom raro, que pode levá-la à frente deste grande palco! Mas não se iluda: talento não é tudo. Para chegar a ser uma estrela você tem que ser a melhor dentre as melhores. Para tanto, deve estar disposta a sofrer todos os dias de sua vida em nome da Arte. Você aceita o desafio?

Aquilo pareceu à pequena uma espécie de chamamento divino, uma revelação. Ela, que até então era apenas um estorvo para sua mãe, percebia que tinha um dom, que fora ungida com uma qualidade especial. Agora ela tinha uma vocação, um talento e, finalmente, um futuro…

– Aceito.

Tinha cinco anos nessa época. Ivanovna começou imediatamente a treiná-la, com a rigidez que lhe era característica. Era estúpida e humilhava as alunas, que freqüentemente choravam, protestavam e, não raro, desistiam. Mas Cecille suportava tudo com resignação. Se o sofrimento era o caminho da Arte, chegaria ao mais alto nível que seu corpo e sua alma pudessem aguentar.

Em poucos anos já era uma das melhores de sua geração, segundo a própria preparadora que, a despeito de sua secura, quase gostava da pobre filha da camareira, que possuía essa determinação incomum (além dos pés perfeitos!). Tinha lesões frequentes nos músculos e feridas nos pés, por excesso de treinamento, porém nunca interrompia os exercícios, sublimando as dores intensas com a perseverança -– esse vício dos fortes, dos raros, os que jamais desistem de um objetivo. Deus está vendo!, pensava ela, e abria, puxava, subia, saltava e girava, girava, girava…

Costumava treinar na primeira fila, porque sempre executava corretamente os exercícios, mesmo as seqüências mais longas e complexas – – memorizava de primeira. Esta qualidade foi percebida e admirada por todos quantos vieram algum dia a treinar com ela. Sua concentração imperturbável, a disciplina férrea e a obsessão pelo movimento perfeito ainda potencializavam a natural aptidão, de modo que jamais errava, mesmo nos ensaios.

Seu corpo todo desenvolveu-se em consonância com os pés. Cada uma de suas medidas proporcionava-se com as outras de modo ideal, como se projetadas por precisa engenharia divina especialmente para a dança clássica: seu tronco era esguio, os seios pequenos, os braços longos e suaves, o pescoço elegante encimado pelo rosto encantador, o belo sorriso, os olhos amendoados, os lindos e compridíssimos cabelos cor de mel impecavelmente trançados e presos num grande coque na altura da nuca. Sem falar nas pernas, admiravelmente torneadas, arrematadas pelos pés perfeitos.

Sua técnica era sólida, precisa, virtuosa. Sua abertura era impressionante; seus saltos, que não faziam o menor barulho no assoalho, eram apontados por Ivanovna como exemplo de leveza para todas as novatas. Seu arabesque inscrevia no ar uma curva perfeita, seus braços mantinham a angulação e o alongamento mesmo nos momentos mais difíceis. E tudo isso sem jamais perder a postura ou deixar de sorrir.

Ela tinha tudo para ser a melhor. Estava em franca ascensão nas linhas do corpo de baile e, na ocasião em que a excelente Marie-Therèse, já beirando os 30, abandonou a carreira para ter um filho, Cecille, então na exuberância de seus 18, teria assumido naturalmente seu lugar. Não fosse o azar de ter chegado naquele mesmo ano à companhia a menina-prodígio russa Olga Olenska, dois anos mais jovem, e treinada sob os rigorosos métodos do Teatro Bolshoi. Ela também tinha os pés perfeitos. Corria o boato – – e não sei se é verdade – – que seus pais, ambos bailarinos, exercitaram suas pernas desde o berço, e que seus primeiros sapatinhos foram sapatilhas de ponta, para que os ossos consolidassem na fôrma adequada.

Olga roubou para si a cena e o ambicionado posto de primeiríssima-bailarina, na temporada seguinte de Giselle. Cecille dividiria com ela o papel, mas faria as récitas menos importantes: o segundo dia, a matinée de domingo, as quartas e quintas-feiras. Não seria comentada pelos críticos nem vista pelas personalidades importantes, os formadores de opinião. E, de fato, ela dançou perfeitamente bem seu papel, recebeu muitos elogios dos colegas, mas passou despercebida para o público e a imprensa.

Paris não falava de outra coisa, todos queriam ver os saltos sensacionais de ‘ la Olenska’. A própria treinedora Ivanovna, já perto de se aposentar, parecia ter perdido a fibra, e rendera-se aos encantos de sua jovem conterrânea. Se não chegava a fazer elogios durante os ensaios, a observava com um ar embevecido, e jamais gritava ou fazia suas ríspidas correções. Cecille ficou enciumada, mas não era de se abater com as dificuldades, então meteu na cabeça que superaria Olga em todos os pontos, e provaria a Ivanovna e ao mundo o valor da formação francesa e dos pés congenitamente perfeitos. Prometeu a si mesma que, no ano seguinte, dançaria o papel principal na récita da estréia, e sua pobre mãe teria o orgulho de guardar para a posteridade um exemplar dos jornais, que trariam em letras garrafais: “Paris cai aos pés de Cecille Druot!”

Naquele ano ela treinou mais que nunca, aumentou de 8 para 10 horas sua rotina diária de exercícios. Estendeu em alguns centímetros sua já excepcional abertura, e perdeu mais 3 quilos, para que seu partner a suspendesse como uma pluma nos pas-de-deux. Cecille agora era mais-que-perfeita.

Olga por sua vez, como tantos prodígios meteóricos, parecia consumir-se em sua própria chama. Já durante a temporada, envolveu-se com Jean-Pierre, o jovem terceiro-violino da orquestra que, desde os ensaios, suspirava por ela, embora fosse casado e pai de um bebê de poucos meses. O tórrido romance, sem esperanças de consolidar-se numa tranqüila relação marital, assumiu a urgência das paixões proibidas, devorando as noites e a saúde da moça. Num dia em que ela estava particularmente abatida, teve uma queda espetacular ao aterrissar de um grand jeté, no solo do segundo ato.

– É preciso bem mais que talento para ser primeiríssima-bailarina do palco mais importante do mundo!… – pensou Cecille, que assistia a todas as récitas da rival. Mal conseguia disfarçar a satisfação. Sabia que era chegada a sua hora.

De fato, no ano seguinte, foi sua a Grand-Premiére: O Lago dos Cisnes, interpretando a protagonista Odette/Odile – seu papel predileto, pelo desafio técnico que representava. Ela teria a oportunidade de exibir seu virtuosismo ao realizar com a habitual perfeição a dificílima seqüência de 32 fouettés que, anos antes, alçara à fama a italiana Pierina Legnani. Cecille estava no auge da forma, estava pronta para seu grandioso destino!…

Rezou muito, com intenso fervor, para expressar sua gratidão, e até encomendou uma missa. Sua mãe, que não cabia em si, pagou uma novena e prendeu, no avesso do figurino, uma medalhinha do Divino Espírito Santo, para proteger a filha da inveja das outras moças.

A estréia foi impecável. Cecille esbanjou perfeição em cada fundamento: equilíbrio absoluto, sicronia precisa, extensão e leveza nos saltos, elegância no port-de-bras, maestria nos mínimos detalhes. O mais rigoroso crítico não seria capaz de apontar-lhe uma falha sequer. Sébastien, seu partner, cometeu um pequeno deslize ao fazer-lhe a base de um rond-de-jamb , motivo pelo qual ela quase tirou-lhe o couro na coxia, durante o intervalo, mas ela conseguiu contornar o imprevisto com tal destreza que nem Ivanovna percebeu.
No final, os aplausos duraram 12 minutos e meio, quase um minuto a mais que os da estréia de Olenska! É a consagração, pensou Cecille Druot em sua noite de glória. Mal conseguiu dormir. No dia seguinte, esperou ansiosa pela edição vespertina dos jornais.
Chegou enfim o pacote, com as letras garrafais:
Paris cai aos pés de Isadora!

…
Isadora Duncan, a americana? Não pode ser, …dizem que ela dança descalça, com os pés grotescamente flexionados, e é incapaz de um attitude! … O que ela tem, afinal, que arte é essa que qualquer criança pode imitar? Em que mundo nós estamos, para onde terão ido os séculos de desenvolvimento do ballet? Para a lixeira de um modismo!……

Os críticos podiam render-se às inegáveis qualidades de Olga Olenska, isso era algo com que ela podia lidar até como um estímulo, mas tecer loas a uma novidadeira… era revoltante, e profundamente injusto.

No entanto, Paris não falava em outra coisa. Isadora arrebatara os corações de público e críticos. Apresentava-se em salões e outros espaços não-convencionais, e sua dança livre arrancava aplausos por mais de trinta minutos, por dias seguidos…
E nem uma linha na primeira página sobre a gloriosa estréia de Cecille. Lá dentro do jornal, espremida num canto da página que estampava fotos de Isadora, a crítica à estréia do Lago dos Cisnes:

“…”… a técnica irretocável de Cecille Druot, se impressiona, não emociona. Cumpre sua função com a frieza sorridente dos que acreditam que a perfeição formal possa substituir a graça espontânea de um corpo feliz. Dos que não têm a grandeza da expressão autêntica, e nem a ousadia de arriscar-se ao erro em público. Uma interpretação artificial, desprovida de carisma, daquelas que a história tratará de encobrir sob o manto inexorável do esquecimento…”

”
Injustiça ou não, o fato é que o público, bem como a duração e a intensidade dos aplausos, foram decaindo a cada apresentação, sepultando, noite após noite, os sonhos de grandeza de Cecille. O último espetáculo da temporada ela dançou chorando, embora sem lágrimas, e mantendo, como sempre, o sorriso estampado.

Na montagem seguinte, Olenska, já curada de seu malfadado romance, recuperou o posto de estrela da companhia, no qual permaneceu por mais 15 anos, até voltar para Moscou, grávida de um trapezista cigano.

Cecille, – para quem dançar nunca fôra um prazer, e que só se importava em ser a melhor dentre as melhores, – teve que se conformar com a posição de segunda-bailarina, um lugar que, em si, seria uma honra para qualquer outra, mas que, para ela, era sinônimo de fracasso. Externamente, mantinha a disciplina e a postura de sempre, mas seu coração, já pouco caloroso, congelou por completo. Com o passar dos anos e a ascensão das novas gerações, caiu para os segundos-papéis.

Quando se aposentou dos palcos, aos 36 anos – antes de começar a fazer papéis de bruxas velhas e animais bizarros, como explicou à mãe – tornou-se preparadora, substituindo a gentil Mme. Geneviève, sucessora de Ivanovna que, para seu gosto, era muito frouxa com as novatas, comprometendo seriamente o nível técnico do corpo de baile.

Ao assumir a nova função, Cecille resgatou os métodos da russa: sua exigência sobre-humana, sua rispidez, seu proverbial mau-humor. A Preparadora Druot – – como ficou para sempre conhecida –- foi a única a superar Ivanovna no índice de rejeição dos alunos, e acabou por tornar-se uma lenda nos bastidores. Marcou profundamente toda uma geração que, a despeito da excelência técnica, teve os mais altos números de abandono da profissão. Quando alguém ria ou conversava durante os treinos, era implacável. Uma vez expulsou uma talentosa e falante bailarina, que deixou escapar uma gargalhada num ensaio geral:
–- Quer brincar de fazer ballet? Pois vá dançar descalça no olho da rua!
E acabou com a carreira da moça, sem pestanejar e sem perder um minuto de sono, nem mesmo quando todo o grupo veio pedir-lhe que desse uma chance à garota, que estava inconsolável e prometera emendar-se. Mas ela não era pessoa de voltar atrás em uma decisão.

Não casou nem teve filhos. Cuidou da mãe, que ficou cega e inválida, mas viveu para enterrá-la. Morreu aos 59 anos, dormindo.

No dia seguinte, foi cancelado o treino da parte da tarde, na Ópera de Paris, para que os integrantes do Corpo de Baile pudessem comparecer ao enterro da Preparadora Druot – cujos pés, no caixão, deformados pela artrite, eram uma caricatura grosseira da perfeição de outrora. Mas o rigor cadavérico não a traiu, e entregou-os à posteridade perfeitamente esticados numa ponta eterna. Sua mãe calçou-lhes, a muito custo, as sapatilhas daquela noite gloriosa. Isso pouca gente viu, porque a maior parte dos bailarinos preferiu dar destino menos funesto à rara tarde de folga.

Esta foi a história esquecida de Cecille, a bailarina perfeita, a quem Deus não concedeu a Graça dos pés felizes de Isadora.

Dias assim

Tem dias que eu me sinto vazia como uma bola. Aliás, vazia como um cubo, porque é um vazio com arestas. Um cubo opaco e denso obnubilando minha clareza. Um cubo pequeno onde eu não caibo, sufoco. Fico ali oprimida como assistente de mágico. Empacotada em meu vazio de chumbo que não deixa escapar um grito. Em meu cofre-forte de silêncio. Apalpando os estreitos limites da minha liberdade, as paredes grossas da minha dor.
Tem dias que eu me condeno à solitária sem direito a banho de sol. Arrasto corrente, me visto de listrado e marco os dias, semanas, com riscos de canivete na parede. Me julgo e me penitencio sem indulto.
Tem dias que a vida ganha muros altos, cores cinza. Limites, limites, limites até onde a vista alcança – e a vista alcança bem pouco. O próprio firmamento é um teto rebaixado, baixo astral, como se diz por aí.
Tem dias que são foda. Mas eu não nasci ontem, sabe? Já percebi que o encaixotamento produz uma curiosa ilusão de óptica. No espaço exíguo, eu pareço enorme, ocupo a quase totalidade do espaço, só dá eu lá dentro. E tudo que eu penso e sinto reverbera, ecoa, parece gigante. Minhas motivações, minhas vergonhas, meu sofrimento parecem ser tudo o que há – o mundo como um elevador enguiçado, espelhado por dentro, refletindo meu desespero ad infinitum. Eu no cenário por todo canto e no meio da cena, em foco. Exageros da perpectiva, puro teatro de espelhos. Tão autêntico quanto Konga, a mulher gorila.
Estou aprendendo a fechar os olhos, respirar fundo e perceber que há oxigênio bastante para mim e, se o espaço está apertado, tempos melhores virão. No dia da bonança, quando meu campo de ação se abrir, vou lembrar de dançar bastante para celebrar . Até lá vou dançando miudinho e sempre se pode cantar, mesmo no escuro. Com os pés e mãos vou deformando meu cubo, alargando para os lados, abaulando o teto como um baú. Meu baú de maravilhas boiando no mar à deriva, uma arca que resiste aos dilúvios. Onde minha alegria se preserva mesmo durante as tempestades. Um balsa que balança, vira, dá cambalhota mas não afunda.
Tem dias que eu me sinto plena como uma caixa a ser preenchida. Aliás, como uma bola, porque quando estou assim eu rolo. Deito e rolo.

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
(…)

Oração ao Tempo / Caetano Veloso
Sabe aquele filme tão chato que, ao fim de duas horas, você olha no relógio e só passaram 15 minutos? E aquela pessoa tão maravilhosa que quando você dá por si já é de manhã? Uma vida de felicidade dura um piscar de olhos e um instante de agonia se arrasta séculos. O que se prende na ampulheta é areia, o que se mede num relógio é vibração de quartzo, o tempo não fica em lugar nenhum além de uma impressão na gente. A gente, no final, também não fica e nossa memória, por boa que seja, um dia se esvai. Por importantíssimos que sejamos, imortais em nosso tempo, pereceremos como de resto tudo. Do que não seremos mais surgirá algo muito diferente, estranho ao que fomos ou desejamos. Quem sabe não é aí mesmo que permanecemos existindo, nos ratos de nossa sepultura, na flor que nasceu ali? No vento que dispersa nossas cinzas? (não sei quanto a você mas eu, por via das dúvidas, prefiro ser cremada, não tenho vocação pra rato)
O tempo não é um trem que passa, é o fato dele passar. Nem é, que ser é permanência e o tempo está sempre se deslocando. O tempo é a abstração de quem não está atento. Se você parar de pensar vai perceber o óbvio: o agora é tudo que você tem em mãos. Ele tem todas as possibilidades de vida e morte para você e o universo inteiro e no entanto você acaba de perdê-lo porque, no que tomou consciência, ele tornou-se passado e não está mais ao seu alcance modificá-lo. O tempo é não estar lá – é ontem, semana que vem, naquela época, inda agorinha ou nunca – e, ainda assim, é o lugar onde a gente vive, trabalha, ama, deseja, sofre. Somos cheios de tempos e contra-tempos, temperaturas e temporais. Perdemos tempo precioso tentando controlar o fluxo dos acontecimentos ou perseguindo riquezas e benefícios que talvez nem tenhamos tempo de aproveitar.
O tempo nos é dado de graça e pode ser facilmente perdido, gasto, aplicado, até vendido mas não pode, de jeito nenhum, ser comprado. Ninguém acrescenta, nem com todo o dinheiro do mundo, um segundo a seu prazo. O rico pode morrer mais bonito, com mais dentes, mais cabelo, mais gente chorando em seu velório mas, em seu dia, morre. Nem de véspera nem depois, não tem botão de soneca pra viver mais 10 minutinhos, é fim de jogo sem prorrogação. Talvez tenha o tal “replay” dos melhores momentos com o bolero de Ravel ao fundo como vídeo de casamento mas eu ainda não cheguei nessa parte. Fico curiosa pra ver, nos créditos, se vai aparecer o verdadeiro nome de Deus – a palavra, o hieroglifo, o ideograma redentor. Se não houver nada do outro lado, quero meu óbolo de volta. Tomara que eu consiga lembrar o telefone do Procon.
Tenho gostado de envelhecer. Com a idade aprendi a assoviar e a boiar. Que mais precisarei saber quando estiver no nirvana? Até lá tenho bastante tempo para esquecer, uma a uma, as lembranças e as expectativas que ainda me prendem à roda-viva das glórias e frustrações. Aos poucos vou me deslocando do centro do palco para a platéia, começo a ver meu trem passando de nada a lugar nenhum e o caminho, no final das contas, é o grande espetáculo. O tempo se faz em mim; só existe porque o percebo e, no afã de compreendê-lo, meço, divido, marco. Mas não pode ser feito por mim e nem pela minha vontade. Eu é que sou feita por ele, tenho contornos porque ele me dá limites, tenho substância porque ele me dá realidade. Para os gregos antigos, que sabiam das coisas, o Tempo (Chronos) era o pai de Deus (Zeus, pros íntimos). Talvez Ele também tenha que se conformar ao tempo. Talvez também sinta tédio, pressa, preguiça ou saudade, a Seu modo. Talvez reze para cada um de nós todas as noites, pedindo que nos iluminemos mais depressa, e nós não Lhe damos ouvidos porque estamos muito ocupados com nossa própria agenda e, afinal de contas, o universo pode esperar. Enquanto o nível espiritual da humanidade cai a níveis constrangedores, nosso senhor vai treinando sua Santa Paciência.
O tempo da espera é sempre o mais longo. O tempo da ausência é um silêncio, a mão suspensa em pausa. O tempo presente é som; se for beleza é música. O tempo distante é luz – memória ou imaginação, cinema, fotografia, impressões, reproduções, ilusão de óptica, miragem. Muita luz pode confundir, o silêncio ilumina a verdade como um embrulho.
Tenho alergia a relógios que não sejam de sol. Como ainda não inventaram um relógio-de-sol-de-pulso, não uso. Não me atraso mais do que a média, às vezes até me adianto. Busco mesmo a sincronia, arte para uma vida. Com sorte, chego lá a tempo.
* * *
Impressão minha ou as pessoas não gostam muito de ouvir falar em morte e finitude? Conheço gente que até se ofende com esse assunto, gente que fala “se eu morrer um dia…”. A esses, meus perdões pela desagradável lembrança. Já eu gosto do tema, acho fascinante e odiaria ser imortal. Eu nunca ia poder saber qual era o final do filme e ainda perderia os créditos. Ah, dá um tempo, essa eu não perco nem morta.

Eu, como toda pequeno-burguesa, faço o estilo honesta. Da única vez em que bati num carro estacionado, saltei do carro, escrevi um bilhete toda-fofa pedindo milhões de desculpas e deixando meu telefone que eu pagaria tudo sem problemas. (Porque eu NÃO tinha seguro, não tinha dinheiro pra isso. Mas isso eu não contei no bilhete, que a pobreza é digna mas envergonhada e o tal carro era importado – uma lanterna caríssima que me custaria meses de trabalho) Por sorte o cara não ligou, deve ter pensado que era trote, ou não quis se aborrecer já que seu seguro topo-de-linha cobria tudo. De qualquer modo, na situação contrária, os donos de carros importados não foram tão generosos comigo. Deve ser preguiça de escrever bilhete, ou esqueceu a mont-blanc em casa ou sei lá eu das ricas motivações mas, no dia em que, recém-casada, eu encontrei meu chevetinho recém-lanternado (primeiro investimento conjunto do jovem casal: vender a motinho dele pra reformar o chevetinho dela, não é lindo?) abalroado de jeito e com a frente toda amassada na porta da casa da minha mãe, eu sentei no meio-fio e chorei. Não havia nenhum bilhete. A porteira do prédio ao lado, num silêncio constrangido, continuou a varrer. Anos mais tarde ela me confessou, ainda varrendo, que viu quando a perua da cobertura – que, sendo uma só pessoa, possuía DOIS LAND-ROVERS – bateu no meu carro ao sair da garagem. Só não contou naquela hora porque eu não perguntei. O silêncio dos gentios instintivamente acoberta os poderosos. Como, após tanto tempo, o “crime” já estava prescrito, eu nada pude fazer. E assim os ricos vão ficando mais ricos e os pobres, mais pobres.
Eu devolvo troco errado mesmo sabendo que estou sendo roubada no preço.
Só tem duas coisas que eu não faço: devolver dinheiro achado, porque se eu perguntar “quem perdeu 50 reais”, todo mundo vai dizer “eu” e eu sou pobre mas não sou otária. Claro que se for muito dinheiro eu vou desconfiar. Vou achar que é uma pegadinha, ou que é dinheiro de bandido, vou ficar com medo e vou devolver, pra ver se a honestidade me protege. Então pra essa exceção valer eu tenho que achar até no máximo uns cem reais. Nunca achei nem dez. Tive um amigo (já falecido, que Deus o tenha) que achou no chão de uma boate uma pulseira de ouro com brilhantes. Vendeu e com a grana fez uma viagem maravilhosa que não poderia faltar em sua curta vida. Perguntado se não sentia culpa, ele que nem sabia ainda que sua vida seria curta disse “Quem perde uma pulseira de brilhantes está com a vida ganha. Eu tenho que ganhar a minha e, se a sorte me ajudou, por que não?”. Faz sentido. Mas semana passada deu no jornal que um garçom, muito mais pobre que o meu amigo, devolveu a pulseira de uma gringa milionária. Ganhou uma pequena gratificação, uma foto no jornal e deve ter ido pra casa todo pimpão. Vai morrer pobre e honrado, como a grande maioria desse nosso povo.
Eu tenho essa alma de pobre. Mas tem outra coisa que eu não faço: deixar guarda-chuva na seção de achados e perdidos. Porque todas as vezes que eu perdi um guarda-chuva e fui procurar na seção de achados e perdidos, ele nunca estava lá, independente do quão chique fosse o lugar. Ou culto – em universidades, perdi inúmeros. E nos táxis, ônibus… você levaria fé de encontrar seu guarda-chuva no achados e perdidos da SMTU? Nem eu. Meu compadre tinha uma teoria de que existia uma máfia de ladrões de guarda-chuva, porque todo mundo que ele conhecia já tinha perdido vários e não tinha encontrado nenhum.
Então teve esse dia em que eu estava num ônibus com meu filho (situação que, em si, já denota uma condição desfavorável, especialmente num dia em que começou a chover de uma hora pra outra e eu, sempre otimista, não levei guarda-chuva).
Eis que, ao sentar no banco, deparei-me com ELE pendurado na altura de meus olhos, na alça do assento da frente. Um guarda-chuva desses grandes e pontudos, de seda azul e bico dourado, mecanismo sólido e perfeito, autêntico design italiano. Nada mais justo na minha situação, sobretudo diante dos muitos espécimes que perdi, inclusive um italiano mesmo que foi bem caro mas eu não aguentava mais os chineses que viram ao contrário quando você mais precisa deles – esse eu perdi na mesma semana e fiquei pagando por três meses.
Eu perguntei pra todas as poucas pessoas do ônibus se tinham perdido um guarda-chuva e nem o trocador tinha visto nada, não havia qualquer sinal do legítimo dono, ou dona. Então, docemente constrangida, fiquei com ele pra mim e me tem sido muito útil. Penso que irei perdê-lo qualquer dia mas a vida sabe ser irônica. Outro dia a garçonete de um café correu atrás de mim meio quarteirão para devolvê-lo; já o deixei em banheiros públicos, casa de amigos, ele sempre retorna. Ainda não caiu em nenhuma seção de achados e perdidos mas chegará a sua hora. Se ele sobreviver a isto, terei então confirmado minha suspeita inicial: talvez este guarda-chuva não seja deste planeta, seja uma realidade paralela, sujeita a outras leis. Ou talvez seja o guarda-chuva da Mary Poppins. Ou talvez seja só a boa-sorte que acompanha os ricos me testando, me encorajando a flexibilizar os limites da minha ética.
Difícil foi explicar pro meu filho, começando com a teoria da máfia dos guarda-chuvas e tudo, porque insisto em transmitir os bons valores cristãos e não quero que ele pense que eu sou uma espertalhona adepta do “achado não é roubado”.
Ele boceja e diz ahã, enquanto olha a chuva da janela do ônibus. Pra ele não era impossível que aquele guarda-chuva maneiro tivesse se materializado ali para nós, portanto toda aquela explicação era uma digressão desnecessária, que estava interrompendo uma importante aventura do homem-aranha dentro daquele abismo azul cheio de hastes em que se pendurar e fendas em que se esconder que ele preferia retomar o quanto antes, e eu querendo que ele preste atenção a esse papo, e eu preocupada que ele não rasgue a seda italiana e não abra o guarda-chuva ali, entre as nossas pernas.
Tomara que ele não escute mesmo tanto o que eu digo e possa entender o mundo melhor do que eu entendo.
Resta a pergunta que não quer calar: pra onde vai tudo o que a gente perde nessa vida e ninguém encontra depois, pendurado por aí? Nossa infância, nossa inocência? O existir antes da culpa, dos direito e deveres, do preço de cada coisa?
Um milagre, a pureza alegre das crianças diante das agruras de um dia de chuva. Uma merda, o papel sagrado de educar. Tomara que eu não consiga fazer meu filho crescer tão cedo.

Mamãezinha querida

Mãe é aquela pessoa de quem a gente adora falar mal mas ai de quem concordar. Pois é, a minha é igualzinha. Só que ninguém tem uma mãe igual à minha (só meus irmãos, mas pra eles ela deve ser um pouquinho diferente).
A minha mãe sempre foi a mais bonita e a mais inteligente de todas as mães da escola. Tá bom, tinha aquela sueca de cabelos prateados e olhos azuis que talvez fosse tão bonita quanto. Agora, mais inteligente, você que a conhece (se não conhece leia abaixo, acima ou em algum lugar por aqui) sabe que não rola mesmo.
Então você está achando que eu era o sucesso da escola, aquela mãe esplêndida me esperando à saída, abrilhantando com suas evidentes qualidades – como uma auspiciosa promessa futura – a imagem pública de sua patinha-feia desengonçada e magricela.
Mas minha mãe não era de facilitar as coisas pra mim. Pra começar tinha o carro. Foram vários, claro, em muitos anos, mas eram sempre velhíssimos, cheios de ferrugem. Meu pai até que ganhava direitinho, eu acho, mas era coisa de estilo, mesmo. Eles já eram comprados velhos e só iam piorando com o tempo. As maçanetas penduradas como balangandãs, faróis caolhos, a tampa da mala amarrada com um barbantinho. Quando um desmontava de vez, meu pai jogava fora e comprava outro. No ferro-velho, provavelmente. O silencioso era considerado um ítem totalmente dispensável, de modo que o evento “lata-velha” nunca era discreto.
Depois, tinha o figurino. Você consegue imaginar um “kaftan” verde, bolsa gigante de palha, tamancos dr. Sholl, maria-chiquinhas e óculos Jackie O. na mesma pessoa? Pois é, mamãe sempre foi mesmo uma mente inspirada. Sabia como transformar a Catherine Deneuve na Regina Casé. E vice-versa também, verdade seja dita. Uma vez ela contratou um garçom pra um jantar que ia ter lá em casa. Passou a tarde com ele na cozinha preparando tudo, em seu melhor modelito amélia-em-fúria: camiseta sungada com buracos de cigarro, calça de moletom manchada, cara amassada com óculos fundo de garrafa sobre os resquícios da máscara facial de pepinos, bobs e lenço. Um mimo. Tudo pronto e ela subiu, tomou banho, soltou as madeixas douradas, pôs as lentes de contato, caprichou no make-up e envergou o pretinho-básico longo com uma fenda estratégica deixando entrever as belas pernas. Quando desceu, o garçom não queria mais atendê-la, onde estava aquela senhora que o tinha contratado? Ela teve que pagar adiantado pra provar que era a contratante e ele teve mesmo que admitir que a voz era igualzinha mas manteve até o fim da noite uma leve suspeita de estar sendo enganado.
Mas o fato é que eu sobrevivi à porta da escola e até à turminha pré-adolescente do clube-classe-média-alta que me fez, durante algum tempo, desjar com todas as forças ter uma mãe igual às outras, por que não? Que me comprasse roupas caras e me enfeitasse como uma boneca pra me exibir às amigas. Que fosse meio velhusca, meio careta, meio feinha e um tanto limitada mas tivesse um carro do ano cheirando a gleid sachê brisa matinal.
Hoje em dia eu sei que, se cada um tem a mãe que merece, Deus me tem em alta conta. Tirei a sorte grande, a sena acumulada, acertei no milhar. Quem quer ser uma boneca enfeitada? Quem suporta a brisa em pastilhas? Quem quer ser uma pessoa normal? Não seria eu se não fosse ela, do jeitinho exato que ela é. Ainda que eu tivesse nascido, não sei se teria resistido até hoje. Eu era tímida, queria ser aceita e não teria coragem de ser a primeira a quebrar os padrões. Mas provavelmente teria morrido sufocada pela camisa-de-força da normalidade. Escolha autênticas não são as mais fáceis e nem sempre são as mais lucrativas do ponto de vista social ou econômico mas, no final das contas, são as únicas que valem a pena. Minha mãe me ensinou, contra minha própria vontade, a ser eu mesma – e eu acabei gostando.
Por essas e outras é que eu digo: minha mãe, não tem igual.
Aposto que a sua é igualzinha: única. Ou não seria você quem é.
* * *
Já reparou que mãe é uma palavra que não tem rima? Só no plural. Mas como mãe só tem uma, o problema se mantém. Por isso nunca fiz pra minha mãe um poeminha que prestasse, e olha que ela bem merecia. Ser filho é isso, é nunca poder retribuir suficientemente o que recebeu de graça.
Estar vivo é ter tido mãe, é ter sido acolhido e expulso. É ter tido uma mulher pra amar e odiar e se culpar e se perdoar. Como se retribui a vida a alguém, com tudo o que ela tem de sofrimento e maravilha? Sendo bonzinho com a mamãe, comprando um presente bacana, escrevendo um bonito cartão? Tá, isso também ajuda mas acho que, no fundo, o que toda mãe quer mesmo é que sua cria sobreviva.
A teimosia da existência, também chamada de instinto de sobrevivência, é uma doença congênita transmitida pela mãe. Quando a gente está quase se curando – na adolescência e em outros momentos de crise – sempre aparece ela querendo inocular um reforcinho do bacilo: você almoçou, olha o casaco, isso são horas, quem é esse cara, você bebeu, fumou, usou camisinha e tantas outras desagradáveis versões do “como você está zelando pela sua preciosa vidinha?”.
Insuportáveis, todas as mães, tanto quanto a vida. Mas não se iluda, um dia a morte nos cura delas. Até lá, temos mais é que aproveitar o dom e agradecer, de todo o coração.
* * *
Aproveito pra fazer aqui a minha parte, pública e ostensivamente, já que tão raramente o faço na privacidade:
Minha Maria mais amada, mais até que a mamãe do céu, bendita sois vós entre as mulheres!
Eternamente grata por tudo tudo, sua filha-do-meio, pra sempre com os olhos grudados em você.

Se o Marcelo Anthony (é assim que se escreve, como Garotinho?) quer fumar maconha, isto é problema dele. Se fuma maconha aditivada, toma Magnésia Bisurada ou Atalaia Jurubeba, vai à missa aos domingos ou à casa da Mãe Joana – eu não tenho nada com isso. Com aquela calva incipiente, posso apostar que ele é maior de idade. Logo, a vida dele é assunto dele; não meu.
Mas, se o Dudu do Vidigal invadir a Rocinha e mocinho e bandido trocarem tiros no meio de gente que não escolheu participar deste filme, aí, já é um problema meu e da população do Rio de Janeiro.
Na verdade, não sei qual é o interesse das autoridades em ampliar o leque de proibições para em seguida negociar as exceções. Ou melhor, sei. E todos sabemos.
Um dos contundentes argumentos “atuais” contra a legalização das drogas é que os traficantes desempregados – até conseguirem outra atividade tão lucrativa – desceriam o morro e não haveria polícia para dar conta de tanto assalto.
Não creio que o desemprego dos “marginais da droga” preocupe tanto às autoridades. Parece que os que estão no “centro da droga” inspiram mais delicadeza do que a periferia.
Se a droga movimenta um dinheiro fabuloso no mundo inteiro, podemos admitir que parte significativa da população mundial se droga e não apenas o Marcelo Anthony – que deu mole e dançou; o Prof. Fernando Henrique Cardoso – que apenas experimentou; e o presidente Clinton – que provou mas não tragou.
Talvez outros atores, professores, presidentes; espectadores, alunos e eleitores consumam drogas ilegais. Se alguém quer comprar, alguém vai dar um jeito de vender; se alguém vende, algum incauto vai comprar. Não tem jeito. O único jeito é liberar e transformar este problema coletivo num problema individual. Quem sabe, começando por permitir a plantação doméstica da maconha (sugestão aos legisladores)?
Droga é uma droga? Claro que é. Mas ninguém conhece ao certo os mecanismos da drogadição. Nem os meandros da autodestruição. Difícil, falar de drogas e drogados.
Conheço um cocainômano radical que está um farrapo, apesar de ser jovem. Também conheci um alcoólatra de verdade. Este, morreu de beber; foi expulso da Aeronáutica quando ainda era tenente; infernizou a vida da família e com quarenta e poucos anos parecia um velho esclerosado, não conseguia dar dois passos.
Conheço também porristas notórios, que ficam uns chatos na segunda dose, dão trabalho aos amigos que os levam para casa, envergonham os filhos e vomitam em público. Disgusting. Mas, vão levando.
O resto dos consumidores de álcool – e o resto é muita gente, conto nos dedos os abstêmios convictos que conheço – acaba “administrando sua relação” com a bebida. E, apesar de um aumento preocupante do consumo entre os jovens, ninguém pensa hoje numa “lei seca”, que jogue na marginalidade um país inteiro. Elevando à categoria de pecado social o chopinho de fim-de-semana, o champagne dos brindes e o vinho da missa.
No entanto, o álcool é droga pesada.
Leis existem, em princípio, para defender a integridade e os direitos do cidadão. Mas, se formos pensar em proibir tudo que possa causar vício, sofrimento ou morte, pouco restaria de permitido.
Conheci três suicidas, todas mulheres, que se mataram por amor. Deveriam proibir o amor às mulheres? Conheço obesos infartados que comem chocolate contrabandeado mesmo dentro do hospital. Deveriam fechar a Nestlé? Conheço zumbis irrecuperáveis que passam suas vidas diante da televisão. Deveriam cassar a concessão da Globo? Alguém conhece alguém que não se destrua em alguma medida?
Cocaína, maconha e ecstasy – as principais drogas comercializadas pelos traficantes – alteram, sim, o estado normal de consciência. Se esta alteração levar o usuário a matar e família e ir ao cinema, puna-se o crime cometido e não o uso da droga que o provocou.
O crime é um problema social. O uso da droga, um problema individual.
Moro no Rio e vivo hoje numa cidade absurdamente perigosa. Se uma bala perdida me acertar, será uma injustiça porque não tenho arma. Escolhi viver na legalidade e não me envolver nem com polícia nem com bandido. Não quero atuar neste filme, os roteiros que me atraíram foram outros.
Não fumo maconha, não cheiro pó e não tomo ecstasy. Das drogas permitidas, sou franciscana com álcool e televisão, uso muito pouco e não gosto de açúcar. Lexotan, tomei uma vez na vida e dormi 48 horas. Achei bom mas não dá para viciar – é um nojo ficar dois dias sem tomar banho.
Porém…
Consumo enlouquecidamente um determinado produto cancerígeno da Souza Cruz. E, se um dia o considerarem ilegal, eu, certamente, vou marcar encontro na esquina com o traficante ou mesmo subir o morro atrás dele, apesar de ser cidadã respeitável. Usá-lo é um direito meu e ninguém me convence do contrário.
Sendo assim, qual é a sutil diferença entre mim e o Marcelo Anthony?

O sonho de Lenora

tritao.jpgA primeira vez que vi Lenora, ela era um homem. Um senhor que poderia ser seu pai ou até seu avô. Mas parecia ter havido um terrível engano ali, era o que ele me contava como um segredo que precisa desesperadamente ser revelado, ser gritado em praça pública e no entanto, por uma dessas escolhas da vida, havia sido sepultado sob a aparência sólida e absolutamente normal de um chefe de família aposentado.
Antenor procurou-me no consultório e, já na primeira sessão ao divã, contou sua triste história, que não vou reproduzir na íntegra. O que importa é que sua mãe não se conformava em ter um filho homem, dizia que o teria abortado se soubesse e, aproveitando-se das longas ausências do marido militar, criou-o como uma menininha, chamando-o carinhosamente de Lenora. Acrescente-se a isso uma infância vivida entre mulheres, em meio a imagens e notícias da Segunda Guerra – o espetáculo de horror e violência que parecia ser o destino dos homens em contraste com o fútil e harmonioso universo feminino, tão mais acolhedor.
Há mais coisa, sempre há muito mais coisa a dizer sobre alguém mas, com o que temos, posso continuar.
Ela só teve consciência de que era homem quando uma amiga mais velha referiu-se a ele como “bicha”. Foi pesquisar o que era mas não se viu nessa espécie de caricatura do feminino, cheia de maneirismos e exageros que não correspondiam à sua natureza doce e contida. Ela era uma moça suave como poucas mas, no fundo, sabia que era diferente. A natureza não lhe dera um corpo correspondente à idéia que fazia de si mesma.
Então compreendeu que, sendo quem era, só podia ser duas coisas: homem ou bicha. Escolheu ser homem até porque seu pai estava se reformando e vinha finalmente morar com a família. Junto com o pai vieram os hormônios da puberdade e a barba, os músculos, a voz grossa, as garotas. Sim, porque ele ficou um rapaz muito bonito e as mulheres adoram homens femininos.
Agora ele era Antenor e estava prestes a entrar para o exército. Hesitou. Chegou a formular pensamentos de fuga – tentar vida nova como mulher, bem longe dali, onde a vergonha do pai e o desprezo da mãe não pudessem atingi-lo.
Um dia bem cedo foi nadar no mar. Suas costas largas o levaram para além da arrebentação. Lá parou e ficou chorando, olhando o horizonte. As traineiras indo e vindo, um navio lá no fundo, tudo lembrava distância, afastamento; ele só queria ir embora.
Não foi. Voltou, tomou um banho frio e alistou-se nesta mesma manhã.
O exército foi uma pá de cal em sua sensibilidade feminina. Ele aprendeu a ser durão. Criou calo na alma, uma crosta dura e impenetrável que escondeu para sempre suas lágrimas.
Daí em diante foi homem: casou, trabalhou, teve filhos, ganhou um dinheiro razoável e foi muito, muito infeliz. Seu pai e sua mãe não o amaram mais nem menos por isso – pai e mãe não amam o quanto a gente merece mas sim o quanto podem.
Ele se perguntava se tinha valido a pena o sacrifício, achava que não. Estava deprimido, sentia-se velho e cansado. Tinha palpitações intermitentes, uma falta de ar crônica e sua claustrofobia estava piorando com a idade. Tinha pavor de morrer porque ainda não tinha sido verdadeiramente feliz. Pedia-me ajuda e eu não tinha uma cura para seu sofrimento. Não podia dar-lhe um corpo mais adequado, nem o amor de sua mãe, nem sua vida de volta.
Nesta noite eu tive um estranho sonho, do qual não participava senão como espectadora.
Vi Antenor no mar além da arrebentação, de manhã bem cedo, chorando e olhando o horizonte; vi os barcos de pesca que iam e vinham. Vi o que ele via.
Eis que surge um tritão. Belíssimo, pele e cauda dourados, os olhos também. Reluzia todas as cores do sol que se acabava de nascer. Nadava em torno dele como alegre delfim e o convidava a ir mais longe, bem longe mesmo dali. Ele foi.
Ao chegar a uma praia remota, Antenor era mulher. Lenora levantou das águas, exuberante, torceu a longa cabeleira ruiva e foi secar ao sol a escultura que tinha agora por carne. Assim ficou estirada, nua sobre a areia branca, até que adormeceu. Alguns pescadores que estavam por perto vieram olhá-la, em pouco tempo havia uma multidão de homens à sua volta, desejando-a, sem ousar tocá-la, temendo que despertasse.
Ao acordar, Lenora correu para o mar e procurou pelo tritão mas só pôde ver seu corpo dourado sumir lá longe, entre as ondas. Chamou por ele, implorou que voltasse mas só recebeu de volta um murmúrio longínquo, embora claro como água límpida:
– Não me espere, Lenora, viva sua vida. Um dia eu volto.
Vendo-se sozinha, ela percebeu que tinha um mundo a desbravar. Deu-se conta de que estava nua, vulnerável, exposta. Os pescadores, que antes a olhavam à distância, agora vinham ter com ela, faziam gracejos e queriam tocá-la. Estava assustada, eles eram muitos, a cercavam por todos os lados, os corpos suados e curtidos de maresia, peles salgadas, chegavam a machucá-la em sua sofreguidão, deixaram-na tonta com seus bafos a álcool e apertavam o cêrco, sufocando-a até ela desmaiar. Esse foi o início da movimentada e intensa vida sexual de Lenora, que foi a partir de então seu ganha-pão e muitas vezes seu prazer. Teve centenas, talvez milhares de homens. Gordos, magros, carecas, militares, traficantes, teve até embaixadores. Alguns eram mesmo lindos, uns poucos foram gentis, três ou quatro quiseram casar, mas Lenora sabia que estavam só de passagem. Todo dia, ao amanhecer, ia para a praia e ficava olhando o mar, à espera de seu tritão de ouro.
Assim passou-se uma vida e Lenora, como toda mulher, começou a murchar. Foi perdendo lentamente o viço da pele, a firmeza das carnes, o brilho dos cabelos. A clientela foi minguando e ela ajeitou-se, com suas economias, numa casinha de frente para o mar.
De manhã ia para a praia e ficava tricotando sapatinhos para seus muitos afilhados, enquanto lembrava, entre sorrisos, os amigos e amigas que fizera, as farras, as noites de diversão, música e sexo. Gargalhadas e champanhe em festas faraônicas. Ressacas em quartinho imundo de motel barato. Não se arrependia de nada. Mas lá no fundinho de sua alma ainda esperava o tritão e, com o rabo do olho, espiava o mar.
Eis que uma bela manhã sai do mar um homem. Um senhor de sua idade, com olhos dourados e doces como mel. Caminha em sua direção. Ela vê em seu olhar que é ele, não há a menor dúvida. Abraçam-se, beijam-se, trocam palavras carinhosas, juras de amor eterno. Choram juntos um mar de tristezas que já não sentem mais. Só a alegria do encontro, ainda que tardio.
Ela diz que ele lhe dá segurança e a faz amada como ninguém. Ele diz que ela é luz em sua vida, oxigênio para o seu espírito e o faz sentir-se um novo homem.
No meu sonho, Lenora e Antenor foram felizes para sempre. O par alquímico perfeito, Hermes e Afrodite enfim reunidos. E que nem a morte, essa tirana, os separe nunca mais.

Jogo de Damas

Inventamos desculpas rápidas que nos absolvem quando erramos na profissão, no casamento, no voto, e não encontramos perdão para os desacertos com os filhos. É que criá-los leva muito tempo. E não os criamos com o que fazemos – nossos gestos ensaiados para representar uma boa mãe (ou um bom pai) se perdem no longo cotidiano. Marcamos os filhos apenas com o que somos. O que é lamentável, já que podemos pensar em substituir atitudes erradas por outras, mais eficientes, mas continuamos a ser quem somos; para o bem ou mal dos nossos filhos.
Na semana passada, uma das minhas filhas – a do meio – escreveu neste sítio sobre a sua mãe. Passei a semana remoendo os laços tão estranhos que nos ligam às nossas crias.
Pensei em escrever uma Carta à Filha, não kafkiana, em resposta à coluna do Dia das Mães. Mas preferi transcrever o capítulo de um livro.
Anos atrás, escrevi um livro com uma filha, essa, a do meio.
Sinopse: “separadas por alguns meses, porque a mãe dava um curso em outra cidade, mãe e filha adolescente trocam e-mails enquanto jogam, por correspondência, uma partida de xadrez”.
Cada uma de nós escrevia um capítulo (uma carta), dava um lance da partida, e a outra deveria responder, compondo o livro.
Aqueles meses foram um pega pra capar, era ficção e não era, botamos nossa história em dia.
Como só a Christiana tinha Internet – sou relutante às modernidades – nossos textos eram levados de uma casa à outra pela faxineira comum, ou seja, mensageiro, a mais antiga modalidade da comunicação. Anterior ao correio. Estávamos, mesmo, mexendo em coisas muito velhas.
Em resposta à coluna da Christiana, um pedaço do Jogo de Damas. Que ela conhece bem porque o escrevemos juntas. Revide de mãe, é claro. E pedido de desculpas, pois sou apenas quem sou.
“… No Jardim de Infância você era a “repetidora”, o que causou alguns problemas. Uma vez a psicóloga mandou me chamar, a escola estava preocupada com a nossa estrutura familiar.
Nessa época você não dormia sem que alguém contasse uma historinha e seu pai não tinha memória para lembrar nem imaginação para inventar, me ligava aflito, quando você passava o fim-de-semana com ele, perguntando o que é que tinha acontecido mesmo com a madrasta e as irmãs da Cinderela, e você de olho aceso na cama, esperando pelo final.
Depois de esgotar João e Maria, Chapeuzinho Vermelho e o Gato de Botas, seu pai passou a desfiar histórias bíblicas (era mais fácil para ele mas você só tinha 4 anos!). Um dia tropeçou numa ponta solta de carpete, quase se esborrachou no chão, você caiu na gargalhada e a instrutiva história daquela noite foi a das filhas de Noé, que “mesmo vendo o pai nu e bêbado não riram dele, como os outros filhos, e ainda lhe deram uma manta para se cobrir”.
Não deu outra. No dia seguinte, na “rodinha das novidades”, você contou para a professora que nunca ria do seu pai quando ele chegava em casa nu e bêbado.
A psicóloga queria que você fizesse terapia para filhos de alcoólatras. Por mais que eu afirmasse que seu pai era abstêmio, não acreditaram. Eu dava detalhes: quando saíamos ele pedia milk-shake, eu é que pedia chope, e os garçons sempre colocavam o leite na minha frente e o álcool na frente dele. Podia ter muitos defeitos, até tinha, mas não esse – só bebia leite, o que para mim era um defeito, como continuar casada com alguém que come feijoada com milk-shake?
Aos 6 anos você era “líder”, gostava de espinafre e esmurrava os garotos da turma.
Aos 9 era “Maria-vai-com-as-outras” e telefonava mil vezes para Silvana, Fabiana e Luciana para saber com que roupa iam para o colégio, qual a cor do elástico do cabelo, se devia usar brinco ou não, tudo tinha que ser igual, os cadernos, a agenda, o tênis, a calcinha. Eu não acertava nunca e você chorava a cada presente que eu lhe dava, “não posso usar, ninguém tem uma mochila igual a essa”.
Aos 10 era “protetora de animais”, usava a camiseta da associação e trazia para casa gatos e cachorros abandonados, hamsters e tartarugas maltratados no play-ground, fora filhotes de aranha e “abelhinhas perdidas da colméia”. A casa fedia, por mais que eu mandasse a Nilza passar desinfetante de eucalipto no chão todos os dias.
Aos 11 você salvava os mendigos da porta do colégio e limpava a geladeira. Junto com a carne assada, o arroz e o feijão, ia o meu frango do regime e o iogurte dietético. Da casa do seu pai levava meias, cuecas, suéteres e, uma vez, duas gravatas italianas. Neste dia ele ligou muito bravo, nem te chamei, e, se pudesse, se divorciava de mim pela segunda vez.
Foi uma longa noite de debates, quando você quis trazer o mendigo que cheirava éter para morar conosco: “tão bem-educado, mãe, tem até o segundo grau, ficou assim depois que a mulher morreu”. Eu votava contra, você a favor; e o nosso democrático plebiscito sempre terminava empatado. Até que eu tive que instaurar a ditadura.
Quando fez 13 anos você entrou para uma academia de ginástica, queria malhar para ser surfista. Aos 13 anos e 2 meses abandonou a academia, deu as malhas para a filha do porteiro e foi fazer meditação zen. Aos 14 começou a fazer teatro, aos 15 continuou… o teatro está durando.
Não pára não … continua sendo Desdêmona, Miranda, Julieta… eu reclamo porque sou sua mãe e mãe sempre reclama, bolas, mas eu gosto. Gosto dessa bagunça em casa, do entra e sai, das minhas roupas divididas com o elenco e do meu batom que acaba numa tarde. Vou continuar reclamando e aplaudindo, sentada na primeira fila e dizendo para quem está do lado: – Está vendo aquela bonitinha, com laço verde nas tranças, vestida de Julieta? É a minha filha.
Gosto do seu jeito e do seu grupo, dos que fazem manifesto, teatro, às vezes são reprovados, tomam porres, enfrentam os padres. Podem não ser os filhos mais fáceis mas são os que fazem mal principalmente a si mesmos e não aos outros.
Vocês, como o resto do mundo, tentam equilibrar todos os dias o que têm para dar e o que esperam receber. Alguns, a maioria, correm atrás do que é bom para si, ainda que seja péssimo para os outros: são os competitivos, os que arrasam o adversário, os que se dão bem a qualquer preço. Estes talvez causem menos inquietação aos próprios pais – são os vencedores.
Seu grupo não se preocupa em se dar bem mas se ocupa em dar alguma coisa de bom, não lucra nada com isso mas tem um enorme prazer em fazer as suas peças, compor as suas músicas, escrever sua poesia – são os indispensáveis.
Tento botar seu pé no chão, às vezes tenho medo que você saia voando, caia lá de cima e se esborrache. Mas detestaria ter uma filha que vivesse só na terra, atolada no bom-senso.
Não fique triste, o sonho não acabou, é só o ano que está acabando. E no ano que vem você encontra amigos novos, a gente sempre atrai o semelhante. E vão invadir a casa de novo, e depenar o meu armário,
eu vou reclamar e vai ser de mentirinha, e você vai crescer parecida com a filha que eu sempre quis ter.
Hoje de manhã, enquanto guardava roupas e jogava papéis fora, pensei no que iria pedir quando o avião levantasse vôo, porque procuro sempre um lugar mais alto para rezar, no final do ano, nem que seja subindo numa cadeira, já que tenho a certeza de que Deus nos vê e nos ouve mas não habita entre nós, nesse mundinho podre, paira lá por cima. Como nem tenho uma religião mas me entendo com Ele e procuro seguir Seus mandamentos, queria aproveitar as alturas e fazer alguns pedidos, como todo filho faz.
Batalhar, sofrer, chorar, ter medos grandes, pequenas alegrias e nunca possuir a certeza de como será o dia de amanhã, é parte da realidade de quem está vivo, já me acostumei e nem peço para nós destino diferente – tenho pedido luz para te criar direito. Mas pensava num pedido único, definitivo, que resumisse o que realmente é importante, valesse para os próximos anos, até o fim da minha vida, e garantisse a minha felicidade.
Não consegui pensar nada de novo, só me ocorreu a reza de sempre, filha, o que peço a Deus todas as noites, desde o dia em que você nasceu: Ele pode me tirar tudo, eu vou esbravejar mas agüento, só não me leve você. E que a gente siga… com carinho, com raiva, com crises, com acertos e arrependimentos… MAS JUNTAS! Porque eu gostaria de ficar perto de você numa vida nova e em todas as outras vidas, se fosse possível.
Acho que amor é isso.
Mãe”

Além de verbete de enciclopédia, IAL é homem voltado para as coisas do espírito e observa filosoficamente o mundo enquanto acende o seu cachimbo Dunhill, operação demoradíssima e sempre executada com longos fósforos, jamais com isqueiros.
Amante da literatura, divide as épocas pelos gênios que engendraram; nunca menciona o século XIV, diz: na época de Bocaccio. O XIII é de Dante. O século XX pertence a Borges. E preocupa-se bastante com os caminhos literários que estão ameaçando o século XXI, estes tempos de Eros e Tânatos, como designa o presente, já que ainda não leu e talvez não leia nunca – o que lamenta bastante – o escritor que nomeará o século. Mas procura adivinhar para onde irão as letras quando já não estiver mais aqui. Falava-me sobre este rumo incerto, enquanto escolhia a entrada.
IAL é naturalmente refinado e pede um sauternes com pâté du Périgord. Não me reprova quando digo que vou continuar no uísque mas atentamente pergunta se eu gostaria, então, de alguns amendoins. Divagávamos sobre Eros já que a presença de Tânatos é uma obviedade, não gera boa discussão, e com este senhor deve-se sempre discutir porque é polemista nato e dá o melhor de si quando discorda. Afirmei que fazia fé no “eros” da literatura contemporânea.
Olhou-me desgostoso e, já que é adepto dos prazeres da carne, sugeriu um Steak Tartare acentuando o “e” final. Um Tartar poderia vir à moda inglesa – desprovido de determinada especiaria que mencionou mas me escapou – , o que comprometeria a receita clássica. Delicadamente quis saber o que li de erótico, publicado nos últimos quatro anos.
– Nada, na verdade. Mas procure na Internet que deve ter gente boa escrevendo sobre este tema grato.
– É o que tenho feito.
E fez a felicidade do somellier quando se decidiu por um Hermitage La Chapelle 1997. Que dividi prazerosamente com ele, já que só me recuso aos adocicados.
– Peço licença para mencionar apenas alguns títulos de contos eróticos da safra atual, já que o texto não permite que se avance mais do que três linhas e é deplorável indução à castidade.
Dos quinze ou vinte que desfiou, poucos podem ser reproduzidos. Não por moralismo mas por elementar bom-gosto, já que palavras voam e escritos ficam. Algo como:
” Swing em família”
“Minha filha também quis”
“Eu e meu pastor no escurinho do canil”
“A família buscapau”
“O que mamãe me deu de aniversário”
“A mangueira que apagou o fogo da minha filhinha”
– O que está acontecendo? – ele indagava. – Falta-nos imaginação?
– Temos a quota de sempre, eu acho.
– A geração do meu pai ficava doida com o strip-tease da Rita Hayworth; e Gilda só tirava as luvas. A minha ia ver Les Amants, do Malle, e tinha fantasias para um mês.
– As mulheres não podem tirar todos os véus; sábias são as orientais e não as mocinhas das capas de revista. Primeiro, tiraram quase tudo. Depois, tudo mesmo. Depois ainda, com gestos forçados que imaginavam sensuais, expuseram as partes mais recônditas. Não sobrou nada. Mas a imaginação precisa de alimento. E de proibições. Ninguém sonha com o permitido.
– Aí, só restou o tabu.
– É. Incesto. Zoofilia. E o que mais inventarem.
– E pensar que a visão de um tornozelo já provocou ereções.
– Pois é. O que é barato não provoca o desejo. Vai beber o que, depois do café?
– Pensava num armagnac. Topas?
Um sábio, meu amigo Senhor IAL.

O cara suspira fundo com ar de enfado e solta uma exclamação em alemão. Depois olha pra sua cara e diz “não é?”; você, que não entende vírgula de alemão, concorda no ato: “sem dúvida”. Vai discutir com um cara que sabe mais que você? Qualquer barbaridade que ele diga, se for em alemão, será pouquíssimo questionada. Tá bom, poliglota, você fala alemão. Mas deve ter alguma coisa que você não saiba, aramaico talvez. E sempre terá um chato para fazer uma citação em aramaico e te humilhar.
A incompreensibilidade é um véu que oculta facilmente um conteúdo pobre ou mesmo falso. Ela criptografa o malogro, tornando a contestação quase impossível. Porque assumir a incompreensão revela lacunas do nosso conhecimento que procuramos a todo custo ocultar. Concordar é tão mais simples, fingir que entendeu e dizer “sem dúvida”. Especialmente se houver uma massa de pessoas fazendo o mesmo.
É o que chamo de efeito “roupa nova do rei”. Você deve lembrar da fábula onde uma dupla de espertalhões vende ao vaidosíssimo rei um traje carérrimo e high-tech, cujo tecido teria a singularidade de só poder ser visto pelas pessoas inteligentes. A roupa, que nunca existiu, foi elogiada por todos quantos a não-viram, envergonhados pela constatação da própria burrice. Até que uma criança –- são sempre os tolos que ousam discordar -– denuncia a farsa em alto e bom som. Contagiados por tamanha espontaneidade, todos vão assumindo que não enxergavam nada ali. O rei, soberano também no orgulho, foi o último a admitir que estava nu.
Eu, que sou meio tola, sou do tipo que discorda. Nem sempre em alto e bom som, que é pra não ter muito trabalho, mas vejo que a maioria das autoridades que se exibem por aí muito garbosas de sua erudição estão é peladonas, com tudo balançando. Quanto mais pé-de-página, menos sobra de consistência, se for espremer. Quem sabe o que diz não precisa complicar. Ao contrário, pode ser claro e acessível. O que o manipulador oculta, buscando vantagens pessoais, o verdadeiro sábio revela, em benefício de todos. Naturalmente os embusteiros podem ter mais poder, dinheiro e adeptos que os sábios. Isso ocorre desde que o mundo é mundo e deve haver uma explicação bem complexa para tal fenômeno mas, na minha opinião, é uma simples questão de fé, na pior acepção do termo. Má-fé de quem “veste a roupa” de gênio, boa-fé de quem enxerga pano onde não tem.
O mal dos farsantes é que eles pelados não têm a menor graça e até podem chocar espíritos esteticamente mais sensíveis (vide reação à bunda do Gerald Thomas, tempos atrás). Como está faltando sabedoria legítima na praça, as pessoas estão loucas para ver trajes suntuosos em qualquer um que fale difícil e cite fontes obscuras. Que lhes dê argumentos para justificar as posicões mais tôrpes e egoístas. Que empreste a seus pobres discursos algum glamour filosófico. Pode ser sofisma, premissa falsa também serve, desde que brilhe. E, de preferência, que ostente a grife de algum pensador hermético de nome impronunciável pelo vulgo.
Você leu o que eu li?, pergunta o arrogante , para calar a petulância que o ameaça.
Não li não, que eu tenho mais o que ler, e ainda preciso de tempo para fazer outras coisas. Pensar, por exemplo. Em português. E assino embaixo meu próprio nome. Nome de mulher, que pobreza, e não sou nem phd. E a única citação deste texto é a fábula de Hans Christian Andersen (bom, pelo menos ele é dinamarquês, pensarão alguns).
Veja bem, eu admiro muitíssimo uma citação pertinente e esclarecedora, a riqueza vocabular, as idéias profundas e complexas. Minha implicância é com a forma enganosa, elaborada para iludir, vender um peixe podre sob o aspecto de um manjar. Percebo que a ignorância e a falta de noções rudimentares de lógica, ética e estética favorecem uma postura pouco crítica de boa parte da população, permitindo com isso a proliferação de ídolos ocos ou mesmo deformados. Estas aberrações do intelecto podem ser inofensivamente ridículas mas o pior é que, uma vez alçadas ao patamar de sumidades, podem influenciar um grande contingente de inseguros que buscam desesperadamente respostas e, não sabendo discernir por si, deixam-se seduzir pelo brilho falso da aparência como se fosse sinônimo de essência.
Se alguém estiver falando tão difícil que você não possa compreender, desconfie. Talvez o idiota não seja você.
Afinal, como já dizia o filósofo, asaftasardemdoem hemorroi das idem. Não é mesmo?

Ossos do Ofício

Coube-me a Sexta-Feira da Paixão.
Então, vamos falar um pouco sobre a paixão de Cristo, já que o tema está atualíssimo, ocupando mentes lúcidas e ferindo corações sensíveis, por conta do filme do Mel Gibson. No ano que vem não provocará tanta emoção, como não provocou no ano passado. Precisamos que o cinema ou a TV nos lembrem do que deve nos compungir.
A paixão – ou pathos, ou sofrimento – é um vínculo que se estabelece entre aquele que sofre e aquele que o vê sofrer, ou toma conhecimento do seu sofrer. Para alguns, o sofrimento gera antipatia. Para outros, simpatia; nos identificamos com ele. Nunca sabemos como o pathos atuará. O certo é que não lhe somos imunes.
As teologias estão repletas de sofrimento. Deuses e profetas são sofredores porque é preciso estabelecer um vínculo com a humanidade e o que temos em comum não é, por suposto, a felicidade, e sim o sofrimento. Santos e mártires tiveram biografias sofridas e cumpriram via dolorosa: raramente a vida alegre dá direito à santidade. Quando o destino não providenciava a dor, a auto-flagelação, o deserto, o jejum ou o cilício davam um jeito de garantir o reino dos céus e a veneração dos homens.
Limitar a jornada cristã ao padecimento físico é banalizar o Cristo no homem Jesus. Fazer um filme sobre Cristo com ênfase na tortura a que foi submetido – e as conseqüentes questões idiotas: quem foram os culpados? – é retirar o pathos da sua trajetória simbólica. Cristo não foi Cristo por ter sido o campeão do sofrimento. Em qualquer época ou latitude homens e mulheres condenados à tortura sofreram mais do que Ele. O que quer que lhe pudessem fazer terminaria ao pôr-do-sol porque ao pôr-do-sol começaria o Shabat – sua sessão de tortura durou algumas horas.
Todos nós – que vivemos em países onde a tortura foi institucionalizada – sabemos que na vida real não foi bem assim. A tortura durava semanas ou meses. Metódica. Científica. Aplicada com cuidado para que o torturado não morresse. Às vezes, se descuidavam e morria mesmo; mas não era essa a intenção, era mantê-lo vivo para que tudo continuasse no dia seguinte.
Torturadores, ao contrário do que mostra o filminho do Mel Gibson, são brutos mas não são burros. Não bateriam tanto num condenado porque seria humanamente impossível subir o Calvário com o lenho ao ombro e não pensariam, certamente, em carregá-lo num andor. Só o Filho do Deus poderia caminhar depois daquela pancadaria, não o Filho do Homem encarnado que Jesus afirmava ser. E, convenhamos, que só a possibilidade do corpo de Cristo ter os mesmos limites que o nosso estabelece o pathos com a Paixão. Se sentisse diferente, não nos identificaríamos.
Mas, neste ano da graça de 2004, estamos todos ligados ao que aconteceu na Galiléia há quase 2000 anos. A Paixão voltou a despertar paixões porque Hollywood a ressuscitou. E desta vez diferente dos filmes anteriores, em que a história bíblica era recontada como o que sempre foi e por isso nunca fez tanto sucesso: uma história sagrada, desvinculada do real, porque o território do profano é um e do sagrado é outro. Humanizaram Cristo, reduziram-no a pó – “quia pulvis es, ad pulverem reverteris”, fórmula adequada ao humano, não ao divino -; e Vieira já advertia que “não se medem pela mesma medida os decaídos e os alevantados”. É lamentável erro de raciocínio.
Assim, Gibson continua valendo pelo que sempre teve: um excepcional par de olhos azuis. Teve um belo orçamento também, para filmar o Evangelho à sua moda. Dinheiro consegue comprar bela fotografia, cenários, figurinos e um som impactante – tudo que seduz nossos sentidos e provoca emoção. Além de um sangue bastante convincente para expulsar da sala os estômagos mais sensíveis.
Se os olhos azuis, depois da Galiléia, se voltassem para o Cone Sul em busca da tortura cinematográfica e filmassem uma sexta-feira nos porões do Dops há uns trinta anos, com seios arrancados à alicate, tubos de PVC, ratos, baratas, carnes expostas e um som de arrepiar, talvez tivéssemos uma santa brasileira. Talvez as pessoas também saíssem enojadas do cinema e se discutisse a sério o sofrimento humano; não o divino, que não temos a menor noção do que seja.
A Paixão de Gibson é um grande espetáculo, como foi, na sua época, Guerra nas Estrelas, mas o avanço da tecnologia o tornará esquecível em poucos anos. A história é ótima, pena que não seja dele. Como pertence um pouco a cada um de nós, temos o direito e até o dever de malhar o seu roteiro.
Não estamos mais em tempos de Inquisição e podemos ser cristãos, como Gibson, embora desvinculados da instituição que tutela o Cristo. Como podemos ser brasileiros e discordar dos nossos tutores – a época do Brasil, ame-o ou deixe-o já passou -, podemos ser cristãos e discordar de Roma. Parece que Roma aprovou Hollywood.
Mas a visão de Gibson – diferente dos antigos filmes que seguiam singelamente os passos do Evangelho -, humanizou o Deus e não divinizou o Homem. Prestou um desserviço aos Dois. O realismo não consegue chegar ao místico, como o misticismo não dá conta do real. Devemos ser materialistas ao abordar a matéria e místicos quando tratarmos do sagrado.
Como dizia o próprio personagem principal: Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

(Mas não leve isso tão a sério. Quem sou eu para escrever tratados? Não sou filósofa juramentada e, o sendo apenas em sentido lato, não me arrogo a alcunha como outros tantos. Poderia dizer que sou psicóloga, atriz, mãe, mulher, brasileira e tal e coisa, mas isso bem pouco diz do que vai em mim. Se títulos não atestam a consistência de um pensamento, muito menos o farão os falsos ou enganosamente ostentados.)
Isto posto, vamos ao riso que, de todo modo, é o que nos apraz. Quem há de negar que o humor é o que torna a vida suportável? E já que me interessa a vida mais que as seitas da ciência, falo aqui como quem pensa mas, sobretudo, como quem ri. O riso é mais humano que o pensamento, prova disso é que é universal, enquanto que as filosofias geram sempre controvérsia.
A hilariedade congrega, faz gargalhar em uníssono gregos e baianos. Os bebês nascem sabendo rir, embora cientistas muito sérios afirmem que eles não sabem o que fazem. Mas o que é preciso saber para achar graça na vida? A maturidade, ao contrário, faz perder boa parte desta capacidade espontânea. A vida adulta nos dá motivos de sobra para franzir o cenho, como defesa ou mesmo para fazer aquela “cara de conteúdo” que expressa nossa adesão ao lado sério da existência.
A seriedade é a verdadeira negação do riso e não o choro, como se poderia pensar apressadamente. O choro é irmão do riso, tão universal e inato quanto, e ambos produzem um efeito levemente narcótico, já reparou?, aliviam a dor e “dão onda”. Só que o choro faz a gente ficar quietinho, esperando a dor passar e o riso nos deixa mais animados, relaxados o suficiente para enfrentar o problema com mais coragem. São recursos próximos, levemente diferenciados para atender a variadas situações.
O riso é social por excelência. Dificilmente rimos sozinhos; a coletividade, ao contrário, multiplica e potencializa o riso. Houve uma vez, numa cidade indiana, um surto de riso que afetou toda a população por dias e espalhou-se pelas aldeias vizinhas, preocupando as autoridades que, às gargalhadas, mal conseguiram despachar as medidas emergenciais que a insólita situação demandou.
O choro, por sua vez, é evitado ao máximo em público, especialmente pelos homens. É um descontrole no mínimo constrangedor. Pode ser lido como um sinal de fraqueza Pode mesmo ser uma vergonha terrível como a que faz, em I-Juca Pirama, o velho índio amaldiçoar seu filho (Sê maldito, e sozinho na terra/ Pois que a tanta vileza chegaste/ Que em presença da morte choraste/ Tu, cobarde, meu filho não és.) Mas o choro profundo e sincero é sempre transformador, pois que ao final o bravo e lacrimoso guerreiro tem seu valor reconhecido ([…]E à fé que vos digo:/ Parece me encanto/ Que quem chorou tanto /Tivesse a coragem que tinha o Tupi!)
E não é que a forma mais bela e universal de humor é justamente a que transforma a humilhação em graça? O chamado humor patético – de pathos, sofrimento. A comicidade do palhaço, cuja máscara facial representa o pateta – o emocionado, o que chora em público – com nariz vermelho, olhos inchados e a boca virada para baixo. O ridículo, que tem a generosidade de oferecer sua faceta mais íntima e vulnerável ao escárnio público. O que leva tombo, apanha, sofre de amor e não tem juízo nem vintém. Mas que, apesar de tudo, consegue rir de si mesmo porque no fundo é um artista, um acrobata, um ilusionista. Que vai sobreviver incólume a todas as quedas e infâmias para fazer tudo outra vez no próximo espetáculo. E quem sabe, depois de tirar a maquiagem, não é ele quem vai dormir com a bailarina? O senso de humor é uma arma de sedução poderosa.
Há outras formas de humor, não-patéticas e bem menos inocentes. Há as formas satíricas (vêm dos sátiros, aqueles homens-bode gregos), que se utilizam de referências sexuais ou outros temas-tabu e têm a importante função de liberar os conteúdos socialmente reprimidos mas podem facilmente descambar para o grosseiro, o gratuito e o apelativo. Não são, por exemplo, adequadas às crianças, fazem corar as virgens e os celibatários e podem chocar as mentalidades puritanas.
Temos também o humor ferino, sarcástico. Esta forma pode ser bem-sucedida com o público mas não tem a grandeza da auto-imolação. Oferece em sacrifício a imagem do outro e tira o seu da reta; se exclui do ridículo que aponta – e é tão fácil ver o ridículo no outro! Não há quem escape indene ao olhar de um cáustico-compulsivo. O problema de ser tão mau é viver no mundo horrível que daí se enxerga.
Claro que existe a ironia fina, destilada com elegância contra quem bem merece. Esta, convenhamos, é deliciosa.
Outra forma bem aceitável de humor maldoso é a ousadia do bobo-da-corte, que poderia achincalhar o fraco para agradar os poderosos – como fazem os covardes, que são pouquíssimo engraçados – mas aponta sua mira contra o próprio poder que o sustenta, desafiando-o a uma reflexão. Podem ser observações sobre as deformidades dos costumes e do poder que permitam amplas associações, como os bobos de Shakespeare, que conseguem manter, através dos séculos, a jovialidade e o petulante vigor. Nisso se aproximam do espírito imortal do clown, apenas saindo da esfera do sofrimento individual e assumindo a postura de auto-crítica social.
Ou podem ser ataques cirúrgicos, especificamente relativos a pessoas e fatos em evidência naquele momento. Alguns humoristas que “cutucam” os políticos e as celebridades cumprem essa função de “cronistas do aqui-agora”. O problema desse humor mais referenciado é que ele é datado e restrito – os fatos do momento caem rapidamente no ostracismo, e não são compreendidos por quem esteja fora do contexto. Não existe nada mais velho que o “casseta e planeta” da semana passada, assim como um esquimó não moveria um músculo da face ao assistir a uma cena do Macho Gracinha com o Lábio Assunção.
No entanto, Carlitos – o palhaço-vagabundo, com sua melancolia adorável – não perde nunca a graça. Vive ainda em nosso imaginário e viverá enquanto existirem pobreza, inocência e amor-não-correspondido – coisas de que a gente tanto se envergonha e que ele converte em poesia risível.
Nada é mais transformador que uma boa gargalhada, principalmente quando a piada é nossa dor mais funda. Chorar de rir da desgraça nossa de cada dia, essa hilária condição de ser humano num mundo cão.
Você já deu uma boa risada hoje? Um risinho à toa, que tal? Pra tirar ruga da testa é melhor que botox. Satisfação garantida ou seu sorriso de volta. : o)
* * *
Quer um bom exemplo de humor patético? Leia Primavera Eterna!

Limite

Tive um tio postiço que quando jovem fazia halterofilismo e chegava a levantar 99,400kg.
– 99 e 400 você levantava fácil?
– Fácil não era. Suava. Mas mantive a minha marca por muito tempo.
– E por que não chegava a 100? Ou ao menos a 99 e meio?
– Porque era o meu limite.
Ninguém gosta de limites. O limite é a fronteira, o confim, o ponto. É o que nos reduz, nos restringe. E nos estreita, impiedosamente.
Como todo mundo tem direito a meia dúzia de esquisitices, eu tenho as minhas 4 ou 5. Uma delas é jogar xadrez com o computador. Meu programa atende pelo pitoresco nome de “Genius” e todos os dias eu me sento à frente do gênio e começamos a batalhar. Assim como o tio halterofilista, também treino há muitos anos. Temos níveis para atuar que são chamados de “easy levels” e de easy não têm nada: levei um tempão para vencê-lo no nível 1 (ele é seriíssimo e não se distrai nunca).
Mas hoje, modéstia à parte, nos níveis 1, 2 e 3 ganho dele falando ao telefone ou passando esmalte nas unhas. Do 3 ao 9 tenho que pensar – cada vez mais demoradamente – mas há meses que ele não leva uma. O diabo é o nível 10.
Não gostamos de pensar em limites porque o grande limite é a morte. É no momento da morte que passamos de uma virtualidade para uma realidade, até a hora de morrer somos uma perpétua possibilidade. Através da série de escolhas e recusas da vida cotidiana modificamos a cada dia o que somos e o que somos hoje não é o que seremos amanhã, portanto não é o nosso ser real. Perseguimos a realização do ser enquanto temos vida mas só a alcançamos quando a morte vem colocar um termo à nossa busca.
Chegamos ao mundo plenos de infinitas possibilidades: Napoleão dizia que todo soldado trazia um bastão de marechal “dans sa giberne”. Parece que o imperador, entre outros predicados, era bem-humorado. Mas a época e as circunstâncias criaram milhões de soldados e só um Napoleão. A História reduz estas capacidades infinitas e pouquíssimas vêm a se efetivar. O que faria com Napoleão, Buda, César ou Maomé se tivessem nascido 50 anos antes ou depois?
Aquele que é verdadeiramente o nosso ser não é o que somos atualmente mas o que desejamos ser; só desejamos ser o que potencialmente somos. Na verdade, estamos sempre adiante de nós. E ainda não houve uma sociedade sobre a terra que permitisse ao homem cumprir sua potencialidade virtual.
Mas, enquanto não nos colocam o grande limite, vamos tentando. E alguns têm a consciência de que seu ser verdadeiro não está no presente – talvez esteja no futuro. Desconhecemos quem somos até que a morte venha colocar o ponto final nas nossas possibilidades e nos revele a nós mesmos.
Para que tivéssemos alguma realidade hoje, seria preciso que a vida fosse estática e nós imóveis; sempre parecidos com o que fomos. Isto é o contrário da vida, que é movimento, marcha, transformação, ou melhor, transmutação contínua. Mesmo para aqueles que se acreditam personagens de valor. Pretender se perpetuar como são, porque estão bem onde estão, subestimando a influência de eventos exteriores, da evolução ou da revolução – que é a evolução apressada – revela insuficiência de julgamento. É certo que tudo mudará.
Assim, ainda tenho alguma esperança não só de que as relações sociais se modifiquem, como de que ultrapassarei o nível 10. Como meu ser verdadeiro está no futuro, quem sabe um dia ainda não jogarei xadrez com o Deep Blue? Ou o Kasparov, que é quase a mesma coisa?

Pega na Mentira

Você diz a verdade
e a verdade é seu dom de iludir.
Como pode querer
que a mulher vá viver sem mentir?

– Caetano Veloso
Acho essa letra do Caetano uma pérola. Hoje estou no clima das citações polêmicas, repararam no título? (obra nem tão inspirada do Erasmo, não o de Rotterdam mas nosso Tremendão. Eu poderia ter usado “elogio da mentira”, ficaria mais culto, mais pomposo e mais cínico… não, fico com meu amigo de fé, mesmo. Os patrulheiros podem cair de pau, mas quem não gosta de Raul Seixas, Leminski e Saramago gosta do quê, afinal? Nesse caso não me incomodo que não gostem de mim também.)
Mentira, claro que me incomodo, todo mundo quer ser amado, a despeito das divergências estéticas. E nem estou tão interessada em defender minhas preferências musicais ou literárias, acho um saco ficar polemizando sobre isso. Mas quem não mente de vez em quando só pra passar uma impressão superior, ou mesmo pela razão fútil de proferir uma frase de efeito?A mentira filosófica enobrece a existência, imagina se a gente fosse confessar todas as mesquinharias que sente e pensa… mas cabe aqui uma importante distinção entre a mentira honrosa e a hipocrisia barata ou outras formas indignas de faltar com a verdade. É preciso alguma arte até para enganar o próximo. E muito principalmente para enganar a si mesmo.
Mentira não é coisa que se deva cometer o tempo todo – embora muita gente o faça – porque, como todo vício compulsivo, acaba por prejudicar a saúde. Os efeitos colaterais mais visíveis são nariz comprido, rabo preso, sorriso amarelo e baixa estatura moral (você não sabe que a mentira tem pernas curtas?).
Também não se deve mentir pra todo mundo. Mentir para o analista é jogar dinheiro fora. E para quem você ama, é jogar fora o próprio amor.
No entanto, mesmo nesses casos, certo grau de omissão é até recomendável. Não precisa dizer pro namorado que seu professor de ginástica é lindo, nem pro seu analista que ele tem mau hálito. Pior ainda se o seu analista é que for lindo e o seu namorado tiver mau hálito. A verdade pode ser uma forma requintada de maldade, quando usada sem critério.
E de todo modo, embora pareça objetiva e tenha mesmo este status enquanto categoria ideal, a verdade é sempre um ponto de vista. Portanto é entidade sujeita a tendências pessoais, ideologias, crenças e miopias várias. Acreditar na Verdade é mais pernicioso que a crendice. Com exceção de algumas seitas suicidas orientadas por psicóticos muito convictos que conversam com alienígenas, nunca vi alguém matar ou morrer em nome dos gnomos ou da chama violeta. Já a idéia do Bem está na raiz de todas as guerras da humanidade.
Eu fujo das covicções e persigo as lendas. Podem me chamar de ridícula, eu não ligo (mentira!). Minha realidade é mais bonita que a dos céticos.
Viva a mentira e a poesia que ela torna possível.
* * *
Elemental, meu caro Watson
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Inocentes fantasias são capazes de enfurecer certos espíritos racionalistas torturados. Um exemplo famoso é o das fadas de Cottingley. Em 1917, Frances Griffith e Elsie Wright, duas meninas inglesas de 10 e 16 anos, tiraram uma série de fotos em que posavam ao lado de fadas e duendes. As fotos foram parar nos jornais e geraram grande polêmica.
Sir Arthur Conan Doyle, que se havia iniciado em estudos teosóficos, interessou-se pelo caso. Estava estudando energia psíquica, a fotografia estava em seus primórdios e pareceu-lhe possível que as garotas tivessem registrado a matéria sutil que a Teosofia chama de ectoplasma. Esta energia estaria presente em todos os corpos vivos e também nesses seres nem totalmente densos nem totalmente espirituais chamados elementais – fadas, elfos, gnomos, ondinas e salamandras – e emitiria alguma luz, o que poderia sensibilizar os negativos em condições especiais. As meninas afirmavam que obtiveram das fadas, com quem brincavam todos os dias na beira do riacho, permissão para fotografá-las.
Verdade? Suponho que não totalmente, mas o fato é que Conan Doyle investigou o caso e ficou convencido da autenticidade das fotos. Publicou alguns artigos defendendo a história e foi alvo de ataques furibundos.
Não precisa ser nenhum Sherlock Holmes para perceber que as graciosas sílfides parecem recortes de papel. Mas precisamos lembrar que as fotografias foram tiradas por um par de crianças sem nenhum recurso de efeitos especiais. Além disso, as chapas ainda eram de vidro, caras e poucas, de modo que elas tiveram poucas chances de acertar. No entanto as fotos saíram todas lindas e o efeito ficou muito bom. Então, no mínimo, Elsie e Frances eram excelentes fotógrafas! Tinham inventividade, estética e muito senso de humor. E vamos combinar que Conan Doyle, como detetive, era um grande escritor.
Vi essas fotos pela primeira vez na revista Planeta, eu devia ter uns seis anos. Foi um impacto revigorante sobre a minha fantasiosa mente infantil, recém-esvaziada pela cruel revelação de meu irmão de que papai noel não existia. Deixemos as fadinhas de Cottingley seguirem seu caminho poético de devolver a magia à nossa vida densa e limitada.
Viva a imaginação e o mundo de sonhos que ela torna possível.
* * *
Semana que vem vou falar de realidade nua e crua, a vida nas ruas, sangue, suor e violência sob a ótica de um policial que arrisca a própria vida para defender a lei e a ordem.
Caiu, caiu, primeiro de Abril.

Coluna Coletiva

Achei que a última coluna do nosso Chefe merecia um repeteco e me dispus a escrever um pouco mais sobre pittboys e pittgirls. Mas leiam esta matéria que saiu há dias na AOL.
Assim, sugiro que a coluna de hoje seja aberta e coletiva, escrita nos comentários não só por mim mas por todos nós. Não é preguiça não, gente. É que – algumas coisas – preciso de ajuda para conseguir entender.
As loucas baladas dos paulistinhas endinheirados
Ecstasy, cocaína, maconha, champanhe, sexo grupal e muita arrogância. A reportagem da AOL acompanhou uma balada da Geração $, formada por filhos da alta sociedade paulistana.
Por Rodrigo Brancatelli
A estudante Nicole, de 21 anos, estará daqui a algumas horas desmaiada no quarto 231 do Hospital Alvorada, na zona sul de São Paulo, com a sua calça Gucci suja de vômito e com um cateter na veia por meio do qual ela receberá altas quantidades de glicose para rebater o efeito do excesso de álcool. Nicole mal irá se lembrar de, no espaço de horas, ter fumado dois cigarros de maconha, tomado um ecstasy na forma de coração e outro na forma das orelhas do Mickey Mouse, bebido uma garrafa inteira de champanhe Möet et Chandon e ter feito sexo com dois garotos que nunca viu na vida.
“Comigo tem que ser assim mesmo. Tudo aos extremos”, diz a garota, filha de um conhecido empresário do ramo têxtil. “Gosto de dar para um monte de caras, de misturar Prozac com champanhe, de cheirar cocaína até meu nariz sangrar. E não me importo com a sua opinião moralista típica da classe média. Tenho dinheiro suficiente para não me preocupar com você ou com mais ninguém. A minha felicidade está na minha conta bancária”, diz ela ao repórter enquanto se prepara para a balada.
Nicole faz parte de uma geração escancaradamente frívola e preconceituosa, formada por filhos de gente muito rica. É a “Geração $”, como eles gostam de se definir. Têm a vida inteira pela frente e nenhuma preocupação com assuntos que assombram outras pessoas, como falta de dinheiro ou necessidade de escolha de uma profissão para ganhar a vida. O que mais querem é curtir a juventude com o que acham que têm direito, incluindo drogas, sexo e uma boa dose de sentimento superioridade. Não há limites para eles. Escravos da estética, preocupam-se apenas com a próxima balada ou com a próxima compra. E a decisão mais importante que precisam tomar é qual dos cartões de crédito usar na hora de pagar a conta.
“Eu sou o tipo de pessoa que os pobres e a classe média odeiam porque posso torrar R$ 5 mil em um vestido para usar apenas uma vez e depois encostá-lo no armário”, diz Nicole ao repórter. “Não consigo ficar assistindo tevê em casa ou trabalhando em algum escritório estúpido na frente de um computador. Estou acima disso tudo. O dinheiro dos meus pais me possibilita curtir a vida sem preocupações e sem falsos moralismos”.
Enquanto fala da vida, Nicole manda o motorista do seu Mercedes preto se apressar. O relógio Armani no pulso, avaliado em R$ 2 mil, avisa que já passa das 23h e todos seus amigos devem estar esperando furiosos na frente da Disco – conhecida como a balada mais cara e restrita de São Paulo, no bairro de Vila Olímpia, zona Sul da cidade. É sábado à noite, e a noite de São Paulo nem imagina o que Nicole e seus endinheirados colegas vão aprontar.
“Demorei porque a besta da empregada esqueceu de passar a minha calça Gucci”, brinca a garota com os amigos ao descer do carro. “Definitivamente não dá para confiar em pessoas de cabelo pixaim.” Fernanda, filha de um banqueiro que mora no Rio de Janeiro e que mantém casa em São Paulo para temporadas, ri escandalosamente da observação da amiga Nicole. Além de compartilhar da visão do mundo, as duas são fisicamente parecidas. Morenas, baixinhas e superproduzidas. “Empregada é uma droga mesmo”, diz a carioca de 20 anos, vestindo um modelito exclusivo assinado pelo estilista Alexandre Herchcovitch. “Todas são ignorantes. É por isso que elas têm de ganhar salário mínimo. É o valor da suas mediocridades.”
Fernanda está acompanhada de mais três meninas que aparentam ter a mesma idade e dois garotos já mais velhos, de mais ou menos 25 anos. Todos têm pais ilustres – duas são filhas de empresários bem sucedidos, a outra é herdeira de um fazendeiro do interior paulista, o garoto loiro é filho de político. Apenas um deles é uma incógnita. Seu nome é Carlos, e sua origem nunca foi colocada em discussão pelos colegas. “Um dia apareceu do nada em uma balada, dirigindo um Porshe Boxter e com muitos ecstasys no bolso. Não precisou explicar de onde vem para ser incluído na turma” explica Nicole.
A fila na frente da Disco quase dobra o quarteirão, mas uma nota R$ 50 na mão do segurança é o suficiente para que Nicole e seus amigos a furem. A entrada custa R$ 70 para homens e R$ 35 para mulheres, mas eles desembolsam mais R$ 100 cada um para ter direito a entrar no camarote. “Somos VIP’s, merecemos tratamento diferenciado”, diz Fernanda, enquanto abre uma garrafa de champanhe Möet et Chandon – a primeira de sete que serão consumidas na noitada, ao custo de R$ 120 cada.
No camarote, fica mais fácil para Carlos disfarçar uma carreira de cocaína que prepara em cima de uma mesinha de madeira. Os amigos brincam que ele tem o nariz nervoso, não consegue ficar um dia sequer longe do pó. Fernanda percebe o gesto e corre para filar um pouco da droga enquanto Nicole, do outro lado do camarote, amassa a roupa cuidadosamente escolhida com um rapaz mais velho que acabara de encontrar. Dias depois, procurada pela reportagem da AOL, a direção da Disco diria que os clientes pegos com drogas ilíticas no interior da casa são colocados para fora.
Depois de duas horas e R$ 890 gastos em bebidas, o grupo decide deixar a balada e procurar algum outro lugar para terminar a noite. Ou melhor, para começá-la de fato. “Vamos para a minha casa, hoje não tem ninguém lá”, sugere Fernanda. “Podemos comprar umas bebidas, ligar para uns amigos e fazer a festa lá mesmo. Com quantas pessoas será que eu vou transar hoje?”
A idéia de Fernanda até que foi comportada para os seus padrões. Da última vez que convidou os amigos para ir até a sua casa no Jardim Lusitânia – uma mansão na zona Sul de São Paulo com três salas, sete quartos e duas cozinhas -, ela pagou três prostitutas e dois garotos de programa para animar a reunião. De outra vez, fez uma vaquinha e comprou 100 gramas de cocaína. Tudo foi consumido na mesma noite. Os amigos da garota contam que ela, numa das baladas que deu, fez sexo com três amigos de infância na piscina, ao mesmo tempo, enquanto os vizinhos viam e ouviam tudo.
São quase três horas da madrugada e as Pajeros, Mercedes e BMW’s começam a se enfileirar na porta do número 482. Todos da turma são muito parecidos – os garotos vestem camisa de algum estilista famoso e caro, Herchcovitch, Sommer ou Haten, e calça jeans igualmente exclusiva, mas que pareça estar bem suja. Já as meninas só usam preto e não desgrudam de suas bolsas Louis Vuitton abarrotadas de ecstasys, maconha e, eventualmente, camisinhas.
A festinha particular começa a esquentar com uísque 12 anos misturado com energéticos. Fumaça de charuto e música eletrônica tomam conta do ambiente. Para deixar as meninas mais “soltinhas”, os garotos preparam um drink especial com vodca, suco em pó light e comprimidos de ecstasy picados em pedacinhos microscópicos. Quando elas se derem conta, já estarão dançando coladinhas sem as blusas e dando beijos calientes umas nas outras para delírio dos caras.
Para a maioria delas, não faz a menor diferença saber se tomaram drogas misturadas à bebida porque a intenção é ficar doidas mesmo. “Essas garotas aí estão loucas para dar”, aponta Thomás, herdeiro de um médico famoso e amigo de longa data de Fernanda. “A única coisa que elas têm para fazer na vida é gastar o dinheiro da família. As mais novas, aliás, são as mais danadas. Eu, por exemplo, transei com muita menininha filha de ‘sei-lá-quem’ dentro do meu Civic ou em banheiros de baladas. Já ‘tracei’ muitas Lolitas Pilles por aí”.
Thomás se refere à escritora francesa de 19 anos, que chocou o mundo ao descrever tudo o que se passa no mundinho milionário de Paris no seu livro de estréia, Hell. A tradução em português chegou às livrarias do Brasil no final de 2003 e vem ocupando lugar de destaque nas prateleiras das livrarias. Nascida em berço de ouro e patricinha assumida, Lolita Pille passou boa parte de sua vida torrando o dinheiro dos pais nas lojas mais caras da capital francesa, desrespeitando regras de trânsito, enchendo a cara em hotéis de luxo e dançando até de manhã nas boates da moda.
Quando se cansou da farra, a garota escreveu 224 páginas denunciando a sua geração da forma mais crua possível. A galera endinheirada de Paris não perdoou. Lolita Pille passou a ser barrada nas baladas VIP’s. “A 200 km/h pelas ruas de Paris, onde não é bom caminhar quando estamos no volante, misturamos álcool com cocaína e cocaína com ecstasy”, escreve. “Eu sou um produto da Think Pink Generation. Minha crença: seja bela e consuma. Sou a musa do deus ‘Aparência’, sobre o altar do qual eu queimo alegremente todo mês o equivalente ao seu salário”.
Os relatos de Lolita poderiam muito bem ter sido escritos pela paulistana Nicole, pela amiga Fernanda, ou por qualquer uma das meninas que dançam e se beijam sem blusa na sala de estar da casa do bairro paulista de Jardim Lusitânia. “Entrei numa boate aos 14 anos e nunca mais sai”, confessa a escritora francesa em Hell, numa de suas muitas tiradas infanto-niilistas. “De qualquer maneira, o que fazemos é vergonhoso. (…) E daí? É você quem paga a conta? Enfim, por hora está bom para mim. Minha única preocupação é o vestido que vou usar hoje…”
O uso de drogas na mansão de Fernanda é tão disseminado que até cinzas de cigarro chegam a ser confundidas com cocaína – e cheiradas sem que ninguém note a diferença. Num canto da sala, três caras fumam maconha e dividem uma pedra de ice (droga sintética, derivada da anfetamina, que parece um cubo de gelo) sem se importar com a presença de um estranho, o repórter da AOL. Noutro, duas adolescentes que não aparentam ter mais de 15 anos cheiram um vidro inteiro de B-25, ou cloreto de metileno, mais conhecido como cola de acrílico. E isso sem falar nas cápsulas de efedrina, de efeito estimulante, oferecidas como se fossem balas de goma.
Nicole, então, já usou e abusou de tudo nesta festa. E mesmo assim ela ainda quer mais. Em uma só tacada, engole dois comprimidos de ecstasy que estavam jogados em cima da bancada da cozinha – um rosa na forma de coração e outro azul na forma das orelhas do personagem Mickey Mouse. “Tô bem, tô bem, ainda tô sóbria”, balbucia, pouco antes de tropeçar em uma cadeira e cair estatelada no chão.
Dois caras levantam Nicole e carregam o seu corpo praticamente inanimado para um dos quartos da casa. É o quarto dos pais de Fernanda que a essa altura está chorando copiosamente no banheiro, em uma crise nervosa causada pela cocaína. Nicole acorda e puxa os dois garotos desconhecidos para a cama, tira as calças e começa a fazer sexo sem se preocupar com os olhares curiosos dos que estão olhando pela porta aberta. O show não dura muito tempo – minutos depois, Nicole levanta correndo e tenta chegar até o banheiro. Em vão. Ela acaba vomitando em cima de um dos garotos, no piso de mármore. Vomita tanto que sai até bile.
“Sério que eu fiz tudo isso mesmo?”, perguntaria Nicole mais tarde, enquanto deixava o quarto 231 do Hospital Alvorada. O braço direito até doía de tanta glicose que foi injetada na sua veia. Com olheiras enormes, sua amiga Fernanda só tinha forças para responder afirmativamente com a cabeça. “Que saco! Eu sempre apago nos melhores momentos. Mas tudo bem, semana que vem tem mais. Fê, você tem certeza que não foi um plantonistazinho de merda que me atendeu? Porque esses residentes não sabem de nada, ganham uma merreca… Não posso ser atendida por um imbecil qualquer.”

Da série “cenas que gostaríamos de esquecer”:
Hoje eu paguei o maior mico da minha vida. Acabo de adquirir, no mercado de usados da internet, um laptop. Era um sonho de consumo – uma máquina de escrever portátil. Estou em plena fase “meu bebê”, achando ele lindinho, passando paninho no monitor, gravando musiquinha. A bateria dele tá meio fraca então de repente apagou. Normal, fui ligar na fonte só que – horror dos horrores – ele não ligou! Verifiquei a tomada, os plugs, abri e fechei várias vezes e nada. Liguei desesperada para o sujeito que me vendeu. Quando ele perguntou “tudo bem?” eu respondi, com a voz embargada e trêmula “Na verdade tudo mal. Ele simplesmente morreu. Já tentei de tudo e nenhum sinal de vida.” Depois que relatei as tentativas frustradas de ressuscitação, ele suspirou e fez a fatídica pergunta: “Você tentou o botão de ligar?”
* * *
Eu sobrevivi à minha ignorância informática num mundo globalizado pela única razão de que fui casada por muitos anos com um cara que entende tudo de computador – pelo menos se comparado a mim. Daí que eu me permiti cultivar um comportamento blasé com relação a assuntos tecnológicos em geral, já que podia pedir auxílio até para acertar o relógio.
Hoje em dia, separada, precisei aprender muita coisa na marra. Mas quem disse que a vida era fácil?
Eu passo vergonha e no entanto estou aqui, aprendendo a ser uma pessoa inteira e não mais a metade de uma laranja. Às vezes é difícil mas a solidão acabou se mostrando mais rica e menos assustadora do que parecia a princípio. Tenho gostado cada vez mais dela, acho até que ando exagerando. Na verdade não acho não, os outros é que acham, porque o isolamento parece um comportamento depressivo e nós vivemos numa sociedade maníaca, voltada pra fora, para o exagero: saia muito, compre muito, faça muito sexo. Isso é que é produtivo do ponto de vista econômico.
Mas a solidão pode ser muito feliz. Aliás, no que diz respeito ao auto-desenvolvimento, ela é dos estados mais férteis, só perdendo para os encontros grandes e verdadeiros – estou falando dos grandes e verdadeiros; um mau encontro perturba a solidão e não faz companhia.
É na solidão que a gente constrói nosso mundo interior e é ele que nos acompanha o tempo todo como interface (olha a metáfora computacional – vivendo e aprendendo) entre a realidade e a experiência subjetiva. Ora, se o meu mundo é rico, eu não vou querer consumir tanto, nem assistir qualquer porcaria, nem sair com qualquer um.
Pra ser bem sincera, preciso confessar uma coisa: estou apaixonada pela minha solidão, está páreo duro até pro príncipe encantado.
Não vou fazer aqui um libelo contra o relacionamento humano, muito menos contra o amor, mas olha o nível em que vivemos a maioria de nossas relações. Já experimentei o modelo do casamento por tempo suficiente para ter uma opinião segura, ao menos para a minha vida atual: a coabitação me parece uma promiscuidade desnecessária, somente justificável para fins reprodutivos. Como eu já tenho um filho maravilhoso, isto está definitivamente fora dos meus planos futuros.
Até mesmo um inocente namoro pode transformar-se num tédio se vocês se permitirem ver faustão juntos na casa da sua sogra num domingão de sol. Você vai sentir aquela angústia difusa, resultado da sensação de estar desperdiçando momentos preciosos que poderiam converter-se em um poema – ainda que sofrível – na leitura de um bom livro ou numa deliciosa, pessoal e intransferível soneca.
O casamento tende a transformar o amor numa espécie (das piores) de emprego público. Você começa empolgado, querendo mostrar que é diferente de todo mundo e não vai se corromper. Mas aí começa a ver que seu lugar é seguro e em seguida vêm os primeiros abusos. Uma falta aqui, uma displicência acolá, as pequenas mágoas e frustrações se acumulando como pilha de processos na mesa da repartição. Se deixar rolar, daqui a pouco tá largando o paletó na cadeira e dando umas voltas por aí. Claro que tem o afeto, o companheirismo e tal mas a rotina pode ser perniciosa, fatal mesmo para o amor.
Não pode querer ter estabilidade no emprego. Tem que viver a escolha do amor o tempo todo, ter a coragem de se recolher de volta a si no momento de viver as próprias dores. Compartilhar o que é bom. O que é ruim, chatinho, cri-cri, cada um vive o seu; o amor não é lixeira. Há que se preservar a beleza do encontro, manter o respeito pela própria solidão e pela do outro. Viver o amor e poder estar só, ter esse trânsito, sem apegos ou cobranças.
Este é o meu ideal romântico, no momento. Ainda não encontrei a fórmula para viver, na prática, uma relação plenamente livre e saudável mas pretendo testar algumas hipóteses experimentais que tenho em mente, assim que encontrar a cobaia ideal. Não estou aceitando ratos nem cachorros; gatos, pode ser (fotos para a redação). Outros bichos serão considerados desde que não grudem nem sejam venenosos. Dá-se preferência aos que possam voar ou, no mínimo, enxerguem longe. E que sejam limpinhos.
Estou muito exigente? Pode ser, mas não faço por menos. A todas essas vou muito bem, só como nasci.
Ainda mais agora que já sei ligar o computador sozinha.

Sedna

Descobriram um novo planeta nos últimos dias e o sistema solar não termina mais em Plutão – estende-se até Sedna.
Preciso saber mais sobre Sedna porque a simbologia de cada novo planeta descoberto “descreve” o que está germinando no momento da descoberta. O que sei até agora é que Sedna é uma deusa dos innuits, um povo esquimó. Foi dada em casamento a uma ave gigante e levada em seu bico para um penhasco. Tentando fugir do monstro caiu ao mar e poderia ter sido salva pelo pai que vinha visitá-la. Mas, com medo da ave predadora, seu pai lhe batia com os remos nas mãos quando tentava subir na canoa. Com as mãos esfaceladas, Sedna morre afogada e passa a proteger as focas e as baleias. É uma deusa que tem raiva dos homens, principalmente do pai.
A mitologia sempre utilizou os “sete astros sagrados” para descrever funções humanas. O céu visível terminava com Saturno, os planetas além da sua órbita foram descobertos com telescópios e, durante milênios, Saturno simbolizou o limite, o fechamento do sistema. A vida simbólica terminava em limitação.
Urano foi descoberto no século XVIII, em 1781.
O Séc. XVIII foi chamado O Século das Luzes e os “iluministas”, como Voltaire, Rousseau, Montesquieu, definindo com novos conceitos os homens e as leis, foram os “anunciadores” de Urano e os precursores ideológicos da Revolução Francesa de 1789, reunidos numa obra comum, a Enciclopédia. Filósofos, escritores, médicos, engenheiros, colaboraram nesta obra gigantesca que reuniu o pensamento do século. Orquestrados por Diderot, os enciclopedistas professavam diversas opiniões políticas mas eram contra os privilégios de casta, o regime absolutista e defendiam o Terceiro Estado, a representação popular. Todos se uniam contra a Escolástica e o domínio da Igreja sobre o espírito humano. Criticaram todas as instituições e tradições do seu tempo, foram perseguidos como inimigos do regime e da Igreja, muitos foram presos e tiveram suas obras queimadas mas construíram uma obra que influiu poderosamente sobre a Revolução de 89 e erigiram o “reinado da razão” em todas as áreas do conhecimento. A publicação da Enciclopédia antecedeu, de alguns meses, a descoberta de Urano e presidiu a Revolução Francesa e a Revolução Americana, a Declaração dos Diretos do Homem e o ideário de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Trouxe uma nova concepção para o indivíduo: o fim da ascensão estabelecida por direito divino. Foram guilhotinadas as cabeças coroadas e a burguesia assumiu o seu papel de classe dominante. Independente das suas origens, o indivíduo uraniano surgido no séc. XVIII podia aspirar ao poder – antes reservado à nobreza – desde que amealhasse capital.
Urano é o Céu sem forma, a fertilidade ilimitada, o caos criador. Depois de castrado mitologicamente por seu filho Saturno, “reaparece” nos céus em pleno séc. XVIII, quando o poder estruturado saturninamente ao longo de milênios culminava no absolutismo. Com Urano, surge um novo estágio simbólico “no mundo de cima” para interpretar o “mundo de baixo” e retorna o impulso prometeico de distribuir aos homens o que era privilégio divino: o poder passa dos reis para as assembléias, dos nobres para os “sans-culottes”, da metrópole para as colônias.
Este é mais um mistério fascinante – como o céu desenha com antecedência o que depois vai se manifestar na terra.
O que chegou, com Urano, foi um novo conceito para o indivíduo: uma nova definição para a humanidade de cada um de nós e para as leis que regulam as relações entre os homens. “Todos os homens nascem livres e são iguais perante a lei” é tão óbvio hoje para nós. Mas, para que esta Declaração de Direitos fosse imposta e assimilada, muito sangue foi derramado.
O céu se manifesta através da palavra e da veiculação de idéias. Os dois maiores líderes da Revolução francesa, Robespierre e Danton, morreram impedidos de falar. Uma rouquidão silenciou a voz de Danton na Assembléia e dias depois ele foi guilhotinado. Nas vésperas de ir para a guilhotina, Robespierre levou um tiro no maxilar e não falou mais. A veiculação de idéias, a abolição da censura e o falar livremente são requisitos indispensáveis à cidadania desde a descoberta de Urano e Urano é o primeiro símbolo a dar significado explícito ao coletivo.
Descoberto em 1846, Netuno, o deus dos mares, governa tudo que se afasta do real, do material: o irracional, os sonhos, as drogas, a imaginação, o escapismo, a anestesia, a dissolução no todo.
O conceito netuniano de “todo” vai se modificar a partir do século XIX e passar a descrever também as “massas”.
No ano da descoberta de Netuno, aparece na Europa a obra do filósofo e economista Pierre Proudhon – O Sistema das Contradições Econômicas (itálico, por favor) ou A Filosofia da Miséria(it), onde são preconizados o aperfeiçoamento e a reforma do capitalismo emergente para pôr fim à miséria por via pacífica e assegurar a prosperidade de todos sem luta de classes ou revolução social. No ano seguinte, Karl Marx publica A Miséria da Filosofia e sustenta que a verdadeira causa da miséria das massas é a opressão do trabalho pelo capital; mas que, no seio da sociedade capitalista, cresce e se organiza uma classe nova, o proletariado, que sepultará o capitalismo e construirá uma nova sociedade. A condição para a emancipação da classe trabalhadora – dizia ele – é a abolição de toda e qualquer classe: numa ordem social em que não haja mais classes nem antagonismos de classes, as “evoluções sociais” deixarão de ser “revoluções”.
Às vésperas da Revolução de 1848, Marx e Engels publicam o Manifesto do Partido Comunista e seu programa implica na abolição da propriedade privada dos meios de produção e na instauração da propriedade coletiva, o que tornaria possível o “livre desenvolvimento do indivíduo e o florescimento das ciências e da cultura”. O apelo que encerra o Manifesto, “Proletários de todos os países, uní-vos”, traduz o caráter internacional do movimento. O internacionalismo proletário, divulgado por toda a segunda metade do século XIX, prega a solidariedade internacional dos trabalhadores do mundo todo – por oposição ao nacionalismo burguês – na luta pela paz e pela democracia.
Bem, a União Soviética já se dissolveu e não vou fazer aqui uma discussão capitalismo versus socialismo, só quero lembrar o momento histórico em que Netuno foi descoberto.
No séc. XIX começamos a ver a organização de algo novo – as “massas”. Elias Canetti, no seu livro Massa e Poder, diz que a massa tem regras diferentes das regras dos indivíduos que a compõem. É uma entidade própria e não a soma dos seus componentes. O advento de Netuno introduz as grandes massas e regras que ainda nos surpreendem.
A organização comunitária, surgida com a Comuna de Paris, contemporânea da descoberta de Netuno, revive a comuna primitiva que existiu entre todos os povos, na sua fase arcaica de organização social. Na comuna primitiva, os instrumentos, a terra, a habitação, eram propriedade comum da coletividade, da horda ou do clã. A produção era comum, o produto da produção era dividido em comum e não havia classes nem Estado. Com o desenvolvimento das forças produtivas surge, na sociedade primitiva, a primeira grande divisão social do trabalho e a propriedade privada engendrada por ela. Com a separação das profissões e a propriedade privada, a comuna primitiva é destruída e desaparece definitivamente, dando lugar à sociedade de classes, à escravidão e ao feudalismo.
Milhares de anos depois, balizado pelo aparecimento de Netuno no céu, reaparece o conceito de organização comunitária e propriedade comunal: todos os países socialistas reviveram esta forma de organização social enterrada há milênios. O indivíduo não conta, conta o conjunto dos indivíduos, o coletivo: este é o grande processo netuniano que todos vivemos.
Desde que deflagrado, como o processo uraniano, passamos a incorporá-lo e a vivê-lo em vários níveis; não há uma só forma de manifestação netuniana, há várias: dos grandes movimentos político-revolucionários (em que as massas tomam o poder e se tenta a abolição das classes) até à psicanálise (em que se tenta o acesso ao inconsciente, um todo indiferenciado que convive com as pontas de iceberg conscientes que manifestamos), às drogas (que rompem as barreiras organizadas do eu individual), aos grandes movimentos de massa (enchendo shows e estádios para se divertir, dançar, orar, ou se juntando para saquear e agredir). Netuno simboliza tudo isso.
Vivemos um século e meio de poder das massas como nunca houve igual na história da humanidade: a comunicação de massa; os ídolos da massa; a cultura da massa. A massa cria e derruba com a maior facilidade. É a globalização.
Quando Plutão é descoberto, temos o terceiro filho de Cronos aparecendo para reclamar seu reino: os deuses dos céus, dos mares e dos infernos deveriam reinar sobre a Terra, assim foi feita a partilha do mundo entre os filhos de Cronos.
Nesta partilha coube a Plutão o reino infernal – o Hades. O deus do Hades era tão temido que não pronunciavam o seu nome, chamavam-no de Hades (que era o seu reino) ou então por alguma alcunha: Plutão era um pseudônimo cerimonioso para aplacar este deus indesejado – quer dizer o Rico (desta raiz vem a palavra plutocracia e suas correlatas: dominação dos que têm dinheiro).
Plutão foi descoberto em 1930. E, assim como não podemos dissociar Urano das revoluções burguesas do século XVIII e Netuno das organizações socialistas do século XIX, também não podemos deixar de associar Plutão ao surgimento do nazismo. Logo depois do incêndio do Reichstag e sua conseqüente prisão, Hitler assume o poder em 1933 e, desde então, não é mais através de uma “guerra” que as transformações se processam. É através da descida aos infernos.
A partir da descoberta de Plutão, não temos mais a morte como contraponto necessário ao processo de transmutação que é o viver. Temos a fissão do átomo. O átomo – o não divisível – se rompe e a energia liberada é maior do que qualquer outra sonhada até aquele momento. Plutão tinha, realmente, saído dos infernos e passeava pela terra: a destruição ganhava um novo símbolo e surgia o que já foi chamado de “banalização do mal”. Depois de Dezembro de 1942, com a fissão do átomo, a vida passou a necessitar urgentemente de uma outra definição.
Em 1945, para acabar com o nazismo e com a mortandade de seis anos de guerra, para se opor à destruição, os Estados Unidos lançam a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki. O mito de Plutão se cumpria e o deus dos infernos fundava o seu reino na terra.
E agora, no século XXI, descobrem Sedna. Não é uma deusa do panteão grego e talvez seu nome seja mudado para manter a tradição. Mero palpite. Mas a estranha coincidência que preside os planetas – que significam peregrinos -, os deuses que lhes atribuem e acontecimentos históricos que materializam o significado simbólico destes deuses, talvez permaneça.
Sedna parece ser uma deusa zangada com o poder do masculino. As deusas femininas podem ficar quietas por muitos e muitos séculos, a energia feminina é preguiçosa. Mas quando começam a matar seus filhos elas acordam e a “ira lunar” é maior do que qualquer outra (vide Medéia): elas se destroem e destroem tudo que têm para se vingar. O símbolo do Islã é a lua crescente.
Mas pode ser também que a vingança de Sedna seja apenas contra o pai. Não passa despercebido o número de jovens que estão assassinando os pais, rompendo o tabu do quarto mandamento.
Pode não ser nada tão grave, pode ser apenas o feminino reivindicando o poder e Sedna condenando as mulheres – já que protege as baleias – a regimes de fome até o século XXII. Faltam-me dados para raciocinar.
Aceito subsídios e sugestões.

Sou das pessoas mais crédulas que eu conheço. Acredito em e.t., deus, gnomo, primata-aquático, atlântida. São coisas que, se não existem, deviam, então acredito e ponto. Só não creio na Santa Igreja Católica e, assim como Pilatos no Credo, não sei o que estou fazendo aqui – neste planeta inacreditavelmente violento. Como diria Dundas, devo ter mau carma.
Agora, custa-me crer que um ser humano possa, voluntariamente, mandar pelos ares um trem lotado de proletários e outros esforçados que cedo madrugam e se espremem entre uma e outra estação do inferno urbano para bater ponto nas fábricas, escolas, repartições; pondo a lenha viva de seus corpos na caldeira que move, dia-após-dia, esta nossa diabólica engrenagem. Pessoas reais, de carne e osso, com uma história, muitos sonhos e poucas posses, por isso sacolejavam num trem de subúrbio àquela hora da manhã, na esperança de tempos melhores, mais confortáveis e bem-dormidos. Estão carbonizadas, em pedaços ou sobraram atônitas, chorando de impotência sobre os trilhos retorcidos.
No creo en brutos, pero que los hay, los hay.
Pra mim, isso não tem nada a ver com os separatistas bascos. Al-qaeda? Que nada. Isso é coisa do capETA. Ele pode estar olhando pra você agora e pode nem ter cara de muçulmano, quem sabe até tem olhos azuis. Deve ser rico e parecer um príncipe, certamente tem um séquito a fazer-lhe a côrte porque o poder gosta do mal tanto quanto o mal gosta do poder – não por acaso costumam andar juntos. Por serem assim importantes, os príncipes das trevas sempre foram indivíduos acima de qualquer suspeita e sempre cometeram suas atrocidades em nome da Verdade, do Bem, da Liberdade e da Família (a deles, á claro).
Vá-de retro. Que Alah, Oxalá, Jeová nos protejam. Nosso amado e estropiado Jesus Cristo, mais disputado em campanhas de marketing do que Zeca Pagodinho.
Osama nas alturas? (Ele está no meio de nós)
Cruz credo.
Parem o mundo, que eu quero descer antes de chegar no fim da linha.
* * *
Só por curiosidade reproduzo aqui letra do profeta Raul Seixas. Lembrei da estrofe, fui olhar na íntegra e fiquei passada. Impressionante, inclusive o horário do trem! Especial atenção à bomba na última estrofe. São Raul também corrobora minha tese do mal com cara de bom moço.
TREM DAS SETE
R. Seixas
Copyright Warner/Chappell Music Br
Ói, ói o trem
Vem surgindo detrás das montanhas azuis
Olha o trem
Ói, ói o trem
Vem trazendo de longe as cinzas do Velho Aeon
Ói, já é vem
Fumegando, apitando e chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem
Não precisa passagem, nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando
Tá chegando na estação
É o trem das sete horas
É o último do sertão
Ói, ói o céu
Já não é o mesmo céu que você conheceu
Não é mais
Vê, ói que céu
É um céu carregado, rajado, suspenso no ar
Vê é o sinal
é o sinal das trombetas dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus
Deslizando no céu entre brumas de mil megatões
Ói, ói o mal
Vem de braços e abraços com o bem
Num romance astral
Amém…………..
* * *
Nada de novo sobre a terra
Desde que o mundo é mundo
Nova farsa pra mesma história
Novas figuras no mesmo fundo
Lutando a próxima batalha
Da mesma infindável guerra
Da morte contra a memória
Do verbo contra o abismo
Da arte contra a miséria
De mim contra mim mesmo
* * *
Errata:
Não adianta rever o verso.
O universo é que está do avêsso.

Maleus Maleficarum

Ontem fui a um sarau literário em que só havia escritores – não vi leitores – e a inteligência estava no ar, como Chanel número 5 em festa de grã-fino. Cada escritor era uma ilha, cercado de escritores por todos os lados.
Como sabem, escritores são seres inteligentíssimos dotados de faces expressivas, já que todos vivem torturados pelo grave problema de como expressar seu mundo interior. Neles, nenhum gesto é gratuito, como nenhum adjetivo o é. Seus sorrisos refletem tolerância filosófica ou desdém e menoscabo, suas palavras significam no que dizem como no que calam. Sóbrios no trajar, raramente se exibem – qual bigode gentil, retorcem seu talento.
Mas não quero cá fazer uma coluna social porque um escritor só concorda em tomar conhecimento de fofocas quando quem as relata é Proust. Fui contratada para linhas mais modestas e o preâmbulo é apenas uma desculpa porque as escrevo com sono, quando hoje já é amanhã.
A dona deste sítio me recomendou que falasse de Tarô, já que vamos estudá-lo juntas a partir da semana que vem e eu sou a cronista esotérica, o Chefe responde pelo esporte, Dr. P fica com as amenidades, as duas novas colegas ainda estão definindo seu perfil e se não houver ordem na botica a editora fica doida.
O problema é que o Tarô é uma iniciação gnóstica, a gnose andou muito mal falada na última semana, conhecido filósofo desceu-lhe o malho – literalmente, o maleus maleficarum – e eu deveria começar por uma introdução à gnose, à alquimia, à cabala, mas bocejos repetidos me impedem e não consigo pensar de boca aberta, me imponho certa compostura quando penso.
Vou lembrar apenas que o Tarô é uma caminhada simbólica e estudá-lo é estudar os passos de qualquer caminho. Não precisamos aproximá-lo somente das jornadas solenes, como a vida, podemos aplicá-lo a projetos mais simples, como iniciar um romance ou um regime. O que quer que se faça, começa com o primeiro passo, o primeiro passo é o Arcano 1 e arcano quer dizer mistério. Mao (o Tsé Tung) já lembrava que uma caminhada de mil passos começa com o primeiro e ele era um especialista em grandes marchas. Este primeiro mistério é conhecido como O Mago – aquele que caminha.
O Mago começa sua caminhada com o pé esquerdo, se começasse com o direito seria um falso iniciado. A direita corresponde à razão e ao pragmatismo, a esquerda é a paixão. Vida é paixão e somente a paixão provoca a ação. Assim, tudo que começarmos – racionalmente – com o pé direito, está fadado ao fracasso.
A devoção, o sacrifício, como também o crime, são paixões. Sem paixão o mundo pára e o sentido original da palavra paixão não é exatamente arrebatamento amoroso – é sofrimento. E aqui temos o fundamento do primeiro arcano: não há movimento sem um sofrimento que o preceda, a felicidade é paralisante. Qualquer processo se completa em 22 passos, cada um deles um mistério, decifrá-los é uma iniciação gnóstica.
Embora esta reles introdução não esclareça quase nada, prometo ser mais didática nas próximas semanas e meus passos iniciáticos tomam agora o caminho do leito. O contato direto com a inteligência cansa muito.

Nos tempos do Imperador Amarelo, numa aldeia às margens do Rio Lo, nasceu a pequena Ch’ien-Li, prematura e muito amarela, mesmo se comparada à sua gente, ou ao próprio Imperador.

Temendo pela vida de seu bebê, a boa Sun- K’an implorou ao marido que fosse consultar o santo-sábio K’en-Tsé, que vivia isolado na Montanha do Oeste e dominava o Oráculo das Mutações.

O Sr. Ch’en teve que empreender, em pleno inverno, a árdua peregrinação até a morada do eremita. Lá chegando, foi recebido sem surpresa por um ancião que sorria muito com poucos dentes, e nada dizia.

Após ouvir o relato do homem, o sábio levantou-se e buscou lá dentro da cabana um grande casco de tartaruga, que lançou ao fogo. Acompanhou com estreitos olhos e grandes orelhas atentas cada menor estalo, cada transformação provocada pelo calor, cada rachadura que se abria. Assim ficou toda a noite, em desperta contemplação, até a fogueira se apagar, quando os primeiros raios púrpura já despontavam no oriente.

K’en-Tsé então examinou a carapaça carbonizada para decifrar sua escrita.
Aos primeiros sinais, levantou a sobrancelha esquerda, deixando o Sr. Ch’en em grande agonia. Parecendo não crer no que lia, foi buscar suas varetas de caule de milefólio. Após longuíssimo ritual – suplício eterno para um pai ansioso – o sábio ergueu por fim a sobrancelha direita.

E foi assim, com todas as muitas pregas de sua venerável fisionomia puxadas para cima pela admiração, que ele vaticinou:

– Não morre tão cedo, mas seu destino é muito incomum. Trará desgosto e humilhação à família. Tempos depois, virá um grande sábio do Leste para transformar em bem todo o mal que ela há de provocar.

E mais não disse.

O Sr. Ch’en ficou desolado. Desgosto e humilhação para a família? Ele não merecia isso, cumpria todos os ritos e oferecia, apesar de suas poucas posses, generosos sacrifícios aos deuses e aos antepassados!… Mesmo sabendo que viria o tal sábio ao final, isso não parecia muito animador, uma vez que o estrago já estaria feito.

O pobre homem virou-se, cabisbaixo, e tomou o caminho para descer a montanha. O Mestre chamou-o ainda e entregou-lhe um pequeno disco de jade polido, vazado ao centro, preso num fio de lã vermelha. Disse que amarrasse ao pescoço da menina, para firmar seu destino.

A descida, pela aflição que o acometia, pareceu ao Sr. Ch’en ainda mais penosa que a subida. Ele estava intrigado: afinal de contas, o que é que aquela garotinha poderia fazer de tão grave?

Ah, pensou ele, corando, deve ser daquelas que têm a …porta-de-jade…em chamas! Então era esse o significado do amuleto, uma proteção contra a luxúria… ele tivera uma prima-bisavó assim, e as mulheres de sua família levaram 3 gerações pra se livrar da má-fama e voltar a conseguir bons casamentos. Algumas pessoas antigas da aldeia ainda lembravam das histórias de K’un-Tui, a bela, a louca, a destruidora de lares, que surpreendia os homens nas plantações e os deitava ali mesmo, para que satisfizessem seus exuberantes e insaciáveis desejos. Os homens já não conseguiam mais trabalhar, à espera de suas visitas intermitentes. Houve fome e escassez naqueles anos, e um alto consumo de vinho de arroz. As leis diluíram-se, os clãs foram ameaçados pelo desregramento da volúpia. Até que algumas senhoras de família perderam a linha e a tocaiaram numa noite de lua cheia. É o que dizem. Seu corpo de deusa nunca foi encontrado.

Tais eram os terrores que assombravam o Sr. Ch’en quando chegou em casa e deu com a pequena lombriga amarela, enrolada em pobres panos. Mesmo custando a crer que tão triste figura pudesse um dia vir a provocar tal celeuma, não ousou duvidar das palavras do Mestre K’en, e pôs-lhe o talismã no pescoço. Depois de relatar à esposa o que ouvira na montanha, o Sr. Ch’en retirou-se a um canto, pensativo, deixando-a a chorar copiosamente, debruçada sobre a garotinha que, em seu colo, dormia.
Pela manhã, o Sr. Ch’en comunicou sua decisão:

– Não amarraremos seus pés!

Sun-K’an esboçou uma reação mas, pensando bem, assentiu. Acreditava-se que o estiramento muscular provocado pela deformação dos pés tornasse a mulher mais satisfatória do ponto de vista sexual. Pés bem pequenos e torcidos indicavam feminilidade, e eram atraentes aos olhos masculinos. Não amarrar os pés de uma menina era quase uma condenação ao insucesso na corrida matrimonial mas, diante da perspectiva da desonra, esta parecia uma boa alternativa, uma indução ao recato.

Assim cresceu Ch’ien-Li, com seus enormes e estranhíssimos pés normais.
Talvez por força do amuleto, ou pela excessiva soltura dos pés, ou talvez pelas dificuldades do parto prematuro – foi o que pensou sua mãe, ao tentar encontrar uma explicação – Ch’ien-Li aderiu sem dificuldades a uma vida casta, mas revelou-se um tanto incapaz: simplesmente não aprendia as coisas como as outras crianças. Até os cinco anos, foi de uma mudez constrangedora, não ensaiava nem o tatibitate.
Quando rompeu o silêncio, saiu-se logo com esta:

– Por que o céu?

Passado o espanto, todos caíram na gargalhada. Nunca tinham ouvido nada tão estúpido e sem sentido. Esta foi apenas a primeira de longa série de tolices; ela não parou mais de fazer perguntas idiotas, uma atrás da outra. Queria saber do cego “é bonito aí dentro?” e do velho ‘quanto tempo falta pra você ficar novo outra vez?”. Sua mãe não sabia onde enfiar a cara.

As risadas foram dando lugar à censura, quando ela já não tinha idade de ser tão parva. Na adolescência, tornou-se retraída. Quando começou a fazer perguntas embaraçosas sobre o próprio corpo, sua mãe mandou pensar mais e falar menos. Ela procurou seguir o conselho materno mas, às vezes, deixava escapar alguma. Uma vez, durante os importantes preparativos para a festa de ano novo, ao adornar o altar dos Sábios Veneráveis, perguntou em alto e bom som:

– Por que as mulheres sábias não estão no altar?

Sua mãe apressou-se em repreendê-la pela blasfêmia, onde já se viu colocar mulheres junto aos Veneráveis? Mas o mal estava feito. À hora da festa, toda a aldeia já sabia da ignorância de Ch’ien-Li, que desconhecia as diferenças entre homem e mulher. Tal confusão revelou-se novamente em sua infeliz resposta a um improvável pedido de casamento.

Lá pelos 14 anos, contrariando as expectativas, Ch’ien-Li atraiu a atenção de um bom rapaz, que quis casar-se com ela, a despeito de seus modos estranhos e seus pés compridos. Seguindo os costumes, dirigiu-se primeiro aos pais dela, que estavam a um passo de esquecer a agourenta profecia. Tendo obtido permissão, foi perguntar à jovem se aceitava desposá-lo. Ao que ela, na falta de uma certeza, respondeu com a pergunta:

– Se você fosse eu, e um rapaz assim como você lhe pedisse em casamento, o que diria?

O rapaz não entendeu muito bem mas, na dúvida, ficou ofendido. Como é que ele, sendo homem, poderia ser cortejado por outro homem, ainda que fosse ele mesmo? Calou um silêncio magoado e foi-se embora sem oficializar o contrato. Ch’ien-Li suspirou, talvez aliviada.
E assim perdeu sua única oportunidade de viver uma vida normal.

Tendo ficado solteira e sendo, portanto, um fardo, procurava ajudar em casa e dar pouca despesa, mas percebia a decepção que causava a seus pais o fato dela ser assim como era.
Um dia perguntou ao pai:

– Por que não me amarraram os pés?

O pai, que já andava exasperado e voltara a pensar no oráculo, desabafou:

– Para que você não arruinasse a família. Mas em vez de luxúria, acometeu-lhe a estupidez crônica, o que vai nos levar para o mesmo buraco… não adianta lutar contra o destino!

Ch’ien-Li viu o pai chorar pela primeira vez.
Depois desse dia, não foi mais vista; simplesmente desapareceu. Sua mãe adoeceu, seu pai arrependeu-se amargamente de suas palavras mas, com o tempo, conformaram-se, e a verdade é que a vida correu mais tranqüila desde então.
Somente muitos anos mais tarde, já perto de morrer, Sun- K’an voltou a mencionar o nome da filha:

– Jamais poderei perdoar o que você disse a Ch’ien-Li.

O Sr. Ch’en defendeu-se como soube:

– Você é que não conseguiu fazer dela uma menina como as outras. As mulheres de sua família, aliás, sempre foram meio esquisitas, minha mãe bem que avisou!

– Olha quem fala, bisneto da tarada-do-arrozal…

– Bisneto, não; ela era prima da minha bisavó! Prima longe!

…e assim acabou a paz fria e muda que reinara naquela casa, desde a partida de Ch’ien-Li.

Mais ou menos por essa época, espalhou-se a notícia de que um grande sábio – um Venerável Mestre da Luminosa Senda do Vazio Perfeito – se aproximava da aldeia pela estrada do Leste. Sun-K’an foi com grande alegria contar a boa nova ao marido, e até esqueceu que andavam de mal.
O Sr. Ch’en imediatamente recordou-se das palavras do eremita, e compreendeu que a ajuda prometida estava a caminho, para consertar os estragos causados por sua filha.

O ilustre peregrino afinal chegou, e o Sr. e a Sra. Ch’en foram ter com ele, que já estava cercado por uma penca de aldeões. Mas o tal velho, ao que parece, era mudo ou não gostava de falar. Após escutar uma pessoa, rabiscava alguns ideogramas num papel e os entregava em silêncio. Mal se lhe via o rosto, sombreado por grande capuz de onde projetavam-se a barbicha e os bigodes em três tufos brancos, longos e bem aparados nas pontas. Sua figura pequena era quase cômica, andava descalço e em andrajos. Contudo suas enigmáticas mensagens, geralmente interrogativas, embora estranhas à primeira vista, levavam as pessoas a reflexões transformadoras.

Os dois velhos mal agüentaram esperar muitas horas por sua vez. Quase pela manhã, já exaustos, puderam enfim contar ao sábio, entre lágrimas, seu drama com a filha desaparecida. Receberam estas palavras numa folha de grosseiro papel de arroz:

– Como podem lamentar a sorte de quem vive na abundância de sua esplêndida morada?

Os velhos abraçaram-se, exultantes. Aquilo parecia querer dizer que sua filha encontrara um bom lar, um marido. Teria filhos crescidos, quiçá netos, na aldeia vizinha. E pelo visto, se o velho não exagerava, era muito rica.

No dia seguinte o Sr. Ch’en quis ver o sábio novamente, para saber se interpretara corretamente suas nobres palavras, mas este havia partido antes mesmo do amanhecer. Na pressa tinha esquecido sua bagagem, uma modesta trouxa com poucos pertences.
Os aldeões resolveram – após rápida e unânime votação – abrir a sacola, onde encontraram apenas uma caixinha contendo cola de arroz e 3 longos chumaços brancos e muito bem aparados de pelo de cabra, embrulhados em papel grosseiro onde se lia, numa fileira de intrincados rabiscos:

– Qual a diferença entre uma idiota e um sábio?

Foi uma criança que encontrou, no fundinho da bolsa, o amuleto de jade, amarrado no que restava de um fiapo de lã vermelha, embrulhado num pedaço de papel contendo a resposta do enigma do Mestre, ou melhor, de C’hien Li:

A diferença entre um idiota e um sábio é que um sábio sabe que é idiota, e um idiota pensa que é sábio.

Depois desse dia, Ch’ien-Li nunca mais voltou. Ainda assim, seus pais puderam morrer felizes: a imagem da filha, sem rosto sob um capuz, adornada pelo disco vazado – símbolo do oco, do fecundo, da plenitude, do vazio, da mulher, da concubina, dos loucos e dos santos – foi entronizada com grande pompa no altar dos Sábios Veneráveis.

Todos da sua família, até primos distantes, passaram a gozar de excelente estima social na aldeia por muitas e muitas gerações.

 

* * *

Na verdade, não gosto de viajar. Me cansa. Prefiro dormir na minha cama, sonhando que estou no Taj Mahal, a encarar o desconforto das camas indianas e, depois de muito chão, chegar aos jardins do Taj Mahal, tirar umas fotos e mandar para os amigos, com aquela seta indicando um ponto vago, sabem como é? “Eu estive AQUI. Indescritível”.
Prefiro sensações que possa descrever – até para mim mesma – e assim me convencer de que, realmente, me diverti. Não tenho alma de turista, aliás, não tenho nem máquina fotográfica e nunca me inscrevi num programa de milhagem. Já vi do mundo o que queria ver e gosto de férias no Rio, com dias vagabundos, acordando tarde, praia ao pôr-do-sol, cinema, restaurante, papo e amigos. São as férias ideais.
Mas passei um mês no Amazonas porque tenho saudade se fico muito tempo longe da floresta. É talvez o único lugar em que viveria, se tivesse que viver fora do Rio. Embora seja uma ficção para muitos brasileiros, posso garantir que a Amazônia existe mesmo e é mais do que enredo da Beija-Flor: é tucunaré com pimenta mucuri, que queima o lábio e arde a alma; incenso de kanau-aru, que fecha o corpo para sempre; teia de aranha-tecelã, que faz sonhar; um certo lago perdido e estranhas experiências. Que começam já no avião, quando os ventos mudam de direção, faz-se o vácuo e tudo que é leve corre o risco de se desmanchar no ar. Os passageiros ficam assustados.
Não tenho medo de avião, gosto muito de voar. O problema é que aviões me levam para longe do Rio e o ideal seria pegar um avião, me empapuçar com todas as comidas de bordo e, horas depois, voltar para dormir em casa.
Andei de avião pela primeira vez já aos 18 anos, que na minha época ninguém ia para Disney no Jardim de Infância – eu ia para a casa da avó, no interior, o que era muito bom, e ia de trem, o que era melhor ainda. Adoro trem e, como vocês podem ver, até gosto de viajar, só não gosto de chegar.
Meu primeiro vôo foi para a Bahia. Na época eu era da UNE – aquela antiga União Nacional dos Estudantes, já ouviram falar? – e a UNE organizou um congresso internacional na Bahia. As delegações estrangeiras iam chegando e, depois de dois ou três dias de turismo no Rio, nós as despachávamos para Salvador. Como estudantes sempre foram muito organizados, às vésperas do congresso descobrimos que não havia mais passagens para o “pessoal da casa”. Quem quisesse ir, teria que ir por conta própria. Eu não tinha conta própria – e, se tivesse, não teria fundos – mas tinha uma tese para apresentar no congresso e não podia ficar fora desta festa que, afinal, ajudei a organizar. Foi quando alguém me disse que a Varig podia ceder algumas passagens de cortesia.
– E quem manda na Varig?
– Rubem Berta.
Assim, lá fui eu para o prédio da Varig, creio que no centro, na Rua México, com a petulância dos 18 anos, procurar o presidente da empresa.
Não lembro de deixar identidade na portaria nem de me pespegarem crachás pela roupa, os tempos eram outros. Havia uma sala de espera e uma secretária, já entrada em anos, que me perguntou o nome e o assunto da entrevista.
– Diga ao Dr. Berta que Maria Helena Nóvoa quer falar sobre assunto pessoal e de seu interesse.
Li algumas revistas e fui levada à presença do poderoso chefão, sentado atrás de uma escrivaninha.
– E aí, Dona Maria Helena, qual é o importante assunto do meu interesse sobre o qual vamos conversar?
– Bem, eu disse que Maria Helena etc., queria falar sobre assunto do seu interesse. Seu, dela. Logo, meu. Na verdade, o interesse é meu.
– Ahn – ele meio que riu. – E do que se trata?
Expliquei a minha triste situação de desvalida “sem passagem”, a perda para a cultura nacional se eu não apresentasse a minha tese e respirei fundo:
– Quero uma passagem para a Bahia. Ida e volta.
– Muito bem. – Escreveu qualquer coisa num papel. – Mas me diga uma coisa, Dona Maria Helena (e me chamou de Dona o tempo todo, apesar de ter idade para ser meu pai; talvez meu avô), esse congresso aí da UNE… é tudo comunista, não é não?
– Tudo.
– E por que a senhora vem pedir passagens para um burguês capitalista como eu e não para um mecenas comunista?
– Não existe, Dr. Berta. Todo comunista é duro.
– É verdade – concordou.
Não me disse que sim nem que não mas pediu informações sobre a minha tese e deu alguns palpites.
– Quando gostaria de ir?
– O mais rápido possível. As comissões vão se reunir amanhã.
– Minha secretária vai lhe dar uma resposta ainda hoje – e deixou o suspense no ar.
Logo depois que cheguei em casa, ligaram para avisar que as passagens estavam à minha disposição no aeroporto e no dia seguinte eu embarcava, me sentindo “apenas o máximo” porque não haviam ainda inventado a “rainha da cocada preta”, o que descreveria melhor minha euforia baiana.
Não tive medo nem fiquei tensa, quando o avião decolou. Senti, desde aquele primeiro dia, que voar é das melhores sensações que existem. Não tirava o olho da janela e fumava um Minister atrás do outro, que naqueles bons tempos todos os prazeres eram permitidos a bordo.
Foi quando uma das aeromoças veio confirmar quem eu era:
– Maria Helena?
– Sou eu.
E, logo depois, começaram a servir o almoço numas bandejas todas bonitinhas, não era a esculhambação que é hoje. Serviram o avião inteiro e eu não fui servida. Aí a ficha caiu: minha passagem era cortesia, o que me tornava diferente dos pagantes. O lugar a bordo fora cortesmente cedido mas era a seco. Não haveria almoço para os “bicões”.
Virei de costas para a festa de Babette e achatei o nariz no vidro da janela. Não estava dando a mínima. Conseguira o que queria e aquele almoço devia estar uma droga, mesmo. Mas estava com a sensação de que o avião inteiro me olhava, não tinha coragem de virar a cabeça e lágrimas inconvenientes começaram a pingar do canto dos olhos. Aos 18 anos, a gente chora de vergonha; acreditem.
– Maria Helena, por favor.
Foi com dificuldade que tirei o olho da janela. Uma aeromoça trazia um bandejão de prata. Uma outra colocava à minha frente um tripé com enorme balde de gelo e aquele também foi o primeiro dia em que tomei champagne. Francês, é claro. Na bandeja, entrada e prato principal do que seria o “menu” da primeira classe de vôos internacionais, já havia visto em filme: linho bordado e cristais, um cheiro delicioso e agora, realmente, todo mundo lá atrás olhava para mim. Uma inacreditável jarrinha de prata, uma rosa solitária e um envelope debaixo da flor. O cartão foi guardado alguns anos e não sei em que mudança se perdeu: “Se o seu lado vencer, poupe o meu pescoço. Bom congresso. Rubem Berta”.
Nunca mais cruzei com este senhor, nas andanças da vida. Não agradeci mas também não esqueci.
E talvez por isso, adore comida de avião. Como e repito aqueles grelhados secos com arroz à grega, que detesto; não precisam me dizer que o vinho é de última, o refrigerante é aguado e a manteiga é margarina. Eu sei. Mas, lá em cima, eu gosto. Nunca ouviram falar que alguns lugares, coisas ou pessoas nos transformam?
Porque passei o mês de Fevereiro ao lado da floresta e passeei muitas horas de avião, porque tive por lá gula de gorda, o que é raro acontecer no nível do mar, porque alguns sonhos voltaram a ser recorrentes e quem sabe um dia eu os decifro, as férias foram ótimas: apesar de não terem sido exatamente férias e ter trabalhado quase sempre 14 horas por dia.
– O que é de gosto, regala a vida – minha mãe sempre dizia, para justificar esquisitices.
E meu pai, invariavelmente, completava:
– Ou, cada louco com sua mania.

Claro que, sendo eu uma escritora totalmente inédita, de extensa produção incubada, foi uma grande honra ser convidada pela Paula pra preencher este espaço. Uma honra e um baita problema. Mas olha, eu não vou pagar o clichê de dizer que tenho angústia da folha em branco. Não tenho esse negócio não, o problema é que eu não caibo na porra da folha!
Não é tanto que eu seja prolixa (espero que não), mas devo confessar que tenho uma mente patologicamente fértil. Preencho compulsivamente centenas de cadernos com escritos os mais variados. O que não significa nada em termos de qualidade, mas o fato é que com o passar dos anos (e eu já passei dos 30) isso se acumula e faz pressão pra sair.
Daí que, ao saber que poderia dispor deste espaço, começou a travar-se uma luta entre as diversas facções do meu ser.
Um lado Kamikaze ousou propor que eu publicasse em forma de folhetim meu novo romance, que ainda nem escrevi. A sábia Prudência fez-me arquivar esta idéia. O japonês contra-atacou com um dos 127 projetos de contos não-escritos (a latência marca boa parte da minha obra). Desta vez foi vencido pela Preguiça, guerreira poderosa! A Megalomania sugeriu que eu executasse finalmente a grandiosa tragédia-latino-musical em 5 atos sobre a ascensão e queda de Atahualpa. O Bom-senso foi capaz de dar conta dessa. Alguém ainda gritou lá do fundo se eu não podia desengavetar aquela brilhante sinopse de uma novela das 6. Ninguém respondeu. Sorte da Globo, que ainda pode fazer um ótimo negócio por módica quantia a combinar. E, como quem não quer nada, a Musa soprou em voz sussurrada que eu poderia editar minha Poesia Completa, em fascículos. Confesso que corei. Sou muito tímida pra mostrar assim minhas partes íntimas. Sorte de vocês, que podem ainda não estar preparados para minhas revoluções estéticas de gosto duvidoso.
Afinal restaram elas, minhas filhinhas desajustadas, o aspecto mais bizarro de minha pujança criativa: as invenções. Desajustadas porque me falta a linguagem adequada para expressá-las. Bem pior que meu português estropiado é minha matemática pré-primária, que vacila no 7×8 e não sabe fazer divisão por mais de um algarismo, e nem me venha com vírgulas! Muito menos sei fazer desenhos técnicos em perspectiva; Visão Espacial foi a nota mais baixa em meu teste de QI. Também não sou boa em formatar projetos e conseguir verbas para sua execução. Então, por que diabos eu fico inventando coisas que não posso produzir? Pergunte aos meus neurônios!…
E por que diabos vou expô-las aqui?
Bom, sabe aquela mãe amorosa que vê que um de seus filhos não vai além das pernas mas acha que ele tem tanto potencial, quem sabe se alguém lhe desse uma chance…? Aí, na hora de pedir um favor para o concunhado vice-presidente da estatal, pede um emprego justo pra esse filho – o que tem menos condição de ocupar bem qualquer cargo que seja – porque ela acha que os outros mais cedo ou mais tarde vão deslanchar por conta própria. Resultado: o filho competente não deslancha porque não arranja trabalho, o filho-problema dá com os burros n’água e a mãe zelosa passa o resto da vida se penitenciando.
Pois é, burrice maternal não tem cura. O fato é que eu me apiedei das minhas invenções, acho que elas poderiam trazer enormes benefícios à humanidade e, mesmo correndo o risco de vê-las usurpadas, resolvi trazer a público o prof. Pardal que vive em mim (srs. Usurpadores: aceito depósitos dos royalties na minha conta bancária mas, se não for possível, meu nome nos créditos e amostras grátis vitalícias já seriam algum alento). Outro modo de dizer é que tenho idéias pra dar e vender e, já que ninguém compra, resolvi liquidar pra livrar espaço no estoque.
Não preciso nem dizer que houve briga na fila pra ver quem ia entrar na “coluna”, mas priorizei os inventos de maior impacto sócio-cultural. E não falo de produtos Tabajara, a coisa é seriíssima e profunda, como provarei em seguida.
A primeira invenção é também a mais urgente. Tão necessária e ao mesmo tempo tão simples que causa-me assombro que ainda não a tenham inventado: trata-se de uma mãozinha para passar filtro solar nas costas. Não ria ainda; pare e pense: há quanto tempo você precisa de uma e não sabia? Como aquela, que o vovô já usava pra coçar as costas, mas dotada de uma esponjinha para espalhar o filtro nas áreas inalcançáveis. Eu estou cheia de umas pintas suspeitas nas costas pela falta de tal produto no mercado. Não adianta fazer campanha preventiva de câncer de pele se a gente não consegue passar o fotoprotetor onde mais precisa.
O amigo desenhista industrial a quem pedi ajuda para desenvolver o projeto, relutante em admitir que alguém tão desqualificado quanto eu pudesse ter uma boa idéia em sua área de atuação, desdenhou do potencial comercial do produto:
– Coisa para solitários! – riu-se ele, que é daquelas raríssimas pessoas casadas há anos com sua alma gêmea e feliz para sempre, portanto nunca lhe faltou quem passasse filtro solar em suas costas com calorosas mãos humanas.
Cometeu o erro n° 1 em processos criativos, segundo qualquer almanaque gerencial para o desenvolvimento de criatividade (tipo da obra que é um paradoxo em si mesma): descartar uma idéia por um preconceito.
Mas o descrédito do amigo não arrefeceu meu entusiasmo. Tinhosa que sou, uso a crise como dificuldade-que-leva-à-oportunidade, mais uma vez seguindo a cartilha do criativo de sucesso. Comecei a pensar nessa coisa dos solitários (mais especificamente nas solitárias e nos gays, mas em breve dedicarei algum tempo a pensar soluções para homens em apuros) e cheguei então a desenvolver as versões mais avançadas do produto: mãozinha dum lado, consolo do outro. Em variados tamanhos e formatos, tudo vibratório. Substitui noivo, namorado, amigo e amante, com vantagens. Cabe na bolsa, vai à praia na hora que você quer e não fica olhando pra bunda de ninguém. Além de tudo, é mudo, como os sábios. Sucesso na certa!
Fui pedir ajuda a uma amiga, também versada nos desenhos técnicos, e ela me brindou com essa pérola da mediocridade, tipo da ponderação que, desde que o mundo é mundo, atravanca o progresso:
– Se a idéia fosse boa, alguém já teria tido…
A todas essas, ficamos aqui, à beira do melanoma, à espera de que alguém de visão resolva encher os bolsos no próximo verão.
Segunda idéia, também de grande apelo comercial, embora exija um pouco mais de investimento. O nome é genial, e eu patentearia, se não fosse tão caro fazê-lo: Cyber-Coiffeur. Moderno, pomposo. Faria sucesso em São Paulo. O conceito é arrojado. Tecnologia de ponta, chapinhas de última geração, cauterizações a laser de esmeraldas, densitometrias capilares digitalizadas, mega-hair transgênico a partir de células-tronco. Ambiente futurista, meio Barbarella (acho que preciso rever meu conceito de futurista). Mas a grande revolução conceitual é questionar o inquestionável, mexer no imexível, portanto: no Cyber-Coiffeur não haverá sequer um exemplar de Caras! Não, ao invés disso as mulheres antenadas de hoje serão brindadas com um laptop conectado à internet, totalmente customizado para se compatibilizar com as atividades de um salão (e resistir às suas agruras). O potinho para molhar as mãos é um mouse adaptado e o teclado é impermeável para que a ocupada perua possa administrar seus fundos de ações, checar seus e-mails e, hum, dar uma passadinha no site de Caras, que ninguém é de ferro!
Antes que me acusem de elitista, devo esclarecer que meu talento não distingue classe, cor ou credo, e eu também tenho minha contribuição para o Fome Zero. Trata-se de um projeto social-ecológico, uma excelente fonte de desenvolvimento sustentável: O Projeto Jaca-já. Esse eu gostaria sinceramente que alguém desenvolvesse, uma ong ou o que seja, podem usurpar.
Consiste em aproveitar a enorme abundância de jacas da Floresta da Tijuca como fonte de alimentação e renda para comunidades carentes. Explico: a jaqueira, originária da Índia, por sua adaptação ao nosso ambiente e rápida proliferação, tornou-se uma praga nas matas do Rio de Janeiro. Andaram até fazendo matança delas recentemente. Um desperdício. Cada jaqueira dá, facilmente, até 30 jacas de uma só vez. Cada jaca pesa, no barato, 3 quilos. São quase 100 quilos de alimento em uma só árvore, uma montanha de nutrientes que poderiam estar enriquecendo a dieta de nossa população. O problema é que a maioria das pessoas tem aversão à jaca in natura, por causa do cheiro forte exalado por seu visgo. Mas a carne mesmo da jaca é tenra e cheirosa, dando ótimos doces, compotas e outros derivados (juro que é bom, eu adoro!), e seus caroços também podem ser deliciosos se cozidos (parece pinhão) ou torrados (parece castanha de caju). Acho até que o visgo deve servir para alguma coisa, uma espécie de cola, porque o troço gruda que é o cão! Então, se fosse organizada a coleta e o beneficiamento comunitários da jaca, poderíamos utilizar seus subprodutos como reforço de merenda escolar (espero que toda uma geração de escolares não me odeie por isso) e vender o excedente, com renda revertida em benefício da própria comunidade. Seria uma boa forma de controlar a praga e a fome ao mesmo tempo.
A versão nordestina do projeto, em moldes similares, atenderia pelo nome de Já-Cajú.
Enfim, está lançada a idéia, e isso é o melhor que posso fazer.
E, por fim, uma reflexão que me parece gritante, mas eu pareço ser a única pessoa no mundo a formular esta pergunta tão básica: porque fazemos carros que matam? Coloque uma lata em movimento a mais de 100 km por hora e é certo que, em algum momento, ela irá se chocar contra algum obstáculo. Porque não é uma questão de se. Todo carro vai bater algum dia, é só uma questão de quando e com que violência. Mas a colisão é certa. Mesmo que você seja cuidadoso e dirija bem, sempre haverá o momento em que a pilastra sairá andando bem no dia em que você mandou ver na caipirinha. E, por menor que seja a batida, amassa o raio da lata, descasca a pintura. Isso na melhor das hipóteses, porque todo mundo já perdeu alguém querido, ou no mínimo soube de alguma perda humana irreparável em um acidente. O número de acidentes de trânsito com mortes é brutal, mas ninguém parece chocado, enquanto a violência e as epidemias causam grande alarido, exigências de soluções.
Portanto soa meio despropositado, mas não me parece bizarrice pura questionar a premissa de que carros devam ser feitos de lata. Porque não de borracha, ou um plástico resistente porém flexível (talvez feito de visgo de jaca), capaz de absorver o impacto e voltar à forma original, preservando sua integridade e, o que é mais importante, a das pessoas em seu interior?
Bom, e já que estamos questionando premissas, vamos combinar que essa coisa de roda é um conceito meio, digamos assim, pré-histórico. Se já temos a tecnologia da propulsão a ar, poderíamos voar baixo, rente ao chão, sem atritos e sem cair em buracos. Sem falar que trocar pneu, nunca mais. Não seria uma glória? As fábricas de pneus poderiam se dedicar a fabricar as carrocerias, que poderiam ser coloridas como super-melissinhas turbinadas, e eu quero o meu modelo com pochetezinha!
Enfim. Cumprida minha obrigação para com o futuro da humanidade, deixo a vocês a responsabilidade de julgar e fazer cumprir, ou não, minhas pobres idéias.
Poderia falar também de uma tal máquina de filmar sonhos, que o Gil sugeriu numa música, eu comecei a pensar como seria e acabei escrevendo um livro inteiro sobre o assunto. Mas isso já é outra história…
É o que tenho por hoje.
Foi um prazer estar aqui com vocês.
* * *
pensata:
Sou um ser pensátil
portanto inútil.

A classe média brasileira conhece a Europa, a América, às vezes alguma coisa do Oriente, mas não lembra de incluir a floresta amazônica nos seus roteiros turísticos. No entanto, é lá que estão guardados os últimos segredos. Lá, ainda podemos encontrar o mundo como o mundo era na época da Criação.
Os cenários mudam rapidamente, vistos da janela de um avião: grandes cidades são ultrapassadas em minutos. Mas, ao sobrevoar a floresta, os minutos viram muito tempo e o tapete verde não acaba – continua infinito.
Quando fui pela primeira vez, olhava da janela aquela verdura sem fim e lembrei da história – que li não sei onde – de um árabe das tribos do deserto que numa viagem encontra uma cachoeira, pára e não consegue prosseguir: primeiro fica mudo, depois senta numa pedra e só abre a boca para dar graças a Alá. Ao fim de algumas horas, e já cansados de emoção tão duradoura, seus companheiros perguntam quanto tempo pretende permanecer ali:
– Até Deus cansar.
Eu também não acreditava em tanto verde. Algumas palavras se tornam insuficientes na floresta, passam a descrever menos do que sempre descreveram e o verde é a primeira delas. Lá, o verde comporta tantas nuances quanto a neve dos esquimós – existem centenas de verdes.
Outro conceito que muda bastante, para quem sempre morou em cidades grandes, é o de solidão.
Aqui no Rio, ia a Búzios quando Búzios era “agreste”, subia um morrinho, descia um morrinho, e caía na Ferradurinha às 5 da manhã para ver o nascer do sol. Era uma aventura e me sentia Robinson Crusoe na ilha deserta, com o marzão à minha frente. Esquecida de que a poucas centenas de metros, atrás do morrinho, existiam turistas menos madrugadores que em breve invadiriam a minha praia. A solidão no Sudeste não passa de uma centena de metros.
Lá, não. Se alguém pegar uma canoa e descer qualquer rio, em pouco tempo estará sozinho mesmo. Absolutamente só. E a sensação que a solidão absoluta provoca não é euforia aventuresca. É perplexidade.
Na região amazônica, além de termos a maior floresta do mundo, temos a maior massa de água doce do planeta e o maior rio do mundo. É engraçada, a reverência que fazemos ao que é “maior”: fica patente a nossa mediocridade e dobramos os joelhos diante do maior templo, da maior orquestra ou da maior floresta. Sozinhos, no meio do verde e das águas, creio que todos se ajoelham para contemplar.
As Águas são o elemento primordial, anteriores à própria Luz. O Gênese afirma que “No princípio, a Terra estava informe e vazia e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”. No princípio, antes mesmo que Deus começasse a Sua criação, as águas já estavam presentes.
O elemento Água simboliza a emoção e emoção não é bem o sentimento piegas que o Roberto Carlos canta – emoção é o ato de mover.
As nossas emoções originam e movem todas as nossas funções. A avaliação intelectual que fazemos da realidade – que nos parece tão isenta e fruto de penosa e honesta meditação -, na verdade é mera adesão emocional a um ponto de vista.
Primeiro, experimentamos um sentimento, somos assaltados por ele e isto não tem nada de racional. Depois, e só depois, construímos um arcabouço intelectual que o justifique. Criamos nosso mundo racional apenas para fundamentar nosso mundo emocional.
E só conseguimos modificar um conceito arraigado se antes modificarmos a emoção que o arquitetou. Por isso – que pena! – nem livros nem mestres constroem o que pensamos: só nos dão melhores argumentos para continuar a pensar assim. Mas um amor pode nos modificar. Ou um mergulho em águas profundas.
Tirando as minhas férias, estou partindo para a Amazônia, aonde vou sempre que posso. O maior rio e a maior floresta do mundo costumam restaurar minhas finanças e isso é bom. Mas também transformam as minhas emoções, o que é melhor ainda.
Se é verdade que o pensamento está estreitamente vinculado ao ser – penso, logo existo; se não pensasse ficaria em dúvida -, provavelmente nos damos uma nova forma quando damos forma nova aos pensamentos.
Nunca sei ao certo do jeito que vou voltar da floresta mas acabo voltando, embora até o último minuto pense em ficar. E, como volto diferente do que fui, tenho depois um trabalho dos infernos para arranjar novas e consistentes teorias que justifiquem os macaquinhos no sótão que sempre trago de lá. Culpa das Águas.
Boas férias para todos e até Março!
Posted by Paula at 11:23 AM | Comments (3)

A mão autônoma

Costumo vagabundear pelos canais da Net e acabo parando no Discovery Health. Não lembro de ter aprendido nada que possa contribuir para a minha longevidade saudável mas descubro algumas doenças incríveis. Foi no Discovery que fiquei sabendo do Síndrome da Mão Autônoma.
É isso: uma das mãos se rebela e passa a agir independentemente da vontade do seu dono. Ele – o dono – apaga a luz quando sai do banheiro e a mão autônoma acende. Ele se cobre na hora de dormir e a mão autônoma o descobre. Ele pega uma maçã e, assim que abre a boca, a mão autônoma a atira pela janela. A outra mão – a tutelada – costuma bater na mão autônoma, instigada pelo dono.
Me convenci de que o melhor regime para o corpo é a monarquia absolutista. Uma autoridade suprema deve comandar e todo o resto viver em vassalagem, sem direito a assembléias, constituições e demais invenções burguesas que só geram bagunça: tem que ser decreto-lei e vocês também concordariam se tivessem visto A Mão Autônoma. A liberdade enlouquece o sistema.
Se o seu corpo funciona direitinho, se você pega um cigarro com a mão direita e a esquerda – fraternalmente – já vai tratando de acender o isqueiro, se a mão direita pega a faca e a esquerda espeta o bife, se a esquerda coça o nariz e a direita continua no volante, você está de parabéns e pode dizer com orgulho que vive numa perfeita monarquia. Ou numa ditadura, como preferir – você instaurou a ordem e não será vítima da mão autônoma.
Estou desconfiada de que ando dando liberdades demais, lá em casa, e já tem alguém pensando em direitos humanos, quem sabe em revolução:
Passei o feriado carioca de São Sebastião no Copa D’Or.
Copacabana é um bairro que tem mania de dourado. Era o bairro da moda nos Anos Dourados. O restaurante do Copacabana Palace, o hotel mais conhecido da cidade, é o Bife de Ouro e seu salão de festas o Golden Room. E agora, mais caro do que o Copacabana Palace – lugar no qual jamais me passaria pela cabeça comemorar o piedoso feriado -, temos o Copa D’Or, onde acabei dando com os costados, premida apenas pelo amor materno.
Explico: todo mundo sabe que é naqueles dias – entre o fim do seguro e o telefonema do corretor, lembrando que ele expirou – que o nosso carro bate ou é roubado. Seguradoras só são empresas lucrativas porque os sinistros, metodicamente, acontecem neste pequeno intervalo, quando estamos descobertos.
Pois é. Foi o que aconteceu, num pequeno e dolorido incidente, que gerou uma pequena cirurgia, com pequeno período de internação, nada grave, tudo pequeno. Mas o seguro estava vencido e a conta – oh, Midas, que não és minha entidade protetora e não transformas em ouro aquilo em que toco -, a conta daria para bancar orgias que nunca fiz no Copacabana Palace, aquelas da Ava Gardner, com direito a jogar cadeiras pela janela. Era uma fatura indecorosa, faria corar um monge de pedra. Mas não são nada monásticos os donos do Copa D’Or, este hospital que pensa que é um hotel 5 estrelas.
E foi lá, na Tesouraria, na hora da saída, que se manifestaram sintomas assustadores.
Entreguei o cheque à elegante tesoureira, que parecia fugida de uma página de Caras, ela observou que eu havia subtraído muitos reais da conta e pediu-me que fizesse outro.
Desculpei-me, envergonhada, e preenchi mais um cheque, agora com o total correto, tive o cuidado de verificar duas vezes. Ela então me pede uma identidade e, já impaciente, torna a devolvê-lo – “as assinaturas não conferem” -, assinei com nome que não uso mais há quase dez anos e não é, evidentemente, o que consta da carteira. Percebi ali o ardil da minha mão autônoma, numa evidente manobra não só para embananar a compensação bancária mas também para imputar-me prática de falsidade ideológica ou qualquer delito grave. É uma meliante, esta mão revoltada com o sistema.
O terceiro cheque foi feito com o vagar de prova do Mobral. A manequim/tesoureira ditou-me tudo, inclusive meu nome, e eu e ela verificávamos cada campo preenchido, antes de passar adiante.
– Agora, tudo certinho – sorríamos uma para a outra.
Estendi-lhe, desprendidamente, aquele cheque pesado como barra de ouro e na mesma hora a minha mão o puxou de volta, num movimento insano e sem comando – juro que meu cérebro não deu esta ordem – deixando perplexa a manequim, que não sabia o que fazer com a metade rasgada que ficou em seu poder.
Aí, já com vontade de chorar por me descobrir portadora de doença grave, talvez incurável, fiz como o sintomático do Discovery – dei uns bons tabefes na mão autônoma e fui para um canto escondido preencher, pela primeira vez na vida, o quarto cheque para pagar uma só conta.
Já havia suspeitado da sua existência (a dela) ao reler textos recentes e constatar palavras intrometidas ou sem sentido, grafadas errado, nas quais nunca pensei mas “alguém” escreveu por mim – ela é não só desonesta como meio ignorantona. Eu mesma, sempre escrevo qüinqüênio com dois tremas; exceção com cedilha; sou cidadã exemplar, fanática pagadora de todas as contas e jamais assino cheques com outro nome.
No documentário do Discovery a mão terrorista quebrava tudo, maltratava seu dono, atacava pessoas, podemos até pensar em reação preventiva americana mas, evidentemente, era um perigo público aquela esquerda.
A minha não – é dissimulada, age nas sombras, numa conhecida tática de guerrilha ideológica, com a clara estratégia de revelar minha ignorância e malícia e me desmoralizar diante dos outros e de mim mesma, coisas da direita.
O feriado passado no Copa D’Or, com água gelada mas sem cafezinho, horas e horas sentada numa cadeira, serviu afinal para alguma coisa: desnudou o inimigo. Assim, estou precisando voltar à linha dura lá em casa, reafirmar os poderes absolutos e baixar um ou outro ato institucional para que nem pensem em botar as manguinhas de fora. Mando eu e estamos conversados.
Enquanto isso, as besteiras que aparecerem por aqui vocês já sabem quem foi.

Alguns livros e filmes mudam a nossa vida. São queridos como pessoas queridas e, como elas, inesquecíveis. Nos últimos tempos, só tenho lido e visto o que está fadado ao esquecimento. Dramas e tramas vazios de filmes, novelas e livros – a exibição da futilidade que norteia a vida e as escolhas – tornam-nos tão esquecíveis como alguns falsos encontros: passamos algumas horas agradáveis mas não somos transformados nem marcados para sempre, foi apenas uma experiência interessante. Talvez não haja nada pior do que ser uma experiência interessante para alguém, quer se trate de um livro, um filme ou uma pessoa.
Há três filmes na praça que devem ser vistos: o díptico “A Decadência do Império Americano” e “As Invasões Bárbaras”; e “Adeus, Lênin”.
São bastante engraçados, embora não provoquem gargalhadas. Platéia e personagens se divertem com um humor para “iniciados” e os dois primeiros mostram o mundo acadêmico canadense – que parece ser igual a qualquer outro ambiente universitário do Ocidente. Pode ser que na China ou na Arábia Saudita seja diferente, não sei.
Os três filmes lembram A Vida é Bela, do Begnini, de alguns anos atrás, em que um pai transforma um campo de concentração num parque de diversões para que o filho pequeno não perceba que a vida quase sempre é feia. Só que, em 2004, são os filhos que fazem isso para os pais.
Nos filmes canadenses, os personagens são professores universitários em dois momentos – no final da década de 70 e vinte anos depois. Os mesmos atores, vinte anos mais velhos, dão credibilidade à trama. O que vai eclodir no segundo filme, já é antecipado no primeiro: todo mundo é inteligente, com boas referências culturais, porém as vidas pessoais são lamentáveis. Há dificuldade em lidar com o real e todos constroem um mundo de mentiras agradáveis para os parceiros amorosos e a família. Mas o fazem com muita graça, muito humor, e os filmes são recheados de “boutades” interessantes. Apenas interessantes. E eles seriam a elite intelectual do império americano em seu declínio. Seriam os “homens de conhecimento”.
O conhecimento que não gera sabedoria, gera um mal maior – talvez – do que a ignorância. Produz a “vanidade”, ou a vaidade: o atributo do que é vão. Do que é oco. Do que não tem densidade. O conhecimento ou constrói o sábio ou se esgota em exibições tolas e vaidosas de si mesmo.
Não é raro perceber, em intelectuais, a vaidade do que seu cérebro pode engendrar, sem se darem conta de que estão cultuando cada vez mais o vácuo em vez de cultuar o cosmo. Sacrificam para o nada – já que no nosso mundo o ofício do intelectual é sempre um “sacro ofício” – e se orgulham e se comprazem dos seus espirituosos ditos frívolos. Reduzem o real a um jogo de palavras, pretensamente inteligente, quando, quase sempre, o encontro com o real é mudo. Ao menos, lacônico. O real é a etapa final da Criação, em que deuses e homens têm papéis iguais.
Transitamos, cada vez mais, num universo vazio, recheado de imagens e palavras. Temos uma abundância jamais sonhada de possibilidades de habitar o vazio, quando a luta do homem, desde seus primórdios, foi organizar o caos e jamais mergulhar nele.
Num dos filmes, um filho – por amor ou caridade – compra meia dúzia de significados para o pai, antes que ele morra. Constrói ou aluga um cosmo, um universo organizado, para que ele não termine no nada. Em outro, um filho cria um ambiente também teatral para a mãe doente para que ela não encare a derrocada do seu mundo. Mais ou menos o que o italiano trêfego fez para o filho, num campo nazista – a generosa pantomima que encobre a realidade, o refúgio num mundo de mentira para camuflar a dificuldade do mundo de verdade onde a morte encerra o espetáculo. A vida só se mantém eternamente bela para quem tem 7 anos de idade.
A capacidade de suportar a dor parece que diminui, de geração a geração. Hoje, batalhões de médicos e terapeutas se revezam para nos fazer acreditar que é possível suprimir a dor de viver, como se alma fosse dente e pudesse ser anestesiada quando nos é arrancada. E quem viveu sem ter a alma esfacelada? Poucos nos dão a mão (e o sentido de “terapeuta” é apenas acompanhante) e nos acompanham na viagem pelo real. E real não é o apenas material; mas aquilo que comporta uma verdade. Então, real não é só o corpo físico. O amor é real. A fraternidade. A dignidade. Quem quer que os tenha conhecido pode atestar a sua realidade. Chegam a ter peso. E doem.
Nos filmes, o amor filial cria mentiras para os pais, na esperança, talvez, de merecer as mentiras dos seus filhos na hora de morrer e acreditar que sua vida valeu a pena. Na ilusão de vê-la mais bonita em retrospectiva, como um filme que pode ser editado. Vaidade das vaidades.
O oposto da realidade, da densidade, é a vacuidade – a vaidade.
Qualquer aposta – ou projeto, como se diz hoje – no vazio faz sucesso e encontra adeptos. Algum deus perverso, ou anti-deus, deve estar a rir bastante: o mundo se move na indústria laboriosa de organizar o inexistente. Multidões passam suas vidas trabalhando para construir a própria vaidade ou a alheia. Estamos em plena era da frivolidade, da leveza, e o que é denso saiu de moda. O que é pena, porque afinal só lembramos daquilo e daqueles que pesaram o suficiente para nos marcar.
Talvez só nos demos conta da pouca densidade do que fizemos na hora de morrer. E aí, um filho piedoso armará um circo para que nem na hora da morte a consciência possa chegar perto. Para que não haja a dor do confronto com a verdade nem nos momento finais.
E talvez uma cadeia infinita de vaidosos e filhos piedosos esteja se desenvolvendo debaixo dos nossos narizes: três filmes, ao mesmo tempo, dão o que pensar. Talvez sejamos em algum momento, elos desta cadeia. Mas, vaidosos – vocês sabem – têm nariz empinado. E não conseguem ver o que acontece debaixo mesmo do que lhes está na cara.

A crônica é um texto datado, cronológico, sujeito ao tempo e ao seu deus. Mil assuntos pululando dentro da cabeça mas não dá para esquecer que é a primeira crônica do ano e Cronus – o velho deus do tempo – pede passagem. O tempo envelhece tudo que um dia ousou ser novo e torna crônicos o desejável e o indesejável. O primeiro mês do ano é presidido por Saturno ou Cronus.
O calendário oficial para o nosso planeta é o calendário Gregoriano, que conta o tempo em “anos do Senhor” a partir do nascimento de Cristo. Este calendário foi uma reforma do calendário Juliano – feita por Júlio César – que por sua vez reformou o calendário romano de Numa Pompílio, elaborado por volta de 700 A. C.
César oficializou um calendário já bem próximo da verdade astronômica do ano solar com 365 dias e 6 horas. Acrescentou-lhe dois meses que não existiam, Janeiro e Fevereiro, decretou que o ano começaria em primeiro de Janeiro e não mais em 23 de Março, no equinócio da Primavera, e, aproveitando a reforma e com vaidade leonina, mudou o nome do quinto mês do calendário antigo para Julho, homenageando a si próprio, que nascera naquele período. Anos mais tarde, Augusto faria o mesmo com o mês de Agosto. Algumas coisas são crônicas.
Dado a César o que é de César, também foi dado a Cronus o que lhe era de direito – abrir o ano.
Cronus/Saturno foi assimilado em Roma ao deus Jano – patrono de Janeiro -, o deus das portas e das passagens, o temível “guardião do umbral”.
Thomas Bulfinch, que escreveu sobre as divindades do Olimpo, comenta que elas já não pertencem mais à Teologia mas à literatura e ao bom gosto. E, às vezes, ao território das curiosas coincidências. Jano (de janua, porta) em português seria Jânio e creio que não aconselharia este nome a ninguém já que é o “deus do olhar divergente”, o que pode ser até simbólico mas pouco estético. É também o deus dos dois rostos – um olha para o passado, o outro para o futuro – e a primeira moeda cunhada em Roma trazia a sua efígie. Jano era adorado e temido.
Nas passagens do ano, somos todos tentados à retrospectiva e à perspectiva. Olhamos para trás, na tentativa de entender o que passou, e para a frente, na veleidade de adivinhar o que virá. O deus tutelar de todos os começos continua vivo dentro de nós.
Não sou muito otimista quanto ao que fizemos no passado. O crescimento da população e o aumento vertiginoso da miséria; a falta de água, já estrategicamente disputada pelas potências; o desemprego mundial; o lixo radioativo que se acumula e ninguém sabe o que fazer com ele; o aumento da temperatura média e suas já previsíveis conseqüências não me deixam muito tranqüila quando olho para a frente. Mas, democraticamente, entendo que a verdade deve estar mais próxima do olhar coletivo do que da perspectiva individual e tenho procurado nos jornais e na Internet o que mais preocupa os cidadãos nesta passagem de ano. Surpreendem-me, os cidadãos.
O fichamento e as digitais dos americanos que nos visitam, ocupam o centro das inquietações nacionais. Todos se pronunciam, apaixonadamente, e a grave questão é discutida até em editoriais.
O segundo lugar, aqui no Rio de Janeiro, tida como a cidade mais politizada do país, é ocupado por notícia local – comentando-a, cartas chegam em avalanche às redações. Nosso equilibrado prefeito decidiu acabar de vez com o costume incivilizado de urinar nas ruas e declarou a “guerra ao xixi”. Alavancando a campanha, a frase: “Não foi essa a educação que sua mãe deu para você”. Contra ou a favor, mobilizou a cidade inteira. De uns dias para cá, só conseguimos pensar em xixi.
E assim passamos a primeira semana do ano, período dedicado a Cronus, por tradição milenar. Em que seria, talvez, desejável que definíssemos o que corre o risco de se tornar crônico – dentro e fora de nós – e o que ainda tem saúde e flexibilidade suficientes para se modificar.
Como não é impossível chegar a um consenso sobre o melhor detergente para remover cheiro de xixi e graxa dos dedos, creio que nossos problemas têm solução e dá para augurar um felicíssimo 2004 para todos nós!

Jingle Bells

Pois é, é Natal mais uma vez – surpreendentemente – embora caia sempre – monotonamente – no mês de Dezembro. O ano voou? Voou. Ficamos todos um ano mais velhos e não sei como isso acontece com tanta rapidez, minha mãe levou muito mais tempo para chegar à minha idade e, ainda ontem, eu tinha a idade dos filhos. Uma teoria, não matemática, afirma que o tempo está acelerando e acredito piamente nela.
Mas não quero falar do Tempo – fica para a próxima coluna – quero falar de presentes porque, afinal, Papai Noel existe.
Normalmente, dou livros de presente. Já me disseram que é o presente mais fácil de escolher e todo mundo sabe que detesto bater perna em shoppings. Não é verdade. Até demoro bastante na escolha, sento no chão, espalho pilhas ao meu redor e leio muitas páginas dos livros que vou comprar. É que consigo decidir, com boa margem de acerto, se o livro é a cara do presenteado.
Já repararam nas vendedoras de shoppings? Você escolhe uma blusa, ela simula um orgasmo e diz, arfando: “- É a sua cara!” – Quando compro qualquer presente, elas costumam garantir, com ar bíblico: “- Ah! Com certeza é a cara dele!” – Ou dela. Nunca fico tão certa. Na verdade, não sei, “com certeza”, se calcinhas, cuecas, meias ou gravatas têm a cara das pessoas que amo. Também acho muito esquisito presentear com calcinhas, cuecas, meias, gravatas, carros ou hidroaviões. São bens personalíssimos, cada um deve escolher o seu, e não passam de mão em mão. Já o livro, não. Meus amigos conseguem ter cara de livro. Ou os livros conseguem ter a cara dos amigos. E ainda são emprestados, roubados, doados, usados por várias pessoas. Minha alma socialista gosta disso, sem dúvida.
E, como tenho prazer em dá-los, também me encanta recebê-los. Ganhei, ontem, um livro do meu amigo Domício Proença, professor de Literatura e Língua Portuguesa – dei risadas e divido com vocês. Se fossem calcinhas, estariam na gaveta e seriam propriedade privada.
Domício começa lembrando que “ortoepia” – orthos, correto + épos, significa linguagem ou estilo corretos. Por oposição à “cacoepia”, em que ao citado épos se junta kakós (mau, imperfeito). “Cacoepia” é a linguagem ruim, que deve ser evitada. Em matéria de linguagem, sempre prefira o “orto” ao “caco” e isto não é uma piadinha interna, está lá, no Domício.
Devemos anunciar que vamos ao “aeroporto” (e não areoporto) e, dependendo das condições “meteorológicas” (e não metereológicas), viajaremos a Goiás. Devemos também esclarecer que só levaremos “bugigangas” e nunca bugingangas. Podemos, durante a viagem, citar um “aforismo” e falar em “cataclismo” mas jamais usá-los com “a” final.
E precisamos sempre ter cuidado com o cacófato, olha ele aí de novo. Dizer que “nunca ganhamos sequer um agradecimento”, já retira o mérito da nossa boa ação.
Se gostar de frutos do mar, peça “caranguejos” sem “i” ao feirante.
E, embora se possa “depredar” (que significa destruir) com uma pedrada, devemos manter o erre no local correto. É esquisito mas é assim.
Ainda que prelados sejam pessoas dignas, nunca saúde um dignatário (horror!) e sim um “dignitário” da Igreja. Se quiser dilapidar seu patrimônio, pode fazê-lo mas, de preferência, com “i”. Só na novela das 8 as pessoas delapidam o que têm.
Ao “exprobrar” o comportamento de alguém, tome coragem e exprobre pra valer – cheio de erres. E – gente! – o inimigo é “figadal”, mesmo. Vem de fígado, órgão que processa a bílis, e não de fidalgo, como um amigo meu pensava: – Apraz-me ter inimigos nobres.
Como é Natal, podemos e devemos dar “mortadela” aos “mendigos”, mas sem nariz entupido e nazalizações equivocadas. Ninguém merece ser mendingo.
E, por fim, não reinvindique nada junto a Papai Noel, ele fará ouvidos de mercador. “Rei vindicatione” (reclamação de coisa) é a origem de toda “reivindicação” correta.
Também é importante conhecermos, com clareza, o significado das palavras.
Canalha vem do italiano “canaglia”, em cuja formação é fácil descobrir o substantivo “cane”. Se não quiser ofender o melhor amigo do homem, use abjeto, cafajeste, escroto, ignóbil, ordinário, etc., etc. E poupe o seu cão de uma aproximação semântica com o canalha.
Comemorar não é comer junto, sinto muito. Logo, bebemorar é uma idiotice. “Memorar” é lembrar e comemorar é “lembrar junto”. Só podemos comemorar com quem divide um passado conosco.
O “extático” se encontra em estado de êxtase. O “estático” fica paradão. Na hora da cantada, um “x” pode fazer toda a diferença.
Fezes? Só no plural. Na sua origem latina, “faeces” significava lama, lodo, elementos impuros. Os romanos chamavam os dias de céu limpo de “dias sem fezes”. Daí para a metaforização, o passo foi curto. “Esgotar um cálice até as fezes” era sorver seu conteúdo até as últimas gotas ou os últimos resíduos. Não recomendo. Nem na prática nem na metáfora. E dizer que alguém é “enfezado” é afirmar que sofre de prisão de ventre. O que gera mau humor.
Para finalizar – como curiosidade – testículo é o diminutivo de “teste”, testemunha. Logo, testículos são pequenas testemunhas. Pode haver algo mais lírico e, ao mesmo tempo, constrangedor?
Bem, este livro foi um dos meus presentes de Natal. Por isso, gosto de dar e receber livros – sempre se pode dividir com alguém. Se quiserem dar um útil e divertido presente, o título é: “Por dentro das palavras da nossa língua portuguesa”. Autor, Domício Proença. Editora, Record. E aqui termina o meu momento Neide Aparecida.
Como não o comprei, não sei o preço. Mas, pelo tamanho, não deve passar de 25 reais. Meu amigo ganhará uns 2,50 por exemplar vendido, um maço de cigarros. Como não fuma – depois desta descarada propaganda e com os 5 leitores que arranjei para ele com esta crônica -, poderá ver Invasões Bárbaras. Se fosse editado pela Candide, teria 20% sobre o preço de capa e já dava para o chope depois do cinema. Escritores do Brasil, uni-vos em torno da Candide!
E dêem livros de presente! É uma atitude socialista. Ou aquariana. Ou uma ação entre amigos. Vocês escolhem.
Apesar do Natal estar chegando a cada ano mais depressa – e esta paranóica assiduidade tirar muito do seu encanto -, feliz Natal para todos vocês!

Por vício e ofício, leio jornais procurando os mitos embutidos nas matérias. Como nada é novo mesmo, sob o Sol, o que quer que aconteça já aconteceu. Identificar os símbolos e mitos nos eventos relatados nos dá a possibilidade de prever o final de quase qualquer drama.
As personagens mitológicas representam funções psíquicas, as relações que engendram entre si compõem uma dramaturgia da vida interior e o que acontece no interno e no inferno das pessoas me interessa muito mais do que o relato objetivo dos seus atos.
Na semana passada, li e não consegui esquecer esta matéria:
“Armin Meiwes, 41, colocou anúncio em websites procurando “jovens sarados entre 18 e 30 anos para abate”.
Ele encontrou Bernd-Jurgen Brandes, 43, que aceitou se tornar sua vítima. Brandes viajou até a casa de Meiwes em Rotemburgo. Concordou em ser castrado, teve seu membro flambado e os dois o comeram juntos no jantar. Meiwes registrou o banquete em vídeo.
Depois do jantar, Brandes permitiu que Meiwes o assassinasse. Foi esquartejado e suas partes guardadas no freezer. Durante os meses do inverno, Meiwes comeu cerca de metade do corpo.
Foi quando Meiwes colocou um segundo anúncio e começou a entrevistar novos candidatos. A maioria respondeu ao anúncio acreditando se tratar de uma fantasia sexual mas alguns perceberam que se tratava de uma proposta séria de canibalismo e foram à polícia.
Meiwes alega, em sua defesa, que tudo foi feito com o consentimento da vítima. E tem algumas queixas, Brandes mentiu para ele: disse que tinha 38 anos quando, na verdade, tinha 43.”
O desejo de comer carne humana me levou, de saída, a pensar em comunhão. O devoramento do corpo é sempre uma “incorporação” (claro!) de poderes e atributos e algumas culturas praticaram a antropofagia de maneira ritualística: jamais comiam o inimigo covarde, o que se come passa a fazer parte de nós.
Osíris, deus egípcio identificado com o Sol, simboliza a atividade vital: a morte e a ressurreição. Esquartejado por seu irmão Set – seu lado escuro, a sombra do Sol – é ressuscitado por Ísis e representa a vitória eterna da vida sobre a morte, à qual toda a vida é destinada.
Na comunhão, nos é oferecido o “corpo de Cristo” e “hóstia” era o nome dado à vítima imolada aos deuses como oferenda. Era o corpo do sacrifício. No cristianismo, este mistério está representado na Eucaristia e mistério significa “trabalho sagrado”.
Deve dar um trabalhão reduzir um corpo humano a bifes. Guardá-los no freezer também me pareceu muito prático e pouco ritualístico.
O pênis é a potência geradora e, sob esta forma, é venerado em diversas religiões. O poder fálico fundamenta, até na Cabala, tudo que está vivo e a nona Séfira – Yesod, não por acaso a geração e o fundamento – sustenta a Árvore da Vida.
Urano, deus do Céu na teogonia grega, deitava-se sobre Gaia, a Terra, e gerava filhos sem parar. Gerava monstros, titãs, hecatônquiros, e depois os achava feios demais e os atirava ao Tártaro. Símbolo da fertilidade criadora indiscriminada, foi castrado por seu filho, Saturno. Da espuma ensangüentada do membro uraniano caído no mar, nasceu Afrodite – deusa da ordem e da forma harmoniosa. Deusa cultuada pelos artistas, que conhecem a necessidade da forma limitando a fertilidade infinita da inspiração: formar é dar limites.
A castração é ato simbólico, indispensável à realização da obra artística – o trabalho humano dando forma à inspiração divina.
Pensei primeiro em Meiwes como um artista. Mas, que diabo, os dois malucos flambaram o poder fálico – nem sei se com conhaque – e isso eu nunca vi em parte alguma!
Ler o jornal é fazer uma viagem por símbolos e mitos. Elas – as personagens das tragédias do dia-a-dia – e nós – que nos consideramos tão mais sãos e menos trágicos – na verdade somos a matéria de que os mitos são feitos.
Mitos são eternos e se repetem e se desdobram na história da humanidade, em atos de santidade e sanidade e em atos de crueldade, inexplicáveis mas miticamente inteligíveis.
As histórias míticas não me surpreendem. As não-míticas não me interessam. Mas alguém pode me explicar, por favor, o que está acontecendo de novo em Rotemburgo?
Apesar da intimidade com mitos e símbolos, não estou conseguindo estabelecer conexões que se sustentem e, para ser honesta, não estou entendendo mais nada.

Esta coluna foi escrita no dia 21 de Novembro. Como todas as anteriores, foi escrita de madrugada, em cima da hora, em cima da perna, etc. E, também como todas as outras, foi mandada por e-mail para a minha editora, conhecida nestas plagas por Sinhá.
Sinhá não a publicou no dia 21. Estranhei mas não comentei nada – cronista é cronista, editor é editor. Na semana seguinte não mandei coluna nova, havia uma em estoque, nada me foi pedido e nada foi publicado. Pensei cá com meus botões: fui demitida.
Como já tinha me habituado ao mundo blogueiro, pensei também em pedir emprego em outros blogues, quem sabe o Polzonoff, mas dificilmente iria achar outro sítio tão democrático; e havia os colegas de redação, o Chefe, Dr. P., Bia; e os amigos que comentam; e era bom dar uma passada diária em Epinion para estar com eles; e, afinal, sempre entreguei o meu trabalho em dia, concordo em que às vezes as crônicas eram bem ruinzinhas mas sou cronista amadora e com o tempo podia melhorar, quem sabe, e já estava chorando lágrimas sentidas em cima dos meus botões.
Hoje, Sinhá me ligou, combinamos um cineminha, vamos ver os bárbaros amanhã, e, en passant, perguntou:
– Vai mandar a coluna?
– Já mandei, há quinze dias.
– Não recebi nada, pensei que você tivesse tirado férias.
– Pensei que tivesse sido despedida.
– Oh!
– Oh!
Eu e Sinhá temos em comum a famosa Lua em Câncer, que considera de mau-gosto cobrar o que quer que seja de alguém ou discutir assuntos desagradáveis. Quem possui esta britânica Lua, pode chegar ao divórcio sem nunca discutir a relação. Perde-se a parceria mas jamais a elegância.
Assim, queremos comunicar – principalmente aos nossos botões – que estávamos dando um tempo mas resolvemos tentar de novo e seguimos juntas até que a AOL nos separe.
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O Primeiro a gente não esquece
A turma da casa lançou seus livros na semana passada, numa festa cheia de inovações. A mais importante: aboliu os famigerados autógrafos.
Pessoalmente, lamentei. Como filha de livreiro, conheço o valor de uma primeira edição autografada. Compra-se um livro hoje e podemos legar um apartamento para netos ou bisnetos, nunca se sabe.
Mas, para os autores, foi sábia decisão.
Meu primeiro autógrafo foi para um jornalista, Pedro Gomes. Editorialista d’O Globo, texto erudito e primoroso, éramos conhecidos recentes, de encontros em casa de amigo comum. Sua formação literária era a dos velhos tempos – brasileira, francesa e portuguesa – e era anglófobo assumido: detestava tudo que viesse escrito na língua dos bárbaros. Dava como exemplo irrefutável o belo som de lua, luna, lune dos latinos, que engendrou tanta poesia. E o mugido saxão – moooon… Pedro não sabia nada de inglês por aversão convicta.
Quase obrigado por amigos, matriculou-se num curso só para ter noções gerais, poder ler um texto simples e perder a cisma.
– É língua fácil, de aprendizado rápido, qualquer um fala. Verbos sem desinências pessoais, construção sintética, o texto fica conciso como você gosta.
Dias depois, Pedro chega à redação, triunfante:
– Sabem como é anteontem, na língua dos bárbaros? “The day before yesterday”!
Largou the book on the table e voltou para Victor Hugo. Gostava da objetividade contundente dos grandes escritores e implicou com o título do meu livro.
– O título já faz parte da obra e adianta o que vamos ler: Memórias do Cárcere, O Crime do Padre Amaro, O Corcunda de Notre-Dame. O que é o raio de um teorema do espelho?
– Vai sair em 15 dias, Pedro. Leia que você descobre.
Ele resmungava e resolveu levar à minha casa Rachel Jardim, sua amiga, que havia escrito O Inventário das Cinzas. Pela péssima qualidade do título, achou que teríamos afinidades.
A reuniãozinha foi agradável, dávamos boas risadas, Pedro tinha histórias engraçadíssimas de políticos e famosos das últimas décadas e contava seus casos com propriedade e elegância, apesar de não conseguir distinguir os cinzeiros dos potinhos de castanha-de-caju; não inventariava as cinzas. Quando se levantou para ir ao bar renovar a dose de uísque – era grande bebedor de uísque – foi precavidamente avisado de que entre as duas salas havia um pequeno degrau.
– Estou vendo – afirmou seguro; e cruzou o traiçoeiro Rubicão.
Estabacou-se na volta, desabando em corpo e copo. Descobri, naquela noite, que minhas afinidades eram com ele e ficamos amigos – Pedro era um atolado nato.
Uma noite, em frente à casa do Otto Lara – que morava aqui no bairro e hoje tem até estátua na pracinha – perceberam possíveis assaltantes, no que estavam a sair do carro. Otto correu, entrou e bateu a porta. Pedro saíra pelo lado errado, como todo distraído, e ficou do lado de fora. Começou a esmurrar a porta:
– Abre, Otto!
Otto, que já tinha virado peça de Nelson Rodrigues – Bonitinha mas Ordinária ou Otto Lara Rezende -, de quem Nelson dizia que, como mineiro, só era solidário no câncer, certamente tinha lá suas solidariedades mas não em assaltos. Pedro pedia para que abrisse a porta e Otto, lá de dentro, só dizia:
– Pedro, estou contigo e não abro!
Nelson também afirmava que o Otto tinha uma loja de frases – modelos adequados a todas as ocasiões – e foi ao som de uma boa frase que Pedro foi depenado na porta da casa do Otto. Continuaram amigos.
No dia da minha primeira noite de autógrafos, no que chego ao hotel onde se realizava o evento, encontro o Pedro. Eu, anfitriã, uma hora adiantada por gentileza. Pedro, destrambelhado, porque confundiu o horário e já com o livro debaixo do braço. Ficamos conversando.
Ele ria do aparato-para-bem-impessionar: roupa nova, cabelo e maquilagem profissionais, caneta preciosa presenteada por íntimos orgulhosos – daquele dia em diante eu seria mulher pública, que dá autógrafos.
Levei quatro ou cinco frases – adrede preparadas – inteligentes, concisas, humoradas, que sofrendo pequenas variações serviriam para as centenas, quiçá milhares, de dedicatórias que faria naquela noite. Uns e outros foram chegando e abri o livro do Pedro para começar a função. Branco total. Por mais que as convocasse, nenhuma das frases se apresentava à mente e olha que estavam bem decoradas.
– Pedro, esqueci.
– O quê?
– As dedicatórias improvisadas.
– Ué, inventa.
– Não consigo. Estou burra.
Atrás dele, começou a se formar uma pequena fila.
– Escreve qualquer coisa, agradece, sei lá. Ainda sabe assinar seu nome?
Não dava mais para adiar, nosso papo demorado já estava inconveniente.
– Vou escrever qualquer coisa. É o primeiro autógrafo que eu dou na vida, sabia?
Quando devolvi o livro, ele coçou a cabeça e comentou:
– Com este título e a besteira que você escreveu, acho que não vou passar da primeira página.
Nunca soube se Pedro leu ou não o Teorema do Espelho, ele fez questão de manter o suspense, e durante a noite inteira o que saiu foi mais ou menos no mesmo lamentável nível. Mas me dei conta, naquelas horas de horror, de que – com o título e a dedicatória – compomos a primeira página do nosso livro. Talvez a mais importante, porque conquista ou afasta o leitor para sempre. A primeira página não está lá dentro, no nosso cuidado texto, como gostamos de imaginar: é mesmo a folha-de-rosto, com título e autógrafo.
Durante algum tempo, Pedro Gomes me gozou:
– Um título hermético, que induz à reflexão. E embaixo, com letra trêmula: “Pedro, que bom que você veio!”. Qualquer coisa nunca é mesmo coisa que preste.
E finalizava com uma nova teoria, entre goles de uísque:
– Todo escritor deve começar sua obra pelo segundo livro.
Lampert e Polzonoff – jovens sábios – vocês não sabem do que se livraram.

E La Nave Va

O navio britânico Aurora saiu de Southampton, em 20 de Outubro, para um cruzeiro pelas Ilhas Gregas. Seus 1.800 passageiros pagaram entre US$ 1.500 e US$ 9.000 pelo simpático programa.
Uma virose do aparelho digestivo, altamente contagiosa, afetou mais de 500 passageiros, parte da tripulação, e as autoridades de Atenas, Dubrovnik e Veneza negaram autorização para o desembarque dos intoxicados.
O vírus não é grave mas causa vômitos e diarréia – quando uns se recuperam, outros caem contaminados. Sem porto que a receba, a nave segue de volta para casa.
Todos os navios de turismo se parecem e todos os cruzeiros são o mesmo cruzeiro. Seja nas Ilha Gregas ou descendo o Nilo, dentro de um navio você está em Miami.
Há uma conspiração internacional para tornar todas as viagens iguais, com o mesmo gosto, a mesma música, o mesmo cheiro.
Profissionais do entretenimento estão sempre tentando inserir alguém em gincanas, ginásticas, danças, sorteios, corridas de saco e vamos-ver-quem-consegue-botar-o-rabo-no-burro. Todo cruzeiro é deprimente.
Antes do ansiado fim, rola um baile à fantasia. Se você não quer se vestir de Minnie e prefere olhar o mar, perguntam se está deprimida e é proibida a depressão a bordo. O buffet é um quadro naïf, não há penumbra nem meios-tons, a moldura das travessas não combina com o que está dentro e é tudo agressivamente colorido: cascatas de camarão, peixes inteiros, perus laqueados invariavelmente enfeitados com cereja e muita maionese – dá nojo ao final de dois dias -, deve ter sido a maionese, a vilã sempre é a maionese, e qualquer programa de classe-média acaba na Disney com muita maionese.
Mas as águas pertencem a Netuno – principalmente as do Egeu – e Netuno talvez tenha horror a Mickey e Minnie.
Na partição dos três mundos, couberam a Júpiter o Céu e a Terra, a Plutão os Infernos e a Netuno as Águas.
O reino da águas é o abismo misterioso de onde a matéria emerge e a letra Mem é a raiz cabalística de Mãe e de Mar – as Águas são berço e túmulo e suas leis são diferentes das leis da terra, do céu e do inferno.
Qualquer barco é território de ficção porque o que bóia nas águas não pertence mais ao mundo ordenado e lógico da realidade – Netuno é o deus das profundezas onde tudo é ambíguo, onde as formas se dissolvem, as cores se fundem, onde a loucura é possível e a loucura interessa muito mais ao artista do que a lucidez previsível. As histórias loucas nos remetem ao mundo de Netuno.
O Holandês Voador era um navio condenado a vagar por toda a eternidade com uma tripulação fantasma – foi lenda, antes de ser ópera de Wagner.
Ulisses demorou dez anos na viagem de volta à Ítaca, seus caminhos deixaram de ser os duros e coerentes campos de Tróia e se confundiram numa jornada fantástica de sereias, monstros, feiticeiras que transformavam homens em porcos e legiões de afogados.
O Pequod navegou 40 anos conduzido pela obsessão de Ahab a perseguir pelos mares Moby Dick, a baleia branca que levara sua perna, e só sobrou Ismael para contar.
Tudo que é misterioso e perigoso é banido para o reino de Netuno – o mar é o grande esgoto onde são despejados os indesejáveis. Na Idade Média, navios desciam os rios recolhendo os loucos e os pestilentos de cada aldeia e cidade para morrer no mar. O mar é o inconsciente e joga-se no mar os dejetos rejeitados pelo Céu e pela Terra.
A filha do meio – a escritora da família – tem um conto fantástico sobre episódio real: “No momento em que escrevemos, um iate luxuoso percorre os oceanos do globo. Traz bandeira que não é de país conhecido ou desconhecido. Tem a bordo um certo número de guardas armados pois muitas vezes tentaram arrombar o cofre-forte do capitão. Esse cofre-forte contém um livro perigoso cuja leitura torna louco quem o lê e se chama Excalibur”. Em “Livros Malditos”, Jacques Bergier fala de Ron Hubbard, criador da Dianética e da Cientologia, que inspirou este conto.
Hubbard tinha lembranças de uma grande “civilização galáctica” da qual dizia que somos uma colônia perdida. Reuniu estas lembranças num livro que chamou de Excalibur e o deu a ler a alguns voluntários. Todos ficaram loucos e a informação que se tem é de que continuam internados. Charles Manson – assassino de Sharon Tate – um cientólogo declarado, continua preso. Hubbard, desde então, navega com seu livro maldito e não se sabe se já morreu. Até livros podem ser netunianos.
Não adianta querer transportar Miami para o reino de Netuno porque em pouco tempo o sonho americano será helenizado: o que bóia sobre as águas corre o risco de sair do real e virar tragédia grega.
Não há “happy end” no território deste deus, há terror e compaixão para provocar a catarse e catarse quer dizer purificação, purgação. Netuno é o deus das vísceras, o que vira as entranhas pelo avesso.
E que, às vezes, até arrisca um ou outro gesto de humor. Como naquela manhã surreal e inesquecível – em que o Solana Star desovou no mar latas de maconha do tamanho de latas de Neston, para se livrar do flagrante, e o louco deus as fez boiar e depositou na areia para o Carnaval da moçada, onde milhares de jovens as recolheram diante de impotentes e estarrecidos policiais. Fellini não faria melhor.
Ou a intoxicação-geral do navio inglês, num tragicômico processo catártico – ou purgativo -, condenado a vagar sem porto que o abrigue, transformando a erudita viagem pela civilização minóica num literal cruzeiro de merda.

Um amigo está no corredor da morte, esperando a vez.
Mas não está conformado, não. Interpõe todos os recursos cabíveis para adiar a execução. É jovem, ainda não tem 40 anos, filhos pequenos, mulher dedicada, esses detalhes que engendram a pergunta de revolta: – Por quê eu?
Tudo começou no ano passado, com um stress.
O stress é um curioso estratagema do organismo para lidar com uma situação-limite. É um sofisticado mecanismo de sobrevivência. Imaginem o homem primitivo diante de um urso ou um leão. Assim que o perigo é localizado, o sábio corpo começa a fabricar uma química de emergência, preparando-se para lutar ou fugir. Em segundos, o nosso primitivo tem hormônios despejados em abundância para correr do leão, subir em árvores, não sentir sono, fome ou cansaço e seus sentidos ficam muito mais alertas do que em estado normal. Isto é o stress – a resposta criativa do corpo à situação de exceção.
Mas vamos imaginar que o homem continue a correr do leão por 2, 3, 4 dias. Seu corpo passa a fabricar anestesia. Sem sentir o alerta da dor, o homem pode dar a arrancada final ou sofrer menos, se o leão o alcançar. Novamente, a sabedoria do corpo trabalhando a seu favor.
Meu amigo não correu de um leão, correu atrás de uma cenoura. Mas correu muito. Quando esta situação que deveria ser de emergência se torna crônica, o sábio químico que habita em nós começa a produzir substâncias para se matar. A longo prazo, aquilo que pode nos salvar nos mata. A batalha está perdida mesmo e ele não deve sofrer nas garras do leão. O homem cai morto.
Meu amigo também despencou do alto do seu stress. Era forte, saudável e não sentia nada – claro, estava anestesiado. Não caiu morto, foi socorrido a tempo e levado para um CTI de onde saiu com os olhos esbugalhados: – Por quê eu?
Temos conversado bastante, ultimamente. Os amigos o evitam – ninguém gosta de interlocuções com a morte – ou fazem visitas rápidas, salpicadas de frases hipócritas: – Cara, você vai sair dessa! – Não vai, ele está no corredor.
No corredor, aliás, estamos todos, a diferença é que ele sabe que está lá e nós fingimos que não sabemos.
Eu e o meu amigo falamos sobre morte. Quando lhe perguntei se tinha medo de morrer, ele me agradeceu. E começou a tentar entender seu medo. Conseguiu separar a pena de morrer, a preocupação com a família e o medo propriamente dito. O medo da morte não é o sentimento principal – ele tem mais medo de como vai morrer.
Andou tendo sonhos recorrentes com armaduras e escafandros e teme ficar preso dentro do corpo. Sente-se, hoje, um provável prisioneiro despojado de direitos básicos.
Pensou em deixar um documento para a mulher reiterando, enquanto está perfeitamente lúcido – e está -, que não permite que “façam todo o possível”. Esta possibilidade o apavora.
Gostaria de morrer em casa – “como um patriarca bíblico” – cercado pelos filhos, com algum ritual religioso e podendo dizer as últimas palavras, aquelas que justificam uma vida e, quem sabe, fossem mais importantes para ele do que para quem as ouvisse. Gostaria de uma morte decente, só isso, mas desconfia de que morrerá entubado e mudo, no meio de estranhos. Sem uma reza ou alguém que ame segurando a sua mão. E, pior, talvez condenado a ser um morto-vivo por algum tempo.
Sabe também que ninguém terá poder sobre ele – desde que entrar num hospital ficará à mercê da instituição – e ninguém dará mesmo o piedoso chá-da-meia-noite. Ele tem senso de humor.
– Tenho mais direitos sobre meus bens do que sobre a minha vida – lamenta. – Ela não me pertence e não posso dispôr de mim mesmo como entender.
É uma verdade perversa. Se a morte vier não para matar mas para, primeiro, encarcerar – e ela às vezes age assim – paralisando o corpo e deixando a consciência viva e presa dentro dele, ele precisaria de um amigo.
– Não me olhe com esse olho – eu digo. – É crime!
Ele desmonta o olhar pidão e damos boas risadas.
Mas, que droga, ele é meu amigo. Como está no corredor, pensa muito sobre isso e entende que a morte rápida e indolor é direito de todo condenado.
Eu penso como ele mas não posso fazer nada e amanhã os filhos e amigos não poderão fazer nada por mim, afinal, estamos todos no corredor e todos carregamos uma bomba-relógio-sem-ponteiros, não sabemos quando, só sabemos que detonará, embora as pessoas costumem usar o condicional quando falam da explosão: – “Se um dia explodir…” – explodirá, estejam certos.
O destino do meu amigo é um destino banal, banalíssimo. Está sendo obrigado a olhar para ela, a “indesejada das gentes”, o único enigma que é certo desvendarmos enquanto vivos.
O que está suportando também não é especialmente cruel, quase todos os viventes passaram ou passarão pela experiência. Cruel, talvez, é o que fazem com ele as eficientes equipes de branco, as equipes togadas e tantas outras equipes, meu Deus, que supõem possuir sabedoria maior do que a do seu corpo ou seu desejo.
São alguns artigos num código – votados displicentemente, sem nenhuma reflexão sobre a fraternidade – que transformam o amigo em homicida.
Quem quer que já tenha sacrificado um animal, sabe como são as últimas horas. É uma injeção e fica-se junto. Há um tempo para as lágrimas da despedida e a lembrança dos dias da chegada. Há um tempo para o agradecimento mútuo, o colo e o afago.
Cruel é não podermos fazer pelo amigo o que fazemos, amorosamente, por um cachorro.

Apis Regina

Os problemas sempre começam com o meu tédio. Não é um tédio existencial, longe disso, a existência não me angustia, nem a minha nem a alheia, não acordo perguntando para o espelho por que existe o ser e não o nada e não sofro de náusea. É mais o cansaço da reprise, a eterna sensação de dejá vu – consigo tê-la vendo filmes e peças que nunca vi e nos papos sociais com a maioria das pessoas, prefiro um bom livro a quase todos os convites. Agendo meus dias, principalmente os dias livres, com um critério quase automático: – tá bom, garantem que vai ser divertidíssimo, mas o que pode acontecer de surpreendente? – Quase sempre a resposta é: nada. E, quase sempre, dou um jeito de pular fora.
Com as pessoas amoráveis, não – qualquer restaurante é bom, qualquer caminhada na praia é um programa, não fazer nada juntos também é ótimo -, não reivindico surpresas destas pessoas, até prefiro que continuem como sempre foram.
A opção preferencial pelo imprevisto torna qualquer locomoção um arrependimento e poucas tentativas fora de casa conseguiram me encantar e vencer o meu tédio.
Beber ayahuasca na selva de Tupinambarana, procurar uma frase escondida há 400 anos nas muralhas de Ávila, esperar um dia inteiro em Congonhas do Campo para ver Zé Arigó enfiar uma faca no olho de alguém, passar meses vasculhando de cabo a rabo uma rua imunda da Lapa, atrás de um número inexistente que apareceu num sonho, e descobrir o prédio num alfarrábio da Biblioteca Nacional, foram experiências inesquecíveis. Mas quase todas as outras foram esquecíveis e execráveis.
Então, não é de admirar que não vá a médicos. Estão sempre no mesmo endereço, com a mesma salinha de espera, a mesma música, as mesmas revistas e a mesma enfermeira com sua lixa de unhas. Também porque médicos são detetives natos que nunca acreditam no seu depoimento honesto:
– Não sinto nada.
– Nunca se sabe, vamos investigar.
– Mas eu sei quando sinto ou não sinto.
– Melhor checar.
Como sou otimista e acredito que quem procura, acha, prefiro não freqüentá-los. Mas, há um ano e pouco, fui a um e ouvi estranho diagnóstico:
– LER. Dá em quem escreve (encantado com a própria piadinha). Digita só com estes dois dedos?
– Só.
– É como joelho de jogador de futebol, não tem jeito, usa demais, estraga mais cedo que o resto.
– E o que se pode fazer?
– Pendurar as chuteiras (outra gracinha). Dói?
– Não.
– Mas vai doer, a degeneração é rápida. Precisa de calor, fisioterapia com forno.
Saí do consultório do abutre temendo que os dedos já não segurassem mais as folhas de exames que não fiz e o endereço do fisioterapeuta a que não fui: seriam 3 vezes por semana e o meu tédio não consegue imaginar o mesmo programa – 3 vezes por semana – por mais de uma semana.
Foi quando uma amiga fez uma matéria para O Globo sobre um apicultor que curava tudo ou quase tudo com picadas de abelhas. Quis detalhes e ela é pródiga em detalhes. Ao final, eu já estava convencidíssima: – Será que cura Lesão de Esforço Repetitivo?
– Já curou esclerose múltipla, artrite e AVC. LER é brincadeira.
Qualquer trabalho que mexa com o simbólico ganha meu crédito de saída e a abelha é dos símbolos mais impressionantes. Em hebraico, abelha é Débora e a raiz Dbr se refere ao verbo, à palavra. Abelhas teriam pousado sobre os lábios de Platão, recém-nascido, e lhe conferiram eloqüência e inteligência. Para os egípcios seriam as lágrimas de Rá, o deus-Sol, derramadas sobre a terra. Em Elêusis, as sacerdotisas eram chamadas de abelhas, na Idade Média simbolizavam o Espírito Santo. Napoleão inverteu a flor-de-lis dos Bourbon e fez da abelha o seu emblema, ela também é poder.
A terapia se completa com o uso de pólen e geléia-real. A geléia real é o que torna a Apis Regina diferente da Apis Mellifica. A rainha é uma abelha igual às outras mas que só se alimenta de geléia real, por isso vive 40 vezes mais do que as operárias – que se alimentam de mel – e desenvolve fertilidade assustadora, daí ser a mãe da colméia inteira.
E assim na semana passada, sem nenhum tédio, lá fui eu ao encontro do apiterapeuta que não tem salinha de espera, esperamos num jardim com água e cafezinho, fuma-se à vontade e os outros abelhados garantiram que com 7 ou 8 sessões eu estaria definitivamente boa.
Estendi as mãos, um pouco tensa, ele pegou com uma pinça a abelha numa caixa de vidro, deu uma apertadinha na cintura dela e ela picou. Doeu pra burro. Queimou. Olha o calor que o fisioterapeuta queria, quando pensava em colocar meus dedos no forno. Um dedo, outro. Como estávamos os dois com a mão na massa, ele não parou. Cinco em cada mão. Dez ao todo.
– Melhor não digitar, hoje nem amanhã.
Nem podia, naquela noite as mãos dobraram de tamanho e quem digita com luvas de box? Deu febre e tremedeira. Liguei para uma amiga médica, nada simbólica, e me preparei para o sermão:
– Espasmo de glote, tonteira, vista turva?
– Não.
– Perdeu os movimentos finos?
– Os grossos também.
– Se notar dificuldade para engolir, chama uma ambulância. Anafilaxia mata.
– Não seja dramática.
– Toma um anti-histamínico.
– Já estou.
– Toma juízo, também.
E desligou na minha cara.
Bem… passei o fim-de-semana observando, orgulhosa, a reação napoleônica do meu corpo frente ao veneno invasor. Fiquei uns cinco dias sem escrever nada, o que não me fez falta, o tempo sobrou. Li dois livros que havia comprado e um romance emprestado do Furio Monicelli.
Mas continuo uma férrea defensora de terapias simbólicas – tudo é imprevisível e nada é tedioso. Junto com geléia real, pólen e própolis, não serei mais uma operária, serei uma Regina.
Se também não responder aos comentários à esta coluna, compreendam e não se ofendam, consigo lê-los porque os olhos estão preservados, o apiterapeuta não tem planos para eles: é que quinta-feira é dia de abelhas e lá estarei, novamente, contra todos os conselhos. Elêusis, Espírito Santo, Platão, o Verbo, não dá pra resistir.
E, como vocês sabem, pico vicia.

Obesidade Mórbida

A obesidade aumentou, nas últimas décadas, e nos países mais ricos já é caso de saúde pública. O pior é que o obeso, apesar de comer muito, é mal alimentado. Atribui-se este problema à fast-food.
As redes de fast-food obedecem a alguns princípios: pequena variedade, paladar padronizado e facilmente reconhecível, programação visual para cada produto.
Em qualquer lugar se come o mesmo Big Mac e as pessoas os comem todos os dias. Monótono, não? Mas a monotonia contribui para a rapidez – engole-se mais rápido o que já se conhece e não oferece surpresas. Quem não gosta de um Big Mac?
A diferença entre a fast-food e a comida elaborada é que esta é uma aventura, tanto para quem a faz como para quem a come. Todo bom cozinheiro sabe que não se repete a mesma receita, há um fazer pessoal de cada vez e experimentação constante: gastronomia é arte. E, porque é arte, não existe gastronomia em rede.
Depois da Segunda Guerra, criaram-se as primeiras escolas de jornalismo no mundo, que passaram a atrair pessoas que gostavam de escrever. Nestas escolas eram ensinadas técnicas de redação para jornal. Tal qual nas redes de fast-food, há um paladar médio que deve ser atendido, pouca escolha e um molho previsível.
Os editores recomendavam um livro a cada adjetivo censurado – “o que o senhor acha da vedete assassinada, coloque no seu livro, seu Ananias” – e Graciliano Ramos, quando era revisor do Correio da Manhã, depois de passar o lápis vermelho num texto, escreveu na margem para o repórter iniciante: – Outrossim é a puta que pariu.
O texto jornalístico passou a ser seco, curto, substantivo. Qualquer palavra que não fosse de uso corrente ou qualquer estilo que pudesse identificar o autor eram podados em nome da objetividade e da redação uniformizada. Definiram-se dois textos distintos, o jornalístico e o literário.
Mas nem sempre foi assim. Dostoievski, Victor Hugo e Machado de Assis escreveram romances em folhetins diários ou semanais – acompanhados por milhares de leitores – e só depois os editaram como livros. Parece que era possível à massa consumir a boa letra.
Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão mandaram cartas anônimas durante meses ao Diário de Notícias de Lisboa dando conta de crimes misteriosos ocorridos na Estrada de Sintra. Escreviam alternadamente e cada um deles procurava deixar o parceiro encalacrado para continuar a trama. Quando ao final os dois escritores se revelaram como os autores das cartas, O Mistério da Estrada de Sintra já tinha o sucesso editorial garantido.
A preocupação, para com tudo que é dirigido às massas, é facilitar para aumentar o consumo. Mesmo os textos assinados dos jornais guardam um tom sempre leve, temas atuais e digeríveis, vocabulário pobre para ser entendido. Mas nem sempre o entendimento conduz à compreensão porque sabemos que são coisas diferentes.
A literatura do pós-guerra veio a tornar-se uma literatura jornalística e a beleza do texto deu lugar à clareza e à concisão. O texto elegante – assim como a mulher – passou a ser o texto magro, enxuto, sem qualquer adiposidade.
No livro, o autor falava e cabia ao leitor o esforço de entende-lo.
Na literatura atual, o autor fala “para” o leitor: o trabalho para ser entendido passa a ser dele. Ele fala então para um leitor que não existe, é uma média, uma ficção estatística. Mas este leitor inexistente passa a ser co-autor porque impede a liberdade de dizer em nome do direito de entender. Ele não cresce com o autor que lê, o autor é que fica do seu tamanho. Não pode dar muito certo, olhem as novelas.
E agora, chegamos à Grande Rede e à curiosa escritura on-line que todos praticamos. Em que não se fala mais como nos jornais ou na literatura dos últimos 50 anos: fala-se “com” o leitor.
A literatura da Rede é onomatopéica, sim. Cheia de putz, humpf, irgh, e todo texto é um monólogo coloquial. A onomatopéia é um recurso usado para a comunicação com crianças pequenas. O estilo que se está a criar na Rede é o discurso dirigido a alguém sempre infantil. Repetem-se palavras exaustivamente (vamos, vamos tomar banho!), criam-se possíveis objeções do leitor para reforçar o que se quer dizer e se pontua a hora do riso, rsssss, ou da gargalhada, kkkkkkk. Como nas comédias tolas para TV em que – para a platéia rir – o filme ri.
Já imaginaram Cervantes indicando o momento em que devemos rir de Sancho?
O autor sempre riu sozinho. Alguns leitores o acompanhavam, outros não. Também chorava só. Agora – snifff – compartilhamos todas as suas emoções. É curioso? É. É empobrecedor? Também.
Aonde vai dar? Ninguém sabe. Nunca se sabe, no início. O fenômeno do texto jornalístico invadiu e ocupou a literatura, ela não foi mais a mesma e nunca mais ousou pronunciar “outrossim” e “alcatifas”. Pode ser que o estilo da Rede determine a literatura do século XXI. Será uma pena.
São poucos milhares de palavras, as que temos à disposição para descrever o que toda literatura tenta capturar – o homem e seus mundos. Temos menos palavras, em qualquer língua, do que livros editados anualmente. É pouco material, para a ambição de um escritor. Seria insano reduzi-lo ainda mais e descartar a busca do ingrediente raro e do tempero criativo.
Lê-se pouco, na Rede? Não. Lê-se mal.
Consumimos em grande quantidade e estamos todos obesos. Mas matamos nossa fome com 2 hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão com gergelim.

Todo mundo usa

O GNT Fashion mostrava umas sandálias havaianas de Chanel e elas custavam mil não lembro que moeda, dólares, euros ou foram convertidos em reais, não importa. Custavam mil-qualquer-coisa. Aquelas, todas de borracha, brancas ou coloridinhas, que as tiras não soltam, não têm cheiro, etc.
Como o Havaí é aqui, havaianas são brasileiras, é claro, e são um modelo acabado e imexível de conforto e bom gosto. Agora, com a griffe Chanel, talvez sejam em breve conhecidas como as “francesas” e o mundo estará autorizado a admitir o que elas sempre foram: belas.
A nossa estética é uma imposição das griffes e ninguém sabe mais o que é bonito ou feio. Os estilos de época sempre foram identificáveis na arquitetura, na literatura, na indumentária e o estilo é a evocação da História – evoluções ou revoluções revolucionavam ou faziam evoluir a gastronomia, o vestuário, a moradia -, enfim, o homem cria de acordo com os meios que o momento histórico coloca à sua disposição. E a criação humana, ainda que não intencionalmente, tende para a beleza. Ou tendia, antes das griffes.
As havaianas são belas porque mantiveram a simplicidade da sandália original: uma sola e algumas correias, nada mais. O mínimo. Desde que o homem deixou de usar peles amarradas aos pés, a sandália apareceu como o calçado de quase todas as civilizações – protegia o pé e o deixava nu. Funcionalidade e liberdade.
As sandálias gregas são belas – e as havaianas são sandálias gregas – como o peplo é belo: um pedaço de pano que se enrola no corpo e o protege; mas debaixo daqueles panos há um corpo livre que se revela. Sua beleza está no panejamento e no corpo que o porta.
Todos os Caravaggios, Rembrandts e Velásquez foram atraídos pelo panejamento e assim vestiram seu Deus, suas musas e seus santos – panos soltos, cores, luz, sombra e corpos insinuados: a beleza do vestuário não precisa de mais nada. Não sei quem foi o asno que inventou o espartilho e a anágua.
A partir da Idade Média, por decência, os pés foram cobertos e o sapato substituiu a sandália. Começava o terror.
Os gregos foram mestres na suntuosidade do simples e a beleza é simples, o excesso é sempre mau gosto. O Partenon é belo porque não tem um detalhe que se sobreponha ao todo, Fídias capturou a forma perfeita.
A forma é Afrodite e ela não se revela a qualquer um, exige sacrifícios para ser contemplada. Contemplar um deus é “penetrar com ele no seu templo”: no território sagrado não se entra sozinho, só acompanhado, e quem não contempla o deus não fará nada que mereça ser contemplado pelos homens. Fazer arte era dar-se em holocausto à Afrodite, consumar o sacro ofício e trazer a beleza do Olimpo para a Terra. As havaianas são a Bic dos calçados – atingiram a perfeição olímpica.
Sou do tempo em que as canetas esferográficas tinham cargas substituíveis, sujavam as mãos e as mochilas e vazavam uma tinta que não saía das roupas nem com água sanitária. Por conta disso, ainda se davam canetas-tinteiro aos filhos e ganhei a minha Parker 51 quando aprendi a ler. Um saco.
A caneta virava objeto pessoal, a pena ia gastando do jeito de quem a usava e a escrita era dura por muito tempo. Depois amaciava. Mas se alguém pegasse a sua caneta e escrevesse com ela, ela voltava a arranhar o papel. E tinha a escravidão do tinteiro.
Aí vieram as Bic sem recarga, blindadas, limpinhas. Usou, gastou, dispensou. Baratas. Tão práticas quanto fraldas descartáveis. Ficamos felizes para sempre? Não. Exumamos a caneta-tinteiro.
Por quê? Nunca entendi. Aí entra a griffe – elas são griffadas.
Uma vez, um cidadão íntimo assinou uma lista de adesões ou coisa assim num clube de grã-finos. Gesto automático, enfiou a caneta no bolso do paletó. De madrugada, o telefone toca: o aflito proprietário da Montblanc queria saber se “por acaso” não tinha sido levada “por engano”. Bolso conferido, tinha sim. De manhã bem cedo, veio buscar. Aquela porcaria não era mais uma caneta, era uma jóia com um tanto de ouro, platina, uma tampa especial, ele explicou se desculpando, e mais a griffe, havia um bom dinheiro embutido no raio da caneta. E afinal, uma caneta é apenas uma caneta, uma caneta, uma caneta… Ou não?
Perguntei: – Por que não usa Bic? – Ele disse: – Oh!
Cervantes escrevia com pena de ganso. De vários gansos, suponho, e não de um canard especial. O dono da Montblanc não escrevia, apenas assinava cheques.
E os relógios?
Relógios sempre foram peças caras e de esmerada ourivesaria. Eram engrenagens milimetricamente torneadas, de material nobre, ouro quase sempre, para aprisionar a passagem do tempo numa caixinha, a ampulheta perfeita que prescindia do escravo para cuidar dela. Os relógios passavam de avô a neto.
Mas hoje, depois da milagrosa bateria, qualquer relógio de camelô nos dá uma precisão que o Big Ben nunca sonhou atingir. O homem se considerou livre para não pensar mais em relógios? Não. Eles continuam a ser, como na origem, sinais visíveis da diferença entre os homens: o relógio não deve ter somente precisão, seu requisito essencial – deve ter griffe. E griffe não é nem beleza, é assinatura.
Depois do endeusamento da griffe, o que custa caro é a inutilidade agregada ao objeto, não a funcionalidade. Em quase todos os produtos de vestuário e acessórios, já se conseguiu a perfeição barata – assim, ela passou a desqualificar aqueles que os usam.
Bics, relógios de camelô e havaianas são produtos perfeitos, sem possibilidade de aperfeiçoamento a curto prazo. Um amigo inteligente e sagaz até me fez notar, um dia, que Bics são sextavadas para não rolar na mesa. Eu nem tinha percebido. E as “tinteiro” são cilíndricas, caem no chão, sacrificam a coluna, mancham o tapete. O homem deveria se orgulhar de cada Bic que portasse. Mas não, qualquer um trocaria sua Bic pela Montblanc do alheio. Tendemos, coletivamente, para a cegueira e a loucura. É a ditadura das griffes.
Lembro de quando elas, sorrateiramente, começaram a sair da banda avessa e se popularizaram na direita. Resisti o quanto pude, me recusava a usar roupas com a etiqueta aparente, outdoor vivo das marcas ditadoras. Vivi e vivo “modas” inacreditáveis: das ombreiras de jogador de baseball aos bicos finos dos sapatos atuais que conseguem torturar dez dedos ao mesmo tempo. Gosto de peplos e pés descalços. Por prazer e por estética.
Fico ainda espantada como a moda ditada para cada estação é consumida indiscriminadamente por quem a merece e por quem deveria enxotá-la. Percebo, assustada, uma cultura de griffes fazendo nas sombras a ditadura do bom (mau)-gosto. Uma uniformização, que se renova a cada estação. As mesmas camisetas, a mesma filosofia estampada no peito ou nas costas como brazão de classe (quase sempre em inglês e mau inglês). Anual. Sazonal. Alguém notou que a camiseta branca, lisa, é bela?
O que a classe média mais ou menos abastada usa hoje, as empregadas domésticas usarão amanhã. Mas todos serão igualmente contaminados e ninguém usará peplo, camiseta branca ou havaianas, quando quiser se mostrar “bem-vestido”. Que pena.
Um amigo lembrava que assistimos à uma revolução cultural. Como nem Mao sonhou nem conseguiu. A uniformização da estética, da filosofia, da palavra-de-ordem, do humor em dísticos estampados no peito.
Podófila convicta (pó, não pê), dedicando-me diariamente a pensar na liberdade dos pés como direito inalienável, quero declarar de público meu amor às havaianas antes que as Chanel dominem o mercado. E elas passem a custar mil-alguma-coisa.

Queria falar de flores, esta semana. Porque, entre outras razões, é Primavera. Mas em pouco tempo estaria descrevendo as flores da memória – goivos e junquilhos dos romances que li e nunca tive o prazer de ver de perto – enquanto as marias-sem-vergonha do mundo real invadem meu jardim, autorizadas pelo equinócio. Não fica bem, sem-vergonhice num jardim, mas flores me cansam, exigem atenção constante, o tempo que lhes damos nunca é suficiente, assim, resolvi voltar às raízes esquizotéricas e falar de Tarô. Dá menos trabalho, está na ponta da língua:
“O voi che avete gl’intelletti sani,
Mirate la dottrina che s’asconde
Sotto il velame delli versi strani!”
(Vocês que têm a mente sadia,
Vejam a doutrina que se oculta
Sob o véu de estranhos versos!)
Desculpe a tradução, Dante.
René Guénon – filósofo e hermetista – diz que para Dante todas as escrituras, e não somente as sagradas, podem e devem explicar-se segundo quatro sentidos. E que estas significações diversas não podem opor-se ou destruir-se mutuamente, devem complementar-se como elementos de uma síntese única.
O Tarô é uma escritura sagrada – traduzida em imagens – e há um sentido em que pode ser comentado para profanos: seu sentido lógico, facilmente apreensível, e obviamente relacionado ao elemento Terra. Os outros três sentidos, são desvendados em iniciações.
Vamos contar a história do Tarô:
“Era uma vez, há muito tempo, quando os livros eram pouco difundidos, alguns espíritos voltados para o conhecimento oculto que procuravam um recurso para transmitir seus ensinamentos, que os dogmatismos estabelecidos, tanto civis como religiosos, não poderiam admitir. Pensaram no simbolismo da imagem e da escultura.
A imagem ensina de maneira clara através dos tempos. Ela se impõe à lembrança mais facilmente do que a palavra e não corre o risco de ser deformada pela tradição oral, é um símbolo cheio de vantagens.
Pensaram também, para se preservarem da fúria de todas as inquisições, em apresentar estes símbolos como um jogo. Assim, sem chamar a atenção de censores vigilantes, o Tarô permitiu a transmissão, de geração em geração, da ciência dos destinos do homem.
É quase impossível penetrar o sentido da Criação se não se tem o sentido do simbólico. O Tarô é um conjunto de 22 arcanos (mistérios) maiores aos quais se juntaram 56 arcanos menores. Estes, constituem um jogo do qual se podem tirar ilações válidas para os números, as formas, as cores, mas permanecem um jogo.
Os arcanos maiores são puro simbolismo e o iniciado os utiliza para estudo e meditação, jamais para jogar.
O número 22 corresponde às letras hebraicas e nos orienta para uma origem judia e cabalística do Tarô. Os judeus, assim como os romanos, não utilizavam números e sim letras com valor numérico. Cada palavra ou frase possuía sua gematria: um número analogicamente correspondente ao seu significado.
Mas o Tarô, com seus ensinamentos pela imagem, afasta-se do pensamento abstrato das culturas semitas e é certo que seus idealizadores foram não só cabalistas como hermetistas e alquimistas. É no final do século XIV, na França, que os arcanos maiores são reproduzidos para diversão do rei Charles VI. A reprodução supõe uma pré-existência.
A França é o país de Descartes e cada francês, convencido de levar consigo o espírito cartesiano, costuma exigir da razão – da razão pura, da razão luminosa – que dissipe as trevas da superstição e todos os fantasmas da imaginação. A razão cartesiana é o triunfo da lógica, ou melhor, da metodologia: de um encadeamento rigoroso de deduções cujo ponto de partida é a constatação de um fato tomado do mundo bem real do tangível e do sensível. A razão cartesiana não se alimenta de sonhos e desconfia dos contadores de histórias.
No entanto, o Tarô, que foi espalhado para o mundo a partir da França, encerra o seu simbolismo de uma caminhada iniciática com a carta do Louco – o arcano sem número, para o qual não há explicação nem analogia.
Costuma-se começar a estudar o Tarô pela disposição em roda (chamada Rota). Quando as 22 cartas são arrumadas numa roda, o Louco se coloca entre o arcano 1 e o 21. Ou é o fim ou o que está antes do começo, o que, afinal, vem a dar no mesmo – ele traz em si o mistério do Zero.
Do 1 ao 21, podemos entender de maneira clara o simbolismo da trajetória do homem. Quando chegamos ao Louco, que liga o ponto de partida ao ponto de chegada, encontramos a noite. Saímos de uma noite para entrar em uma noite. Nossa mente só consegue retirar seu alimento do mundo sensível e está limitada pelas leis físicas que o regulam. Por isso, o racional não consegue explicar nem a nossa chegada nem a nossa partida – aquele instante, ainda não aprisionado pelo mundo físico, que significa tanto a causa como a conseqüência.
Uma peça-bufa, a vida, cuja última cena – ou a primeira – nos é escamoteada. O Louco é um impasse que arremata o estudo e só começa a ser decifrado no segundo nível, este já vedado aos profanos.
O segundo nível não é mais racional – também não é irracional, poderíamos chamá-lo de supra-racional – está situado além do físico, no metafísico, e aí Descartes não se daria melhor do que os outros. A nossa razão é treinada durante todo o primeiro estágio, sem dúvida, mas deverá ser abandonada no limiar do segundo. A partir do segundo nível, talvez se comece a penetrar no território da poesia – os “estranhos versos” de que falava Dante. Só a mente sã pode entende-los: ou a que nunca adoeceu, impregnada de si mesma, ou aquela que conseguiu curar-se.
O ensinamento das ciências mundanas é o mesmo, para todos. O homem se beneficia dos resultados da ciência mas não participa da sua busca: sua evidência é exterior a si mesmo. A progressão iniciática, ao contrário, é interior ao homem. A evidência das coisas de ordem espiritual – de ordem iniciática – não se impõe a ninguém de maneira inexorável, como a constatação de um fato sensível: ninguém pode avançar por nós. O iniciador pode nos mostrar o caminho, apenas. Caminhar é conosco. Aí, as leis caem por terra.
Toda elevação espiritual libera o homem das crenças a que foi um dia submetido. Toda liberdade provoca perseguições das Igrejas estabelecidas e dos Césares reinantes. Qualquer um que abandone a massa amorfa é inimigo e o caminho iniciático é sempre solitário.
Quando se fala de iniciação não se está falando de religião. Quem quer que tenha percorrido as 21 possibilidades simbólicas da existência e tenha chegado ao nada, ao muro, ao Louco, este é um iniciado, ainda que não saiba. Deverá refazer o caminho mais e mais vezes, voltar ao início e percorrer o percorrido – são 4 estágios de compreensão, pelo menos. E nenhum deles nega os anteriores, apenas os unifica.
Não haverá nada de apoteótico no final, talvez. Cada vez que avançamos um passo, o muro recua um passo. E, em qualquer dos estágios, nossa caminhada nos levará ao Louco. No início, um louco é apenas um louco. No final, não sabemos o que será. Porque a roda do Tarô é infinita e sua história não termina num final.”
Foi o que me ocorreu falar sobre a Primavera. Uma estação, como todas, previsível. Que aparece no tempo certo e afeta plantas e animais, determinando um comportamento sazonal e imutável.
E sobre o homem, este Hamlet intrigante: ” – Quem são estas estranhas criaturas, que não parecem habitar este planeta e nele estão?” – Este ser que se dá o privilégio de ser único e terminar sua evolução na loucura.
(Para quem se interessar pelo tema, sugiro “Le Tarot Initiatique”, de Edmond Delcamp)

Generosidade

Todo jovem rebelde vira careta. O tempo tem o poder de massacrar a rebeldia e encaixa-la, às vezes encaixota-la. Não temo os jovens rebeldes.
Nestes muitos anos de vida, vi de tudo. Acompanhei o nascimento e o ocaso de várias tribos: os points, as roupas, os cabelos, as gírias, as atitudes. Vi também como tudo ia passando e o tempo ia trazendo o extremo para a média. Quem tinha simpatia pelo Diabo, ao final de alguns anos, acabava por simpatizar com Luciana Gimenez. O jovem, ou morre de loucura quando jovem ou – a partir dos trinta e alguma coisa – começa a encaretar.
Mas uma qualidade é desenvolvida na juventude ou não é desenvolvida nunca – a generosidade.
A generosidade é uma nobreza difusa, que bloqueia o egoísmo. O generoso é menos individualista e mais fraterno. O jovem investe contra a família e a ordem instituída porque acredita ingenuamente em um mundo ideal, que não é o real, e sabemos que os idealistas são indispensáveis. Depois, submerge na necessidade, abre mão da liberdade e pronto – encaretou, se encaixou, virou adulto. Mas o melhor de nós ficou lá atrás, quando ainda achávamos que podíamos reinventar o mundo com a nossa generosidade inconseqüente.
Me entendo melhor com jovens do que com aqueles que já desacreditaram e convivo com eles por ofício e prazer. Procuro compreender como pensam e sentem porque eles serão os caretas de amanhã e o mundo sempre pertenceu aos caretas. E agora, que sou colunista regular num site de jovens com leitores predominantemente jovens, saio por aí procurando outros sítios para saber mais sobre os moços de outras plagas, já que a juventude carioca não me dá uma visão geral da mocidade brasileira. Ou talvez dê, não sei.
Encontrei este post há dias nas minhas navegadas e vou citá-lo inteiro porque acho desonesto pinçar frases soltas de um texto. Leiam, que vale a pena. Foi escrito por um jovem, parece que agraciado por excelente situação financeira, com discurso coerente e vírgulas bem colocadas:
” ´O ABC é palco da luta operária que deu origem ao PT. Os metalúrgicos de ontem são os desempregados e sem-teto de hoje. Nossa luta é para, a longo prazo, promover uma transição para o socialismo.’
A declaração acima é de uma tal Camila Alves. A retirante em questão se diz uma das “coordenadoras” da ocupação pelos “sem-teto” do terreno da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, SP. Sim, você leu corretamente – socialismo. O pior é que pessoas assim não estão sozinhas, neste lixo de país – 90% ou mais do Brasil está mental e intelectualmente incapacitado para viver no mundo real. Melhor estariam em sanatórios, com babadores a tiracolo. A queda do muro de Berlim, a falência da URSS, a miséria em que vivem Cuba e Coréia do Norte, nada disso parece importar pra essa gente, que ainda sonha em implantar no Brasil o regime mais vil e criminoso da história da humanidade. Idolatram criminosos; fazem com que adolescentes imberbes e ingênuos, com testosterona no lugar de neurônios, usem camisetas de bandoleiros como Che Guevara e promovam passeatas em nome de terroristas como Mandela e Arafat. Conseguiram eleger um torneiro mecânico iletrado para presidente da maior nação da América Latina, conseguindo relegá-la a um papel ainda mais periférico no cenário mundial do que antes.
Às vezes tenho delírios de grandeza, e imagino-me um imperador, rei ou ditador – e aí, coitada dessa moça. A punição mais branda que eu infligiria nela envolveria suas partes pudendas, um tubo de PVC e camundongos famintos.”
Omito o nome do moço porque o moço importa pouco e a mim não importa nada, não o conheço. Imagino que um jovem gostaria de enfrentar um inimigo de frente – matar ou morrer em combate – afinal, os heróis sempre morreram moços e com a espada na mão: quem morre velho é o sábio. Mas este moço, não. Quando ele tem delírios de grandeza, pensa em perversidades. Tenho medo de imperadores, reis e ditadores mas nunca tive medo de jovens, nem quando era um deles. Deveria passar a ter?
Desde as sociedades primitivas até os nossos tempos, o herói é cultuado e pranteado. E herói é o oposto de covarde. Um herói não pisa em quem está caído, não atira em quem já foi rendido nem bate em alguém que tenha as mãos amarradas, qualquer criança sabe disso. Um herói pode matar, sim – e quase todos os nossos heróis foram matadores -, mas não tortura.
A minha geração foi o alvo preferido da tortura na década de 70. Éramos os jovens de então, tive alguns amigos torturados e não sou uma exceção: quem quer que freqüentasse uma faculdade naquela época conheceria torturados e torturadores – estes, costumavam sentar-se na última fileira das salas de aula. Nunca percebi nos torturados qualquer revolta contra a morte ou os que mataram – meteram-se numa guerra e a morte fazia parte do jogo, era um pesadelo que fugia ao controle. O que os destruiu foi a tortura.
– Dez minutos – contava-me um amigo. – Depois de dez minutos, você fala o que sabe. O que não sabe, inventa.
Em dez minutos, um homem virava um cão, lambia o chão e pedia por favor. Depois, até o soltavam. E ele passava muitos anos tentando ser homem, novamente. Muitos não conseguiram.
Também conheci velhos estrangeiros que lutaram na Segunda Guerra e na Guerra Civil Espanhola, pessoas que correram o risco de morrer e que mataram. Não se pensa muito quando se mata um inimigo, os mortos assombram depois. Mas havia a preocupação com a morte rápida – todos eles relatavam -, com o tiro de misericórdia. E, sempre que podiam, com algum rito de sepultamento. Os sete palmos de terra fazem parte dos nossos mitos e numa guerra todos são personagens míticos e trágicos – são Aquiles e Heitor, vencedor e perdedor, e são também Antígona, correndo riscos para dar sepultura a um irmão.
Pode haver em quem mata, respeito pela vida. E pode-se matar alguém mesmo sendo generoso, os tempos às vezes são cruéis. O que não pode haver é a lógica de um Maluf – estupra mas não mata. Quando a lógica incide, absoluta, sobre a vida e sobre a morte, vira cinismo. Porque vida e morte não são lógicas, não: o generoso mata mas não estupra.
O generoso mata limpo e espera morrer limpo. A lógica malufiana não vale para ele e matar 20 milhões pode não ser melhor do que matar 40. Depende. Como não é melhor morrer aos 80 do que aos 20. Tudo depende do valor que se concede à vida, do por quê se mata e se morre. O intolerável não é a morte – morrer todos nós vamos -, é o aviltamento do homem.
Pode-se morrer para defender a pátria, uma ponte, um princípio ou até mesmo uma frase:
– No pasarán! – E não passaram.
A isto se chama dignidade. Pode-se morrer de doença, velhice ou até – quem sabe – de dignidade.
Num mundo de jovens talvez se morresse e se matasse mais. Mas talvez houvesse mais generosidade, esta qualidade utópica que os anos e os lanhos vão empobrecendo.
Tenho pena de um jovem que na juventude não seja capaz de matar e de morrer por nada, está jogando fora um tempo que não volta. E que pense em tubos de PVC e camundongos famintos, quando localiza um inimigo. Não temo os jovens nem suas loucuras, gosto deles. Mas deste jovem eu tenho muito medo – ele ainda está vivo e habita entre nós.

Godono

Em 1964, alguns anos antes de conhecer John Lennon, Yoko Ono chocou o Japão ao fazer sua performance ‘Cut Piece’, em que entrava em cena vestindo uma bata branca e distribuía tesouras ao público. Este, por sua vez, era convidado a recortar pedaços da roupa de Yoko e assim, lentamente, ela ficava nua. Quase 40 anos depois, a viúva de John Lennon, agora com 70 anos de idade, anunciou que voltará a fazer sua ‘Cut Piece’, no próximo dia 15, em Paris, como uma tentativa de promover a paz mundial!
Yoko, a paz mundial agradece.
Quando Aristófanes escreveu Lisístrata, no século V a.C., a Guerra do Peloponeso já se arrastava há vinte anos e a cidade era habitada basicamente por velhos, crianças e viúvas. É neste cenário que Aristófanes apresenta sua peça, sobre as mulheres de Atenas, e dirige à platéia uma engraçada e utópica proposta de paz:
Assuntos da vida pública cabem por natureza aos homens mas eles só estão fazendo besteira e as mulheres resolvem descruzar os braços e tomar uma atitude: – Basta de guerra – decidem, reunidas numa clandestina assembléia pan-helênica, convocada por Lisístrata. E como elas forçarão os homens gregos a celebrar a paz imediata? Simples – cruzando as pernas. Lisístrata faz as mulheres jurarem que não farão mais sexo enquanto a paz não sair. Parece que os homens entenderam e, afirma Aristófanes, por isso a guerra acabou. Protesto bom é o que provoca mudanças.
Mas… e a nudez da Yoko, heim?
O século que passou – o nosso – foi o século do protesto, protestou-se contra tudo. Quando Gandhi fazia uma greve de fome o Império Britânico tremia: adepto da não-violência, Gandhi chamava a si o sofrimento do seu povo e se martirizou até que a independência da Índia fosse conquistada mas proibia aos hindus qualquer ato agressivo contra o inglês colonizador. Greve de sexo e de fome são protestos claros, que até uma criança pode entender. Já a nudez da Yoko, não sei não.
Mas não foi ela que descobriu que tirar a roupa era protesto. Na verdade, tirar a roupa como contestação começou há mil anos atrás, com Lady Godiva. Godiva era uma lady muito boa, casada com um lord muito mau, e vivia em Coventry, feudo do lord que tinha a mania de aumentar impostos. Um dia, Godiva parou de comer chocolates e pediu ao lord para baixar os impostos, coitado do povo. O lord disse que isso só aconteceria no dia em que ela cavalgasse nua pela cidade, maneira britânica de dizer never, my dear. Naquela noite Godiva saiu a cavalo, coberta apenas com seus cabelos, e passou à História como a primeira feminista a dar um uso político ao corpo. Lisístrata não conta porque negociou o sexo e isso não é politicamente correto. Mas Yoko é corretíssima.
Afrontar os poderes estabelecidos com a pureza do corpo nu não é exibicionismo, gente, é política pura. Não admira, pois, que haja pessoas tirando a roupa pelas mais diversificadas causas, seja contra a guerra do Iraque ou os direitos dos animais. Famosos ou anônimos engajados despiram-se, nas últimas décadas, em vários lugares do mundo, utilizando sempre a mesmas palavras de ordem: algo como – “Preferimos viver nus a usar peles”. – Às vezes, um ou outro esquecia os motivos pelos quais ficava pelado mas não importa: “Legalizem o corpo humano” já era uma bandeira.
Tivemos nossas Godivas. Aqui, Gal cantou: “Brasil, mostra a tua cara!”, abriu a blusa verde-amarela, mostrou os peitos e nós entendemos tudo. Não lembro se era contra a corrupção ou a favor da cirurgia plástica como direito universal e inalienável das mulheres carentes mas foi um belo protesto.
O último a ganhar manchetes foi um strip-tease literário. Uma mulher não se conteve na posse de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras e, no meio da festa, sem cerimônia, tirou o vestido em que havia escritos poemas de Mário Quintana. Parece que, por respeito à Casa de Machado, manteve os sapatos.
Não, Yoko não é pioneira e não podemos imputar-lhe a responsabilidade pelos corpos protestantes que assolam o planeta. É que a Yoko, bem, não é uma questão moral, gente.
É que John era libriano e os manuais afirmam que librianos têm uma estética mais desenvolvida do que o resto da humanidade. Sabemos que a paz mundial está ameaçada mas, John – se lá no assento etéreo onde subiste, memória desta vida se consente – aparece pra ela, John:
– Nudez não, Yoko, por favor, nudez não! Greve de fome!!

Nefertiti

Ela viveu há 3.500 anos e ainda hoje é um mito.
Nefertiti, uma das mais poderosas rainhas do Egito, é tema de um documentário que o Discovery Channel exibe no próximo domingo, às 21h. O programa, com 2 horas de duração, mostra o trabalho realizado pela equipe da cientista Joann Fletcher, da Universidade de York, na Grã-Bretanha, que utilizou técnicas de Raio-X digital para reconstituir a face da múmia que a cientista acredita ser da mulher do faraó Akhnaton. Pelas fotos divulgadas, podemos ver que Nefertiti é a cara da Naomi Campbell.
Só tivemos três grandes religiões monoteístas, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo – todas as outras foram politeístas. Mas há 3.500 anos, bem antes portanto do Cristianismo e do Islamismo, o faraó Amenófis IV promoveu no Egito uma reforma religiosa, baniu os outros deuses, instituiu o culto ao Deus único – Aton, o Sol -, mudou seu nome para Akhnaton e se designou Filho do Sol. Algo que só teria um paralelo, mil e tantos anos depois, quando Jesus se revelou como a manifestação do Filho Único do Deus Único.
Quando falamos de Akhnaton não estamos falando de um simples faraó mas sim de Deus encarnado. E Nefertiti foi sua mulher.
Vou ver o documentário, sem dúvida, como também não perco um filme sobre Cristo, mesmo sabendo que o mocinho morre no final. Mas nunca me conformei com as faces de Cristo. De todos que vi, e vi quase todos, o que mais gosto é a Última Tentação de Cristo, um filme de Scorsese baseado num livro de Nikos Kazantzakis. Kazantzakis é um autor grego e seus livros às vezes viram filme, todos nós vimos Zorba. Sua visão de Cristo não é religiosa, é mitológica, e o filme mostra como a biografia pessoal se torna desimportante diante do surgimento do mito – na visão grega do Herói o que conta não é o que foi vivido mas o que foi simbolizado.
O filme é de uma beleza rara, a trilha é de Peter Gabriel, mas, definitivamente, Cristo não tem a cara de Willem Dafoe, nem de nenhum dos outros Cristos do cinema ou do teatro. O humano jamais poderá representar o simbólico.
Quando a cientista da Universidade de York deu um rosto a Nefertiti, datou Nefertiti. Daqui a cinqüenta ou sessenta anos, Naomi Campbell será tão antiga quanto a boquinha de coração de Marlene Dietrich e vamos ter dificuldade em acreditar na sua beleza, como temos dificuldade hoje em acreditar que o charme de Lola-Lola pode arruinar a vida do professor Unratt. Continuamos a chamar Von Sternberger de talentoso mas assistimos a Anjo Azul “de fora”: o que é expresso formalmente impede o “mergulho” que só a imaginação permite.
Por isso, qualquer forma de arte visual perde para a Literatura e ainda vou escrever uma crônica sobre os livros inesquecíveis que viraram filmes esquecíveis – a exceção que me ocorre é O Nome da Rosa, tenho um fraco por Jean-Jacques Annaud, mas também pode ser porque tanto o livro como o filme são recentes e, com o passar dos anos, a cara de Sean Connery também transforme William de Baskerville num monge datado, de boquinha de coração.
Algumas culturas proíbem, sabiamente, a representação do humano ou do divino – entendem que a arte plástica deve ser paisagística e ornamental. Os homens, teimosamente, insistem em patentear sua visão dos deuses e dos mitos. Aí, deuses e heróis passam a ter o tamanho dos homens.
Há muitos anos atrás, estava pela primeira vez na Galleria dell’Accademia, em Florença, diante do Davi. Davi não tem as dimensões normais de Moisés ou da Pietà – é um impressionante gigante de mármore, nu, com a funda nos ombros, solitário no centro de um salão iluminado por clarabóias. Estávamos todos num silêncio reverencial, uma pequena multidão caminhando lentamente em volta dele, apreciando de todos os ângulos, e não sei o que as pessoas pensavam. Eu devia estar pensando nos Salmos, em Betsabah, na luta com Golias, nada de original, quando alguém do meu lado, conhecido por sua ironia venenosa, observa:
– Michelangelo cometeu um engano, Davi não está circuncidado. – Eu não tinha reparado, sou distraída, mas era verdade, e Davi foi rei de Israel, tinha que ser circuncidado!
Burburinho, desordem, vozes confusas, todo mundo se aglomerando na frente da estátua e – horror! – se atrevendo a criticar Michelangelo, que a esculpiu num bloco único e, depois de pronta, levou vários meses apenas polindo para que o mármore virasse carne. Foi quando uma mulherzinha, feia por sinal, deu seu veredicto sobre o homem em que o mito, repentinamente, se tornara:
– E olha só: Davi não era lá essas coisas, não!
No minuto seguinte, estávamos todos fora da Accademia. Lá dentro, na sua solidão de 500 anos, uma obra perfeita que – por humanizar o divino – passou a comportar falhas e faltas.
Nefertiti, volte a ser apenas múmia!

Mea Culpa

Um diretor de teatro me dizia que sabia quando sua peça era uma droga: nem os amigos iam ao camarim. Nelson Rodrigues também filosofava, diante de uma defunta impopular: “nem um goivinho ornava a cova dela”. O “nem” faz a diferença.
Quem escreve qualquer coisa, nestes sítios do Senhor, abre os “comentários” – como camarins – esperando tapinhas nas costas que justifiquem a hora, às vezes de 70 ou mais minutos, em que espreme os neurônios à cata de algum assunto que possa interessar aos internautas. Seres especiais, talvez como astronautas ou argonautas, sabemos que o que os move é a viagem, não o deter-se, mas ainda assim almejamos escalas em nossa crônica que, por definição, é gênero literário menor, abordando assuntos do cotidiano ou biografia escandalosa de determinada pessoa. Quando honestamente relatamos o nosso cotidiano e nem um tapinha, nem um goivinho, só onomatopéias – clap, clap – ou um registro seco – “passei por aqui” -, percebemos que não agradamos e nada mais resta a fazer, a não ser o mea culpa. Portanto…
MINHAS CULPAS (negligências, imperícias ou imprudências confessadas, antes que apareçam nas futuras crônicas e gerem rejeição):
– Sou piegas, choro nos momentos mais inconvenientes. Como terapeuta, isto é pecado imperdoável. Conta a mulher de um psicanalista famoso que o filho não pode chorar e o cachorro não pode latir quando o telefone toca porque o cliente não deve saber que seu terapeuta tem criança ou cachorro. Muito menos, lágrimas. Meus pacientes conhecem minha família, os cachorros que tive e o que não tenho, acabei criando uma terapia que me exime da neutralidade, Dr. Freud que me perdoe, mas tive que inventar outras regras porque, pelas dele, não poderia funcionar. A lágrima cai, o rímel borra, saio catando lenços de papel, assoamos juntos os narizes e ainda vou escrever um ensaio sobre o poder curador de narizes assoados em uníssono. O problema mesmo é o rímel.
– Não vivo sem rímel, brinco ou batom: pari três filhos de rímel, brinco e batom, esta dependência é antiga, sou rímeladiccta, e minhas filhas, que são jovens elegantes, já me explicaram várias vezes que ninguém usa brinco de jogging mas eu uso brinco de pijama. Em compensação não uso sapatos.
– Explico, é que dos dez dedos do pé já quebrei oito várias vezes, isso vem de pequena, minha mãe sempre dizia: não olhe para ontem, olhe para baixo. Como olho para trás, ou para frente, ou para cima, e nunca olho para os pés, vivo caindo, dando topadas, os dedos se quebram, nem vou mais a médico, imobilizo em casa com gaze gessada que uso para fazer máscaras, meus filhos também se queixam que provoco acidentes, caio e eles acabam tropeçando em mim, embora os três sejam seres normais, que usam sapatos, nunca quebraram os dedos dos pés e minhas meninas nem gostem de brincos. Mas dos dedões para cima nunca quebrei nada e não sou um perigo público, dirijo direito, entro em vaga de primeira e nunca bati, por isso é que dirigir me relaxa, não tenho que olhar para as rodas.
– Perco sapatos, claro, são garrotes vis e torturam devagar. Quase sempre debaixo de mesas de restaurante. Depois da conta paga, começo a me espichar na cadeira e explorar com os pés o território em volta – às vezes acho, às vezes não, sapatos têm movimentos autônomos, não me perguntem como mas é um fato – quando não tenho intimidade para me agachar, saio descalça. Para evitar micos públicos, só uso vestidos longos.
– Não tenho estilo. O que, a esta altura da vida, é grave deficiência, mulher deve ter estilo. Não sou casual (queijual) nem soignée (soanhê). Acho mesmo que sou esculhambada. Ultimamente andei relendo Sartre e estou em fase Juliette Greco, Café de Flore, Deux Magots, sabem como é? e só me visto de preto. Quando releio os gregos, uso túnicas. Nunca li Scott Fitzgerald até o fim, nem o Great Gatsby, soube do fim no cinema, porque jamais usaria roupa de melindrosa nem boquinha-coração, acho um horror. Estudo a Revolução Chinesa e visto ternos de brim. Leio sobre a Guerra Civil Espanhola e por algum tempo sou uma Pasionaria de xale. Os filhos relatam vergonhas irremovíveis na porta do colégio por conta dos figurinos maternos, acho um saco comprar roupa, prefiro enrolar uma colcha na cintura, e a verdade é que sou um desastre em eventos sociais: confundo Piaget com Audemars Piguet e nunca captei a diferença entre um Rolex e um Cartier. Tudo isso, descalça e fumando sem parar. Glória Khalil não me aprova.
– Não sinto cheiros. Vivi muitos anos com uma pessoa que tinha faro de perdigueiro:
– Cortou o cabelo?
– Só um pouco, dá pra notar?
– É que a casa está com cheiro de cabelo cortado…..
Vou morrer sem saber o que é cheiro de cabelo cortado ou de água fervendo. Sinto alguns cheiros normais, bosta de vaca, arroz refogando, mas jamais vou poder afirmar que alguém está usando Dior ou Armani e metáforas olfativas me confundem – uma vez um candidato a escritor disse com voz dramática que eu era uma mulher agreste com cheiro de terra molhada; como suávamos há duas horas debaixo do sol da Ferradurinha, não cheguei a entender se era crítica ou elogio mas ele também não chegou a escritor.
– Tenho péssimo ouvido, quero dizer, ouço bem mas não ouço direito, o que significa ser uma desafinada crônica. Entrei para o coral do colégio aos 11 anos, coral importante, que na parada de 7 de Setembro cantava no palanque do presidente, evento tão concorrido quanto desfile de escola de samba. No primeiro dia a maestrina me apontou com a batuta:
– Você aí, a baixinha da segunda fila, fora!
Saí chorando (sou piegas) e nunca na vida consegui cantar o Uirapuru, também nunca fui a uma parada de 7 de Setembro, embora minha música preferida, até hoje, seja o Hino Nacional.
Como sou desafinada – e isto em mim provoca imensa dor – fui estudar declamação e falo cheia de ésses e érres. Um dia até me convidaram para ser locutora, a voz tornou-se grave e pausada, o que não compensou o trauma do Uirapuru, meu sonho impossível é ser a Kiri Te Kanawa, não costumo confessar porque é impossível mesmo: os íntimos afirmam que, cantado por mim, Summertime lembra Atirei o Pau no Gato.
– Sou estróina. Estróina atípica porque detesto comprar roupas, bolsas, jóias e estes produtos que entulham os shoppings, gasto descomedidamente em outras plagas. Durante anos fui ameaçada de interdição, hoje estou bem melhor, mas o maior defeito para mim é a avareza: não consigo conviver com quem tem jacaré no bolso e ainda vou dissecar aqui o tipo avarento.
– Não entendo programação visual. Entendo letreiros, o que está escrito em bom português. Um amigo já me tirou de dentro do banheiro masculino de um restaurante japonês: vi um quimono e entrei, deveria ter entrado na porta da sombrinha. – É quimono de judoca, não reparou? – Não reparei e não me entra na cabeça por que espalham pelo mundo estes signos, que uma mente normal não decifra, e não escrevem simplesmente “homens” ou “mulheres”. Mas, como também sou masoquista, trabalho com signos.
– Não me entendo com máquinas. Não sei programar o vídeo nem gravar recados na secretária, a última máquina que consegui entender foi o liquidificador. Tenho certo medo de computadores, que só uso para escrever e a quem absolutamente não exploro, mas desconfio de computadores sempre que lembro da vozinha melíflua do Hal 9000: “Good morning, Dave”. A voz do meu também não soa sincera e quando estou sozinha em casa, prefiro pegar um bom livro e bater uma vitamina de mamão.
Bem, esta chorumela toda é para vocês relevarem quando os textos aparecerem piegas, prolixos, claudicantes, não tem jeito, o que a gente escreve acaba tendo a nossa cara e eu sou mesmo chorona e atolada. Disfarço mas não consigo disfarçar o tempo todo. Prometo tentar o figurino álgido e elegante, nas próximas semanas. Clean. Pós-alguma coisa. Estiloso.
É que o melhor lugar do teatro é coxia ou camarim – e eu me amarro mesmo num tapinha ou num goivinho.

Sempre aos domingos

Por Maria Helena Nóvoa (mariahelena@epinion.com.br)
Não há noite mais chata do que a noite de domingo.
Conheci um maluco que gostava: dizia que na segunda-feira o mundo voltava a ter ordem e a possibilidade da ordem no dia seguinte já lhe tornava a noite de domingo prazerosa. Como todos nós, o doido vivia muito mais no amanhã do que no momento presente. Domingo ainda é dia de caos mas a sombra ordenada da segunda-feira paira sobre ele, contaminando as últimas horas de liberdade e chatificando-as de maneira irreversível – o Fantástico só se mantém há tantos anos porque vai ao ar nas noites de domingo.
Então, aos domingos, até os filhos chegam cedo, passamos a tranca nas portas, acertamos o despertador, fazemos um lanchinho chumbrega – sábado é que é dia de altas comilanças – e nada mais pode acontecer além de bocejos.
O barulho da moto acelerada ao máximo foi ouvido pela rua inteira, a rua é pequena, a freada, a derrapada, sons confusos de metais lógicos funcionando a toda, sons absurdos de metais se torcendo de maneira ilógica, depois o silêncio. O silêncio é que dá medo. O que quer que tenha acontecido, acabou, ninguém mais se move e o silêncio é total, não há gritos. Não conheço ninguém que corra no silêncio, no silêncio nos movemos devagar e foi devagar que todos chegamos às janelas: a dois metros da porta da minha garagem, o corpo do garoto, a moto espatifada no poste logo abaixo.
O primeiro momento do inusitado é histérico: para quem é mãe qualquer jovem tem um pouco do seu filho, é esquisito mas é verdade, sempre torço para o acidentado ser mais velho mas não era e o primeiro momento é o choro, meu deus, é um garoto, a perna fica bamba, dá vontade de tampar os olhos e deitar, dá vontade de tampar os ouvidos também porque daqui a pouco o garoto pode começar a gritar muito. O segundo momento é prático, temos obrigação de fazer alguma coisa e aí começam os automatismos, na prática somos todos automáticos, o garoto não se mexia e podia estar morrendo, precisava de orações, todas as religiões têm ritos fúnebres, precisava de alguém que lhe desse a mão e falasse com ele, mas somos todos robôs da catástrofe e todos pensamos ao mesmo tempo: qual o telefone dos bombeiros?
Os bombeiros são o nosso lado prático, são aqueles que sabem o que fazer quando não sabemos: chamar os bombeiros significa vou fazer só o que sei, o que está impresso no meu sistema robotizado. Ligar para os bombeiros era fazer o que todos já estavam fazendo. Lembrei do Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, foi o que lembrei, alguém está morrendo e pode sussurrar um último pedido, é importante um ouvido colado à boca de quem morre, mas sou automática, como todo mundo, meu primeiro grito foi meu deus, qual o telefone dos bombeiros? Pedindo socorro ficaria desobrigada da mão fria do garoto, da gravidade suprema de qualquer palavra percebida, de receber na cara o grito que não vinha. Melhor chamar os bombeiros e me aproximar depois, assim ganho tempo, à espera do milagre.
É claro que todos sabemos para onde ligar em caso de emergência, polícia, bombeiros, Miguel Couto, hospital referência para quem mora na Zona Sul do Rio. É claro que, no sufoco, não lembramos de qualquer dos números. Aí começaram os gritos, na minha casa, em todas as casas, o catálogo, onde está o catálogo?
Catálogos, hoje, são muitos e, porque são muitos, deixaram de ser “o” catálogo, são páginas amarelas, lista de assinantes, lista de endereços, onde estão os catálogos. Onde estão os catálogos? Não sei mais onde estão os raios dos catálogos da minha casa, os telefones importantes estão no computador, os vizinhos chegam, vêm em silêncio, quase todos com telefones, estavam vendo o Fantástico mas foram convidados para o show da vida ao vivo, a cores também, o garoto sangra pelo ouvido e não se mexe, ninguém lembra o número dos bombeiros? Ninguém lembra. Acho que um dia eu soube de cor, tenho quase certeza, naquele dia em que descobri um enxame de africanas no forro da casa, falei várias vezes com os bombeiros, não consultava o catálogo a cada vez que ligava, quem sabe, peloamordedeus o número dos bombeiros? Bateu um branco no mundo.
Lembrei do 102, telefonista de auxílio, 10 segundos e o número dos bombeiros, e se o garoto morresse sozinho, em frente à minha casa, sem mãe e sem mão para segurar?
Primeiro as coisas primeiras, primeiro os bombeiros, depois desço e rezo a oração das mães perto do garoto, seguro a sua mão e faço uma barganha com Deus, sabe, todos aqueles pedidos idiotas dos últimos tempos? Tudo que não vale nada? Troco tudo pelo garoto, afinal, só o que importa é a vida, o resto a gente dá um jeito, o Fantástico termina assim, todos os vizinhos discam seus telefones e agora tenho certeza de que eu sou um robô.
– Telemar, Marina, boa noite.
– Marina, é uma emergência. Telefone dos Bombeiros da Gávea.
Silêncio… a Marina não informa, digita.
– Marina, bombeiros! Pode ser a Central, Marina…
Mas a Marina não está mais na linha.
– Após ouvir a solicitação desejada, tecle 4 para novas ligações.
– Marina, fala comigo, tem um garoto morrendo aqui na porta.
– Telemar 31 agradece a sua ligação. 31, o DDD deste Brasil.
– MARINA, PORRA!
– O telefone solicitado é:
– Zero
– Oito
– Zero
– Zero
Marina é de última geração, é a máquina criada pela máquina, Marina é de última, não tem útero, tem nariz entupido e voz de telefonista, vai morrer sem filhos e está me dando um 0800, quem consegue gravar um 0800 numa hora dessas?
– 193 – alguém da casa diz.
– 193, faz sentido. 0800 qualquer coisa é que não faz.
Desliga-se a Marina – Marina, eu quero que você morra – disca-se 193, enquanto isso se desce dois lances de escadas porque o garoto está na rua, estirado e não se mexe, o capacete está caído ao lado da moto esbagaçada, o braço do garoto passa por cima da cabeça e está torcido numa posição inacreditável, o capacete devia estar no braço, uma, duas, três chamadas:
– Corpo de Bombeiros.
Estes são humanos e não robôs. Não pediram telefone para confirmar, não imaginaram um trote. Só repetiram a rua e o número. OK? OK.
Estamos todos na rua, em pé ou ajoelhados ao lado do garoto. Ele permanece na posição em que caiu e o sangue do ouvido começa a empoçar.
Alguém, também craque em reações automáticas, já preveniu – Ninguém toca! -, não tocamos nele. Olhamos de longe, rezamos de longe. Eu penso na mãe, minhas filhas se comovem quando chega a namorada, ele havia deixado a namorada há alguns minutos, é a namorada que mora na rua e a namorada chega chorando.
– Avisaram à mãe? – pergunto à namorada.
A mãe tocaria nele, mãe tem autoridade para quebrar as regras, abraçaria e pegaria na mão dele, moleque tão pequeno, não devia ter 18 anos, uma moto tão grande, uma acelerada sem tamanho, nossos carros são carroças, o presidente disse, vai ver que nossas motos também são, mas filhos só deviam andar a pé ou de carroça, filhos são frágeis, saem pelo mundo com uma armadura de pele, mas o barulho quando a pele rompe…o barulho… o barulho vai custar a sair da memória.
Eles vieram sem burocracia. Vieram de luvas e sirene e o garoto foi levado, sem mãe e sem se mexer, deixando aquele sangue gosmento na calçada. E cada um de nós, com telefone na mão, voltou para sua noite de domingo.
Em que nada acontece. Em que só o Pedro Bial e a Glória Maria riem, com seus risos de muitos dentes, enquanto a musiquinha do Fantástico irrita.
É fantástico o show da vida.

Parece que a vida anda em baixa, de novo, no meio de escritores jovens. Um saco, a vida.
Embora qualquer criança saiba o que é, não temos boas definições de vida, talvez por ser tão óbvia – é difícil definir o óbvio.
Cristo dizia que a trazia consigo, junto com o Caminho e a Verdade. Buda agourava que só conseguimos nos livrar dela depois de rompida a famosa Roda de renascimentos e mortes. Darwin arriscava que era mutação. Um cara a quem admiro pelas boas definições disse que é “a modalidade de existência dos corpos albuminóides”. Não pensem que a pérola é de algum estudante de Biologia, é de Engels, no Anti-Dühring, filosofia marxista sobre o mundo orgânico. Vai ver que tentava evitar confusões com “dom divino”, essas coisas, sempre tento aliviar pro lado de Engels mas a definição é lamentável.
Para Bandeira, por dedução, era a “desejada das gentes”; o que não espanta porque Bandeira era tuberculoso e já nasceu de óculos.
Embora não definida, a vida é – indubitavelmente – protegida no Estado moderno, a começar pelas Constituições. Supõe-se que a aludida seja a humana, mas também são protegidas a vida das baleias, do mico-leão e do pau-brasil. Fora o voto dos escritores jovens, a vida é eleita por unanimidade.
Não foi sempre assim. Esta proteção, que nos parece tão natural, é relativamente recente na História, outros bens foram tutelados antes da vida. A alma. A propriedade, sempre. O próprio corpo sem vida foi protegido antes de que se pensasse em apoiar o direito à vida. Quem não viu representada a tragédia da filha do herói, que desafiou o poder para dar sepultura ao irmão?
Mas, hoje, a vida é mais do que um direito: é um dever. O que talvez seja um perigo. Quando transformamos o relativo em absoluto, eliminamos as oposições externas e as contradições internas começam a ser geradas. A desvalorização da vida é uma reação à obrigatoriedade da vida.
A filosofia existencial do ser e do nada foi formulada e ficcionalizada na Europa antes da guerra: – Terça-feira. Nada. Existi. – Silenciou nos anos 40 porque os jovens filósofos deviam estar sofrendo de medo, indignação, revolta, tudo menos tédio e nojo, e muito ocupados em salvar a própria pele. A possibilidade da morte dá significado à vida.
Voltou nos fifties, na América, quando James Dean fazia “pegas” de blusão de couro, topete e costeleta, junto com outros outsiders, arriscando a vida por nada; era o retorno do nada. Rebel without a cause foi toda uma geração – e a causa que faltava não era só um princípio inaugural mas uma ideologia. As décadas se sucederam e, neste meio-tempo, os hippies cantaram make love, not war: rolava a guerra do Vietnam, Eros e Tânatos voltavam a atuar juntos, amor e guerra se opunham, a velha dialética era restabelecida e parece que foram tempos felizes. Ou, ao menos, coerentes: queimavam as convocações de alistamento, deixavam o cabelo crescer e a luz do sol entrar, os tempos eram de Aquarius e ninguém queria morrer antes de ver a new age chegar. A paz garantiu o surgimento dos punks e a popularização da droga pesada, o mundo começou a ficar escuro. O Universo conspirou, veio a Aids. No final dos 80, Cazuza gemia: Ideologia, eu quero uma pra viver.
O cotidiano é alienante. Viver para trabalhar e consumir, trabalhar e consumir para viver, viver para trabalhar e consumir, foi o círculo absurdo criado pela sociedade do Ocidente e os jovens exumaram o falecido tédio e seus corolários: o mais grave deles, a desvalorização da vida. Com certa razão, nenhuma griffe compensa a “pena de viver” – é preciso mais, muito mais.
É claro que estamos falando do jovem ocidental, de classe média e com algum acesso à cultura. Talvez no Oriente Médio seja diferente. Lá, hoje, eles têm causas que valem uma vida. E porque ela é ameaçada todos os dias e porque eles a sacrificam por uma causa, talvez acreditem que a vida é mesmo o bem supremo. Será enquanto não for.
Portanto, jovens entediados do decadente mundo ocidental, providenciai urgentemente uma ideologia – pela qual matareis e morrereis – para não morrer de vida. Só está pronto para viver quem está pronto para morrer e vida pode ser, mesmo, doença mortal.

Como carioca, sou vítima freqüente de assaltos. Como fumante, mais ainda. Mulher parada em sinal, com vidros abertos, pensando na morte da bezerra, é assalto certo. E me parece que semáforos são convites para meditação profunda – não sou só eu que entro em alfa – porque, nestes longos anos de assaltada, nunca qualquer motorista das cercanias percebeu o que se passava. Ficamos todos meditabundos diante da luz vermelha.
Mas tenho cá a minha teoria a respeito de assaltos. Para que o ato se consuma, um requisito é indispensável: o assaltante tem que comunicar de maneira eficaz que é assaltante e a vítima tem que entender com rapidez que está sendo assaltada. Se este roteiro inicial comportar uma falha, os neurônios de ambos deverão se reorganizar para acionar o plano B e, neste meio-tempo, o sinal abre. Embananar a comunicação é o primeiro procedimento aconselhado aos seguidores da minha teoria.
Já me livrei de alguns assaltos perguntando várias vezes em inglês o que é que o meliante queria e o tom de interrogação é fundamental para que ele perceba boa-vontade em fazer contato. Enquanto sua mente se desvia para temas paralelos – Hei, não fala minha língua, não? – ou então – Tem dólar? – passa-se um tempo precioso. No que ouvir a buzinada do carro de trás, você está salvo. O sinal abriu.
Durante as eleições, no horário da propaganda gratuita, de vez em quando aparecia uma mocinha que ficava num canto da tela traduzindo o que os candidatos diziam em linguagem de surdos. Eu gostava da mocinha, aprendi alguns gestos, e experimentei uma vez. Não aconselho. O grandão ficou penalizado, disse foi mal, minha irmã também é surda, mas a probabilidade de um parente surdo é pequena e o espaço exíguo entre a porta e o volante impede um gestual convincente, prefira o inglês. Ou o esloveno. Espanhol, nunca. Ele vai entender e aí não tem jeito: vocês estarão se comunicando.
Uma amiga também bastante assaltada tem pânico radical. Se um homem com cara de mau bate no seu vidro, ela nem pergunta se quer esmola ou informação, vai logo entregando a bolsa com carteira, documentos, celular e chave de casa – diz que fica nervosa e não consegue negociar com bandido. Acho muito feio negociar com polícia, com bandido não, mas ela tem certa razão porque é loura de olhos azuis. De acordo com a consistente teoria, no imaginário popular mulheres louras são mais abastadas do que morenas, as gordas mais do que as magras, um dia explico melhor, não dá para ensinar tudo num dia só.
Se qualquer ato ou objeto podem ser cognoscíveis, desde que examinados numa sucessão de raciocínios corretos, há que pensar sobre ladrões para se obter algum conhecimento sobre eles. E aí reside a dificuldade em divulgar a minha teoria: as pessoas têm pavor de ladrões, não querem nem ouvir falar. Me interrompem, com a maior desfaçatez, e preferem se proteger com vidros escuros, fitinhas do Senhor do Bonfim ou o pentagrama de Baphomet, dependendo do credo.
Tive medo de escuro, como toda criança, principalmente quando minha mãe fechava a porta do quarto. E era nos dias de quarto fechado que ouvia passos no corredor. Começava a suar, cobria a cabeça, e invariavelmente rezava: – Tomara que seja ladrão. – Ainda hoje, se tiver que escolher o que encontrar à meia-noite numa estrada deserta, prefiro alguém deste mundo. O que não quer dizer que chame o ladrão, como o Chico: é mais ou menos como cobra, não gosto mas mantenho a calma e consigo pensar em soluções, medo irracional só de cachorro e de fantasma.
O preceito número 1 é evitar a comunicação lógica de qualquer maneira: pela lógica, assaltante manda e assaltado obedece.
Mas, às vezes, isso não é possível. Quando você está com o jornal dobrado no banco do carona e o som ligado, não dá para fingir que é surdo ou não fala português. Nunca subestime o assaltante, parta para o preceito número 2: Comunique-se emocionalmente.
Veja bem, a comunicação só pode se estabelecer em três níveis: ou é física, ou emocional ou intelectual. Nem pense em comunicação física com ladrão, você vai se dar mal ou acabar desmoralizado. Uma vez corri atrás de um, estava com muita raiva, mas ladrão não usa salto alto, dispara na sua frente, você vai desistir e voltar mancando para o carro que terá ficado aberto no meio da rua, de bandeja para outros ladrões. E, se conseguir pegá-lo, também não vai saber direito o que fazer com ele. Melhor se concentrar na comunicação emocional:
Coloque uma cara neutra, não tem sentido ficar rindo para o ladrão, e faça perguntas. É uma peça que não dura mais do que um minuto mas às vezes um minuto é muito tempo. Um bom começo é perguntar por que ele está assaltando logo você, a questão do arbítrio ou do acaso provoca reflexão em qualquer pessoa. Se a escolha foi aleatória, ofereça o que tiver à mão, cigarros, balas, lenços de papel e convença-o a assaltar o carro de trás. Garanto que dá certo.
Se foi proposital – se da longa fila de carros parados ele escolheu exatamente o seu – mostre a ele que foi a mão de Deus. Tire da carteira o jogo da Sena e deixe claro que a sua metade do prêmio deverá ser doada a um orfanato. Todo ladrão é um jogador e ele também aceitará a nota de 5 que você guarda desde o Plano Real porque uma cigana garantiu que ali estavam os números da fortuna. Não esqueça de reiterar que metade do prêmio lhe pertence e o compromisso com as criancinhas órfãs. Enquanto isso, o sinal fica verde.
Como a boa filosofia considera que teoria e prática guardam vínculo indissolúvel, venho ao longo de anos e de assaltos elaborando a consistente teoria da qual vos dou apenas conhecimento superficial. O assalto de hoje acrescentou dados novos, reflexos do tempo em que vivemos:
(Cena única, em frente ao clube Piraquê, na agulha que conduz ao Jardim Botânico)
– Passa a bolsa ou vai levar muita porrada! (Cabeça toda enfiada na janela do carro)
– Calma, meu filho. Vem cá, por quê que você está me assaltando? (Ameaçou com porrada, não está armado. Se eu subisse o vidro podia guilhotinar, de baixo para cima. Esse cara fede)
– Tô precisando de muito dinheiro.
– Tá doente?
– Não. É minha mulher.
– O quê que ela tem? É grave?
– Tá tuberculosa.
– É verdade, isso? (Putz! Acabei de comprar o antibiótico da minha gripe de Hong Kong. Mais de 50 reais. Coitado do cara.)
– Verdade.
– Olha, vou te dar tudo que eu tenho. (Vou mesmo) É que ninguém anda mais com dinheiro por causa dos assaltos, você sabe. Tenho 30 reais.
– Não tá escondendo nada?
– Tô não. Só saio com dinheiro do estacionamento. Hoje peguei mais 20 pra comprar um pacote de cigarros. Você fuma?
– Eu não.
– E sua mulher?
– Já parou.
– É. Tuberculose é uma droga. Você tá desempregado? Posso ver se te arranjo um emprego. (Ganhando tempo mas quem sabe? Coitado do cara.)
– Não quero ser gari, não.
– Melhor ser gari do que assaltar, cara. Você ainda acaba preso e vai ser pior.
– Vem cá. A madame não me arranjava nada no Judiciário, não?
(Pano rapidíssimo porque o sinal abriu)
PS – O referido É verdade e dou fé. Aconteceu hoje.
PS para Dr. P. – Como Marte era o mais burro dos olímpicos, quando ele ataca tudo é possível, febre, assalto, topadas, menos a possibilidade de dizer algo inteligente. Explica de novo o texto improvisado. E por que não acontece comigo?

A Rua Lamancenta

A propósito do feriadão cristão que nos levou ao mar, à montanha ou simplesmente à vagabundagem por quatro benditos dias, lembrei de Buda – que falava de maneira semelhante a Cristo.
Cristo disse: Não pode uma árvore boa dar maus frutos nem uma árvore má dar frutos bons. Pelos frutos, a conhecereis.
Buda disse: Não importa o que o homem faça, seus atos servem à virtude ou ao vício. Toda ação acarreta frutos.
Os dois falavam de uma velha lei do hinduísmo – anterior portanto ao budismo e ao cristianismo – a lei do karma, que regula a “ação e a reação, a causa e o efeito”. Na verdade, o karma é uma lei natural, a semente que germina é karma, mas o budismo a formulou como: “O que somos hoje é o resultado dos pensamentos de ontem. O que seremos amanhã é o resultado dos pensamentos de hoje”.
E Buda também disse que “o homem é aquilo que pensa que é”.
Gosto de fundamentar algumas afirmações dizendo que Buda disse antes. Como ninguém sabe ao certo tudo que Buda disse, o respaldo de Buda dá credibilidade ao que quero dizer. Mas Buda disse mesmo que “o homem é o que pensa e acaba se tornando o que pensou”. Ou seja, que a realidade do homem é decorrente da representação que ele faz de si mesmo e de terceiros. Seus pensamentos acabam gerando suas circunstâncias, logo, seus sofrimentos são fruto dos pensamentos que carrega.
O budismo é uma doutrina interessante porque em nenhum momento fala de Deus nem afirma a sua existência. Não é uma metafísica. A preocupação do budismo é com o homem e o sofrimento do homem.
O príncipe Sidartha Gautama aos 29 anos deixou o seu palácio, abandonou mulher e filho, e foi peregrinar pelo mundo em busca de sabedoria. No princípio seguiu uns monges mendicantes e passou um bom tempo a jejuar mas desistiu da mortificação quando constatou que ela só aumentava o apego. Começou a caminhar, observar e meditar sozinho e, muitos anos depois, se “iluminou”: tornou-se um Buda, um “desperto”.
Para Buda tudo é Maya, ilusão. Só existe um lugar: o aqui. Só existe um tempo: o agora. A realidade está restrita ao momento presente e sua primeira descoberta foi a impermanência: Tudo muda, de estados físicos a pensamentos. O que parece existir apenas flui e pessoas e sentimentos são transitórios. Nada pode ser considerado fixo, nem a verdade. O que se deve buscar é um nível de compreensão adequado para o que somos agora, porque amanhã não seremos o que somos hoje.
Não devemos nos apegar ao transitório, somente permanece em nós o Atman – a alma imortal. Mas acumulamos karma a vida inteira porque carregamos todo o passado conosco. Assim, o primeiro ensinamento de Buda é evitar o apego. Carregar erros e acertos passados impede que a atenção se fixe no presente, a única realidade, o único momento em que podemos zerar o karma. Quem carrega o passado não consegue produzir bons frutos.
Os budistas zen têm maneiras interessantes de passar suas lições. Usam “koans”. O koan é uma história curta que traz em si uma sabedoria nem sempre evidente e meditar sobre os koans é aprendizado. O zen é a vertente japonesa do budismo e os japoneses são minimalistas. O hai-kai e o koan são minimalistas e alguns são incompreensíveis. Mas um dos mais evidentes é o koan da Rua Lamacenta:
“Dois monges peregrinos passavam por uma cidade e encontraram uma jovem que hesitava em atravessar uma rua lamacenta com medo de sujar as roupas. Um dos monges pegou a mocinha no colo e carregou-a até o outro lado da rua. Continuaram a caminhar calados até que a noite chegou e se abrigaram numa hospedaria. Quando se sentaram para jantar um dos monges não agüentou e censurou o companheiro: – Não se espera que um monge budista carregue lindas mocinhas no colo.
Jantaram em silêncio, porque as histórias budistas são recheadas de silêncio, e quando terminaram o outro respondeu: – Eu só carreguei a mocinha até o outro lado da rua lamacenta.”
Embora treinados na mesma doutrina, um dos monges largou a mocinha do outro lado da rua, o outro a carregou por um dia inteiro.
O bem ou o mal, depositados do outro lado da rua, perdem grande parte do valor que atribuímos a eles. Quando a depositamos no outro lado da rua lamacenta, a mocinha deixa de existir. E não é sábio fazer a caminhada carregando a mocinha.

A Usurpadora

Apontada como das últimas mentes paleolíticas que ainda acreditam na socialização dos meios de produção, confesso que sou ferrenha defensora da propriedade privada de algumas coisas além da óbvia escova de dentes: o nome, por exemplo.
Penso em mim mesma não como pessoalidade que os anos vão transformando – quase sempre para pior – mas como um significador imutável, Maria Helena Nóvoa, pombas! Assim me chamo e me chamam desde que nasci. Resisti a apelidos de casada, pseudônimos literários e mantive privada esta propriedade até terça-feira, dia em que fui conhecer a usurpadora.
Existe outra Maria Helena Nóvoa no Rio de Janeiro.
Soube dela pela primeira vez há muitos anos atrás, quando uma lente de contato pulou fora do meu olho no que eu furava uma onda em Ipanema. Voltei às Ópticas Fluminense para comprar o meu segundo par de lentes e colocaram um elefante no meu olho, chorei três dias. O técnico da óptica afirmava que era uma rejeição psicológico, eu jurava que era incompetência dele, e na quarta ou quinta verificação da minha ficha, “caiu a ficha” literalmente: deram-me a lente errada porque havia uma usurpadora que morava em Botafogo e eu no Jardim Botânico. Não satisfeita em existir, “ela” também era míope envergonhada, freguesa da minha óptica e morava num bairro vizinho ao meu.
Passaram-se os anos e não esqueci dela porque passei a rezar não só enunciando o meu nome – o que sempre devemos fazer para vibra-lo no registro akáshico – como especificando que era a mãe de Cláudio, Christiana e Patrícia, o que não levaria o plano superior a qualquer engano na hora de distribuir as benesses solicitadas para a família.
Um dia, Cláudio foi a um médico que comentou, enquanto preenchia a sua ficha:
– Humm… Nóvoa… é parente de Maria Helena Nóvoa?
– É minha mãe – diz Cláudio. – Conhece?
– É a mãe dos meus filhos. – Naquele lacônico jargão de ex-marido e mais não disse.
A usurpadora agora se aproximava pela via do absurdo e “meus” filhos se confundiam com os filhos de um médico que eu, sua mãe, juro que nunca vi mais gordo.
Os Nóvoa vieram da Espanha para o Brasil no final do século XIX. Em 1893, logo depois da Abolição e da República, apareceram nas aldeias espanholas cartazes com a figura do Floriano Peixoto que dizia: “Migre para o Brasil. Clima bom e fortuna fácil”. Meu pai contava que o abuelo (itálico, por favor) anarquista tinha perdido a casa e as terras, empenhadas numa campanha contrária ao partido do cura. Quase na miséria, Castor Nóvoa pensou em ir para Cuba, cortar cana. Quando viu o convite do Floriano, jogou para o alto uma perra-chica (itálico, por favor) e deu Brasil. Cuba perdeu um carbonário e para cá veio ele com mulher e filhos. Não fez fortuna fácil mas meteu-se em todos os movimentos políticos suspeitos do começo do século e parece que vivia preso. Era bom de copo e de discurso, planejava enforcar o clero – do vigário ao papa – e morreu tão arruinado quanto viveu.
A partir do bisavô, consigo reconstituir os passos da família, que aliás é bem pequena, e Maria Helena sou só eu. De onde teria vindo a usurpadora?
Ela foi se tornando ousada. Há dois anos, quando fui registrar “meu” nome na Aol, negaram o registro: o clone havia chegado primeiro. Na verdade, não chega a ser um clone porque não temos a mesma carga genética; mas temos a mesma carga fonética. A invocação (it. pf) do nome evoca (it. pf) o ser, qualquer estudante rasteiro de Magia sabe e eu me interesso por Magia há muitos anos, só falta agora ela também ser “maga”. E se o nome é um mantra, um ente sonoro, meu mantra está irremediavelmente partido ao meio e comecei a desenvolver certa síndrome de Highlander: “Só pode existir uma”. Até terça-feira.
Maria Helena Nóvoa, a outra, a falsa, a usurpadora, foi se consultar com uma médica “minha” aluna, que desenvolveu junto com a “minha” filha um programa anti-tabagista – logo, ela “também” fuma – e quando descobriu mais esta ponte entre nós duas, pediu meu telefone: gostaria de me conhecer. – Pode dar meu número para sua cliente – falei. – Mas de quem você gosta mais? – pensei. “Ela” estava se tornando insuportável.
Então, na terça-feira, fui almoçar comigo mesma. Fiz uma reserva para duas, ala de fumantes. – Em nome de quem? – Maria Helena Nóvoa. – E quem mais? – Mais ninguém – em algum plano misterioso, somos uma.
Levei um livro para ela e foi a primeira vez que fiz uma dedicatória para mim mesma. Me perguntava se nosso diálogo poderia ser chamado de solilóquio.
– E como vamos nos reconhecer, o restaurante é grande, devemos combinar uma roupa?
– Tenho certeza de que não vamos errar – respondi.
Não deu outra. Quando ela entrou, já veio para mim de braços abertos:
– Que bom que você não é gorda – foi a primeira coisa que me disse.
– Que bom que você não tem unhas vermelhas.
E assim, na terça-feira, eu e a usurpadora ficamos íntimas. Marcamos futuros almoços para as próximas semanas porque não deu mesmo para contar tudo na primeira vez. Depois de quatro horas e um maço de cigarros, ainda estávamos no século XXI e não sei quando chegaremos ao bisavô espanhol.

Há vida na Terra?

Em Janeiro uma amiga querida, que usa Vuitton, Montblanc e Cartier, convidou outras amigas que não usam nada disso (entre as quais me incluiu) para assistir a uma engraçadíssima peça que era o “must” do verão. Só conseguiu ingressos para Março. No dia da esperada sessão caiu um toró sobre a cidade e nenhuma de nós conseguiu chegar ao teatro, nem os atores. Como não houve espetáculo, as entradas foram gentilmente trocadas para o primeiro dia em que as muitas reservas deixaram 4 lugares vagos: mais dois meses na fila de espera. Assim, no mês de Maio, lá fui eu ver a comédia aguardada desde Janeiro, o maior sucesso da temporada, referendado pela avalanche de público.
A peça era muito ruim. Aquele ruim além do tolerável que sempre me dá uma sensação de vergonha, me deixa tão constrangida que não consigo olhar para o lado e tudo que quero é sair correndo antes do final para poupar os atores da minha presença durante a vaia. Foram entusiasticamente aplaudidos. Saímos em trajeto mecânico pelos corredores do Shopping da Gávea, comemos e bebemos mal nos cafés ainda abertos e cumprimos o ritual da mediocridade até o fim. Ninguém ousou dizer que a noite foi uma droga: há pouca vida na Terra.
Georgi Gurdjieff escreveu um livro curioso, Relatos de Belzebu a Seu Neto, um calhamaço de mais de mil páginas, sobre a visão do homem na Terra por seres de um mundo distante. Alforriado de penas e pecados da juventude por Sua Eternidade, e depositário de vasta experiência, Belzebu conta para o neto como é a vida mecânica naquele planeta insignificante, orbitando uma estrela de quinta grandeza.
Gurdjieff era um russo grandão, do final do século XIX, que cedo embarafustou pelo mundo à procura de tradições de sabedoria e acabou dando com os costados no Oriente Médio, por onde vagou durante vinte anos, já que era homem de ação e a sabedoria deveria estar na vida e não nos mosteiros. Sua busca de juventude pelo conhecimento oculto e o propósito da vida humana virou filme de Peter Brook, com o título de uma de suas obras, Encontros com Homens Notáveis. Voltando do Oriente foi morar na Europa, onde se dedicou a escrever e divulgar o seu sistema, no qual o corpo, a mente e as emoções trabalham juntos para despertar a consciência e induzem o homem a não ser jamais um espectador de si mesmo.
Apesar de atrair alunos de todas as partes do mundo, Gurdjieff não se considerava um mestre e sim um “despertador de homens”. E investia contra todas as formas de “adormecimento”. Talvez a mais importante conclusão a que tenha chegado, no seu estudo do lado oculto das religiões, é que o homem é quase inteiramente mecânico. Não só o homem é basicamente uma máquina que apenas responde ao meio ambiente como é um erro imaginar que possuímos alguma individualidade. Possuímos dezenas, talvez centenas de “eus”, por isso é tão difícil ser consistente. Um “eu” toma uma decisão no ano novo, outro “eu” poucas horas mais tarde decide quebrá-la.
Gurdjieff também tinha fama de zangado. No seu centro de iniciação à consciência, freqüentado por intelectuais da época como Katherine Mansfield, que depois escreveu sobre ele, mais expulsava do que aliciava alunos porque nunca se sabia se suas respostas refletiam o que pensava ou eram dadas ao contrário, para confundir o carente. Escreveu muito, mas seu grande livro – em que mistura ficção com filosofia e ensinamentos secretos de religiões orientais – é sem dúvida Belzebu.
Lá é dito que o conhecimento é matéria, por isso não pode ser guardado indefinidamente: se uma pessoa se apropriar de certa quantidade de conhecimento, como de certa quantidade de comida, as outras terão menos. Portanto, ser não é saber.
Mas, “o homem está numa prisão, da qual só pode escapar se admitir que está preso, e o plano para a libertação requer um estudo cuidadoso da planta da prisão”. Portanto, para ser é preciso saber.
O propósito do seu método era romper o automatismo. O homem acredita que vive porque ri, chora, se emociona e sente culpa; na verdade, diz Gurdjieff, estas reações são pouco mais do que respostas automáticas a certos estímulos definidos. Meros reflexos. O homem vive sem nunca se perguntar por que faz como faz, olhando para o lado em busca de modelo em outros que também estão olhando para ele em busca de modelo e muito poucos saem deste círculo e correm o risco de reinventar a máquina. Até que morre de maneira mecânica e dizem dele que foi um bom homem porque não deixou pegadas.
Quando seu neto lhe pergunta: “- Então, não há vida na Terra?”, Belzebu olha aquele ponto minúsculo no espaço e responde: “- Muito pouca”.

Sobre o suicídio

Um chefe de família, aparentemente arruinado, mata a mulher e as duas filhas e se suicida. Um óbvio gesto de loucura e loucura não se comenta, se lamenta. Mas as pessoas se metem a opinar até sobre o inopinável, então quero comentar não o fato – por respeito à loucura e suas vítimas – mas os comentários sobre o fato.
Um psiquiatra diz que foi um “crime piedoso”, um psicanalista chama de “crime altruísta”. Piedade e altruísmo são atributos desejáveis para todas as religiões. Afirmam estes especialistas em almas que não foi um crime movido por ódio, evidentemente, e que talvez o intuito fosse poupar-se e poupar a família da nova condição de pobres. Da humilhação, do ônibus, do subúrbio, da escola pública, da sardinha em lata, do dente cariado… é longo o séquito de indesejados que acompanha a pobreza e a função de psiquiatras e psicanalistas é compreender o homem.
Saint-Exupéry – esse mesmo, o do Pequeno Príncipe – escreveu um livro chamado Terra dos Homens.
Da geração das “misses”, todo mundo leu o Pequeno Príncipe; parece que até elas. Como as gerações seguintes leram O Apanhador no Campo de Centeio, Fernão Capelo Gaivota e Porcos com Asas. Vai ver que cada época tem um livro emblemático para os jovens e este livro acaba formando alguns valores comuns à geração. As misses envelheceram porém lembram até hoje que a gente “se torna eternamente responsável por aquilo que cativa”.
Mas Saint-Exupéry também escreveu Terra dos Homens, que nem todo mundo leu. Neste livro ele fala sobre os correios aéreos que faziam com aviões pioneiros a rota Europa-África-América do Sul em longos vôos solitários sobre o deserto, o Atlântico e os Andes. Saint-Ex, como os amigos o chamavam, foi piloto nesta rota perigosa e morreu quando seu avião se espatifou contra uma montanha.
Ele nos conta que conheceu um suicida moço. E não sabe a que tentação literária este jovem cedeu, quando calçou luvas brancas antes de puxar o gatilho e se matar de amor por outra jovenzinha talvez tão tola quanto ele. Lembra então de Guillaumet, seu companheiro no Correio Sul.
O avião de Guillaumet sofreu uma pane e caiu nos Andes. Machucado, cheio de dores e atordoado, percebendo a imensidão deserta à sua volta, ele compreendeu que estava perdido. Seu primeiro impulso foi deitar e se deixar adormecer, a “morte branca” é indolor. Mas lembrou dos companheiros. Os companheiros iam procurar por ele, voando baixo nas montanhas traiçoeiras até encontra-lo. Lembrou da mulher, dos filhos e de detalhes banais, seu seguro só seria pago se o corpo fosse localizado e a neve esconde para sempre, em poucas horas, o corpo de um homem.
Então, Guillaumet andou. Andou sem rumo dois dias e duas noites, parando apenas para rasgar uma bota, quando a perna inchada já não cabia nela, ou esfregar neve nos olhos para mantê-los abertos. A cada parada ficava mais pobre, esquecia uma luva ou um canivete, mas os amigos acreditavam que, se estivesse vivo, ele estaria caminhando e ele caminhou, dando tempo para que os companheiros o achassem. Estava de pé, quando o encontraram.
– O que eu fiz – disse com brio ingênuo, em meio aos abraços e à felicidade dos amigos – nenhum animal faria.
E Saint-Ex conclui, tentando definir o atributo que distingue a “humanidade” em cada um de nós: “Ser homem é, precisamente, ser responsável. É experimentar vergonha diante de uma miséria que não parece depender de si. É ter orgulho da vitória de um companheiro. É sentir, colocando a sua pedra, que contribui para construir o mundo”.
Este livro foi lido naquela idade em que se grava tudo, não só as palavras como a localização das palavras na página. Naquela idade em que não se tem nem idade para ser candidata à miss e Saint-Exupéry não é considerado um clássico. Foi um livro perdido ou emprestado, que nunca mais voltou para a estante e é citado de memória. Lembrei dele hoje, a propósito dos que acham que têm que achar alguma coisa, têm espaço para dizer o que acham e certamente influenciam jovens que os lêem.

Prozac

Os remédios de tarja preta vendem cada vez mais, informam os jornais. As pílulas da felicidade são indispensáveis na farmácia do homem moderno porque poucos conseguem conviver com a própria angústia.
Talvez a angústia “moderna” seja mesmo derrubada pelo murro poderoso dos remédios faixa-preta. Mas há uma outra angústia, velha como o homem, que nos acompanha desde os tempos da caverna – é esta que interessa aos Colégios Iniciáticos.
O homem domina o mundo visível mas não o invisível. Diante de um grande animal, o primitivo sabia exatamente se suas armas eram suficientes ou era hora de correr. Havia medo, certamente, talvez pânico – mas nada que pudesse ser comparado ao enfrentamento do desconhecido. A literatura, desde o tempo dos babilônios, passando por egípcios e gregos até os dias de hoje, é recheada desta angústia. Tremendo de medo diante do raio, do trovão, e de forças incontroláveis que desabavam sobre ele, Gilgamesh gritava para alguém que não sabia exatamente onde estava: – Qual foi o meu pecado?
Aparecia a angústia do homem diante da mais temida das faces de Deus: o Deus absconditus, aquele que podia estar presente no fundo do mais fundo dos esconderijos. O que não é passível de conhecimento. O Invisível.
Esta é a nossa angústia arcaica: a perplexidade diante de uma existência que nos obriga a responsabilidades humanas que não lembramos de ter assumido, que nos constrange a tomar sobre os ombros o fardo do mundo futuro bem como a suportar em nós todos os erros do mundo passado, a carregar o tormento de nossa criação inexplicável e o convite à crença numa ordem cósmica perfeita quando tudo que nos rodeia é do domínio do absurdo – seres finitos sonhando com o infinito.
Para escapar do impasse uns atribuem a Deus o poder que lhes falta, outros se refugiam num ateísmo feroz. Mas toda a filosofia profana desemboca, com Kierkegaard e Heidegger, no existencialismo sartreano: somos seres que trazem em si o nada.
Os Colégios Iniciáticos e a gnose pregam, ao contrário, a libertação do passado e o enfrentamento do desconhecido. No plano social o passado justifica todos os racismos, todos os nacionalismos convencidos de sua superioridade sobre o resto do mundo. No plano individual é a submissão a todas as sociedades, laicas ou religiosas, e a aceitação do dogma. Quem se refugia em seus hábitos adquiridos recusa a evolução – mas temos que concordar que a vida é mesmo muito mais fácil quando criamos para ela um programa de adaptação às “griffes” sociais.
O que as Iniciações oferecem é apenas a possibilidade da vida total. E esta totalidade só pode acontecer quando o homem rejeita o transitório e enfrenta o desconhecido. A Boa Nova é um convite do desconhecido ao bem-estar paralisante, Cristo chamava seus discípulos dizendo: “Deixa teu pai e tua mãe e segue-me!”. Quando o homem se despoja dos cuidados cotidianos que fazem de sua vida um automatismo e o impedem de se voltar para si mesmo, quando se interroga sobre esta epopéia que é toda a vida humana, uma multidão de perguntas sem resposta vem assalta-lo, destruindo um bem-estar que não era senão a ausência de si mesmo.
É só quando deixa “seu pai e sua mãe”, quando se despe das roupas protetoras, que o homem está pronto para entrar no Templo e enfrentar o Deus desconhecido.
Esta angústia é a marca do humano.
Enquanto não for enfrentada, o homem vive; não vai morrer por isso. “- Como nos tempos de Noé” – diz o texto do Apocalipse – “os homens comiam e bebiam”. Vai ver que até tomavam Prozac.

Existe um livro que é um milagre no campo da comunicação universal: um manuscrito misterioso já traduzido em 1435 línguas e dialetos, lido por centenas de milhões de pessoas há milênios, que inspirou a criação de três grandes religiões, provocou guerras, uniu nações e, ainda hoje, no mercado editorial do mundo, vende mais do que Paulo Coelho.
Mito fundador da maior cultura do planeta, a judaico-cristã, a autoria das cinco primeiras partes deste best-seller, o Pentateuco – a Torah – é atribuída a Moisés.
A palavra que inaugura o Antigo Testamento é Bereshit e ela só aparece neste texto. É um “hapax”, palavra sagrada usada “apenas uma vez”. Bereshit significa “no princípio”.
As palavras “princípio”, “principal” e até “príncipe”, têm uma raiz comum e remetem ao primeiro momento ou à causa primeira. Embutido em Bereshit, a primeira palavra, já aparece o mistério do número 1.
A tentativa de entender o Um endoidou muitas cabeças confiáveis: o Um é uma abstração, impossibilitada de se manifestar, a manifestação exige pelo menos a bi-dimensionalidade, por isso o Um é sempre atribuído ao divino, não ao humano. E, como o Um é único, o dois não é a sua soma, é a sua metade, o três a sua terça parte e todos os números são frações originadas do Um imaginário – partes do Todo.
Qualquer ordem iniciática tem como finalidade levar o homem fracionado de volta à sua origem divina: emanado do Um, ele deverá um dia voltar ao Um. Este processo de individuação, de reconstrução do indiviso – o ser único, não dividido – aproxima o homem cada vez mais da sua essência, a verdadeira natureza do seu ser. Para isto ele nasce.
Qualquer tentativa de deduzir o ser através de ações inerentes ao próprio existir pode até gerar boas “sacadas” literárias mas não diz nada. Penso, logo existo é afirmação tão inócua quanto como cenouras, logo existo. Já a revelação de Deus a Moisés no alto da montanha até hoje provoca assombro porque não veio acompanhada de nenhum atributo: Eu Sou quem Sou. Ponto final. E a palavra terrível da única revelação que Deus fez de Si mesmo não é o “eu”, é o “sou”. O Um não tem “ego” nem “persona” – nós, coitadinhos, é que temos – o Um só tem a Si mesmo. O Um é.
Estamos todos muito longe de ser Um. Somos frações ambulantes que se agrupam em torno de algumas características que imaginamos importantes e acreditamos que nos descrevem. Assim, formamos nosso grupo religioso, político ou afetivo, nos organizamos em condomínios, corporações de ofício ou nações e até nos propomos a fazer um ou outro sacrifício pessoal para a sobrevivência do nosso grupo ou da nossa ideologia. E cada vez mais alimentamos este grande monstro chamado “coletivo”. O coletivo nos convida a fazer parte dele com aquilo que só podemos reunir e coerir quando o chamamos de “eu” – o resto está disperso. E sabemos que o “eu” não é o Um.
Ninguém é negro, gay, muçulmano ou diabético. Enquanto acreditarmos numa fraternidade de partes e não de totalidades, seremos “estrangeiros” sobre a terra e dentro de nós mesmos, porque o nosso igual não existe.
O processo iniciático, ao contrário, sugere a libertação do coletivo anônimo e amorfo: viver no mundo sem ser por ele submetido, estar ao mesmo tempo nele e fora dele, dissolvendo os “egos” e as “máscaras” em que o Um se dividiu. Quanto mais o homem se divide, mais se torna inimigo dos outros homens – o que todos compartilhamos é a Unidade inaugural. E quando se chega ao Si mesmo, o resto não é o resto porque não há mais resto.
Cumprimos a jornada circular e voltamos a onde sempre estivemos. Bereshit.

Salvação

Os jornais noticiaram que um dos últimos presentes do galã Ben Afflek para sua amada Jennifer López foi uma tábua de privada – cravejada de pérolas, safiras, rubis e diamantes – no valor de 105 mil dólares. Parece que não havia esmeraldas nesta tábua.
A Tábua de Esmeralda foi um manuscrito muito difundido na Europa, no final da Idade Média, que logo se tornou programa e método dos alquimistas. Encerrava “o Segredo da Criação dos Seres e a Ciência das Causas de todas as Coisas”.
Texto danado de obscuro, condensava uma sabedoria sagrada somente revelada aos grandes iniciados e seu trecho mais conhecido afirmava o que veio a ser o princípio fundamental da Alquimia: “o que está em cima é como o que está embaixo”. Baseados nesta revelação, os alquimistas faziam em seu laboratório experiências de transmutação de metais ordinários em ouro para tentar desvendar o processo que poderia levar o homem comum, o “vil metal”, a se transformar no mais puro deles. O resultado desta opera magna seria a Pedra Filosofal, a matéria pura primordial, o “ouro filosófico” e princípio analógico da essência divina, pois se “o que está em cima é como o que está em baixo”, o que o céu guarda a terra também possui.
Os homens já se preocuparam com essas coisas.
A Tábua de Esmeralda era atribuída ao egípcio Hermes Trismegisto – o três vezes grande, o três vezes sábio, o três vezes mago – e a palavra “hermético” começou a ser usada para se referir a ele. O texto teria sido gravado pelo próprio deus numa grande esmeralda e só muito mais tarde transcrito num papiro e traduzido para o latim, para a divulgação na Europa.
A esmeralda era uma pedra sagrada. Utilizada para a regeneração e a preservação, conferia poderes mágicos e diz a tradição que o próprio Graal foi esculpido numa esmeralda. Como era atribuída a Hermes, o mensageiro dos deuses, participava dos dois mundos, o humano e o divino, e sempre foi considerada um poderoso talismã. Pedra da cura e da clarividência, seu portador adquiria domínio sobre o Bem e o Mal e não é de admirar que fosse uma das pedras reservada aos Papas, simbolizando a Esperança.
As três virtudes teologais são Fé, Esperança e Caridade, pilares do Cristianismo. Mas há um dito gnóstico afirmando que a Fé está morta, a Caridade em extinção e só nos resta a Esperança.
Que a Caridade não está bem das pernas, basta olhar em torno para concordar. A Fé resistiu um pouco mais. Fé é uma certeza que tem por base a autoridade de uma revelação recebida por alguém. É um postulado metafísico. Se esta proposição ou este alguém comportam uma falha, a Fé desmorona. Em tempos que se especializam em derrubar metafísicas e profetas, não é de admirar que a Fé tenha morrido.
Já a Esperança está além de toda certeza racional, porque persiste mesmo depois de esgotados os argumentos. É mais do que uma espera teimosa, como seu nome sugere, é confiança no milagre. É a mais ingênua das virtudes porque nenhuma filosofia a sustenta: é apenas ato de amor. A única que nos resta porque é “a última que morre”.
Entre a Tábua de Esmeralda e a tábua do Ben Affleck, a humanidade percorreu longo caminho mas talvez continue a mesma: ainda não descobriu sua “pedra filosofal”.
No entanto, as pessoas amam e só o amor as salvará. Apesar de algumas dádivas equivocadas, já que as oferendas ao amor podem variar do Taj Mahal a uma tábua de privada, sinal dos tempos. Mas para qualquer amante a amada é uma rainha e, desde Inês de Castro, sabemos que o desejo recôndito de quem ama é ver a amada no trono.

O Chamado

Uma coluna semanal para falar de espiritualidade. A espiritualidade não se interessa especificamente pelo nosso corpo, não se ocupa dos nossos sentimentos e não valoriza a nossa inteligência.
Então vamos falar de felicidade, tentei resumir para garantir o ibope, é mais ou menos a mesma coisa, essa palavrinha banal que usamos muito no dia-a-dia mas poucos conseguem conceituar. Pode ser um começo.
Quando nosso corpo ou nossas finanças vão mal nós ficamos infelizes, não tem jeito. O mundo físico é o que abriga o animal que somos e nossa primeira preocupação é garantir a sobrevivência: alimento e toca. Sem cama e mesa garantidos não conseguimos pensar em mais nada.
Mas o homem não quer só comida: junto com diversão e arte quer também amor, precisa nutrir o seu mundo emocional.
Como somos sofisticados, desejamos ainda algo mais do que comida e emoções – afinal, somos seres que pensam. Então, somos também políticos, precisamos de justiça, pessoal e social, e queremos viver debaixo de regras aceitáveis.
Teorias consistentes, todas elas verdadeiras, tentam explicar os desejos que nos movem mas nenhuma delas é capaz de, sozinha, desenhar o mapa da nossa felicidade. Somos o homo sapiens, o homem capaz de sabedoria, descendente direto do casal primordial e com a missão bíblica de “dominar sobre todos os seres da terra”.
Para Marx, é preciso comer para depois poder desejar, pensar e agir. Na base da história estão as relações econômicas de cada grupo. Para Freud, o desejo sexual, a libido, é o motor de toda a atividade humana, a força geradora da manifestação artística, científica e social. Adler, discípulo de Freud, identifica como papel preponderante no desenvolvimento humano a vontade-de-poder, já que o poder implanta a lei. Como correr atrás da nossa felicidade: privilegiando o corpo, a emoção ou a inteligência?
A experiência clínica de Jung levou-o à descoberta de um plano mais sutil ainda do que o plano da mente: o homo religiosus junguiano tem origem numa camada mais arcaica do que o homo sexualis de Freud ou o homo oeconomicus de Marx. Este arquétipo, central e totalizador, foi chamado de “self”.
Os quatro elementos alquímicos estão simbolizados em teorias consistentes que procuram explicar o impulso gerador da ação humana. Não são teorias excludentes, são complementares. Todos os seres experimentam, em maior ou menor grau, estas pulsões primordiais e outras já descobertas ou por descobrir.
O desejo de se religar à fonte original, fundamento do homem religioso, gera um “descontentamento divino” que nem o corpo, nem a emoção, nem o poder podem aplacar. É a experiência de “estados de ser cada vez mais perigosos”, como diria Artaud. É uma inquietude à espera de um chamado.
Chamado é vocação.
Uns afirmam que o chamado tem origem divina. Outros dizem que somos apenas nós – afastados de nós mesmos -, chamando para o “religare”. O que quer que este chamado seja, seguir a nossa “vocação” é sempre um ato espiritual e religioso. Ainda que praticado por ateus.
* * *
Agradecendo o espaço no Epinion, a Esquizotérica estará aqui todas as semanas – meio esquisita, às vezes esquizóide – abordando assuntos que interessam a poucos. Uma coluna que não dará receitas de beleza, não dissertará sobre as 537 maneiras de seduzir um parceiro nem aumentará o seu coeficiente intelectual. Pretende ser, apenas, um espaço de debate e troca para quem está interessado em entender e atender às suas vocações.

 

[Texto realizado com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional – Bolsa para Autores com Obras em Fase de Conclusão / 2007]


O circo chegou, o circo!

Lá vêm as mil maravilhas!

O carrossel da alegria

não pára a sua viagem…

 

A Família Rastaqüera

é uma gente de passagem,

companhia de mambembes,

muita arte na bagagem.

 

Carroça é casa na estrada,

itinerante estalagem;

onde chegam, fazem festa

para os olhos e os ouvidos:

 

fincam ferros, sobem lona,

picadeiro , arquibancada ,

instrumentos , figurinos ,

maquiagem , adereços …

 

e o Cirquinho Rastaqüera

transforma toda a paisagem,

desfila a sua magia,

desfia a sua seresta,

 

arrebanha a criançada,

enche a platéia de gente

e começa a brincadeira,

os tambores a rufar :

 

“Com vocês, o magnífico

Cirquinho Rastaqüera:

o maior e mais incrível

espetáculo da Terra!”

 

A Família Rastaqüera

é uma gente de passagem,

companhia dos contentes,

muito amor nessa carroça.

 

Certo dia, em seu caminho,

parou uma carruagem.

Dela desceu rica moça

trazendo, todo embrulhado,

um bebê recém-nascido.

 

Entregou-o à boa Mirna

que à caçula amamentava

e pediu: “Toma, por Deus!

Não posso estar entre os meus

se carrego esta desonra:

um filho na minha idade…”

 

E, em lágrimas, a jovem

despediu-se do pequeno,

pois não tinha para dar

o amor que ele merecia,

e todo o afeto que tinha,

de fato, não era muito…

 

(mas não sejamos cruéis

ela era tão novinha,

quase ainda uma criança,

não sabia o que fazia)

 

Mirna acolheu este filho

no seio que lhe restava

e avisou aos outros seis

que a família aumentara.

 

Na alegria, na tristeza,

na poeira ou ao relento,

agora éramos nove

mambembes na mesma estrada:

 

Paco, Mirna e 7 filhos,

sem contar a bicharada…

 

Um dia, esse menininho

– já um palhaço-aprendiz –

brincando com seus irmãos,

soltou uma gargalhada,

 

tão elétrica descarga

que acendeu uma lâmpada

na ponta do seu nariz!

 

Fez brilhar mais outras tantas

em seus olhos, suas mãos,

e quantas ele inventasse

motivo pra dar risada.

 

E acendeu as fachadas

que andavam na escuridão

pois, mesmo fora de si,

o efeito funcionava.

 

O caso era um milagre,

o menino, um prodígio!

O garoto-lamparina

acendia o que queria

com a fagulha do seu riso.

 

E, com suas palhaçadas,

fazia eletricidade

pra iluminar toda a vila,

 

e cada nova cidade

por onde seu dom passava

virava Cidade-Luz.

 

Foi assim que Pirilampo

ganhou o seu apelido

e descobriu desde cedo

pra quê veio a esse mundo:

 

Iluminar de alegria

todo lugar onde passa,

distribuir todo dia

a luz que lhe vem de graça.

 

O Palhaço Pirilampo

é Sol em forma de gente.

Gargalhada contagia,

ilumina a toda volta,

irradia em toda a praça.

 

O velho vira criança,

a cidade vira um campo,

a noite parece dia,

mesmo o moço cego espia,

as fofocas silenciam,

o tempo pára no espaço,

 

o julgamento se adia

e até o bobo adivinha

que esse mundo é mais bonito

quando o palhaço faz graça!

 

Até que, num belo dia,

chegou a estas paragens

uma grande companhia,

de altíssima envergadura,

renome internacional

e a maior infra-estrutura

para o respeitável público

da humilde localidade.

 

Então, mesmo Pirilampo

que, afinal, era criança,

foi ver o Gran Alta Circus

na noite de sua estreia.

 

Nunca tinha visto tigres,

que achou um pouco presos,

por isso estavam tão bravos…

e o elefante, coitado?

Um colosso maltratado!

 

Mas divertiu-se com os micos

e os macacos amestrados ,

a quem planejou soltar

no escuro da madrugada…

 

Porém esqueceu de seus planos,

e de tudo mais no mundo,

quando viu em frente aos olhos

um trapezista voando

e, suspensa nos seus braços,

uma menina (ou um anjo?)…

 

e não tinha medo, tanto

que, para espanto geral,

saltou e pousou sozinha

na plataforma mais alta,

 

de onde se pendurou

e, de lá, saltou de volta,

cruzando até o outro lado,

linda, livre, leve e solta.

 

A garota era fera!

Pirilampo achou belíssima

a passarinha lá em cima,

seu nome: Paloma Líbera.

 

Num impulso iluminou-se

e refletiu do outro lado,

um clarão esfuziante

atrapalhando o show!

 

Foi obrigado a sair,

mesmo quando se apagou

e encolheu-se envergonhado.

 

Um brilho remanescente

denunciou o tratante,

excluído  do ambiente.

 

 

Passaram-se muitos anos,

cada circo foi pr’um lado:

os ricos, ladeira acima;

mambembes, ladeira abaixo.

 

Mas, se esse mundo é redondo,

um dia os seus caminhos

vão se encontrar do outro lado.

 

 

Enquanto isso, nas feiras

por esse país afora,

Pirilampo Rastaqüera

já era um grande palhaço.

 

Fez uma bela carreira

e cuidou de dona Mirna,

que andava no bagaço

desde que Paco, cansado,

pendurou sua viola

numa curva dessa estrada.

 

Seus irmãos, de alma cigana,

cada qual partiu pr’um  canto,

e o Cirquinho Rastaqüera

teve que ser desmembrado:

 

Um deles ficou com a lona;

o outro, com as ferragens;

o maior, com a viga mestra.

 

Pra irmã mais velha, os bichos

(o cão, a cabra, as galinhas);

pra outra, os tachos de cobre

funilados  por seu pai;

pra caçula, a mulher-banda , os

instrumentos musicais.

 

Afinal, a Pirilampo

coube a modesta carroça,

além de sua boa mãe,

que não durou muito tempo,

saudosa de seu marido…

 

mas, antes de ir, contou

a Pirilampo do berço

de ouro  em que era nascido:

 

“Se algum dia tu quiseres

reclamar a tua herança,

conta que és a criança

que a jovem abandonou…”

 

Mas avisou que o amor

não está no sangue ou nome,

não está no bolso ou vestes,

nem mesmo no rosto está,

nem em nada que se veja

e que se possa pegar

com as mãos de carne e osso.

 

Então foi-se embora a Mirna

para algum outro lugar …

 

mas Pirilampo guardou

o seu amor num altar

no meio do coração,

todo iluminado, igual

arraial de São João.

 

E agora, Pirilampo

era um saltimbanco  só,

nos barrancos dessa estrada.

 

Rastaqüera sem ninguém,

sem família e sem vintém,

um mambembe de passagem.

 

Quem tem luz agüenta o tranco,

não precisa de mais nada.

Toca o bonde, segue em frente,

não pára a sua viagem…

 

Mas a curiosidade

levou a sua charrete

lá pros lados onde a Mirna

disse viver sua mãe.

 

Descobriu a casa rica,

na verdade, uma mansão:

 

altos portões gradeados,

um chafariz no quintal,

seguranças, empregados,

cães de caça e o escambau.

 

Pirilampo achou bonito

mas não gostou muito não,

aquele aparato todo

parecia uma prisão.

 

“Prefiro a minha carroça!…”

 

Virou nos seus calcanhares

e já ia indo embora,

quando um carrão importado

parou em frente à calçada,

enquanto o portão se abria.

 

Lá dentro ele pôde ver

uma senhora elegante

e muito bem maquiada.

 

Os seus olhares cruzaram

apenas por um instante

mas foi o suficiente.

A dona saltou do carro

e sapecou-lhe um abraço:

 

“Augusto Alfonso, és tu mesmo!

Finalmente eu te encontrei…

és idêntico ao teu pai,

a quem um dia eu amei

e não quis ser meu marido!

 

Vem viver aqui comigo,

minha vida é tão vazia!…

Te prometo regalias,

tenho muito a oferecer!”

 

E, embora Pirilampo

sentisse pena da pobre,

não aceitou os seus cobres

e decidiu que partia.

 

Mas deixou-lhe um candeeiro

– pois, de luz, tinha de sobra –

pra iluminar seu dinheiro

e seu coração partido.

 

Soube-se que esta senhora

decidiu distribuir

um pouquinho do que tinha,

levando grande alegria

às 1.110 famílias

que passou a ajudar.

 

Ainda descobriu, de quebra,

que era gente e não sabia,

pois a riqueza engrandece

a quem lhe dá serventia.

 

Só que a dona, inconformada

de perder seu filho lindo,

fez-lhe um retrato falado

que andou distribuindo

nos 4 cantos do mundo :

 

“Procurado Augusto Alfonso”

 

E, desde então, Pirilampo

prosseguiu sua jornada,

mas não permite que o vejam

sem peruca e maquiagem,

chapéu coco e narigão.

 

Em nome da liberdade,

esconde seu belo rosto

sob a caricata face

de um pobre vagabundo.

 

Um sem-nome,

um sem-teto,

um pateta,

um chorão.

 

Pirilampo Rastaqüera

é sol em forma de gente.

Quando tem nuvem na frente,

ainda assim ele brilha,

a gente é que não percebe

se não prestar atenção.

 

E foi rodando o palhaço

e foi rolando essa vida…

 

Enquanto isso, o tempo

foi fazendo o seu trabalho

e, por essa mesma estrada

onde, muitos anos antes,

ele conheceu o amor,

vem um comboio  pesado:

 

ônibus, elefantes,

maquinária , caminhões…

Pirilampo ainda não sabe

que vem chegando à cidade,

nem um dia de viagem,

o Novo Gran Alta Circus,

totalmente renovado,

prometendo um espetáculo

como ninguém nunca viu!

 

À frente, o Sr. Gran Alta

e sua intrépida  filha,

a jovem Paloma Líbera,

que já era uma mocinha,

porém nunca tinha tido

um noivo, nem namorado,

quase nem pensava nisso,

pendurada lá no alto

do trapézio em que voava…

 

quando entrou pra companhia

uma grande atração

para a nova temporada:

 

O Mágico Mr. $ifra

era um galã de cinema.

Os cabelos como o ouro,

o azul do olhar, um poema.

 

E Paloma suspirava

cada vez que ele sorria

(ela, e mais a torcida

feminina do Flamengo!).

 

Seu número de magia

era um tremendo sucesso

porque, se o que ele fazia

muito pouco ou nada tinha

de belo ou original,

fazia brilhar os olhos

de toda a comunidade.

 

Pois tirava da cartola

o que o povo mais queria

e, no final, premiava

um felizardo por dia

com dinheiro de verdade,

em quantidade bastante

pra comprar uma casinha

e uma televisão.

 

“Nós amamos Mr. $ifra!!!”

– gritavam as suas fãs.

 

E o Gran Alta todo dia

esgotava a lotação.

Vinha excursão de longe,

gente pelo ladrão.

 

Paloma, nos bastidores,

caiu por ele de amores

e foi às nuvens no dia

em que ele, lá do palco,

tirou do pé do sapato

um crisântemo de plástico

e lhe atirou na coxia!

 

Ela nem acreditou

que depois ele a beijou

e a convidou pra jantar,

e ainda disse: “Meu bem,

quero levá-la ao altar!”

 

Então pediu sua mão

pro senhor Ivo Gran Alta,

que ficou bem satisfeito!

 

E o acordo foi feito,

então ficou combinado

que, com pompa e circunstância,

Paloma se casaria,

tornando-se, doravante,

Senhora Gran Alta $ifra.

 

Porém, em vez de alegria,

Paloma foi invadida

por uma angústia  de morte,

uma sensação aflita…

 

mas depois pensou melhor

e achou uma besteira,

ele era o par perfeito,

o que mais ela queria?

 

Afinal, era uma sorte

que alguém tão importante,

tão galante e cobiçado,

se interessasse por ela,

que nem era tão bonita

(era assim que ela pensava).

 

Mas o seu primeiro encontro

foi um tremendo fiasco !

 

Paloma que, no começo,

estava tão encantada,

não queria mais ouvir

ele falar só de si,

 

e eram muito sem graça

as vantagens que contava:

seu dinheiro, sua casa,

suas roupas, seus três carros…

e o que no início era tédio,

no final já era asco!

 

Ela planejou fugir

e, mentindo ir ao banheiro,

escapuliu pela porta

dos fundos do restaurante.

 

Mr. $ifra, um pavão,

demorou pra perceber…

mas, quando entendeu, berrou

com a força do pulmão

para a rua toda ouvir.

 

De tão possesso, espumava,

e até Paloma escutou,

lá adiante onde estava:

 

“Quem você pensa que é

pra me tratar desse jeito,

sua guria  atrevida?

O que eu queria era ser

o dono da companhia!

Eu detesto o seu cabelo

e você nem é bonita!”

 

A moça ficou sentida.

Andou a esmo nas ruas,

sem querer voltar pro circo,

e foi dar com os costados

numa praça iluminada,

onde estava aglomerada

uma multidão em roda.

 

Paloma escalou um poste,

tentando enxergar melhor,

e o que ela viu primeiro

lá do alto, lá de longe,

foi a luz que, há muitos anos,

surpreendeu o seu show

e quase que a derrubou

lá de cima do trapézio,

 

a mais brilhante, a maior

que já vira em sua vida!

 

E só depois reparou

no palhaço ali no meio,

pobre, engraçado, feio,

ridiculamente humano,

 

como ela mesma também,

humilhada, iludida…

e, pensando em sua vida,

chorou até soluçar.

 

Uma lágrima brilhou

ao pingar do alto poste.

Pirilampo então a viu

e fez um facho tão forte

quanto explosão nuclear

pra iluminar sua musa.

 

Pegou de um guardanapo,

com ele fez uma rosa

em menos de um segundo,

e foi abrindo caminho

no meio de todo mundo

para poder lhe entregar.

 

Ao chegar ao pé da viga,

estendeu a sua flor

e o céu se iluminou

com milhões de arco-íris.

 

Mas Paloma se assustou,

saltou no escuro e sumiu,

deixando o Pirilampo

sozinho, a flor estendida,

no meio da multidão.

 

Num instante a flor murchou,

a luz se apagou, um breu!…

e, em meio à gargalhada,

a platéia pediu bis.

 

Pirilampo apareceu,

curvou-se, agradeceu,

sorriu, passou o chapéu

e o público se foi.

 

Depois, a sós na carroça,

sem a roupa do palhaço,

coração despedaçado,

um homem fosco chorou.

 

Ele decidiu partir

de madrugada bem cedo.

 

Ela resolveu voltar

pra falar com ele direito,

explicar que ontem fugira

porque estava envergonhada,

chorando daquele jeito,

com a cara toda inchada

e o nariz de palhaça.

 

Ela não o encontrou

em nenhum lugar da praça.

 

Numa venda ali por perto,

soube que ele partira

na direção da floresta,

onde a estrada era escura

e não havia cidade

num raio de sete léguas.

 

Porém Paloma era ousada,

disso ela bem se orgulhava,

não tinha medo de nada!

E resolveu ir atrás.

 

Precisava ganhar tempo,

então, pra não ir andando,

ela foi se pendurando

de uma árvore pra outra,

pelas margens do caminho.

 

Quando avistou Pirilampo

em sua carroça, sozinho,

notou que ele viajava

de peruca e maquiado,

como se o tal personagem

fosse o seu eu verdadeiro,

e imaginou, intrigada ,

que ele devia ser feio.

 

Mas mesmo assim deu um salto

e aterrissou bem no meio

da boléia da carroça.

 

Acontece que, com o susto,

não teve jeito nem freio,

o jegue  desembestou!…

 

Foi Paloma quem salvou,

num salto, a situação:

se pendurou e puxou

o moço junto com ela

lá pra cima da palmeira…

 

a tempo de ver o carro

se despencar do barranco,

desvencilhado  do burro,

que continuou carreira

e não foi mais avistado…

 

Quando se deu conta disso

e viu onde estava agora,

deu a maior tremedeira

no Palhaço Pirilampo.

 

É que ele tinha vertigem

só de pensar em altura,

mas Paloma, bem segura,

lhe deu toda a garantia.

 

E ele, como criança,

foi, com os olhos fechados

e dependurado nela

(que era uma mulher bem forte)

até chegarem voando

mas com toda a segurança

ao vilarejo mais próximo.

 

Combinaram no trajeto

que, chegando lá, fariam,

juntos, um espetáculo

para angariar os fundos

para poderem voltar,

 

ela, para o seu lar;

ele, pro seu caminho

(e nem carroça mais tinha,

nem seu burro, nem mais nada).

 

Não houve tempo de ensaio,

só fizeram, cada um,

o melhor do que sabia

e,  juntos, o que faltava.

 

Ele se achava um covarde

com esse medo de altura.

 

Ela disse : “É só porque

você nunca pôde ver

como é lindo lá do alto!…”

 

Ela se achava sem graça.

“Não sou alta, não sou linda.

Eu odeio o meu cabelo,

Mr. $ifra tem razão!…”

 

“Pois pra mim você é tudo

de belo que há nesse mundo!

Queria olhar todo dia

pros seus cabelos de anjo…”

 

Ele então voou e viu

como é bonito, de fato!

Ela então sorriu e viu

que tinha graça, um bocado!

 

Ele, lá no céu bem alto,

ela, toda iluminada,

e a vida era aquilo

e não faltava mais nada!

 

Ao final do espetáculo,

ela afinal o flagrou

sozinho, banho tomado,

sem peruca, sem careca

e, pela primeira vez,

viu-o enfim sem maquiagem:

 

não um palhaço, um rapaz

pronto pra seguir viagem.

Paloma levou um susto:

como era belo o seu rosto!

 

Se havia por que escondê-lo,

a modéstia é que o cobria…

A moça até já sabia

que era raro o seu talento,

mas não tinha reparado

que, debaixo do palhaço,

havia um homem tão lindo

de belezas de verdade.

 

Ela afinal deu-se conta

de que a máscara  que via,

embora feia, engraçada,

ocultava outra beleza,

que se revelava inteira

na atitude e no olhar.

 

Soube que a face mais bela

sempre se esconde por baixo,

e só conseguimos vê-la

quando deixamos cair

disfarces, falsos recheios,

pra ver então o que resta:

 

se sobra alguém, é uma festa,

você descobriu o amor!

“Muito prazer, meu amor.”

Este é o grande dom da sorte.

 

Foi assim que sucedeu:

Paloma se iluminou

e enxergou no Pirilampo

o amor de sua vida!

 

Príncipe no seu ofício,

honesto nos seus princípios,

humilde dentre os humildes,

honrado ante os arrogantes.

 

Era mesmo o mais bonito

dos belos que conhecia.

 

Disse pra si mesma: “É ele!”,

porque sentiu com certeza

que agora estava feliz.

 

E deu-se então a melódia:

O palhaço e a trapezista

juntaram os seus trapinhos

e fizeram um balão!

 

E assim inauguraram

o Alta-Rastaqüera Circus,

que até hoje faz história

girando ao redor do mundo.

 

“Olha só quem vem chegando,

é o balão do amor!

Ele chega iluminando,

olha o circo voador!”

 

Desde então Paloma Líbera

é o anjo mais brilhante

que já voou sobre a terra,

tão livre, tão radiante,

linda mesmo de se olhar!

 

Pirilampo é uma usina,

pura energia solar!

Viu que essa vida é um salto,

ilumina o tempo todo,

voa alto todo dia.

 

E afinal, em seus amores,

seus olhos tinham as cores

do muito que viam juntos.

 

Seus brilhos, todos os risos

que deram de rir ao mundo,

pois isso sim é poesia,

essa é a grande riqueza!

 

Até sobrava dinheiro

quando, ao fim de cada dia,

os anjos do picadeiro

passavam os seus chapéus.

 

O povo retribuía

aos saltimbancos dos céus,

e os seus bolsos furados

chacoalhavam como guizos,

plenos, abarrotados!

 

O número era completo

e o circo estava repleto

do amor que cabia neles.

 

O senhor Ivo Gran Alta

e a tal Madame Alfonso

tornaram-se muito amigos,

pois ambos sentiam falta

de seu filho e sua filha,

e juntaram-se à trupe,

cuidando da produção

e mimando seus netinhos:

 

Relâmpago Rastaqüera,

trovejante  palhacinho,

e a audaz Libélula Líbera,

mascote  dos trapezistas.

 

Elétricos como o pai,

intrépidos como a mãe,

alegria dos avós,

xodós de toda a família!

 

O Alta-Rastaqüera Circus

é um balão de passagem,

companhia dos artistas,

muita história na bagagem.

 

 

E, se você reparar

no horizonte, à tardinha

ou por volta da alvorada,

há de ver a Estrela Dalva

brilhando maravilhosa,

a mais preciosa pedra

dos tesouros deste céu.

 

Vou lhe contar um segredo:

esse astro  que cintila

são Paloma e Pirilampo

em seu vôo de alegria,

gargalhando lá no alto,

piscando pra arquibancada!

 

E o espetáculo acaba

assim como principia:

amanhã como era ontem,

sempre tudo diferente,

vida nova todo dia.

 

O circo chegou, o circo!

Lá vêm as mil maravilhas!

O carrossel da alegria

não pára a sua viagem…

 


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